sábado, 12 de janeiro de 2008

Comunidade de Cristo




Hoje gostaria de falar sobre a Igreja. No entanto por saber que esse termo já não carrega o mesmo significado no NT, chamarei quando me referir a Igreja de Jesus de Comunidade, visto que Ecclesia do ponto de vista do NT é uma comunhão de pessoas que possuem em comum a unidade espiritual com Cristo manifestado na relação com o outro. E quando usar o termo “igreja” neste texto estarei falando do movimento humano que deu origem ao que chamamos de religião cristã ou igreja cristã com suas diversas divisões.
Como alguém de origem protestante concordo com a definição de igreja de Lutero que percebeu a diferença entre Ecclesia do NT e a igreja institucional. Lutero via a Ecclesia como uma comunidade, uma congregação, uma unidade de pessoas, um povo, uma comunhão.

Já quando falamos de “igreja” nos referimos a uma instituição administrativo-religiosa. Já a Comunidade do NT é uma comunhão pura de pessoas, inteiramente sem caráter institucional. E nisso até os reformadores protestantes falharam, pois se reformou o que já não carregava a essência da Comunidade, assim o caráter institucional permaneceu nas igrejas reformadas. Por isso nenhuma “igreja” cristã pode-se dizer a verdadeira Comunidade de Cristo nem mesmo a única, mesmo que nelas haja muito ou não desta Comunidade.

A Comunidade Cristã Primitiva começou sendo vista como uma seita judaica. Seus membros ainda eram freqüentadores do templo, até que por meio de muitas perseguições e percepções se viu que a Comunidade não era compatível com a religião dos judeus, mesmo sendo sempre a mesma Comunidade dos Hebreus.

A Comunidade Primitiva agora separada da religião judaica entende que as leis judaicas não são mais válidas. Estar sob a lei era o mesmo que repudiar Cristo. O templo perdeu seu significado e o sacerdotalismo também. Agora não haveria distinção entre os membros do Corpo de Cristo.

Quando se olha para a “igreja” sabe-se que Jesus não a fundou, pois inquestionavelmente o que Jesus criou foi uma comunhão em volta de Si de discípulos e não uma instituição religiosa. Também não foi Paulo ou um dos apóstolos que a fundaram, eles na verdade pertenciam a Comunidade e o testemunho deles era um fundamento para ela. O que eles receberam deve ser crido sempre. E o testemunho deles é que deve ser preservado, não a autoridade apostólica, pois essa não é transferível como pensa a “igreja”. Não vemos nenhum dos apóstolos chamando para si uma autoridade que vemos nas autoridades religiosas da “igreja”.

Sei que já no final do primeiro século a Comunidade já via em seu arraial a forte presença de um espírito institucional. No entanto até aquela altura o que prevalecia ainda era a Verdade da Mensagem Cristã e não o poder de um apóstolo ou líder cristão. E com isso não estou dizendo que a Comunidade Primitiva não tinha governo, o que falo é que nela esse dom era mais um entre outros sem o menor grau de preferência. O dom não autoriza nenhum tipo de estrutura hierárquica.

O argumento que a ‘igreja’ usa para sua existência como estrutura institucional-hierárquica é a defesa da fé e a guarda da tradição e sei que esses foram em parte os motivos iniciais da mesma, e que em parte era legítima essa preocupação. Sei que o ofício do bispo em parte foi criado para garantir a defesa da fé. Mas há uma grande ‘ingenuidade’ em achar que todos os bispos ordenados em continuidade seriam reais portadores da doutrina apostólica original. O lamentável nessa história não foi a criação do ofício do bispo, mas da mudança em que ele foi tornado no principal se não único guardião da verdade. Basta olhar a história e perceber que a mensagem apostólica não é a mesma pregada pela “igreja” em sua essência, pois agora não era com manutenção da verdade que a “igreja” estava preocupada, mas com sua própria continuidade como “guardiã da verdade”.

De corporação (igreja governada pelos bispos) a “igreja” passa a ser governada pelo Papa. Agora é ele que é a autoridade final em matéria de dogma e de moral. Assim ele passa a ser o único expositor autoritativo da Escritura e a única fonte e intérprete autoritativo da tradição.

Alguns dirão que fora deste modelo o que sobraria era uma comunidade anárquica. Ora a NT mostra que não, pois a Comunidade tinha o governo do Espírito. Isso nos faz pensar que quando a igreja deixou de estar sob o governo do Espírito precisou se institucionalizar ocupando assim o lugar que pertencia a Ele.

Outros dirão que a institucionalização é fruto do crescimento e é inevitável. Quanto a isso o NT mostra também ser inverdade. A Comunidade Primitiva não tinha teologia e nem dogma, mas tinha a Palavra Viva; não tinha credo e nem um código moral, mas tinha fé que se provava no amor; não tinham leis ou organizações, mas tinham o poder do Espírito. Foi o declínio da fé, mais que as necessidades, que deu origem a “igreja”.

Até aqui pode ser que muitos estejam discordando de tudo e outros felizes por encontrar nesse texto uma justificativa para seu ato de não mais congregar-se, no entanto não existe Comunidade sem congregação, pois é no encontro que ficamos cada vez mais cônscios de nós mesmos como Comunidade, como povo de Deus feito um com Cristo e unidos uns aos outros através Dele. Apenas na Comunidade não há sacerdotes e leigos, mas todos são irmãos que formam um único sacerdócio e que ministram um ao outro o batismo e a ceia que em si trazem a denúncia contra todo individualismo e nos leva a viver em Comunidade.

Na “igreja” esses dois ritos tornaram-se sacramentais e passaram a ser o centro da vida da “igreja” que só podia ser ministrado pelo clero autorizado. Desta forma não há lugar para as reuniões nas casas ou em qualquer lugar visto ser só no templo onde esses sacramentos serão oficialmente e legalmente ministrados por pessoas competentes.
As igrejas reformadas tentaram mudar isso, mas não conseguiram plenamente. O mérito dos reformadores foi ter reconhecido a grande importância da Palavra de Jesus como fonte da vida da Comunidade Cristã.

Assim o que temos muito hoje são “igrejas” e pouca Comunidade. Agora penso ser possível a “igreja” servir a Comunidade se tentar não impedi-la de continuar seu curso pela história.

E onde está a Comunidade? Onde houver dois ou três reunidos no Nome (no espírito de Cristo) ali está a Comunidade. Onde houver o Amor ali Deus está.

Minha oração é que a cada dia a “igreja” possa se converter em Comunidade onde a verdadeira fé é aquela que prova-se pelo amor. Oro para que os cristãos sejam cada dia mais livre para serem cada vez mais responsáveis; que andem reconciliados com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

Esse texto não tem a pretensão de ignorar a importância histórica da ‘igreja’ mas essa importância histórica não pode fechar os nossos olhos para a realidade de que por vezes a “igreja” tem sido um dos principais obstáculos para a Comunidade. A ‘igreja’ é vaso a Comunidade é conteúdo. A ‘igreja’ é templo a Comunidade é sua Mensagem.

Que o Espírito do nosso Deus sopre sobre a “igreja” e continue reinado na Sua Comunidade.

Ivo Fernandes

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