segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O Retorno ao Essencial


No Caminho temos sido desfiados a voltar ao essencial, a ler novamente os evangelhos e a principalmente termos Jesus como a chave hermenêutica para a interpretação de tudo, inclusive das escrituras।


Esse retorno tem sérias implicações, até porque para a grande maioria dos cristãos não é um retorno, mas uma primeira e emocionante viagem. Eu fiz e estou fazendo meu caminho no Caminho e sinto a radicalidade do chamado de Jesus.

Acontece que tal chamado implica no abandono das redes da nossa vida-cultura। No nosso caso cristão-ocidental significa o abandono ou no mínimo a releitura da nossa cultura cristã, do nosso cristianismo।


Todos sabemos que nossa cultura e doutrinas cristãs são frutos dos encontros entre a fé judaica, a cultura grega e o império romano. O retorno ao essencial requer a difícil tarefa do abandono das redes cristãs.

Uma das primeiras coisas que precisamos abandonar é nosso conceito de revelação, que vê Deus limitado a um acontecimento, a um povo, a uma religião, a um livro, e que tal livro é, portanto inerrante e infalível। Temos que abandonar todo verbalismo, todo biblicismo literal, toda ingenuidade pré-crítica।


A revelação se dá no processo humano, dentro da história, não sendo formada de certas palavras ou textos, mas sendo o próprio processo vital existencial e universal da experiência com o Divino। O que se produz a partir do encontro é resultado e não a revelação em si mesmo.


Não podemos pensar que o Deus de todos os homens revele-se apenas para determinados grupos। Na verdade toda a criação já está debaixo da redenção, pois o Cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo, logo toda a criação manifesta Deus, e toda realidade se converte em revelação. A revelação de Deus no Filho não cancela a presença universal do Espírito em toda a criação.


O conceito limitado da revelação está associado à visão de que Deus só tem um povo amado e eleito, mas com o fim desse conceito limitado também se finda as “eleições”। O povo de Deus transcende as fronteiras das raças e das religiões.


Sei que nisto muitos discordarão, pois as doutrinas das eleições são à base de todo comportamento cristão। Despejarão textos bíblicos para mostrar que as doutrinas das eleições são a verdade. Sem dúvida a bíblia fala de eleição, mas somente uma leitura ingênua pré-crítica é que pensará que tal expressão é revelatória, esquecendo do contexto histórico e dos condicionantes humanos que formularam tal doutrina ou idéia.


Se tivermos que ainda utilizar uma linguagem onde o termo eleição aparece, devemos então seguir a Cristo, para quem os pobres, os pacificadores, os mansos, os injustiçados, os oprimidos eram os filhos de Deus।


Para Jesus o Reino de Deus estava disponível a todos os homens bastando para isso viverem a prática do amor e da justiça। Paulo, bem entendo isso, disse que em Jesus Cristo o que conta não é a circuncisão ou a incircuncisão, mas a fé que age por meio do amor (Gl 5.6).


Então não há uma única religião verdadeira, todas elas são resultados da busca do homem, inclusive o cristianismo, a única religião universal é a do amor, conforme toda a epístola de João e o livro de Tiago।


Jesus nunca fundou uma religião ou mesmo a igreja cristã। Toda a missão de Jesus girava em torno do Reino. Das 122 vezes que Reino aparece nos evangelhos 90 delas estão nos lábios de Jesus. E o que é o Reino de Deus? É a transformação radical da realidade histórica.


O que o cristianismo fez foi um híbrido, juntaram o Cristo da fé dos hebreus com o deus Júpiter dos romanos, nascendo um ser totalmente diferente do Homem de Nazaré। É a partir daí, por razões políticas que o cristianismo se solidifica e se expande com a força do braço imperial, perseguindo todo movimento, religião ou pessoa que não se rendesse as doutrinas imperiais. E afirmaram que a igreja romana era o próprio Reino de Deus. Tudo isso conduziu finalmente ao exclusivismo absoluto do cristianismo.


Essa igreja só faria bem a si mesmo e aos demais se abandonasse toda presunção de ser o Reino e se colocar a serviço do Reino। O cristianismo só seria de Jesus se abandonasse seu eclesiocentrismo pelo reinocentrismo.


Enquanto formos eclesiocêntricos continuaremos colocando a teoria adiante da prática, o dogma acima da ética, a doutrina acima da vida, a ortodoxia no lugar da ortopraxia। Chegou a hora do retorno ao essencial. Conhecer a Deus significa praticar a justiça conforme a carta de João, e essa não é uma verdade nova.


Temos que abandonar esse conceito de verdade grega, esse aristotelismo presente em nossas teologias। Hoje sabemos que tudo é histórico, evolutivo, dinâmico. Tudo está relacionado como afirmam as ciências modernas, a nova física, e a nova pesquisa histórica. Já não podemos mais a partir disso confundir Deus com as representações que fazemos Dele. Deus está acima do nosso conceito a respeito Dele, e todo conceito a respeito Dele é cultural. Sendo assim, Deus é absoluto, mas todo pensamento sobre Ele é relativo.


Não podemos mais pretender que o cristianismo seja a única religião que tem a verdade। Deus não está preso a nenhuma religião, e não cabe nas nossas medidas. O Evangelho de Jesus é supra cultural, por isso mesmo pode ser acolhido no coração de qualquer homem em qualquer religião, povo ou cultura. Assim uma pessoa realmente de Deus está além da religião, isso porque Deus não está ligado a nenhuma. Deus não tem dono, nem substituto. Ele está acima de tudo que dizemos, confessamos ou ensinamos. Em si é um mistério inabarcável, inapreensível e inexpressável. Não há dogma ou credo que possa defini-lo. O melhor que podemos fazer é não fechar conceitos, é fazer teologia no caminho, ou seja, sempre pronta para rever seus conceitos, abandonar suas velhas idéias e continuar buscando ao Deus que é maior do que todo o processo.


Urge termos um otimismo soteriológico para de fato lutarmos pela causa de Jesus। Urge abandonarmos toda espécie de exclusivismo. A única conversão que devemos desejar para que todos os povos experimentem é a conversão a Deus e ao seu Reino, independente da cultura ou religião que tenham. Urge fazermos missão com base na libertação integral que é a proposta do Reino e não na idéia de que somos essenciais para a salvação do outro, salvação essa que é só metafísica e não de fato e de verdade. Uma missão que sirva ao Reino e não a uma religião, igreja ou denominação.


E o que aqui escrevo não tem a pretensão de ser uma nova especulação para o entretenimento ou satisfação da minha própria vaidade. É pelo desejo de ver a mensagem de Jesus sendo pregada e vivida. Pelo desejo que o Reino seja uma realidade para todos e em todos. Quero sim a superação da religiosidade, em favor da espiritualidade. Quero o fim de todo dogmatismo. Quero o Evangelho para todos, que tem como única regra e dogma o Amor. Que nossa missão consista em revelar isso, pois tudo que não provém do Amor é nocivo

Ivo Fernandes
21 de dezembro de 09

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma sexta-feira santa


Eram as primeiras horas da madrugada da sexta-feira chamada santa. Meu coração se encheu de um sentimento estranho, uma mistura de tristeza com esperança, de paz com inquietação. Há pouco havia brincado com familiares, havia curtido os nove anos de minha filha mais velha. No fim da noite da quinta-feira participei de uma conversa sobre Deus, com uma espiritualista e uma cristã-mórmon.


No começo da conversa ríamos até juntar-se a mesa alguns cristãos-evangélicos que junto com a cristã-mórmon demonstravam saber tudo sobre Deus e sobre o que ele pensa. Não podia mais participar daquilo, o que falasse pareceria mais uma receita sobre Deus.E o que sei sobre Deus?


Entrei na sexta-feira santa com meus pensamentos presos a pergunta que fizera. Lembrei-me de minha infância e da trajetória até aqui. Aos oito anos começava minha jornada de identificação cristã. Nessa idade era o que os outros diziam que era. Alguns acreditavam profundamente em algo a meu respeito que eles chamavam de chamado, o que mais tarde depois de muita luta também passei a acreditar, até entender que não há para mim outro chamado que não seja viver para aquele que por mim morreu e ressuscitou.

Aos 12 anos não sabia como me identificar. Tinha vergonha em alguns círculos de me identificar como evangélico. Hoje não é apenas em alguns círculos. De fato, não quero mais nenhuma identificação com este movimento.


Aos 15 anos minha vida mudou, comecei a pregar. Em pouco tempo já era conhecido em várias igrejas dos bairros próximos ao meu. Pregava, e não me recordo de nada que tenha sido de fato algo que tenha procedido do meu coração. Falava muito do que ouvia, mas desde essa época meu coração se inclinava para a mensagem da Graça. Isso, desde então, me trouxe problemas.

Arranjei confusão com líderes da minha igreja por tratar de assuntos como a masturbação de uma maneira tão diferente deles. Afinal nunca disse que tal ato era pecado e me recusava condenar os praticantes de tal ato, à medida que falava de um viver equilibrado.


Aos 18 anos fui consagrado ao pastorado. Foi na primeira experiência como pastor que aprendi mais sobre a vida, e comecei a ver que não tinha todas as respostas para todas as perguntas que me faziam. Era uma comunidade muito pobre, cheias de desafio e problemas a maioria deles sem solução aparente.

Nesta idade comecei a estudar teologia. Isso me empolgou, e até hoje me empolga. No entanto, minha viagem na teologia também me trouxe problemas. Nos primeiros anos estudei tudo sobre as doutrinas defendidas pelo ministério que fazia parte. Sabia tudo, mas aquilo não me encantava, e nunca consegui falar com paixão daquilo que chamavam de ortodoxia, o que hoje sei que não deveria carregar esse nome.


Depois de um tempo, conheci a teologia reformada. Foi emocionante a leitura, mas não consegui conviver com as certezas dessa teologia. Começava a ficar claro que não conseguia amar a Deus se ele fosse daquela forma.

Conheci a teologia liberal, neo-ortodoxa, neoliberal, libertação, latino-americana, secular, feminista, negra, inclusiva. Passei a me dedicar aos estudos do Novo Testamento. Li muito sobre a questão do Jesus histórico. Avaliei os textos em busca de tal Jesus. Alguns anos de grego, o que foi abandonado, quando abandonei também tal busca.


Aos 23 anos numa tarde em frente ao mar, consultei meu coração. A partir daquele dia gostaria de ser fiel a minha consciência, pregar o que estava em meu coração. Isso me levou a sair da igreja onde havia sido consagrado e sucessivamente das três próximas igrejas que participei. De fato não havia espaço para mim entre aqueles que viam na minha mensagem uma perversão.

Aos 25 anos já não estava mais entre os evangélicos e fui tratado como herege por todos aqueles que outrora me chamavam de amigo. A coisa piorou quando na minha caminhada associei-me com os do Caminho, entre eles o Caio Fábio a quem também haviam declarado herege.


Tive que deixar alguns empregos. Tive que ver amigos me tratando como desconhecido. Tive que ver meu nome sendo difamado na boca de muitos. Tive que experimentar a mais profunda solidão e foi nesse período que de fato meu coração foi plenamente tomado pela Graça. Já não havia mais nenhuma a barganha a fazer com nada e nem com ninguém.

Continuei pregando o Evangelho e agora mais livre do que nunca. Continuei dando aula de teologia e agora de fato sendo um teólogo que não tem a presunção de encaixar Deus em meus finitos pensamentos.


E hoje, nesta sexta-feira santa sinto-me livre de ter que defender o que quer que seja para quem quer que seja. Afinal, o que sei sobre Deus? O que sei Dele na verdade não serve para ninguém, pois o que sei é fruto de um coração alcançado misteriosamente. Sei o que sei para mim. O que tenho a dizer para quem serve com convicção o deus do terror? Nada.

A fé que tenho, de fato tenho para mim mesmo. O caminho que sigo, de fato sigo só, mesmo sabendo que há companheiros de jornada.


Hoje, abri minha caixa de emails e vi alguns textos de amigos. Poderia participar e falar alguma coisa, mais o que? O que creio, creio para mim, mas não sou a verdade e nem mesmo o guardião dela.

Hoje quero deixar cada um seguir seu caminho. Seguindo o meu caminho, vou falando da boa-nova do amor do meu Deus por todos os homens e de salvação gratuita para todos, quem quiser ouvir ouça, quem não quiser não ouça. Não pensem que tentarei converter alguém a alguma coisa. Não creio em coisas, creio num Ser, e com ele não adianta conhecimento, apenas relacionamento, e isso é mistério.


Quero de fato respeitar a todos, visto que em muitos momentos, falei apaixonadamente e acabei por passar a impressão que era detentor da verdade, senhor da revelação. Não! Eu não sou!

Para respeitar preciso confessar que não posso mais participar de rodas onde Deus seja debatido. Não tenho um Deus para debater, e nem para colocar na arena das verdades-humanas. Na verdade não tenho um Deus para ofertar aos outros. No máximo posso falar da convicção do meu coração e da paz que procede Dele. Ou seja, só posso falar de mim e não de Deus.

Aos amigos que me pedem para participar das discussões, perdoem-me, não posso. Como teólogo posso participar de tudo que diga respeito a nossa limitada e pobre compreensão do fenômeno religioso, mas não posso discutir quem está acima de todo conceito.


O caminho continua sendo para mim. O Caminho é da Graça e na Graça. Os homens que caminham neste caminho são por mim admirados e amados. Mas ninguém se sinta obrigado a nada, por me ver fazendo algumas coisas. O que faço, faço para mim. Sigo com alegria na companhia destes homens que como eu, não têm outro caminho a fazer.

Ivo Fernandes
Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Descansando na Graça


A história relatada em Lucas 10 sobre Maria e Marta e de como Maria escolheu a melhor parte tem me ensinado bastante nos últimos anos. Desde os meus 18 anos que pastoreio, desde os 15 que vinha pregando. Minha vida só fazia sentido na prática do serviço pastoral.

Sempre fui feliz por ajudar as pessoas, mas de maneira quase inconsciente meu serviço ia se tornado numa espécie de escapismo para não tratar de mim mesmo. Para não ter que parar e enxergar direito minhas mazelas, não perceber minhas sombras.

Quanto mais atividade mais acreditava que em mim não havia brechas, e que, portanto o pecado estava superado. Hoje sei que nada é mais perigoso para a alma do que as convicções nascidas de uma mente que se enxerga apenas pelo serviço que executa.

Tive que aprender, não de maneira fácil que minha natureza é cheia de desvios, que sou sombra e luz, fraqueza e força. Tive que aprender mais sobre minha humanidade e abandonar minhas certezas “santas” a respeito de mim mesmo.

Aprendi que Aquele que eu dizia seguir nunca se dedicou ao serviço de maneira que a vida lhe fosse tirada como um dom para ser vivido. Olhei e vi Jesus caminhando sem pressa, sem agendas, sem compromissos inadiáveis. Vi Jesus tendo tempo para amigos, para crianças, para festas, para o silêncio e para a conversa.

Desde então tenho me permitido descansar. Sei que descansar exige fé. Fé Naquele que tudo já fez. Fé Naquele que tudo sabe. Fé naquele que tudo pode.

Tenho me permitido o silêncio em frente ao mar, as brincadeiras com minhas filhas, as conversas com meus amigos, o namorar com minha amada.

E é descansado que percebi que o amor só se sente na calma. Na agitação o coração não percebe o que de fato faz bem. É no descanso que sentimos a presença do favor imerecido de Deus, pois na agitação tudo é pesado e cansativo.

Vemos tudo melhor quando estamos com o coração e corpo sossegados. Vejo melhor a mim mesmo, vejo melhor quem me cerca, vejo melhor a vida, vejo melhor o próprio Deus.

Descansando na Graça de Deus faço coro a Almir Sater em sua canção “Ando devagar”

Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei,
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida, seja simplesmente
Compreender a marcha, ir tocando em frente,
Como um velho boiadeiro, levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou,
Estrada eu sou,
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora,
Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz,
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei de mais,
Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz

Ivo Fernandes
12 de novembro de 2009


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Creio - A Esperança


A esperança cristã se une a esperança judaica, e por que não dizer de todos os homens quanto à realidade do Reino. Os profetas anunciaram sua vinda e sua duração eterna (Dn 2;6;7). Porém Jesus nos revelou que tal Reino não vem com aparência exterior, mas já é realidade entre nós (Lc 17.20,21), porém esse Reino não pertence as mesmas categorias dos reinos dos homens (Jo 18.36).

O Reino é um reino de justiça onde toda opressão é exterminada, um reino de paz (Is 9.1-7). Esse Reino pertence aos pobres de espírito, aos que foram e são perseguidos por causa do amor a justiça (Mt 5), aos que se tornam como crianças na dependência do sagrado(Mt 18.3). Estes filhos do Bem são sementes do Reino no mundo(Mt 13.38).

No momento o Reino dos céus está entre os reinos do mundo, tal como o trigo em meio ao joio, tal como um tesouro escondido num campo, não cabe aos filhos do Reino tentar separar o joio do trigo, isso se dará na consumação dos tempos, o que se precisa é ter coragem de como um homem que encontrou uma pérola de grande valor, fazer tudo para possuí-la (Mt 13).

No Reino o maior é sempre aquele que serve, aquele que se dispõe ao perdão, que busca sempre a harmonia (Mt 18), por tal razão é que é difícil os homens ricos de si mesmo entrarem no Reino dos céus(Mt 19.24), e também os homens que barganham com o Senhor do Reino (Mt 20).

Devido à natureza caída dos homens é necessária uma conversão da consciência para que o Reino seja entendido e vivido, de outro modo não experimentam tal realidade (Jo 3), daí o chamado ao arrependimento(Mt 4.17).

Cabe aos filhos do Reino anunciar tal realidade, não somente com palavras, mas curando os enfermos, expulsando os demônios, libertando os oprimidos, alimentando os famintos, ressuscitando os mortos, transformando realidades, sem preguiça ou desistência, pois o Reino requer de seus filhos radicalidade no compromisso (Lc 9).

Enquanto no Caminho os filhos deste promovem o Reino também renovam suas esperanças Naquele que pelo seu poder e Graça reinará sobre todos os reinos do mundo (Apc 11.15). Nesse tempo de salvação universal o mal já não mais existirá (Apc 12.10).

Haverá um novo céu e uma nova terra onde tudo que nos separa já mais existirá. O mundo e Deus estarão em unidade visível e perfeita como um casamento. Não haverá mais lágrima, nem pranto, nem clamor, nem dor e nem morte. E todo mal será exterminado na segunda morte. E os salvos andarão na Luz, que é o Cordeiro que foi imolado desde a fundação do mundo para fazer convergir em si todas as coisas. (Apc 21)

A Glória pertence a Deus!

Ivo Fernandes
30 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Creio – Homem


O homem foi criado para Deus e em Deus. Sua existência só tem significado e plenitude Nele. Fora Dele o homem é pecado, em estado de subtração do ser, sem entendimento, sem bondade real. Toda sua tentativa de se ver bom fora Dele é um caminho de morte, pois nega sua condição existencial de caído, fruto de uma decisão essencial que nos foge ao entendimento, mas nos alcança pela experiência.

O relato do gênesis nos traz um quadro excelente da condição do homem fora Dele. Os sentimos que nos dominam nesta condição formam nossas sociedades e nossas religiões, vergonha e culpa.

A Queda, nome que damos a esse acontecimento essencial, porém, não foi determinante e nem última, vista já ocorrer no ambiente da Graça do Cordeiro imolado desde a fundação do mundo. E é por causa dessa Graça e nesta Graça que o homem caído é guiado pelo Espírito por meio da fé à plenitude do ser.

Assim o que somos, só somos Nele. E fora Dele está também a revelação de quem não somos. Pois Nele está a verdade e fora dele o que é não é. Aqui habita a razão de odiarmos a revelação, pois nos mostra nossa condição de caído, o que é insuportável fora do alcance acolhedor da Graça.

Ivo Fernandes
21 de outubro de2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Creio – Jesus Cristo


Eu creio que Jesus de Nazaré, nascido de mulher é o Filho de Deus, revelação do Ser Eterno. Sua humanidade não anula ou diminui sua divindade e nem sua divindade anula ou diminui sua humanidade, por tal razão podemos chamá-lo de Deus-Homem e só em razão de o Ser Deus-Homem é que também se chama Salvador de todos os homens.
Sua Humanidade não era uma ilusão ou aparência, de fato esteve sujeito a todas as leis que regem a humanidade. Nasceu e morreu, foi sepultado e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, retornou ao Pai e ainda virá revelar a reconciliação de todas as coisas Nele.
Sua vida revelou o amor de Deus pelos homens e o caminho da salvação do ser, caminho da graça, do perdão, da misericórdia, da bondade, da compaixão e da verdade. E mesmo tendo nascido dos judeus, o mistério da revelação é conforme a ordem de Melquisedeque, ou seja, sem relação exclusiva com nenhum grupo humano.
Através do tema da encarnação fica clara a unidade estabelecida entre o humano e o divino, fica revelado o propósito de fazer convergir todas as coisas em Deus, pois todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele, Dele vieram e para Ele voltarão.
Por causa da encarnação sabemos o que é Evangelho, sendo o anúncio da reconciliação de todas as coisas com Deus e o chamado para que se vivam a plenitude dessa reconciliação. Não é uma explicação filosófica ou teológica da existência, mas a vida mesmo. Por isso o chamado não é para explicar o problema do mal, mas para vencê-lo pelo bem.

Tal discernimento só se alcança mediante a iluminação do Espírito. Só por tal meio é que se diz que Deus é amor e no amor está toda justiça, e que por causa da negação do amor é que o mundo está julgado e condenado, mas por causa da misericórdia e da graça é que ele está reconciliado e salvo, o que será visto por todos quando o Filho a todos se revelar.
Por tal discernimento é que se sabe que o Reino de Deus ocorre primeiro na consciência dos homens, e que por isso não pode ser manipulado, controlado por forças humanas. Com isso podemos ter esperança que aquilo que olho ainda não vê já o é, afinal Nele habita a Plenitude de todas as coisas, o Deus revelado, o Homem revelado, a História revelada, por isso Nele está toda a Vida e fora Dele nada há.

Ivo Fernandes
15 de outubro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A ética do reino e reconciliação universal



Textos Bíblicos

Atos 3.18-21

Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado; que o Cristo havia de padecer. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor, e envie, Ele, a Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado. O qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio.
Romanos 5

Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação. Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram. Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado, não havendo lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir. Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos. E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos. Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça; Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.

Rm 8.32

Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?

Rm 11.32-36

Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia. Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

1 Co 15. 22-28

Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.

2 Co 5. 14-21

Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.

Ef 1.3-10

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado, em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, Que ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência; Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra.

Ef 4.10

Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para plenificar todas as coisas.

Fp 2. 5-11

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

Fp 3.20,21

Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.

Cl 1.15-20

O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.

Cl 3.9-11

Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.

1 Tm 4.9,10

Esta palavra é fiel e digna de toda a aceitação; porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis.

Tt 2.11

Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens.
Hb 2.8-10

Todas as coisas estão submetidas a Cristo, nada deixou que lhe ficasse insubmisso. Agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja submisso. Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos. Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles.

Apc 22.21

A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém.
Depois de todas estas coisas ditas pelas escrituras, sabemos que toda a existência está Nele. Não há mais um mundo sem Cristo e nem um Cristo sem o mundo, Deus se fez Homem. Negar o mundo reconciliado com Deus é negar Cristo. A Igreja não é diferente do mundo quanto a reconciliação, mas apenas quanto ao chamado para anunciar a reconciliação e quanto a fé nessa realidade. E ela não pode esquecer que o mundo que foi reconciliado foi justamente esse mundo mau, portanto na aparência esse mundo parece ser do diabo, mas a realidade é que só existe uma verdade, tudo pertence a Cristo, dizer o contrário é negar a reconciliação do mundo com Deus em Cristo.

Em Cristo Deus está unido com a humanidade; a humanidade está aceita por Deus e o mundo está reconciliado com Ele. Jesus carregou o pecado de todos os homens, nada ficou de fora. O mundo pertence a Cristo e só em Cristo ele é o que é.

Ivo Fernandes
13 de setembro de 2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A ética do reino e a finalidade da vida


O homem foi criado para Deus. Daí parte que só Deus é senhor do homem, e de fato só Deus tem direto sobre o homem. O homem que é de Deus é homem pleno. Tudo é Dele, corpo, alma e espírito. Atentar contra o corpo, alma e espírito, atentar contra o homem é atentar contra Deus. Por isso se diz “não matarás” e ainda “aquele que encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno”.

Ivo Fernandes
18 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A ética do reino como modo de viver


Diz Paulo, “Agora permanecem a fé, a esperança e o amor, a maior delas, porém é o amor”. Pela fé sabemos que fomos reconciliados com Deus em Cristo, o que nos dá a esperança da salvação e da glorificação, porém sem amor isso tudo é apenas informação que não gera bem para a alma.

É o amor que nos tirará do campo da observação para a prática da fé. Ele é a força do justo que o impulsiona enquanto aguarda o Dia em que as sombras todas serão dissipadas. Sem amor até a fé e a esperança seriam corrompidas. Sem amor caímos no erro da salvação pelo serviço ou pior, no entusiasmo da salvação sem serviço.

O amor transforma nosso comportamento por causa do nosso estado em Cristo. É por estarmos Nele e não para estarmos nele que nos movemos e existimos. É por estarmos livres Nele que de fato podemos servir aos irmãos, pois esse serviço já não é por nossa causa, ou por causa de algum mérito, é somente em razão do nosso estado Nele, só por essa razão os que são habitados pelo amor vivem de modo que sua mão direita não sabe o que faz a esquerda.

Ivo Fernandes
11 de setembro de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Entrevista Concedida ao aluno Sérgio Marçal do STPC.

1) Faça uma breve biografia sua.

Meu nome é Antônio Ivo Soares Fernandes, nascido em Fortaleza-CE. Desde a minha infância estou envolvido com a igreja cristã. Tive algumas experiências de conversão e as continuo tendo no decorrer destes anos. Lembro-me da primeira aos oito anos de idade, outra aos quinze, ano em que comecei a pregar. Na infância congregava em uma igreja Batista, batizei-me numa Assembléia de Deus, e depois tive, como pregador e professor, envolvimento com vários ministérios diferentes desde as igrejas pentecostais até as históricas. Atualmente sou mentor da estação do Caminho da Graça em Fortaleza. Sou casado com Janaína e tenho duas filhas, Ivna (9) e Cecília (1).

2) Qual o nome de seu ministério?

Pertenço a um movimento chamado Caminho da Graça, que tem o pastor Caio Fábio como mentor do processo.

3) Qual a principal linha teológica defendida?

Nosso movimento não tem uma linha teológica definida. Eu, enquanto indivíduo, possuo grande simpatia pelas teologias que não se encerram na arrogância de acabadas.

4) Em que assunto geralmente consiste o sermão?


Acredito que todo sermão precisa essencialmente ser cristocêntrico.

5) Qual seu conhecimento acadêmico?

Sou formado em teologia, com especialização em teologia contemporânea. Atualmente me especializo em pedagogia.

6) Tem alguma especialização ou conhecimento aprofundado em homilética? Comente.

Especialização não, mas tive uma boa experiência na graduação. Tive um professor dinâmico e criativo, que me fez ver a homilética com olhos de graça e me encantar pela pregação.

7) Qual a importância do curso teológico em sua opinião?

O curso de teologia é excelente para quem possui maturidade e uma base educacional. Claro que isso a associado às próprias metodologias de ensino. Sem essas coisas a teologia pode enganar o indivíduo com a pretensão de se sentir senhor da verdade.

8) Quanto tempo dedica para estudar a Bíblia?

Estudo a Bíblia todos os dias, pelo menos 2 horas diárias.

9) Como se utiliza do conhecimento histórico nas pregações?

O conhecimento histórico é uma excelente ferramenta para enriquecer a pregação, e para melhor facilitar o entendimento do texto bíblico e a devida aplicação contemporânea.

10)Concorda em fazer aplicações pessoais nas pregações? O que acha? Com que frequência realiza?

Concordo. Pessoalizar a pregação a deixa mais próxima dos ouvintes, porém é preciso cuidado, para não perder o foco da mensagem tornando-a apenas numa autobiografia.

11)Como vê a questão da relação entre o caráter do pregador e o púlpito?

O grande problema da sociedade cristã contemporânea é justamente a falta de caráter dos pregadores. Penso que a boa mensagem é aquela que antes de se manifestar em palavras é manifesta pela vida dos pregadores.

12)Qual a sua opinião sobre o caráter predominante dos pregadores nos dias de hoje?

Os pregadores de hoje em sua grande maioria possuem caráter duvidoso. Muitos apenas desejam vender a própria imagem. Pensam apenas em lucro. Não possuem amor sincero pelo Evangelho e nem pelas vidas humanas.

13)Em sua opinião, a pregação através de um homem que vive na prática contrária a Palavra, é eficaz e valida? O que acha?

Acho muito difícil um homem pregar o Evangelho de fato quando vive na contramão dele, mas supondo que pudesse pregar a Verdade mesmo agindo contrária a ela, acredito que fosse (a mensagem) poderosa para alcançar vidas.

14)É possível um pregador viver em paz consigo quando seus conceitos divergem muito da maioria?

Sim. Desde que suas convicções sejam produtos do refletir sincero sobre o Evangelho.

15)Como vê a pregação contemporânea?

Vejo que hoje seguimos três linhas bem evidentes, a que possuem sua base na teologia da prosperidade e outra que possui sua base nas confissões reformadas e a que busca tornar o Evangelho relevante para nossa geração. A primeira, vejo como adulteração da mensagem do Evangelho, a segunda vejo como infrutífera, a terceira vejo com desafiante para todo pregador que ama de fato a mensagem.

16)O que acha da quantidade de ministérios ou placas dentro de nosso estado hoje?

Lamentável. Visto que a maioria desses ministérios nasceu como fruto da ganância de alguns homens.

17)O que atribui aos frequentes escândalos no meio evangélico?

Falta de Evangelho genuíno. Cegueira do povo que não quer assumir uma atitude crítica. Impunidade.

18)Quanto ao louvor moderno, podemos acreditar que estamos realmente adorando a Deus, com esta diversidade de composições?

Não. Para mim o louvor moderno é apenas uma estratégia de venda e também de manipulação das mentes fracas que vivem a procura de ídolos para cultuarem.

19)Concorda com a obrigatoriedade do dízimo na igreja de hoje?

Não. Está em desacordo com o princípio do Evangelho.

20) Que mensagem deixaria para aproximar ao máximo o meio cristão do reino ideal, nos dias de hoje?

A mensagem é um chamado a conversão. A igreja cristã precisa converte-se ao Senhor da Vida e praticar os mandamentos e pregar o Evangelho. Quando essa geração de fato se converter, abandonando seus cultos-shows, seus cantores-pastores ídolos, suas manipulações e busca desenfreada por dinheiro; quando abrir mão dos legalismos sufocantes, das hierarquias esmagadoras, da futilidade cristã; aí poderemos começar a ver a manifestação do Reino.

A mensagem é a mesma: Arrependei-vos porque o Reino está entre nós e o machado está posto a raiz das árvores.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A teologia é inimiga da Fé?


Algumas pessoas argumentam como eu sendo professor de teologia consigo conviver com as duras críticas que o Caio Fábio faz a mesma, sendo eu mesmo participante do movimento que tem ele como mentor. E minha resposta quase sempre choca as pessoas, pois afirmo que concordo com o Caio, pois sei que ele dirige toda a sua crítica à teologia que se arroga o direito de senhora do saber, dona da Verdade. Porém, existe aquilo que podemos chamar de “boa teologia”.


A teologia pelo significado do termo é o estudo sobre Deus, porém ao termo “Deus” pode ser atribuído os mais variados sentidos. Desta forma não podemos falar de uma teologia, mas de teologias. E mais, por ser “Deus” em seus mais diferentes aspectos uma realidade da qual nenhum homem se esquiva podemos dizer que todo homem é um teólogo.


A diferença entre as teologias será mais de posição do que de apresentação, afinal todas, ou pelo menos a grande maioria proclama para si o direito de ser a única correta ou a melhor. Sendo assim para mim, a boa teologia será justamente aquela que não chamar para si tal direito. É aquela que está voltada para Deus como Senhor da Misericórdia, que alcança os homens independente de suas teologias.


A boa teologia, para mim, é aquela que tem somente por assunto as ações de Deus na história. Sim, as ações, porque Deus mesmo não pode ser coisificado, tornado idéia, princípio, conjunto de doutrinas. Deus é sempre maior do que nosso pensamento a respeito Dele e ainda sim Livre para Ser o que quiser até mesmo menor do que possamos pensá-lo.


A boa teologia é na verdade uma teantropologia, ou seja, o estudo do homem em relação a Deus.Diante de Deus toda teologia não passa de uma analogia humana. São especulações humanas, é uma resposta ante ao Mistério e não o Mistério em si, é uma palavra e não a Palavra. E toda boa teologia sabe isso de si, não arroga para si o título de autêntica, nem mesmo pensa interpretar legitimamente a Palavra, na verdade é justamente em sua fraqueza que a teologia confirma a Palavra e não em suas certezas.


A Palavra é Deus falando aos seres humanos quer esses ouçam ou não. A teologia é o homem falando. A Palavra é a Boa-Nova, a boa teologia é um anúncio da Boa-Nova e não a Boa-Nova mesmo. A Boa-Nova é a revelação de Deus como Pai e Senhor e do homem como criatura e filho. É da Aliança entre Deus e o homem que trata a Palavra, a boa teologia deve prestar serviço a essa Aliança.


A nossa salvação não repousa sobre um conjunto de teorias ou idéias, nem depende do nosso entendimento da “doutrina”. Não é a informação sobre Cristo que salva, mas a própria pessoa de Cristo. A boa teologia será aquela que consciente disso fará o que lhe impossível não fazer, refletir sobre a Fé. Na verdade, essa é a impossibilidade dos homens. Fomos criados como seres pensantes, ignorar isso é um desastre, porém a boa teologia sabe da limitação do pensamento humano.


O homem encontra-se com a Palavra e este fato inevitavelmente será interpretado. Foi da interpretação do encontro com o Cristo Vivo que nasceu a doutrina cristológica, e quem poderia dizer que ela não nos serve?


Quando Paulo afirma que Jesus “foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4:25), de igual modo está dando uma interpretação aos fatos da morte e ressurreição de Cristo. Isto é o que se vê em toda a Escritura, especialmente nas epístolas. Porém é o fato que deve está em evidência não a apresentação doutrinária do fato. Afinal o fato ganha sempre novas dimensões onde assim Deus aprouver, visto que Deus não está preso a nenhum grupo étnico, religião, tempo ou espaço.


A teologia será inimiga da fé todas às vezes que esquecer seu lugar de serva da Palavra que é Livre, mas lhe será útil todas às vezes que em sua limitação conduzir o home até o lugar onde tudo fica cativo a Cristo.


Ivo Fernandes

6 de agosto de 2009

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A Ética do Reino e a questão do pecado


Jesus Cristo é Deus Revelado, História Revelada e Homem Revelado. E como homem revelado é Nele que se manifesta o Homem Real, mas aqui faço uma distinção do homem ideal, conforme o modelo platônico, pois este é referência para juízo das cópias, àquele é realidade para pôr fim ao que não é. Daí, todo homem não conformado à imagem do Homem Real não ser Homem Pleno, resultando disto o Homem Pecado. No homem ideal nasce a possibilidade do juízo, no homem real, por nos escapar enquanto referência não temos como fazer tal juízo, pois o homem pecado só pode saber do real mediante o Espírito e não por referência.

O homem pecado é o mesmo desintegrado da realidade, é o homem em desarmonia, senhor de si – mesmo – que é imagem – e não do eu. É o homem que vive à margem do Real e por isso é filho da morte, escravo do pecado, filho do diabo.

Somente quando o homem pecado é exposto ao Homem Revelado e que O reconhece é que a conversão se processa. É no reconhecimento de quem não somos que está o arrependimento. Não há verdadeira metanóia sem a consciência da culpa que só se manifesta ante o Homem Revelado. E isso é Graça, visto ser impossível ao homem pecado tal consciência ser gerada por si mesmo.

Pecado tratado apenas como ato é diminuição de fato do pecado. O pecado é o que sou enquanto si mesmo, sendo o que faço apenas consequência natural disso. Sem confissão do pecado do si mesmo não há conformação ao Homem Revelado.

Quando se mantém o foco no pecado-ato nasce à moral humana com seus meios de julgar os homens os separando em categorias. Todo juízo nasce da moral humana e toda moral nasce da diminuição do pecado em categorias-atos e não em existência-essencial. Quando reconhecemos o pecado que somos o meu pecado é o pecado de todos e o pecado de todos é o meu pecado.

Sem a confissão do pecado que sou em si mesmo, ficaremos presos nas polaridades dos juízos humanos. Por tudo isso é que se está dito que não há um justo sequer. Nada que o homem faça o justifica, seu estado é essencial e não acidental. Assim todo homem só está justificado em Cristo e jamais fora Dele.

Somos salvos pela Graça, mediante a fé, porque nossa salvação está num fundamento fora de nós. Só no Homem Revelado somos e estamos sendo salvos.

Ivo Fernandes
29 de julho de 2009

(Reescrito em 17 de maio de 2016)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Deixei de ser evangélico


Há algumas semanas atrás alguém me falou que concordava com tudo que eu ensinava mais não gostava de eu não mais me denominar evangélico. Chegou a dizer que isso era uma mania do Caio seguida pelos seus discípulos. Lamentei por ver que alguém tão próximo nada sabe a meu respeito.

A verdade é que nem gostaria de estar mais escrevendo um texto sobre isso. Espero que em breve seja eu esquecido entre estes que insistem nos rótulos. Não deixei de ser evangélico de um momento pro outro. Meus diários são as provas desse meu caminho que há muito vinha trilhando em silêncio.

Não sou mais evangélico porque já não suporto ouvir as mensagens dos pregadores que representam este movimento. Nem abro mais os emails que me enviam com vídeos e notícias dos mesmos. De fato não quero mais saber.

Mas o fato de não ser mais pertencente a este movimento não é a negação do meu passado, e nem a afirmação de que Deus não é Senhor destes. Pelo contrário, continuo amando a minha história. Continuo lembrando com saudades dos tempos da minha infância e da igreja de bancos feitos de tronco de árvores. Lembro das lágrimas derramadas em consagrações pela manhã, dos louvores que até hoje canto, da oração sincera dos irmãos.

Porém hoje, e já não acredito que isso vá mudar, tudo é um grande mercado. Meu Deus! as músicas são pobres e muitas vezes atentam contra o espírito do Evangelho. Não suporto mais hinos de guerra ou de vitória certa.

Não consigo mais conviver com os “moralistas”, com os “fundamentalistas” que manipulam a vida das pessoas por meio do que eles chamam de sã doutrina. Não suporto mais ver almas sendo condenadas ao fogo do inferno por estes que praticam coisas bem piores do que aquilo pelo qual eles estão condenando as pessoas.

Deixar de ser evangélico não é negar a fé, antes é afirmá-la. Eu Creio no Deus de Amor revelado no Filho e na Salvação dos homens realizada Nele. Eu Creio no poder do Espírito Santo que distribui dons a fim que Sua Igreja seja edificada. Eu Creio na Ressurreição e na Vida Eterna.

Mas eu não creio na certeza dos homens. Não faço da minha teologia a minha fé. Não acredito na condenação por causa da informação. Não creio que a salvação depende da informação. E sei que toda interpretação é relativa. Não creio na doutrina fundamentalista da inerrância das Escrituras. Não confundo Deus com textos.

Não posso mais viver tentando encaixar Deus nos meus moldes. Deus é livre. Já não consigo conviver com nada que não respeite essa liberdade de Deus. Também já não quero ouvir o deus-explicação. Quero andar por fé.

Deixei de ser evangélico por que quero andar com esse Deus que é livre. Quero me deliciar com a Palavra esteja ela na bíblia ou nas músicas do Raul Seixas. Deixei de ser evangélico por que o deus muitas vezes apresentado não me encanta e na verdade nem me assusta. Não amo o deus que se parece com o pior da natureza humana.

Sigo feliz pelo Caminho. A cada dia é uma descoberta e a cada dia descubro que ainda não descobri nada. A cada dia é um mistério. A cada dia entendo mais que Deus está bem mais próximo do que podia imaginar. Ele está nos livros que leio, nas piadas que me fazem rir, nas músicas que me tocam, na oração silenciosa, e principalmente no próximo com quem me relaciono.

Deixei de ser evangélico, mas não deixei o Evangelho. E qual minha religião hoje? Caminho da Graça? Não! O Caminho da Graça é apenas um nome para minha caminhada individual e coletiva. Não é minha igreja, não é meu clube, não é minha religião. Jamais prenderei a minha alma. Hoje ela segue o Vento. E a fé que tenho, tenho para mim mesmo, mas se você quiser no Caminho eu conto.

Ivo Fernandes
14 de julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

As profecias


Minha vida foi cercada pelas profecias, desde criança que escuto profetas falarem do meu destino, desde o ministério até casamentos, desde viagens até bens que possuiria. A maioria dessas profecias nunca se realizou, e outras aconteceram justamente o oposto, porém eu creio em profecias, mas já não tenho crido nos profetas do meu tempo.

Hoje não busco mais profecias, pois sei que profecias legítimas me procuram e não eu a elas. Os que buscam profetas são os mesmos que outrora buscavam cartomantes ou toda espécie de adivinhos e que agora se sentem mais cristãos por o tal indivíduo adivinhar em nome de Jesus.

Já vi muita coisa para saber que a maioria desses profetas anuncia toda espécie de coisa a fim de seu nome ser honrado. Vi profetas que se perderam na necessidade de manter o público e para isso começaram a profetizar falsamente. Já vi profeta surtado a ponto de afirmar que Deus honraria até suas invenções.

A maioria das pessoas que os consultam é frágil no entendimento e ficam admiradas com a capacidade de eles saberem de coisas que só os mesmos sabiam. Faltam-lhes informações sobre os poderes da mente e das energias que nos cercam, além de falta de entendimento da Palavra.

Profecias legítimas carregam o espírito da Palavra e jamais vão contra a mesma. O resto é adivinhação de profissionais, é um jeito de legitimizar bruxaria dentro do cristianismo.

Hoje vivo pela fé e não pela profecia. Sei o que essas coisas todas já me fizeram. Sei que Deus fala com os seus e fala de muitos modos que não confundem, mas não há outro melhor lugar de comunicação que o próprio Cristo a revelação de Deus e de sua vontade.

Ivo Fernandes
1 de julho de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A ética do Reino e Jesus como a Revelação da História



Jesus Cristo não é somente a Revelação de Deus, mas também a Revelação do Homem, e ainda mais a Revelação da História. Nele está toda realidade e todas as coisas convergem Nele e para Ele.
Falar de Cristo como o Revelador da História é dizer que todo mistério da existência está manifesto. Fora Dele a história do mundo é sem sentido. Nele o mundo é criado, julgado, condenado, perdoado e salvo. Nele todas as coisas estão reconciliadas.

O Deus-Homem também é o Deus da História. Ele se une a natureza humana e se une a história plenamente. Negar a humanidade ou negar a história é também negar a Deus que se fez homem e história.

Feito homem na história deixa-nos a missão de não se esquivar da humanidade real e da história real. O caminho para Ele é um caminho real feito de gente real. O que seus discípulos precisam ser também é gente como Ele foi. Nada de santos entre pecadores, nem de justos entre injustos, mas de seres humanos reais no meio de um mundo desconfigurado.
Todo caminho de glória humana, de autojustificação, de superação da humanidade, de heroísmos, de divinização, de eliminação do ser real é um caminho que nega Deus. Ser discípulo de Jesus é ser o humano que na realidade se é. Morrem as aparências, a hipocrisia, a necessidade de ser o que o que não se é.

Os discípulos de Jesus não são defensores de doutrinas são apenas seres humanos diante de Deus. Eles amam o ser humano real e não uma especulação sobre a humanidade. Suas preocupações não são com lógicas filosóficas, mas com o homem, pois Deus não se fez doutrina, teologia, filosofia, lei, Ele se fez homem.

Isso tudo nos leva a uma ética concreta. O Deus-Homem adverte os seus sobre o perigo de julgar as pessoas, pois quando julgamos os homens julgamos também a Deus. Assim fica proibida a divisão do mundo e dos seres humanos.

O destino de Jesus é o destino da humanidade. Nele está toda a plenitude da divindade e também da humanidade. Desprezar a humanidade é desprezar a Deus.

Vede então o nosso destino! Nele fomos condenados. A culpa da humanidade caiu sobre Ele e Nele o juízo de Deus nos matou, e sua morte, ou nossa morte Nele, é a reconciliação entre o mundo e Deus. Por termos sido julgados Nele é que podemos viver diante de Deus. Na cruz está revelado nosso julgamento, nossa situação.

Na ressurreição o homem está novo diante de Deus. E o que ainda no tempo-espaço está oculto já é contemplado pela fé – “eis que tudo se fez novo”. Para muitos esse mistério ainda está oculto, mas a Igreja carrega o mistério de Deus revelado, a saber, Deus em nós, esperança da glória.

Ivo Fernandes
25 de junho de 2009

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A ética do Reino como inclusão


Depois de ler e reler os evangelhos algumas vezes sinto-me convencido de que Jesus não possuía uma mensagem exclusivista, pelo contrário, Ele amplia os limites bem mais do que seus discípulos e seus ouvintes podiam esperar ou imaginar.

No seu ensino os grupos excluídos pela sociedade são destacados e chamados a inclusão no Reino. E essa inclusão não se dá por causa de uma religião, raça, credo, cor ou condição social. Todo fundamento do Reino é reconciliação.  

Ivo Fernandes

29 de maio de 2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A ética do Reino


Quando falamos em ética é natural associarmos esse tema aos valores morais de uma sociedade, mas quando nos referimos à ética do Reino não podemos fazer isso, pois a moral que é a base do conhecimento humano sobre o “certo e errado” nasce da condição alienada do homem de Deus. Assim, as expressões “bem e mal”, “moral e imoral”, “valor e sem valor”, “autêntico e não autêntico” não são termos que se aplicam quando falamos de ética do Reino.

Enquanto a moral divide a vida entre coisas permitidas e proibidas a ética do Reino aponta para o que É. Todo conhecimento moral é um conhecimento humano, que está direcionado para si mesmo, ou seja, a moral nasce do olhar do homem posto sobre si mesmo. Por meio dela os homens criam suas leis e exercem seus juízos.

Jesus que anunciou a ética do Reino está na contramão desta moral. Por isso não encontramos verdadeiro diálogo entre Ele e os fariseus que tão bem representavam a moral, e isso porque Jesus e os fariseus estavam em níveis completamente diferentes de realidade. As respostas de Jesus não respondiam a pergunta do fariseu por não ser da mesma natureza.

A moral nasce marcada pela culpa e pela vergonha. A consciência humana é marcada por este estado, e, portanto, busca sempre resolver esta tensão. A religião é a que melhor apresenta essa tensão, esse conflito entre o “bem e o mal”, e por meio dela sempre se tentou trazer Deus para nossa esfera de conhecimento, buscando Dele uma resposta de acordo com nossa pergunta, porém Ele não age a partir do conhecimento do bem e do mal.

Jesus nos apresentou a ética do Reino como anulação da moral, pois se o Reino é Reconciliação e a moral a afirmação da alienação, onde houver o Reino não haverá moral, mas apenas Unidade. Na moral não há mudanças de realidade, mesmo cumprida o “bem” da moral ela não altera o estado de alienação humana.

Onde houver juízo que separa, há moral como base do juízo. Onde houver moral está presente o estado da alienação. Onde houver Reino há a vontade de Deus que é a reconciliação. E a vontade de Deus é um saber que não se configura como saber humano, antes é um saber sem saber do “bem e do mal”, mas apenas da reconciliação. E quem sabe este não-saber sabe todas as coisas.

O religioso por saber o “bem e o mal” classifica meritoriamente seus atos, fazendo de seu bem um mal. Os filhos do Reino não sabem do “bem”, mas apenas do que É, por isso, são surpreendidos quando isso os for revelado (Mt 25.31ss.).

Nem mesmo o auto examinar-se dos filhos do Reino é realizado por este saber alienado, mas em Cristo, por meio do qual sabemos a vontade de Deus. Assim sem Cristo em nós não há como se fazer exame de si mesmo.

O saber dos filhos do Reino é o saber do Amor, que é a revelação de Deus, Jesus Cristo. Este saber tem origem em Deus e não em nós, assim este Amor é divino. E entre os homens o divino chama-se Cristo. Amor é sempre Ele mesmo. E ele é a reconciliação de todos em Si mesmo. Desta forma concluímos que onde houver um saber que separa, que divide, que segrega, que julga, que exclui ali não há o Reino.

Ivo Fernandes
14 de maio de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A fé de um homem


“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” Apóstolo Paulo

Algumas pessoas acham que minha fé é muito “humanista”, sei que com isso querem dizer que em mim há mais conhecimento do que experiências espirituais. Outras dizem que a fé morreu em mim, devido aos meus muitos estudos e leituras. Mas o que parecem não perceberem é que a única coisa que mudou foi meu estado infantil.

Como homem, já não ignoro a realidade a minha volta. Também já não vejo Deus como via enquanto menino, que por minha infantilidade exigia que Ele resolvesse todos os meus conflitos.
Hoje entendo que o caminho da fé não me livrará necessariamente do caminho da dor, mas isso já não muda a minha fé em Deus que continua presente mesmo em silêncio. Não confundo mais a Deus com as imagens que posso fazer dele.

Deus a cada dia me surpreende desfazendo todo esquema que elaboro sobre ele. Deus é meu Pai da mesma forma que foi Pai de Jesus, e isso não implicou em vida sem dor, mas antes lhe deu o poder de caminhar pela finitude sem deixar-se sucumbir com seu paradoxo.

Não busco mais respostas. Sei que algumas perguntas jamais serão respondidas. Minha fé convive com minha ignorância e não é afetada por ela. Não pretendo mais seguir caminhos que me infantilizam, como homem já não posso retroceder.

Ivo Fernandes
7 de maio de 2009

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Vida abundante


Vida abundante é uma frase das mais utilizadas pelas igrejas modernas que tentam convencer os homens que ser cristão é sinônimo de felicidade, bem-estar, prosperidade, bens, riquezas, posses. No entanto, Jesus, nunca tratou a vida dessa forma. Ele via a vida como era e mostrou o caminho de vida em meio ao estado paradoxal da existência humana.

O caminho da vida em Jesus é o caminho da negação do “si - mesmo”. Ora o “si- mesmo” é a projeção de todas as carências humanas. Negar, então, a si mesmo não é a negação de práticas quaisquer, mas de um estado que vê tudo a partir dos próprios desejos.

Vida abundante é resignificação da vida. É viver sob o prisma do Eterno. Quem vive sob este prisma já não vive a ansiedade dos tempos modernos. Já não é como um sedento que vive em buscas de águas que matem sua sede, mas ao contrário do seu interior flui um rio de águas vivas.

Viver assim não é negar o paradoxo da existência e nem as necessidades humanas que por vezes nos fazem sofrer, mas essas dores já não são mais absolutas e nem nos esmagará o ser.

Vida abundante é vida em fé. Fé no amor de Deus que nos faz descansar, nos libertando da culpa e do medo. Diante dessa vida abundante aquela vendida pelos pregadores da modernidade torna-se ridícula, pois na verdade é apenas uma ilusão.

Ivo Fernandes
28 de Abril de 2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O propósito de Deus – A Imagem do Homem.


Todo esquema teológico ou filosófico precisa partir de um tema a fim de que se desenvolvendo abarque todos os demais temas possíveis. Isso se chama sistematização.

Mesmo reconhecendo os limites do conhecimento humano, e a finitude que não nos deixa ver nada além de nós mesmos(Is 55.8,9), a menos que a nós seja Revelada outra verdade(Lc 10.21), assumo o risco de afirmar que todo pensar teológico precisa partir da questão do propósito de Deus.

Isso porque, partir da questão de Deus mesmo é impossível. Afinal quem é Deus? O que Deus é? Deus estará sempre acima dos conceitos que podemos fazer dele. O propósito também estará além de nossas especulações, mas acredito que de alguma maneira não estamos tateando no escuro. O propósito foi revelado.

E qual é o propósito de Deus? Conduzir os homens a imagem de Seu Filho (Rm 8.29; 2 Co 3.18; Ef 1). Sendo este o propósito tudo o mais será visto dentro dele, afinal neste processo nenhum dos seus planos podem ser impedidos (Jó 42.2).

A própria Queda deve ser vista dentro deste propósito. Afinal foi por meio desta via que nasceu a consciência e por meio dela o entendimento da Graça que sustenta.

Adão enquanto ser-antes-da-queda era algo não classificável. Sua ‘consciência’ não era uma com-ciência. Seu saber estava limitado pela não-experiência. E tudo que podemos dizer a respeito dele é que a história humana é pós-Queda.

A Queda mesmo tendo feito os homens deixarem sua condição essencial e os lançarem numa existência finita e paradoxal, os lançou também num caminho de busca – a busca pelo fundamento do ser. Habita neste ser um saber que se sabe incompleto, imperfeito, mas que o fala de um caminho possível de reconciliação com o Ser-fundamento.

A encarnação do Verbo nos fala que por este caminho é que somos conduzidos ao Fundamento. Qual o propósito da encarnação se não fosse de fato em Cristo, Deus conduzir os homens a si mesmo, levá-los a serem conforme Sua imagem.

Para isso o Espírito tem conduzido os homens a se reconciliarem com Deus, pois é somente ligado ao Fundamento que de fato o homem pode ser chamado de pleno.

Salvação é o caminho de torna-se quem se é em Cristo. Daí todo caminho que conduz o homem para um ser-que-não-se-é chama-se condenação. Salvação é tornamo-nos a melhor versão de nós mesmos, versão essa que tem seu fundamento em Deus.

Ser como Cristo é ser plenamente consciente de quem se é, de quem Deus é, e do que somos Nele. E o caminho de ser quem se é só é vida se for trilhado no solo da Graça, pois sem graça buscar saber quem se é conduz o homem a morte. Buscar saber quem se é pelo caminho da serpente é enganar-se e ver-se perdido de si mesmo e do Fundamento, o que gera toda espécie de medo, culpa, dor, confusão e morte.
Ser como Cristo é ser liberto para ser apenas o que se é. E o que se é, é aquilo que Nele somos. Nele está nossa realidade. Em Cristo se manifestou o que haveremos de ser, pois na verdade Nele já somos. Esse é o caminho dos homens a Deus, uma jornada de transformação de glória em glória.

Em Jesus, Deus nos mostrou Sua face. Em Jesus, Deus também revelou a nossa. E não somente o fim, mas o caminho, afinal se somos o que somos Nele, não poderá haver outro caminho que não seja Ele mesmo.

Ivo Fernandes
1 de abril de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

Conhecendo Jesus


2 Coríntios 5

Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu; Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito. Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (Porque andamos por fé, e não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor. Pois que muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes. Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal. Assim que, sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens à fé, mas somos manifestos a Deus; e espero que nas vossas consciências sejamos também manifestos. Porque não nos recomendamos outra vez a vós; mas damos-vos ocasião de vos gloriardes de nós, para que tenhais que responder aos que se gloriam na aparência e não no coração. Porque, se enlouquecemos, é para Deus; e, se conservamos o juízo, é para vós. Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”


O século XIX viu o surgimento e o fracasso de uma busca que foi conhecida como a busca pelo Jesus histórico. A partir da afirmação que os relatos dos evangelhos estavam helenizados, e envoltos no pensamento mítico dos judeus, se tentou descobrir quem era Jesus para além da compreensão de fé dos primeiros discípulos.

O resultado desta busca foi um fracasso. O Jesus histórico para além da fé não apareceu, ao contrário, a pesquisa o distanciou mais ainda do círculo do conhecimento humano.

Quanto mais se tentava construir a imagem de um Jesus Histórico mais oculto ficava o Cristo das mentes. Bultmann (1884-1976) tentou solucionar isso apelando apenas para o Cristo da fé ou o Jesus querigmático, porém, é claro que o Jesus da História é o mesmo Cristo da fé, agora, a certeza a respeito do Cristo da fé independe dos resultados históricos oriundos dos estudos críticos do Novo Testamento. A fé garante o que a pesquisa histórica jamais vai nos dar. De que modo a fé pode ter tanta certeza? Que, realmente, pode garantir? Esse é o problema para os que insistem em fazer da sua fé uma garantia, uma obra meritória. Deixamos de pregar a salvação pelas obras, para pregar a salvação pelo conhecimento crítico-histórico.
O apóstolo Paulo que poderia de fato possuir um autêntico conhecimento histórico a respeito de Jesus já nos revela que esse tipo de conhecimento, mesmo sendo possível em sua época, não era o conhecimento fé.

Para Paulo conhecer Jesus não tinha haver com acúmulo de informações, mas com Encontro, que nos constrange pelo amor. Ou seja, sem Relação qualquer conhecimento de Jesus que se transforme em "fé" não passaria de idolatria, visto que só O conhece de fato quem com Ele se relaciona, e isso nos ambientes da alma, longe de qualquer averiguação humana.

Ter informações não nos leva ao Cristo da fé. Jesus teve diversos ouvintes, quem creu ser ele o Cristo? Ora, se era assim para os que o viam no tempo-espaço, imagine para nós.

Conhecer Jesus é uma Revelação que procede de Deus, e toda prova fica desnecessária ante tal Revelação.

Sem a Revelação nos juntaríamos aos muitos pesquisadores que não conseguem ver nada além de um bom homem frustrado em seus sonhos, idealizado por seus místicos discípulos.

Pela Revelação pouco sabemos da história humana, mas sabemos da história eterna – Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo todo!

Uma fé que dependa dos resultados das investigações históricas não pode ser chamada de dom divino. Se tentarmos fazer da fé algo que tem haver com a pesquisa humana, transformamo-la numa das mais fortes obras meritórias e temos caído da Graça.

Ivo Fernandes
12 de março de 2009

quarta-feira, 11 de março de 2009

Santidade

Texto Inicial: (1PE 1:16) - Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo.

Introdução

Decidi falar de santidade hoje por perceber que na igreja evangélica são as mulheres que são mais cobradas. É sobre elas que pesa a maioria das proibições. A maioria dos homens consegue até justificar seus pecados culpando a mulher de levá-los a pecar. Assim, percebo que as mulheres estão levando um fardo pesado demais, e isso por séculos. Hoje, pela Graça de Deus, gostaria de falar o que na Verdade no Evangelho significa ser santo.

Análise do Texto

O texto que lemos nos exorta a sermos santos como o Senhor é santo, mas a pergunta que se faz é: - Como podemos ser santos como o Senhor? Ora, a resposta para essa e para todas as perguntas que temos a respeito de Deus, estão respondidas em Cristo. Sendo, assim devemos ser santos como Cristo foi. E como Cristo foi santo?

Cristo é o exemplo máximo de santidade para vida de qualquer pessoa

Vamos analisar alguns comportamentos de Cristo, a fim de aprendermos com eles:

Jesus e a pecadora que O ungiu. (Lc 7.36-50)

Neste episódio o Senhor nos mostra que ser santo não é se esquivar do próximo só porque ele não tem uma boa-reputação social, antes é permitir que sua alma se revele da forma em que se encontra.

Jesus e o homem hidrópico (Lc 14.1-6)

Neste, Ele nos ensina que mais vale a vida do que as Leis, mesmo que essas leis recebam o nome de sagrada.

Jesus entre os publicanos (Mt 9.9-13)

Neste, Ele nos mostra que ser santo não é se esquivar da vida e nem da agitação da mesma, mas no meio desse mundo agitado exercer misericórdia.

Jesus e o Leproso (Mt 8.1-4)

Aqui Jesus nos mostra que quando se é santo não se suja ou se corrompe quando tocamos o impuro, já que esse toque é um toque de amor. Aqui, as ordens se invertem. Para os judeus religiosos um homem puro se contaminava ao tocar num impuro, para os Filhos da Graça, o homem impuro é abençoado quando tocado pelas mãos daquele que o toca com amor.

Jesus nos mostrou com sua vida que para ser santo não precisamos maquiar a realidade, fingir para não ser mal interpretado. Por isso Ele não se preocupou com o que diriam a seu respeito, apenas se preocupou em ser íntegro, e ser íntegro é ser verdadeiro para com a nossa condição humana: é ter a coragem de chorar em público, como Ele chorou (Jo. 11.35), de admitir perdas e saudade (Jo. 11.36), de gritar de dor (Mt. 27.50), de confessar depressão (Mt. 26.38), de pedir ajuda (Mc. 27.50), de se confessar cansado (Jo. 4.6), de dizer tenho sede (Jo. 19.28), de confessar dificuldades familiares (Mc. 3.21;Jo. 7.1-9), de admitir que a privacidade é um direito e uma necessidade de sobrevivência (Mc. 6.30-32,45,46). Com Jesus aprendemos que até sendo alvo do silêncio de Deus podemos ser santos (Mt. 27.46).

Conclusão

Dessa forma, sabemos que a santidade que a igreja exige da maioria de nós é apenas uma performance para termos uma boa imagem para os outros, e esse tipo de atitude só faz mal para a alma. Hoje o Senhor nos convida a deixar de carregar esse fardo religioso e a semelhança Dele caminharmos com o coração pacificado no chão da existência.

Ivo Fernandes
(Mensagem ministrada no encontro de mulheres cristãs)

terça-feira, 3 de março de 2009

A Eleição como Boa-Nova


E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamos-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” 2 Co 5.14-21

A eleição e temas como a predestinação, livre-arbítrio, condenação, salvação são os que ainda geram mais polêmicas e debates nos centros de teologia. Escuto sempre nos corredores dos lugares onde dou aula essas discussões e não consigo deixar de perceber a infantilidade em torno de tudo.

Quando tais debates chegam às comunidades geram confusão e guerras doutrinárias. De fato anuncia-se uma mensagem que não traz nenhum alento para a alma, seja ela de ordem agostiniana, pelagiana, calvinista, arminiana, ou as semi - algumas delas.
Já li de tudo, e vejo que em todas as exposições não há um anúncio de Boa-Nova. Até entre os convictos calvinistas, não vejo nada além de submissão há uma doutrina no mínimo estranha, diante da revelação de Jesus Cristo.

O problema dessas “teologias” é que colocam a eleição como um meio e no meio de um processo que é iniciado no que chamam de mistério soberano, ou seja, num estado vazio, de que nada sabemos. Desta forma ficamos sem saber o que move a Deus em relação à eleição, quando na verdade a eleição está no começo, melhor, antes do começo, de qualquer coisa que se possa dizer sobre a relação de Deus com suas criaturas.

“O Cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo” (1 Pe 1.18-20;Apc 13.8). Essa é a Boa-Nova, a real mensagem de salvação, a saber, Deus desde a eternidade decidiu ser Deus na forma dessa Graça para com os homens, e não de outra maneira. Desta forma podemos dizer que a Graça é, pois o começo de todas as obras de Deus que em Jesus nos foi revelada.

A eleição nos fala a respeito deste Deus de Graça, falando de outra forma, não há criatura que não tenha sua origem e existência nessa Graça. Isso de fato é uma Boa-Nova, e este é o conteúdo do Evangelho, o anúncio do sim de Deus, a revelação do Seu amor e de sua Graça aos pecadores. Em Jesus Cristo, desde a eternidade, no ato da eleição, Deus tem voltado seu rosto, de modo gracioso para os homens. Nele, Deus não é contra, mas por nós e pelo mundo. O sacrifício de Cristo não é um meio para levar a cabo a salvação de alguns, mas a própria salvação manifesta Nele de todos os homens. (Ef 1)

E onde ficaria a ira de Deus?- perguntam-me alguns. Ela se encontra no Filho. Nele a ira se acende, o juízo é pronunciado e a punição afligida, e a rejeição toma seu lugar. Assim, por meio do Não ao Filho (Mc 14.36) houve um Sim aos homens (2 Co 1.20). Em Jesus Cristo podemos crer na certeza que Deus não abandona a obra de Suas mãos.

Na Eleição em Cristo, Deus tem dado ao homem a eleição e escolhido para Si a rejeição. Deus se faz objeto de seu próprio juízo severo, condenação e morte que merecíamos, e não mais se dirige aos homens de outra forma que não seja Graça. Nossa rejeição foi vista Nele e em nós já não é mais.

Crer de outra forma é perverter a Graça e pisar o sangue da aliança (Hb 10.29). Crer de outra forma é a negação do amor de Deus, é a tentativa de fazer ressurgir a já não mais existente inimizade com Deus. Ora, isso é impossível, porém deixa o indivíduo num estado existencial de inimizade, vivendo a virtualidade da inimizade, quando a realidade já é de reconciliação.

Eleição, então, não nos fala de um negro segredo, mas de uma Graça revelada. Como homem eleito, Cristo, em sua própria humanidade, é o Deus que a todos elege Nele. Assim, o impossível aos homens foi possível por causa de Deus (Mt 19.26).

Cabe aos discípulos de Jesus contar ao mundo essa Boa-Nova, anunciar a todos a reconciliação, e por meio dela chamar a todos a obediência como fruto da alegria, do reconhecimento do amor de Deus, a fim de que experimentemos a liberdade para qual Cristo nos libertou (Gl 5.1).

Ivo Fernandes
3 de março de 2009

A justificação pela fé – uma exposição no Caminho

Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3 A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a prote...