quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Comentário - Texto "Matrimônio e Família"


Comentário sobre o texto “Matrimônio-família: tensão e sentido, conflito e futuro” do livro “Ética civil e Moral cristã em diálogo” de Bartolomeu Benássar.


A leitura do texto “Matrimônio-família: tensão e sentido, conflito e futuro” me foi extremamente agradável. Confesso que me surpreendi visto que pensava se tratar de um texto fechado em suas análises e extremamente dogmático em seus conceitos. Enganei-me. O autor Bartolomeu Benássar se mostrou muito sóbrio em tudo que disse o que neste comentário só poderei concordar com tudo que ele disse apesar de não ver o casamento como sacramento, mas até neste ponto considero o comentário do texto extremamente válido.

A abordagem do autor foi fundamentada na realidade onde há muitas famílias em crise e onde o matrimônio está em crise. E desafiou a igreja a repensar seu modelo de atendimento a essa realidade. Afinal o que nos preocupa mais: a instituição matrimonial, as leis e os documentos, ou o casal, a mulher, o homem e as pessoas?

Vivemos num tempo onde já não impera mais convencionalismos e procedimentos. Um bom número de jovens solteiros vivem juntos sem estarem casados, e muitos deles mantêm relações estáveis análogas a do matrimônio, e isto é uma forma de dizer que o matrimônio instituído não é necessário para o casal. A igreja não pode ignorar essa realidade.

Pastoralmente precisamos apreciar mais o casal e todo o seu significado de dignidade das pessoas, de liberdade, de estabilidade e de amor do que a institucionalização do matrimônio. Pois afinal o que constitui um casamento? Ora o casamento consiste na adesão da vontade de uma pessoa – sentimento e razão – a outra pessoa.

A “indissolubilidade” do casal não depende da assinatura de alguns documentos - mesmo que seja diante da igreja – mas da solução favorável pelos dois membros do casal e para eles, das tensões difíceis e conflitivas. E isso tudo na base do amor. Pois sem amor não há casamento logo não há como falar de indissolubilidade.

Interessante que uma vez falando algo semelhante entre pastores fui admoestado que o casamento não pode viver sob a ilusão do amor e que precisa da força da ordem para continuar a existir. A meu ver isso é profano. Deus é amor e, portanto não há como se está casado diante Dele se não for por amor.

O amor é a consciência de que o outro é igual e diferente, complementar e necessário. Amor que admira e vê o outro, e o conhece, ou seja, o faz nascer, o faz ser. Amor reconhecido e agradecido. Sem amor não há como curar as feridas, reconhecer os erros e agir com perdão. Portanto sem amor não há casamento.

Quando Deus diz “não é bom que o homem esteja só”(Gn 2.18), afirma que, por si mesmo o homem não realiza totalmente sua essência. Ele a realiza unicamente existindo “com alguém” e, mais profunda e completamente, existindo “para alguém”. Assim o homem e a mulher não se casam para satisfazer a concupiscência, nem para a procriação. Eles se casam porque é no amor dirigido ao outro que cada um se completa a ponto de serem feitos um.

Isso é forte e é divino tão quanto é humano. Mas não penso que isso se forme de maneira sacramental. Essa mentalidade que fez do casamento em nossa época o sábado que não pode ser quebrado, senão com risco de condenação é eterna, não carrega o espírito do Evangelho.

O Antigo testamento reflete uma visão “dessacralizadora” do matrimônio ao considerá-lo como uma realidade terrena, regida por costumes familiares e populares, independente de cultos oficiais e de ritos sagrados. No Novo Testamento Paulo fala de um símbolo que se tem no casamento do amor de Deus pela igreja e vice-versa. Assim pela via do símbolo o casamento é o amor entre duas vidas e não o contrato matrimonial diante de qualquer autoridade.

Dessa forma casa-se antes de qualquer celebração ou ato litúrgico. E da mesma maneira que se casa pode se ocorrer a ruptura antes de qualquer documento oficial de divórcio. Deste modo, consideramos o matrimônio como uma união estável e firme, mas não indissolúvel por natureza em virtude de uma lei. Por não pensar assim a igreja tem marginalizado os que na vida se equivocaram ou fracassaram.

Sei que muitos usarão textos bíblicos para tentar refutar o que aqui escrevo, mas o Evangelho nos mostra o ideal, mas nos mostra que no caminho as falhas na busca do ideal são vistas com misericórdia. O que falta é a igreja pastorear as ovelhas, conforme o pedido de Jesus a Pedro. Falta-lhe entender que o casamento está baseado no amor e que, contudo a ruptura real e irreversível da vida matrimonial reclama a possibilidade de um recurso ao divórcio, o que às vezes como fala Caio Fábio é um mal menor.

Diante da realidade do divórcio a igreja deveria ajudar na recuperação das pessoas, não para o bem do vínculo que já não existe, buscando caminhos e soluções, nunca fechando as porta à possibilidade de um novo casamento. As pessoas casadas e agora divorciadas e/ou casadas de novo, não deveriam ser excluídas da comunidade sob nenhum aspecto.

A Ele seja a Glória

Ivo Fernandes

sábado, 11 de agosto de 2007

A PARÁBOLA DA MENTE ESTREITA

Certo dia, ao atravessar uma ponte, vi um homem em pé na beirada a ponto de pular. Corri, então, em sua direção, e disse-lhe: “Pare! Não faça isso!”

“E por que eu não deveria?”, perguntou ele.

Eu disse: “Bem, há tanto pelo que se viver!”.

Ele disse: “Como o quê?”

Eu disse: “Bem, você é religioso ou ateu?”

Ele disse: “Religioso”.

Eu disse: “Eu também. Você é católico ou protestante?”

Ele disse: “Protestante”.

Eu disse: “Eu também! Você é episcopal ou batista?”

Ele disse: “Batista”.

Eu disse: “Puxa! Eu também! Você é da Igreja Batista de Deus ou da Igreja Batista do Senhor?”

Ele disse: “Igreja Batista de Deus”.

Eu disse: “Eu também! Você é da Igreja Batista de Deus Original ou da Igreja Batista de Deus Reformada?”

Ele disse: “Igreja Batista de Deus Reformada”.

Eu disse: “Eu também! Você é da Igreja Batista de Deus Reformada em 1879 ou da Igreja Batista de Deus Reformada em 1915?”

Ele disse: “Igreja Batista de Deus Reformada em 1915!”

Eu disse: “Então morra, seu herege!”, e, com imenso desgosto, o empurrei.

Texto extraído de “Histórias que Abrem a Janela Mais Ampla de Deus”, DeVern Fromke, Edições Tesouro Aberto

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Conversa sobre o grão de trigo


Olá, Ivo!

Sabe aquele versículo de Jo 12.24, em que se diz que o grão de trigo tem cair na terra e morrer pra que dê fruto? Bem, eu sempre entendi que esse morrer fosse o que se escuta na igreja como morrer pro mundo, ou seja, abandonar determinadas práticas e tal. Mas o que tal versículo abrange, então?


S.A


Resposta


Querida,


Penso que o grão de trigo de João 12.24 refere-se a Jesus que ensinava aos gregos (ver contexto) que o principio da vida estava na morte e que, portanto para o homem existir o próprio Deus se esvaziou (Fp 2.7). Portanto Ele como grão deu sua vida para gerar vida. Pensar esse texto dentro das obrigações ‘morais’ impostas aos crentes é empobrecer o texto e tirar seu significado. Nossa morte não está em nenhuma ação nossa, mas na fé no Filho de Deus que morreu para dá vida. Assim é que Nele podemos dar frutos. Se não for assim toda nossa tentativa de morrer só nos deixará cada vez mais ‘vivos’ porém cheios de angustia e medo.


Abraços

Palavra de Grande Inquisidor



“De tudo o que Dostoievski escreveu em Os Irmãos Karamazov o que mais me impressionou foi o incidente do “Grande Inquisidor”. É assim: Jesus havia voltado à terra e andava incógnito entre as pessoas Todos o reconheciam e sentiam o seu poder, mas ninguém se atrevia a pronunciar o seu nome. Não era necessário. De longe o Grande Inquisidor o observa no meio da multidão e ordena que ele seja preso e trazido à sua presença.. Então, diante do prisioneiro silencioso, ele profere a sua acusação.
“Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível. Em lugar de pacificar a consciência humana, de uma vez por todas, mediante sólidos princípios, Tu lhe ofereceste o que há de mais estranho, de mais enigmático, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as forças humanas: a liberdade. Agiste, pois, como se não amasses os homens... Em vez de Te apoderares da liberdade humana, Tu a multiplicaste, e assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a eternidade...”
O Grande Inquisidor estava certo.Ele conhecia o coração dos homens. Os homens dizem amar a liberdade, mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os homens são pássaros que amam o vôo, mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o vôo e se trancam em gaiolas.”

“Somos assim:sonhamos o vôo mas tememos a altura . Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos vôos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam...”

“Deus dá a nostalgia pelo vôo.
As religiões constroem gaiolas”

“Os hereges são aqueles que odeiam as gaiolas e abrem as suas portas para que o Pássaro Encantado voe livre. Esse pecado, abrir as portas das gaiolas para que o Pássaro voe livre, não tem perdão. O seu destino é a fogueira. Palavra do Grande Inquisidor”

Rubem Alves
Correio Popular
22/05/05

Chão do céu



Os caminhos da vida são mistérios
Quem entre nós pode acrescentar um fio de cabelo a nossa cabeça?
E mesmo assim por aqui habita a arrogância

Era para ser um dia normal
Mas de repente a agulha do tricô caiu e já não havia mais quem tricotasse
Essa é uma dor estranha
Não temos o destino nas mãos e não somos nós que tricotamos a nossa história

Hoje pensando naqueles que ao chegar ao chão foram aos céus
Perguntei-me o que estava fazendo da minha vida
De repente de nós pode ser tirado mulheres, filhos e netos
Ou ainda sermos nós que não mais estaremos na vida deles
Quem sabe tudo se vá junto
Qual será a maior dor?

Pensei hoje nos meus filhos
E como eu poderia brincar mais com eles
E como eu poderia dizer o quanto os amo
Pensei em minha mulher
E lamentei pelo tempo perdido
E agradeci pelo tempo que ainda tenho

Quem somos?
O que somos?
O que é a vida?
Qual é a história?

Faz muito tempo que deixei de falar como alguém que sabe
Sim, confesso hoje que não sei
Principalmente não sei o que dizer
Olho pela minha janela e vejo a vida acontecendo
Pergunto-me se sabemos o que estamos fazendo
Questiono-me se entendemos que a vida é frágil
Há tanta correria
Há tantos planos sendo traçados
Tantos projetos
Sinto falta de mais tempo na varanda
Sinto falta de simplesmente estar sentindo a vida

Hoje sentimos a dor da morte porque as chamas nos chamaram a atenção
Mas penso na morte da vida dos que ainda sobre este chão caminham
Não percebemos que somos nós que estamos construindo a história

Para muitos a vida acabou
Para muitos a vida só está começando
Mas talvez para a maioria já se perdeu o significado da vida
Lembro das lágrimas daqueles que em desespero ouviram o nome dos seus como sentença do fim
E vi como também esquecemos do Dia que de novo os nomes serão citados
Não por um mensageiro da morte, mas pelo Autor da vida
Nome novo para uma nova vida

Talvez essa seja a única esperança num mundo de caos
Muitos naquele dia deixaram o solo da confusão
Muitos ficaram com a dor e desespero
Outros fizeram perguntas que não terão respostas
Para a maioria de nós que apenas lemos a respeito logo será esquecido
Para a infelicidade geral breve outras chamas nos chamarão a atenção
Agora apenas sei que me foi dado o dia de Hoje o momento do Agora
O que eu vou fazer com ele é minha grande missão.

Ivo Fernandes (20 de julho de 2007)

Casamento

Uma das queixas mais comuns que atendo na clínica terapêutica diz respeito aos casamentos. De tanta reclamação até parece ser verdade ...