quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Natal – A Encarnação de Deus



Sempre me encantei com a festa Natalina, mesmo quando meus pastores de infância vaticinavam sobre os males que viriam sobre quem observasse "aquela festa pagã". Apegavam-se a coisas que achava completamente insignificantes diante do significado da encarnação. Falavam que Cristo não havia nascido naquele dia, que aquela era data de uma antiga festa pagã, e demais coisas semelhantes. Eu nunca me importei com isso. Sempre estive atento ao significado da encarnação.

Os relatos do nascimento de Cristo são os mais recentes textos elaborados dos Evangelhos, produtos já da fé mais amadurecida dos cristãos primitivos. Uma história que revela que Aquele menino sobre a manjedoura revelava o Deus do universo.

Algo de inimaginável. A encarnação não é a mera história de deuses que possuem filhos, mas da mais absurda afirmação que Deus mesmo penetrou nesse mundo da maneira mais humilde que alguém poderia imaginar.

Em Jesus, Deus revelou Sua humanidade, e o homem sua grandeza. Na encarnação não habita apenas o mistério de Deus, mas também do homem. Por meio Dele podemos saber de Deus e também do homem. Ele revelou o Deus pleno e o homem pleno, é por isso que com precisão o chamamos de Filho de Deus e Filho do Homem, de Deus mesmo e de Novo Adão. Mas a encarnação não nos fala apenas a nós homens, mas a todo o universo criado, pelo qual podemos dizer que Cristo é tudo em todas as coisas.

Por causa da encarnação podemos caminhar em fé, pois o destino deste Homem é o destino de todos os homens. Ele nos revela toda a história. Nele se manifestou a meta para qual caminha o homem e toda a criação. É por isso que dizemos que Nele todas as coisas convergem; com Ele está a nova criação; Ele é o alfa e ômega. Ele é a meta antecipada. Por meio Dele entendemos a história, vemos o plano de Deus, e ficamos sabendo que antes da criação houve a Cruz e vemos que tudo concorre para o bem, e que neste ambiente de Graça até a Queda foi para cima.

Hoje sabemos que o Cristo encarnado é o Espírito que em nós habita e está conduzindo toda criação para Si mesmo. Por ser Deus e Homem é que se constitui mediador de todas as coisas. E aprouve a Ele hoje se fazer manifesto no outro.

Que nossa fé no Encarnado nos leve ao encontro Dele mesmo onde decidiu habitar. E que esses encontros façam realmente o natal ter sentido e exprimir neste mundo a realidade do Reino.

Ivo Fernandes
11 de dezembro de 2008

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Religião



“Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.”
Tiago 1.26,27


Penso que a discussão em torno da religião não se torna mais rica porque a maioria de nós fechou o conceito na esfera do que entendemos serem as práticas ritualísticas dos povos, o que em geral se tornam práticas que se vinculam a moral de alguns e a atitudes "fundamentalistas".

Muitos de nós ao eleger a "não-religião" como nosso caminho apenas fazemos dessa "não-religião" a nossa nova religião, o que em geral é fazer de determinado aspecto ideológico o maior, ou melhor. O que na história aconteceu com o cristianismo foi exatamente isso. Na tentativa de não ser comparada com as demais religiões da terra, acabou se colocando como a melhor das religiões, ou aquela que estava acima das outras. Essa é uma atitude do tempo da patrística para frente, visto que não encontro isso nos escritos dos apóstolos. Não vejo uma religião sendo exaltada acima das outras, mas vejo o Reino sendo colocado acima de todas as religiões, inclusive aquela a que os autores do NT pertenciam, e assim podemos dizer que também acima do próprio cristianismo.

O apóstolo Paulo em suas cartas deixa muito claro a superioridade não da religião cristã que já existia na sua época, mas do Reino de Deus, e por meio disso tornou-se um dos primeiros a golpear os fundamentos religiosos dessa religião

O cristianismo faria bem a si, se contra si mesmo testemunhasse do Reino. Isso porque não podemos de fato nos livrar plenamente da religião, mesmo que usemos outras palavras para designar nosso caminho, ainda é religião. O nosso caminho sempre será um caminho religioso. O contrário desse caminho chamamos de Revelação, que é o próprio caminho de Deus. A Revelação nos fará superar e ir superando a religião, mas enquanto estivermos no caminho da existência, ela sempre nos acompanhará. Talvez aqui possamos usar o termo fraqueza da qual não podemos nos livrar, mas a Graça se aperfeiçoa na fraqueza porque ela nos basta.

Desta forma o termo religião em Tiago, mesmo sendo um termo também usado para atividades e cerimônias religiosas, refere-se à aplicação da Revelação na existência, visto que a Revelação é Amor, a aplicação é serviço que não se traduz em mero rito, obrigação, ou dever moral, mas em ação voluntária de quem está inundado pela Revelação.

Ivo Fernandes
21 de novembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Minha heterodoxia

Não posso negar minha inclinação para a heterodoxia, como chamam aquilo que não é a doutrina oficial da igreja, a qual chamam de ortodoxia. Sempre que leio os heterodoxos me encanto com seus escritos. Eles sempre mexem comigo, me desafiam, me desnudam. Encontro-me neles a ponto de achar que era daquela forma que já pensava. É por causa deles que ainda amo o estudo teológico, pois me fizeram ver que a teologia não precisa ser tão pretensiosa como fazem parecer os teólogos ortodoxos.

Tornei-me um ser humano melhor depois que li os heterodoxos. Hoje até me sinto honrado quando me chamam de herege por causa dessa minha inclinação. Ser associado a essas pessoas é hoje orgulho.

Descobri que a maioria das pessoas que amaldiçoam os heterodoxos assim fazem porque não conseguem resistir aos argumentos deles. Sufocar a voz dos heterodoxos é sempre a ação de quem não quer perder o poder. Não tem nada haver com a verdade, tem haver com a manutenção da glória pessoal.

Hoje quando estudo a história vejo que Jesus pareceu muito mais com hereges perseguidos do que com os ortodoxos perseguidores. E toda perseguição é a forte declaração do desespero de quem precisa manter as pessoas sob o domínio do medo.

Pena que a maioria dos cristãos teme ouvir os hereges, pois se ouvissem, penso eu que um batismo de fé seria visto em nossos dias. Pena que ao ouvi-los já não fazem síntese do que é dito, pois não ouvem, apenas esperam o encerrar das palavras para lhes apedrejarem.

Foi com os hereges que aprendi a não me acomodar; a buscar sempre mais; a ter mais sede. Foi com eles que descobri o quanto ainda preciso caminhar. Mas não pensem que tenho alguma coisa contra a ortodoxia, não! Tenho contra alguns ortodoxos, que melhor seriam chamados de fundamentalistas e que seria melhor se fossem chamados de os que não vêem além. São estes que confundem fé com conjunto de doutrinas, que fazem associações de verdades existênciais com questões moralistas. São os que jamais se abrem para o novo, pois o novo sempre traz em seu bojo que precisamos nos esvaziar para receber. São os que dão respostas a perguntas que não se fazem mais e insistem em fingir que não possuem as respostas para as reais perguntas.

Foi com os heterodoxos que aprendi que a mensagem continua viva e importante e necessária para os dias de hoje. Foi com eles que passei a valorizar a pergunta para poder buscar a resposta. E com o maior dos heterodoxos tenho caminhado – Jesus.

Jesus andou na contramão de seu tempo. Não elegeu nem a própria religião do seu povo como a ortodoxia. Ao contrário se mostra sempre contra todo tipo de dominação que impede o livre caminhar dos homens. Sua mensagem foi radicalmente diferente das do seu tempo. Fraqueza em vem de força, amor em vez de poder, humilhação em vez de coerção, inclusão em vez de exclusão. Escondia-se quando queriam fazer dele Rei. Revelava-se quando não havia riscos de fazer dele outra coisa que não fosse o que Ele era. Não respondia a perguntas que não buscavam respostas. Sua cruz é escândalo e sua ressurreição é a heresia que anula a ortodoxia da morte.

Minha heterodoxia é saber-se em constante reforma!

Ivo Fernandes
12 de novembro de 2008

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sobre minha meta


Alguns amigos meus perguntaram-me sobre o significado de frases contidas numa poesia minha chamada "Meta", postada em meu blog poético (http://lvmeusdias.blogspot.com/). Por isso decidi escrever este texto.

Durante um bom tempo vivi a vida que meus pais idealizaram para mim. Depois me tornei o que a igreja queria que eu fosse. Hoje procuro ser eu mesmo, e isso não é tão fácil quanto se pode imaginar.

Descobri que o verdadeiro caminho que tenho que fazer é um caminho em direção a mim mesmo, visto que qualquer outro caminho não será real. Desta forma, preciso encontrar-me comigo mesmo.

Percebi que viver a vida a partir de imagens alheias destrói a alma. Com essa percepção tudo em mim mudou, até meus conceitos religiosos. Hoje não busco um lugar para onde ir, busco algo a ser. Meu caminho está posto aqui e agora e não posso mais me comportar como quem espera ser um dia o que nunca foi. Preciso ir sendo aquilo que acredito que sou-serei.

Esse não é um caminho fácil. É só nos braços da Graça que posso ir sendo, do contrário seria impossível tal caminho. Sem a graça conhecer-se seria o próprio inferno.

Mas no caminho da Graça estou seguindo em paz o caminho em busca de mim mesmo, tendo minha consciência em Cristo como o limite deste meu caminhar.

Segue a poesia

Meta

Tudo que tenho são meus sonhos

Eles são feitos de tudo que desejo


Nunca fui espectador de minha própria história

Faço da minha vida a melhor história que posso

Assim me construo e desconstruo sempre


Sonho sonhos impossíveis

Luto quando todos já desistiram

Não temo o invencível


Sigo um caminho diferente

Não me vendo

Sofro plenamente

Desejo com força


Meu vôo é sempre em alturas improváveis

E quando mais alto estou menor fico a vista daqueles que nunca saíram do chão


Sou minha própria lei

Sou minha própria questão

Sou o meu próprio sonho


Minha meta sou eu

Ivo Fernandes
23 de outubro de 2008

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Descobrindo Jesus



Desde o momento que passei a caminhar pela fé vi a necessidade de desconstruir muita coisa, visto que meu castelo de idéias tinha seus fundamentos na religião cristã e não necessariamente em Jesus e em sua mensagem. Desde então passei a buscar conhecer Jesus, e essa minha viagem particular já fez mais bem a minha alma do que a soma de todos os anos anteriores a ela.


Queria de verdade conhecer Jesus e sua mensagem e não uma imagem Dele feita a partir da mentalidade da igreja ocidental. Sei que Jesus e sua mensagem são maiores do que minha capacidade de entendê-los por inteiro, mas eu posso caber inteiramente dentro de sua mensagem.


Muitas pessoas me criticam e me acusam de estar trazendo outra mensagem, visto que dizem já saber tudo sobre Jesus e não há nada para se acrescentar. Mas a verdade é que o Jesus ensinado em muitos lugares, reduzido a conceitos ou fórmulas não tem nada a ver com o Homem de Nazaré.


Se não estivéssemos cegos pela "doutrina" veríamos que o Jesus domesticado da "igreja" não tem nada a ver com o Jesus relatado nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Sentiríamos a diferença da mensagem dos pregadores televisivos da mensagem poderosa de Jesus de Nazaré.


Depois do início da minha viagem não posso mais aceitar esse modelo a mim ofertado de Jesus “evangelicalizado” “cristianizado”. Estou cada vez mais disposto a seguir o projeto fascinante de ser discípulo de Jesus de Nazaré, e convicto de que sua mensagem for redescoberta e crida a possibilidade do reino deixa de ser possibilidade e passa a ser realidade.

Ivo Fernandes
06 de outubro de 2008

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Religião do delírio


Muitas pessoas ficam escandalizadas com o que ouvem falar de mim, e principalmente com o que ouvem de mim mesmo. A maioria delas são amigos de igrejas pentecostais das quais já fiz parte.

Não tenho nenhum problema com o culto pentecostal. Continuo lembrando com saudades dos tempos da minha infância, da igrejinha do Caça e Pesca, bancos feitos de tronco de árvores e tijolos colocados na areia branca. Lembro-me dos cânticos que nos emocionavam não pela melodia, mas pela letra que em nós inspirava fé. Lembro das orações regadas com lágrimas. Lembro-me da alegria em viver em comunidade. Mas tudo isso foi na minha infância, antes de crescer e começar a ver para onde foi o povo que parecia apenas amar a Deus de todo coração.

Ao abrir meus olhos o que vi não carregava a simplicidade da fé dos meus tempos de infância. O que via e ouvia não fazia sentido a não ser para aqueles que mantinham o povo na ignorância. Eram gritos vazios. Eram ordens a um deus que eu desconhecia dadas por homens que se mostravam senhores de deus. Os cultos agora eram ambientes de guerra, mas o que via era apenas derrota. Um povo cego seguindo um líder inescrupuloso. Minha alma enquanto permanecia nesses ambientes só adoecia.

Hoje vejo que esses ambientes que de tão distante do que era receberam um novo nome – neopentecostais – se tornaram ambientes de toda alucinação possível, onde todos acreditam na mentira pregada e negam a realidade. É um lugar de absoluta incredulidade disfarçado de ambiente de fé.

Todas as pessoas que conheço que vivem nestes ambientes se infantilizaram a ponto de acreditarem que podem domesticar a vida.

Lamento por essas pessoas quando a vida arruinar seu castelo de ilusões. As que não saírem extremamente feridas se tornarão cada vez mais cínicas.

Há poucos dias depois de pregar o Evangelho na Capela de um seminário, um professor me abordou e disse que se essa mensagem fosse pregada nas igrejas elas estariam mais vazias, mas com mais crentes. E é isso mesmo, as igrejas da loucura estão cheias porque ninguém quer encarar a vida, assumir responsabilidades, viver da fé, preferem a fé lotérica, a esperança dos tolos, a covardia dos incrédulos.

Oro para que ainda haja tempo para o resgate da mente de muitos. Oro para que a igreja tenha um batismo de lucidez para que enxerguem que este mundo pintado por eles não existe, exceto para os pastores-lobos que enriquecem a custa da ingenuidade e loucura de suas “ovelhas”.

Ivo Fernandes
23 de setembro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Hoje




Hoje, olhando de minha janela o verde que me cerca, tomei uma decisão. Sim! Verdadeiras decisões só podem ser tomadas no dia chamado Hoje. Quem não decide Hoje jamais decide.

Decidi enxergar, de uma vez por todas, a minha vida como uma dádiva, como único dom do qual prestarei conta.
Decidi Louvar o Criador mesmo quando não entender a criação.
Decidi Louvá-lo pela dor que me ensina e me faz sentir vivo.
Decidi jogar fora todo medo, o que só é possível por causa do Amor que meu coração invade.
Decidi escrever mais poemas, eles revelam mais de mim do que eu suponho.
Decidi ouvir e cantar músicas que me falem da vida.
Decidi caminhar por mais tempo na praia junto ao grande santuário que é o grande mar.
Decidi continuar abrindo as portas da minha casa, quem sabe eu ainda hospedarei um anjo.
Decidi repetir como uma oração a verdade de que o sol nasce para todos, só não vê quem não quer. E por falar em sol, decidi ver mais seu nascer e seu poente.
Decidi banhar-me nas águas dos oceanos.
Decidi me preocupar menos, afinal se Deus cuida dos passarinhos porque não cuidaria de mim?!
Decidi fazer mais amigos, nunca são o bastante.
Decidi brincar mais com minhas filhas, nada é mais valioso.
Decidi tusso isso. E que cada dia carregue a sentença do dia chamado Hoje.

Ivo Fernandes
10 de setembro de 2008

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Uma reflexão – confissão – oração


É impressionante nossa capacidade de julgar. Somos cheios de juízo até mesmo quando afirmamos que nossa denúncia não se dirige a pessoas e sim a fatos ou palavras ditas por elas. A verdade é que constantemente só mudamos de grupo, de time, de gueto, de bando, de religião, mas continuamos os mesmos, cheios de juízo contra o próximo. Muitos ao trocarem de grupos passam a “lançar no inferno” todos os que antes chamavam de irmãos.

Eu confesso meu pecado. Falta-me muito para ter minha língua controlada. Quantas vezes quando abrimos a boca para falar sobre quem quer que seja pensamos nos efeitos dessas palavras na vida dos indivíduos envolvidos e suas famílias?

Não quero viver uma reforma ou revolução que precise destruir o outro, seja o outro quem quer que seja. Desejo pregar o Evangelho respeitando sempre a alma do próximo. E creio que isso sim, é possível. Quero continuar com a liberdade de dizer tudo o que penso e sinto, mas sem precisar ferir quem quer que seja.

Não quero que minhas tristezas resultantes do que fizeram e fazem contra mim me tornem um ser humano amargurado que sai usando a língua como instrumento de vingança.

Desejo aprender a ouvir mais e falar menos. Quero aprender a guardar segredos. Que jamais use contra alguém o que este alguém me confidenciou, nada é mais cruel que isso. Que Deus me ajude a controlar a ira, a raiva, ou sentimentos autojustificados de vingança que impulsionam a língua ferina.

Desejo ser filho de Deus, um pacificador e não um semeador de contendas. Que não me torne tolo imaginando que é preciso denunciar o outro para poder pregar a verdade, que eu saiba que a verdade em si já é uma denúncia contra toda mentira.

Que eu aprenda o que Caio ensinou: “Grande, todavia, é a alegria daquele que segura a sua língua mesmo quando poderia vencer uma peleja mediante a confissão de um segredo do outro.”

Dá-me Senhor amor, pois ele cobre multidões de pecados. Lembra-me sempre que uma palavra dita é sem volta e pode matar vidas mesmo que a intenção não tenha sido essa.

Dá-me Senhor paciência e fé, e lembra-me que é por minhas palavras que serei julgado. E que com a medida que medi hei de ser medido. Que meus olhos estejam voltados para mim.

Ivo Fernandes
12 de agosto de 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A paz de Hoje


Estou em paz, é até estranho dizer isso - A paz não seria comum a quem diz ter fé? Sim, tenho paz, mas jamais deixei de em tudo ser atribulado. Vivi momentos muitos bons nesses últimos dias, mas não deixei de saber que sou um homem não tão estável.

Antes quando orava voltava ao começo de tudo, quase como que dizendo que nada em mim estava resolvido. Voltava a minha infância, aos dias que meus pais haviam me deixado para trás, aos dias de brincadeiras solitárias. Voltava a minha adolescência e a minhas primeiras experiências de pecado conscientes e doloridas. Lembrava do meu quarto, das lágrimas e da solidão. Enxergava todos os meus erros de novo, e por todos sofria. Agora não é assim, estou em paz com meu passado.
Consegui ver além do que antes enxergava. Agora vejo Graça na minha infância, nos braços das mulheres que me acolheram e com amor me criaram. Vejo criatividade sendo produzida em cada brincadeira em que estava sozinho. Vejo a viagem da consciência na jornada da minha vida. Sim, aprendi e estou aprendendo com meus erros.
Creio estar em paz porque deixei de ter muitas expectativas. Sei que só tenho o dia chamado Hoje. Não sofro mais as angústias de ter que fazer algo ou apresentar resultados. O que eu sou sei que sou Nele e isso basta, sabendo que é Ele que forma em mim sua própria imagem.
Já não tenho mais os desejos megalomaníacos dos líderes religiosos que me cercam. Não quero mais a glória deste mundo, nem os aplausos humanos. Não busco mais ser um grande líder. Quero apenas ser e continuar no caminho do Evangelho.
Esses dias foram bons. Estive com minha mulher e com meus filhos e sobrinhos. Isto é a vida – saber aproveitar o Hoje junto a quem de verdade importa. Quero ser a cada dia um marido, pai, tio e amigo melhor e sei que para isso basta eu amar de verdade.

O Caminho que sigo, sei, é cheio de vales, mas creio que Ele está comigo. Não temerei mais a morte, pois até ela foi vencida e já não significa fim. Posso dizer que hoje pela primeira vez não temo mais minha condição de pecador, pois sei que Ele justificou o ímpio. Posso dormir seguro, porque sei que Ele me sustenta.
Quero continuar neste Caminho onde cada dia é necessário nascer de novo, para a que a realidade do reino seja sentida aqui e agora. Já não tenho mais barganhas a fazer com ninguém. Esse é o dia que o Senhor me deu e quero vivê-lo.
Ivo Fernandes
09 de julho de 2007

quinta-feira, 17 de julho de 2008

17 de julho


Hoje faz um ano que 199 pessoas perderam suas vidas no maior acidente aéreo de nosso país. Acordei vendo imagens na televisão de pessoas em que a saudade que dói insiste nelas permanecer, e talvez jamais as deixe. Como se esquece um amor? Como não lembrar os planos que foram feitos? Onde está o barulho feito pelos netos? E o sabor da comida da vovó? E as promessas?

Não sei o que é perder um filho, nem uma mãe e nem um amor. Sou afortunado porque neste momento minhas duas filhas estão aqui dormindo do meu lado. Mas hoje, sem saber muito porque, senti como se fosse alguém que estava naquele aeroporto no dia 17 de julho de 2007 esperando por alguém que não viria.

Como esquecer as chamas sabendo que o amor da sua vida foi destruído por elas? Pergunta uma mãe que teve sua filha de 23 anos morta no acidente. Eu não sei.

Ao lembrar-se desta história eu olho ao meu redor e vejo o quanto sou tolo. Porque adiamos a vida? Porque não damos os abraços e beijos? Porque nos esquecemos do “bom dia”, do ‘eu te amo’, do “como vai você?” Porque nos despedimos sem antes olharmos nos olhos do outro e falarmos do quanto ele é importante para nós? Porque preferimos nos calar em vez declarar o nosso amor? Porque preferimos ferir em vez de curar? Porque gastamos tanto tempo ocupados e não gastamos tempo com quem amamos? Porque damos todas as nossas energias para projetos que perderão todo sentido se quem amamos não estiver entre nós? Porque esquecemos do toque?

Meu Deus! A vida é tão frágil e nós estamos esquecendo-se de sermos pais, amigos, maridos, esposas, filhos, netos, avós, tios, sobrinhos, amores.

Hoje é um dia triste para muitos, mas o que eu posso fazer para homenagear os que perderam suas vidas? Eu sei o que devo fazer. Abraçarei minhas filhas, caminharei pela praia com elas, sorrirei mais, brincarei mais. As ouvirei mais. Assistiremos filmes juntos. Saborearemos uma boa comida. Ligarei para os distantes e direi que estão perto, em mim. Agradecerei aos que me formaram e até hoje me ajudam a viver. Beijarei mais. Abraçarei mais. Direi mais “eu te amo”. Falarei para os meus amigos o quanto é bom estar com eles. Pedirei perdão a quem fiz mal. Reconciliar-me-ei. Viverei a vida enquanto estiver no caminho.

“Pensei e cheguei à conclusão que só Deus possui conhecimento. O homem não sabe o que lhe sucederá. A verdade é que tanto o homem justo como o injusto podem ser acometido de males. E ninguém sabe como será o fim de seus dias e nem quando será. Assim é sábio aquele que valoriza a vida enquanto ainda a tem, porque é melhor o cão vivo do que o leão morto. Desta forma o que dizer ao que estão vivos? Comam com alegria e beba com contentamento. Deus se agrada de quem vive a vida. Veste tua melhor roupa agora, usa teu melhor perfume hoje. Ama a mulher, os filhos, os amigos, a família. Com eles experimenta o bom da vida. A nossa maior herança nesta terra é gozar da alegria destas companhias. Faça estas coisas agora porque depois da morte já não as terá mais chance.” (em parceria com o sábio de Eclesiastes)

Ivo Fernandes
17 de julho de 2008

terça-feira, 20 de maio de 2008

Amazing Grace



A primeira vez que ouviu a música foi na versão do conjunto Voz da Verdade em 1998. Hoje aquela que já era uma das minhas músicas prediletas ganhou mais significado ainda. Assistindo o filme que leva o mesmo nome da música descobri que o hino Amazing Grace está na sua origem ligado à luta pela abolição da escravatura. John Newton (1725-1807), autor da letra, gastara parte da sua vida no comércio de escravos, até o dia em que experimentou uma conversão ao Deus da Graça.

Newton viria a ser um entusiasta discípulo de George Whitefield e conheceria John Wesley. Tornou-se pastor. Tornou-se amigo do poeta William Cowper. Juntos trabalharam nos cultos semanais, em reuniões de oração e na produção de um novo hino para cada culto da comunidade. Escreveu Amazing Grace, em Dezembro de 1772, apresentando-o à sua congregação no culto do dia 1 de Janeiro de 1773.
O Filme narra à história de William Willberforce (1759-1833) que ouviu Newton pregando. William Willberforce era membro da Câmara dos Comuns desde os vinte e um anos, recém convertido, procuraria o seu conselho pastoral junto de Newton. Em 1786 Willberforce entenderia que a sua missão de vida passaria a ser a luta pela supressão da escravatura e a reforma social. O ex-traficante de escravos Newton, agora pastor e determinado a combater a escravatura, tornar-se-ia uma grande inspiração para a gigantesca luta de Wilberforce.
O comércio de escravos foi oficialmente abolido em 1807 embora a completa abolição tivesse ocorrido apenas em 1833, ano da morte de Wilberforce. O seu sonho realizar-se-ia.
Outras ações de Wilberforce foram a criação da Sociedade Bíblica, além de diversas reformas sociais. Foi um grande crítico do cristianismo frio e acomodado de sua época.
No filme há uma cena de William Wilberforce cantando o hino. Este hino - Amazing Grace é, pois um hino que tem cruzado os séculos e cuja história se encontrou com a da luta pela abolição da escravatura. Também foi cantado pelos manifestantes civis quando Martin Luther King partilhou de seu sonho. Foi réquiem para os cherokees na trilha das lágrimas. Foi cantado quando Nelson Mandela saiu da prisão; quando o muro de Berlim caiu; e no dia triste de 11 de setembro.
Emocionei-me quando descobri tais coisas do hino que por vezes no meu quarto cantei em meio a lágrimas. Emocionei-me em conhecer mais irmãos como Newton e Wilberforce. Eles me fizeram continuar acreditando nesta fé que se manifesta na vida.
Minha oração é apenas um amém para o que Newton disse:
Eu sou...
Eu não sou o que eu poderia ser,
Eu não sou o que eu deveria ser,
Eu não sou o que eu gostaria de ser,
Eu não sou o que eu pretendo ser,
Mas agradeço à Deus
Que não sou o que uma vez já fui.
E posso dizer
Com a graça de Deus,
Eu sou o que eu sou!"
Em 1782, Newton disse: "Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: que eu sou um grande pecador, e que Cristo é meu grande salvador!"
Ivo Fernandes

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Família – Problema e Solução




Família! Sem dúvida não existem famílias sem problemas. Existem competições, invejas, medos, enganos. Mas o mistério da família é: os problemas da família só podem ser resolvidos em família, pois apesar dos problemas a família continua sendo um “lugar” de vida, esperança e alegria.

Nos últimos dias fomos bombardeados de notícias de desastres em família. Familiares que matam, que desrespeitam a individualidade do outro, que negociam relações por meio do dinheiro, ou de interesses extremamente egoístas. Famílias que resolvem seus problemas expulsando membros; irmãos que não se entendem; outros disputando o mesmo objeto de amor. Sim, existe maldade na família. Existe inveja. Pais não sabem como lidar com os filhos, filhos não sabem respeitar os pais.

É na família onde por vezes somos mais mal interpretados. Talvez sejam por isso as velhas piadas entre sogras e genros. Cada família tem suas histórias doídas, cheias de perdas, tristeza e luto. Mas mesmo diante de todo este quadro é na família e com a família que ainda podemos evoluir como seres humanos nesta terra. Como filho adotado, sei o valor que tem uma família com todas as suas imperfeições. O que nos falta é trazermos para dentro da nossa família aquilo que nos esforçamos para apresentar fora dela. Precisamos começar em casa a viver o Evangelho.

É principalmente na família onde temos que aplicar a máxima: “O que quereis que os homens vos façam, fazei isto mesmo vós também a eles!.” É no seio da família onde mais temos que aplicar o perdão. Precisamos parar e antes de exercer julgamentos tentar colocar-se no lugar do outro e desta forma fazer o que é melhor para todos na família.

Não sei qual o segredo de uma família sem problemas, até acho que não existem tais famílias, mas creio que mesmo com problemas podemos ser e ter uma família feliz, bastando para isso cultivarmos uma palavra tão falada e pouco vivida – Amor - que se revela na nossa capacidade de aceitar o outro com todas as suas diferenças e problemas!

Ivo Fernandes
Em 4 de abril de 2008

quinta-feira, 27 de março de 2008

Deus em Cristo



Hoje, lendo um livro de teologia sistemática percebi o quão distante da velha “ortodoxia” e “sã doutrina” da minha infância estou. Na minha caminhada meu contato com os dois mundos, o da religião cristã-protestante-evangélica-pentecostal e o da religião-nenhuma, me permitiram não engessar minha alma, petrificar meu espírito, amarrar meus pensamentos, destruir a minha vida.

Como vivia toda a semana entre os sem religião e só alguns fins de semana com os da religião evangélica, acabei não me envolvendo realmente com ela, mas só com o que me encantava nela, que no meu caso era a figura de Deus em Cristo ou do Pai de amor por Cristo revelado.

Assim quando na juventude fui separado ao ministério e estudei teologia, aprendi de tudo, mas por nada me encantei, pois meu encanto permanecia o mesmo da infância. Dessa forma, nunca consegui me posicionar teologicamente, não era fundamentalista, não era calvinista, não era arminiano, não era pentecostal, não era dispensacionalista, não era evangélico. Continuava sendo o menino encantando com o Deus em Cristo.

Nunca tive medo de Deus. Nunca o vi como o Grande Olho que estava a minha espreita, vigiando para ver se eu pecava. Nunca vivi crises do tipo - porque Ele não fez isso? – Nunca me gastei na velha disputa entre soberania divina e livre-arbítrio humano. Nunca achei que Deus era um estraga-prazeres dos desejos juvenis. E nunca pensei que a “igreja” fosse o único lugar da terra onde havia salvação e que Deus estava preso ao catecismo cristão. A grande diferença é que antes não falava tais coisas.
A religião cristã pode se tornar o maior obstáculo à fé Nele. Ela pode ofuscar a grande revelação de Deus em Cristo por mais que muito fale dela. Lendo o livro acima citado percebi que me encanto mais com aqueles que a “igreja” declarou herege do que por quaisquer outros personagens.

Sei que essa teologia-ortodoxia-doutrina-cristã-protestante-evangélica-pentecostal que pensa em Deus a partir de seus fundamentos falíveis fazendo toda a história se resumir a uma disputa entre Deus e o mal pelas almas humanas, onde no fim Deus é quem perde, pois é a minoria dos homens que no fim são salvos, não tem nada a ver com o Deus revelado em Cristo.

Meu encanto pelo Pai em Cristo livrou-me da religião fundamentalista. Sei que somente Deus em Cristo é que pode libertar os homens da escravidão do pensamento. Quando se vê isso se sabe também que toda essa velha teologia é fruto de alianças humanas e não da Revelação.

Sou professor de teologia que sabe que somente quando a teologia se curvar diante da Revelação é que ela servirá para a Igreja. Fora isso ela continuará sendo essa potestade-muro entre os homens e a Revelação.

Acredito que assim como a “igreja” a teologia pode tornar-se uma bênção para o mundo, basta ser como criança que se encanta com o Pai de amor revelado em Cristo.

Ivo Fernandes
27 de março de 2008

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Sobre minhas crenças e minha fé



Todos os dias alguém me faz alguma pergunta sobre as coisas nas quais creio, e quase sempre a resposta gera uma onda de interpretações que acabam tornando-se atos de perseguição, calúnia, difamação. Entretanto outros se interessam e começam a querer saber mais, e com a proximidade aprendem mais sobre mim, sobre minhas crenças e principalmente sobre minha fé.

Sim! Os que de mim se aproximam descobrem que a minha fé não está naquilo em que abraço como conjunto de crenças e sim posta numa Pessoa.

Foi Jacques Ellul que me ensinou a diferença entre fé e crença. E depois disso ficou mais fácil explicar algumas coisas. Só lamento o fato de as pessoas estarem mais interessadas nas crenças que são o conjunto de pensamentos formados a respeito de diversos assuntos, do que na fé que é um dom de Deus que nos capacita a nos relacionarmos com Ele.

É a partir destas diferenças que muitos ficam sabendo que não tenho religião específica, pois de acordo com o conjunto de minhas crenças não me encaixo em nenhumas delas, e também descobrem que sou caminhante de fé, pois meu caminho está posto Naquele que me chamou da morte para a vida. Com isso estou dizendo que penso que o cristianismo como religião não é obra do ministério de Jesus e sim um conjunto de crenças que no decorrer dos séculos foram se formando. Desta forma ser cristão para mim só se aplica quando este termo refere-se a Cristo e não a um conjunto de doutrinas.
Sobre minhas crenças tenho muita coisa para dizer, discutir, mas sobre minha fé só posso dizer que ela é fruto da Graça de Deus na minha consciência. Minhas crenças posso expor, mas minha fé não é objeto de avaliação. Minhas crenças são legadas a minha capacidade de pensar, minha fé é mistério.
Gosto de debater sobre minhas crenças apesar de não encontrar facilmente gente com quem debater sem que se torne uma guerra religiosa. Assim, hoje é cada vez menos as pessoas com quem realmente converso sobre minhas crenças.

Sou hetedoroxo para aqueles que vêem em minhas assertivas diferenças do que eles chamam de ortodoxia. Isso no início me assustava, mas hoje já não temo falar o que penso, afinal não é no penso que está posta a minha fé. Meus pensamentos mudam à medida que aprendo novas coisas, que reflito sobre outras.

Aqui poderia fazer uma lista sobre o que acredito, mas penso que não ia valer à pena, poderia ser que amanhã já não pensasse como hoje. Assim prefiro registrar a minha fé no Cordeiro de Deus que esteve neste mundo revelando a reconciliação de Deus com todos os homens.

Sobre a minha crença, sempre estou escrevendo alguma coisa, quem tem paciência vai acabar lendo, senão alguém vai chegar por aí “escandalizado” com as coisas que penso.

Alguém pode argumentar que é impossível viver assim. E eu digo que não. Quando o que penso se colocar na frente da minha fé, pode acreditar, já não será objeto de minha crença tal coisa. Toda crença minha tem que de alguma maneira pavimentar o caminho do amor, se não, ela não fará parte do repertório das minhas crenças.

Outro pode perguntar “então porque você não abandona as crenças e fica só com a fé?”. Bom, penso que isso é impossível para o homem, todos nós acreditamos em coisas, formamos pensamentos sobre tudo, e eu particularmente gosto disso, talvez por isso ainda mantenha minha profissão de teólogo.

Quem caminha comigo, eu espero que possam dar mais atenção a fé por mim vivida do que as crenças por vezes por mim faladas. Oro para que cada um independente de suas crenças encontre o caminho da fé, afinal é da fé que vive o justificado e não das crenças.

Desta forma, aqueles que buscam meus conselhos para que crença deva seguir, saibam que não vão encontrar tais conselhos. Não legitimo crença de ninguém, nem mesmo a minha. Mas se buscam uma caminhada de fé, então caminhemos juntos.

Ivo Fernandes
14 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O lugar da contemplação na vida cristã



Salmo 46

DEUS é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza. Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; não se abalará. Deus a ajudará, já ao romper da manhã. Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se derreteu. O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. Vinde, contemplai as obras do SENHOR; que desolações tem feito na terra! Ele faz cessar as guerras até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo. Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre os gentios; serei exaltado sobre a terra. O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.

Como cristão que viveu sua infância e adolescência no meio pentecostal nunca imaginei que um dia iria escrever um texto com este título, ou pregar sobre o assunto. A primeira vez que ouvi falar de contemplação foi quando estudava história da igreja e mais especificamente o período monástico.

Confesso que na época me parecia algo estranho sem nenhuma conexão com o Evangelho. Foi somente há um pouco mais de quatro anos, depois de deixar a infância da fé para trás e mergulhar nas escrituras em busca da Palavra e não de um texto, que contemplar passou a ser uma realidade em minha vida. Junto a isso tive a bênção de morar em frente a um parque ecológico. Todos os dias contemplo o céu azul, o verde da mata, o brilho das águas e o branco das gaivotas.

Hoje gostaria de compartilhar com vocês a importância da contemplação na vida cristã, e como ela pode beneficiar sua vida como um todo.


Segundo o dicionário Aurélio contemplação pode significar:
1. Aplicação demorada e absorta da vista e do espírito.
2. Meditação profunda.
3. Consideração, deferência:
4. Rel. Conhecimento de Deus e das realidades divinas não por vias e métodos discursivos e, sim, pela vivência.

Eu poderia a partir destas definições dizer que contemplação é o uso integrando da mente e do espírito focando-se em algo. Assim não há vida plena sem contemplação, não há verdadeiro conhecimento sem ela, não há amor.

Vivemos numa época agitada onde, mas do nunca precisamos optar pelo que Maria optou como nos sugere a passagem de Lc 10,38-42. No texto a contemplação é chamada de “a melhor parte”. Maria não estava agitada, nem mesmo queria mostrar nada ao Mestre, ela queria apenas contemplar, absorver tudo daquele momento. Maria vivia naquele momento uma real união com Deus. Com isso não estou querendo dizer que ações não têm lugar na vida cristã, estou querendo apenas resgatar o hábito de estar diante do Mistério em silêncio, reverência e absorto. Creio até que os que contemplam são os que devem agir com mais sabedoria e serem agentes de transformação do mundo, pois saímos da contemplação com mais vontade de servir ao próximo e a toda a criação.

Maria estava diante de Deus e como ela aqueles que contemplam buscam penetrar em Sua essência. Estes não procuram sair de Sua presença, eles repousam diante do objeto amado. Estar diante de Deus em contemplação é estar aberto a Ele, atento e nesse sentido contemplação é um estado de atividade no mais elevado sentido da palavra, que traz consigo a autêntica atualização da pessoa, a verdadeira vida espiritual na sua forma mais intensa.

A contemplação das obras criadas também deve nos conduzir ao Criador. Não é disso que falam os diversos salmos? E o que dizer da oração? Pode ser ela contemplativa? Claro que sim. A oração deve envolver nossa mente e nosso espírito, portanto deve ser contemplativa. As orações agitadas, nervosas que aprendi na minha infância eram meras palavras muitas vezes decoradas. Foi somente quando me dediquei a orar como o Senhor nos ensinou (Mt 6.5,6) que comecei a sentir Deus presente em minhas orações.

E não é somente a oração que pode ser contemplativa a leitura bíblica também pode, e foi somente quando passei a ler assim as escrituras que a Palavra a mim foi revelada, antes tinha texto, hoje tenho Palavra, antes produzia sermão, hoje escuto a Voz de Deus.

Sei que se os discípulos de Cristo atentarem para o valor da contemplação toda a Comunidade ganha com isso, pois contemplando o Senhor também o contemplaremos no outro, no próximo, naqueles de quem Ele disse “ quando servistes a um destes pequeninos a mim me serviste” (Mt 25,35-36). Se escolhermos a melhor parte sairemos deste encontro convertidos, conscientes da Graça que nos cerca que é a fonte de todo bem.

Meu conselho é que paremos um pouco, dediquemos nossa mente e espírito a Ele, e em tudo que fizermos tenhamos um espírito contemplativo que descansa Nele e na certeza do “está consumado”. Oremos com este espírito, cantemos com este espírito, sirvamos com este espírito.

Lembrem-se o amor nasce da contemplação.

Ivo Fernandes

sábado, 12 de janeiro de 2008

Comunidade de Cristo




Hoje gostaria de falar sobre a Igreja. No entanto por saber que esse termo já não carrega o mesmo significado no NT, chamarei quando me referir a Igreja de Jesus de Comunidade, visto que Ecclesia do ponto de vista do NT é uma comunhão de pessoas que possuem em comum a unidade espiritual com Cristo manifestado na relação com o outro. E quando usar o termo “igreja” neste texto estarei falando do movimento humano que deu origem ao que chamamos de religião cristã ou igreja cristã com suas diversas divisões.
Como alguém de origem protestante concordo com a definição de igreja de Lutero que percebeu a diferença entre Ecclesia do NT e a igreja institucional. Lutero via a Ecclesia como uma comunidade, uma congregação, uma unidade de pessoas, um povo, uma comunhão.

Já quando falamos de “igreja” nos referimos a uma instituição administrativo-religiosa. Já a Comunidade do NT é uma comunhão pura de pessoas, inteiramente sem caráter institucional. E nisso até os reformadores protestantes falharam, pois se reformou o que já não carregava a essência da Comunidade, assim o caráter institucional permaneceu nas igrejas reformadas. Por isso nenhuma “igreja” cristã pode-se dizer a verdadeira Comunidade de Cristo nem mesmo a única, mesmo que nelas haja muito ou não desta Comunidade.

A Comunidade Cristã Primitiva começou sendo vista como uma seita judaica. Seus membros ainda eram freqüentadores do templo, até que por meio de muitas perseguições e percepções se viu que a Comunidade não era compatível com a religião dos judeus, mesmo sendo sempre a mesma Comunidade dos Hebreus.

A Comunidade Primitiva agora separada da religião judaica entende que as leis judaicas não são mais válidas. Estar sob a lei era o mesmo que repudiar Cristo. O templo perdeu seu significado e o sacerdotalismo também. Agora não haveria distinção entre os membros do Corpo de Cristo.

Quando se olha para a “igreja” sabe-se que Jesus não a fundou, pois inquestionavelmente o que Jesus criou foi uma comunhão em volta de Si de discípulos e não uma instituição religiosa. Também não foi Paulo ou um dos apóstolos que a fundaram, eles na verdade pertenciam a Comunidade e o testemunho deles era um fundamento para ela. O que eles receberam deve ser crido sempre. E o testemunho deles é que deve ser preservado, não a autoridade apostólica, pois essa não é transferível como pensa a “igreja”. Não vemos nenhum dos apóstolos chamando para si uma autoridade que vemos nas autoridades religiosas da “igreja”.

Sei que já no final do primeiro século a Comunidade já via em seu arraial a forte presença de um espírito institucional. No entanto até aquela altura o que prevalecia ainda era a Verdade da Mensagem Cristã e não o poder de um apóstolo ou líder cristão. E com isso não estou dizendo que a Comunidade Primitiva não tinha governo, o que falo é que nela esse dom era mais um entre outros sem o menor grau de preferência. O dom não autoriza nenhum tipo de estrutura hierárquica.

O argumento que a ‘igreja’ usa para sua existência como estrutura institucional-hierárquica é a defesa da fé e a guarda da tradição e sei que esses foram em parte os motivos iniciais da mesma, e que em parte era legítima essa preocupação. Sei que o ofício do bispo em parte foi criado para garantir a defesa da fé. Mas há uma grande ‘ingenuidade’ em achar que todos os bispos ordenados em continuidade seriam reais portadores da doutrina apostólica original. O lamentável nessa história não foi a criação do ofício do bispo, mas da mudança em que ele foi tornado no principal se não único guardião da verdade. Basta olhar a história e perceber que a mensagem apostólica não é a mesma pregada pela “igreja” em sua essência, pois agora não era com manutenção da verdade que a “igreja” estava preocupada, mas com sua própria continuidade como “guardiã da verdade”.

De corporação (igreja governada pelos bispos) a “igreja” passa a ser governada pelo Papa. Agora é ele que é a autoridade final em matéria de dogma e de moral. Assim ele passa a ser o único expositor autoritativo da Escritura e a única fonte e intérprete autoritativo da tradição.

Alguns dirão que fora deste modelo o que sobraria era uma comunidade anárquica. Ora a NT mostra que não, pois a Comunidade tinha o governo do Espírito. Isso nos faz pensar que quando a igreja deixou de estar sob o governo do Espírito precisou se institucionalizar ocupando assim o lugar que pertencia a Ele.

Outros dirão que a institucionalização é fruto do crescimento e é inevitável. Quanto a isso o NT mostra também ser inverdade. A Comunidade Primitiva não tinha teologia e nem dogma, mas tinha a Palavra Viva; não tinha credo e nem um código moral, mas tinha fé que se provava no amor; não tinham leis ou organizações, mas tinham o poder do Espírito. Foi o declínio da fé, mais que as necessidades, que deu origem a “igreja”.

Até aqui pode ser que muitos estejam discordando de tudo e outros felizes por encontrar nesse texto uma justificativa para seu ato de não mais congregar-se, no entanto não existe Comunidade sem congregação, pois é no encontro que ficamos cada vez mais cônscios de nós mesmos como Comunidade, como povo de Deus feito um com Cristo e unidos uns aos outros através Dele. Apenas na Comunidade não há sacerdotes e leigos, mas todos são irmãos que formam um único sacerdócio e que ministram um ao outro o batismo e a ceia que em si trazem a denúncia contra todo individualismo e nos leva a viver em Comunidade.

Na “igreja” esses dois ritos tornaram-se sacramentais e passaram a ser o centro da vida da “igreja” que só podia ser ministrado pelo clero autorizado. Desta forma não há lugar para as reuniões nas casas ou em qualquer lugar visto ser só no templo onde esses sacramentos serão oficialmente e legalmente ministrados por pessoas competentes.
As igrejas reformadas tentaram mudar isso, mas não conseguiram plenamente. O mérito dos reformadores foi ter reconhecido a grande importância da Palavra de Jesus como fonte da vida da Comunidade Cristã.

Assim o que temos muito hoje são “igrejas” e pouca Comunidade. Agora penso ser possível a “igreja” servir a Comunidade se tentar não impedi-la de continuar seu curso pela história.

E onde está a Comunidade? Onde houver dois ou três reunidos no Nome (no espírito de Cristo) ali está a Comunidade. Onde houver o Amor ali Deus está.

Minha oração é que a cada dia a “igreja” possa se converter em Comunidade onde a verdadeira fé é aquela que prova-se pelo amor. Oro para que os cristãos sejam cada dia mais livre para serem cada vez mais responsáveis; que andem reconciliados com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

Esse texto não tem a pretensão de ignorar a importância histórica da ‘igreja’ mas essa importância histórica não pode fechar os nossos olhos para a realidade de que por vezes a “igreja” tem sido um dos principais obstáculos para a Comunidade. A ‘igreja’ é vaso a Comunidade é conteúdo. A ‘igreja’ é templo a Comunidade é sua Mensagem.

Que o Espírito do nosso Deus sopre sobre a “igreja” e continue reinado na Sua Comunidade.

Ivo Fernandes

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

ENTREVISTA QUE CONCEDI AOS ALUNOS DE HOMILÉTICA DO CURSO DE TEOLOGIA DO STC EM 2006

Perguntas
(1) Para você, qual é o maior objetivo da pregação no púlpito? Por quê?


Visto que o maior público que está diante de um púlpito é um público de confissão religiosa, a pregação no púlpito tem dois objetivos básicos: primeiro, levar o povo a uma consciência da mensagem do Evangelho destacando os abusos e perversões da mensagem nos dias de hoje; e segundo, conduzir este povo que adquiriu consciência a serem povo de Deus na terra, sal e luz, a fim de que o mundo glorifique ao Pai que está no céu.

(2) Qual o requisito que você considera indispensável para o pregador, para que este seja eficaz?

Convicção do que está pregando. Relação visceral com a mensagem pregada.

(3) Numa pregação, o que você acha que é mais importante? Quanto tempo mínimo ou máximo ela deve ter? Qual (is) requisito(s) necessário(s) para que esta se torne chamativa para você?

A clareza no que está sendo exposto.
O tempo para mim vai de 30min às 1h e 30min.
Os requisitos são: Domínio do assunto; clareza na exposição; objetividade e profundidade do tema.

(4) Qual forma ou tipo de mensagem que você iniciou suas pregações? Que objetivo e estilo elas tinham?

Quando iniciei minhas pregações não seguia nenhum padrão. Quase sempre era um comentário de um texto lido. O objetivo era sempre de explicar o texto apresentado.

(5) Qual então, o tipo ou estilo de “sermão” que você atualmente gosta de pregar? Por quê?

Durante um bom tempo preguei no método expositivo e considero um excelente método devido a clareza e condução do objetivo que este método dá. Hoje, sem perder a linha mestre que nos faz manter-se no tema tenho também usado muito um método discursivo.


(6) Como você se sentiu na sua primeira pregação? E como você se sente hoje quando vai pregar?

Minha primeira experiência foi carregada de muita emoção. Senti medo e incapacidade de alcançar o objetivo, mas o Senhor foi bom. Hoje, sinto o peso da responsabilidade de anunciar, mas estou mais confiante visto que prego aquilo que está meu coração.

(7) Entre as suas primeiras e atuais pregações, qual a maior diferença que você vê?

A relação com a minha própria vida. A mensagem hoje não é só um corpo textual que servia para a apresentação. Prego aquilo que está em mim. Convivo com a mensagem.

(8) Você sente que, tanto no início como no decorrer do seu ministério de pregação, utilizou alguma das várias “técnicas e regras” de homilética? E Atualmente? Quais e como?

No começo utilizei alguns métodos, sendo o expositivo o mais comum. Hoje, sou mais livre dos métodos, mas procuro sempre manter clareza e não fugir de temas.

(9) No decorrer de sua “história de pregação”, qual foi a mensagem, sermão ou pregação que você mais gostou ou considera a melhor? Por quê?

É difícil responder esta questão, já são 12 anos pregando.
Mas uma das últimas eu gostei muito. Falei sobre a mensagem da Graça baseada em Romanos 5. O título era a “o escândalo da Graça” e considerei muito boa, devido a clareza com que o assunto foi exposto e ao processo sistemático que conduziu os ouvintes a uma conclusão comum.

(10) Qual o melhor público que você considera para suas pregações: o vibrante e participante? Ou o silencioso e atencioso? Ou mesmo, o de não crentes, que em maioria segue a mensagem de forma “pasma” e “constrangida”? Por quê?

Atualmente tenho preferido o público silencioso e atento. Passei muitos anos pregando para públicos eufóricos e não acredito que o resultado foi tão proveitoso. Muitas vezes a emoção descontrolada atrapalha o entendimento da mensagem.

(11) Qual a maior diferença que você encontra nos auditórios, congregações e públicos do início das suas pregações para as de hoje? E qual a diferença da receptividade e absorção desses para as mensagens?

Na maioria dos lugares o público já está viciado em uma mensagem, estilo, ou idéia o que às vezes impossibilita que eles ouçam uma mensagem que traz algo diferente. Mas sempre haverá pessoas em cada grupo interessadas e com certeza para esses a mensagem dará o seu resultado.


(12) Com seu tempo de pregação, qual utilidade você vê no esboço? Sente-se preso a ele? Por quê?

Creio que o esboço é essencial principalmente quando a mensagem carrega diversas informações. Ele ajuda a nos manter num rumo específico. Mas creio não ser saudável o pregador que não consegue falar sem o uso dele.

(13) Seja sincero: Você sofreu influência de algum (ns) pregador (es), ensino ou movimento para a formação do seu “estilo de pregação”? Quais e por quê? E sente-se ainda influenciado?

Com toda certeza, ninguém neste mundo não sofre influência. No começo da minha carreira, fui muito influenciado pelo pastor Ricardo Gondim que para mim até hoje é um excelente pregador. Seu método expositivo sempre me atraiu muito, devido a clareza da exposição. Hoje, sou influenciado pelo pastor Caio Fábio devido a visceralidade que encontro nele quando fala de Evangelho, é como vivo e quero viver.


(14) Qual foi ou é melhor pregador, em sua opinião, na sua história de fé ou opinião que você ouviu? Por que você assim o considera? Qual é o melhor Sermão que você ouviu desse que lhe marcou?

Caio Fábio.
Para mim ele é uma das vozes mais influenciadoras de nossa geração. Sua mensagem sempre tem um estilo desafiador, sempre nos conduz a reflexão e ação, fora que é extremamente profunda.
É muito difícil falar de um sermão, então direi que o último que ouvi é maravilhoso – “Peco por sou pecador”

(15) Em sua opinião: Como está o nível de pregação atualmente? Quais são os fatores positivos e negativos que você reconhece?

Para mim há dois grupos distintos no Brasil. O primeiro segue a linha do sensacionalismo e é muito apelativo. A mensagem é vazia, mas atrai as multidões por trazerem receitas rápidas de sucesso.
O segundo é de homens compromissados com a genuína mensagem Evangélica, essa por sua vez atrai menos numa sociedade viciada em “bênçãos”, mas, no entanto é que edifica a alma.

O papel das emoções no desenvolvimento do câncer

O tema proposto ainda é motivo de discussões entre especialistas, apesar da crescente admissão da relação entre as emoções e as doença...