quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Minha heterodoxia

Não posso negar minha inclinação para a heterodoxia, como chamam aquilo que não é a doutrina oficial da igreja, a qual chamam de ortodoxia. Sempre que leio os heterodoxos me encanto com seus escritos. Eles sempre mexem comigo, me desafiam, me desnudam. Encontro-me neles a ponto de achar que era daquela forma que já pensava. É por causa deles que ainda amo o estudo teológico, pois me fizeram ver que a teologia não precisa ser tão pretensiosa como fazem parecer os teólogos ortodoxos.

Tornei-me um ser humano melhor depois que li os heterodoxos. Hoje até me sinto honrado quando me chamam de herege por causa dessa minha inclinação. Ser associado a essas pessoas é hoje orgulho.

Descobri que a maioria das pessoas que amaldiçoam os heterodoxos assim fazem porque não conseguem resistir aos argumentos deles. Sufocar a voz dos heterodoxos é sempre a ação de quem não quer perder o poder. Não tem nada haver com a verdade, tem haver com a manutenção da glória pessoal.

Hoje quando estudo a história vejo que Jesus pareceu muito mais com hereges perseguidos do que com os ortodoxos perseguidores. E toda perseguição é a forte declaração do desespero de quem precisa manter as pessoas sob o domínio do medo.

Pena que a maioria dos cristãos teme ouvir os hereges, pois se ouvissem, penso eu que um batismo de fé seria visto em nossos dias. Pena que ao ouvi-los já não fazem síntese do que é dito, pois não ouvem, apenas esperam o encerrar das palavras para lhes apedrejarem.

Foi com os hereges que aprendi a não me acomodar; a buscar sempre mais; a ter mais sede. Foi com eles que descobri o quanto ainda preciso caminhar. Mas não pensem que tenho alguma coisa contra a ortodoxia, não! Tenho contra alguns ortodoxos, que melhor seriam chamados de fundamentalistas e que seria melhor se fossem chamados de os que não vêem além. São estes que confundem fé com conjunto de doutrinas, que fazem associações de verdades existênciais com questões moralistas. São os que jamais se abrem para o novo, pois o novo sempre traz em seu bojo que precisamos nos esvaziar para receber. São os que dão respostas a perguntas que não se fazem mais e insistem em fingir que não possuem as respostas para as reais perguntas.

Foi com os heterodoxos que aprendi que a mensagem continua viva e importante e necessária para os dias de hoje. Foi com eles que passei a valorizar a pergunta para poder buscar a resposta. E com o maior dos heterodoxos tenho caminhado – Jesus.

Jesus andou na contramão de seu tempo. Não elegeu nem a própria religião do seu povo como a ortodoxia. Ao contrário se mostra sempre contra todo tipo de dominação que impede o livre caminhar dos homens. Sua mensagem foi radicalmente diferente das do seu tempo. Fraqueza em vem de força, amor em vez de poder, humilhação em vez de coerção, inclusão em vez de exclusão. Escondia-se quando queriam fazer dele Rei. Revelava-se quando não havia riscos de fazer dele outra coisa que não fosse o que Ele era. Não respondia a perguntas que não buscavam respostas. Sua cruz é escândalo e sua ressurreição é a heresia que anula a ortodoxia da morte.

Minha heterodoxia é saber-se em constante reforma!

Ivo Fernandes
12 de novembro de 2008

Nenhum comentário:

O papel das emoções no desenvolvimento do câncer

O tema proposto ainda é motivo de discussões entre especialistas, apesar da crescente admissão da relação entre as emoções e as doença...