quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Uma sexta-feira santa


Eram as primeiras horas da madrugada da sexta-feira chamada santa. Meu coração se encheu de um sentimento estranho, uma mistura de tristeza com esperança, de paz com inquietação. Há pouco havia brincado com familiares, havia curtido os nove anos de minha filha mais velha. No fim da noite da quinta-feira participei de uma conversa sobre Deus, com uma espiritualista e uma cristã-mórmon.


No começo da conversa ríamos até juntar-se a mesa alguns cristãos-evangélicos que junto com a cristã-mórmon demonstravam saber tudo sobre Deus e sobre o que ele pensa. Não podia mais participar daquilo, o que falasse pareceria mais uma receita sobre Deus.E o que sei sobre Deus?


Entrei na sexta-feira santa com meus pensamentos presos a pergunta que fizera. Lembrei-me de minha infância e da trajetória até aqui. Aos oito anos começava minha jornada de identificação cristã. Nessa idade era o que os outros diziam que era. Alguns acreditavam profundamente em algo a meu respeito que eles chamavam de chamado, o que mais tarde depois de muita luta também passei a acreditar, até entender que não há para mim outro chamado que não seja viver para aquele que por mim morreu e ressuscitou.

Aos 12 anos não sabia como me identificar. Tinha vergonha em alguns círculos de me identificar como evangélico. Hoje não é apenas em alguns círculos. De fato, não quero mais nenhuma identificação com este movimento.


Aos 15 anos minha vida mudou, comecei a pregar. Em pouco tempo já era conhecido em várias igrejas dos bairros próximos ao meu. Pregava, e não me recordo de nada que tenha sido de fato algo que tenha procedido do meu coração. Falava muito do que ouvia, mas desde essa época meu coração se inclinava para a mensagem da Graça. Isso, desde então, me trouxe problemas.

Arranjei confusão com líderes da minha igreja por tratar de assuntos como a masturbação de uma maneira tão diferente deles. Afinal nunca disse que tal ato era pecado e me recusava condenar os praticantes de tal ato, à medida que falava de um viver equilibrado.


Aos 18 anos fui consagrado ao pastorado. Foi na primeira experiência como pastor que aprendi mais sobre a vida, e comecei a ver que não tinha todas as respostas para todas as perguntas que me faziam. Era uma comunidade muito pobre, cheias de desafio e problemas a maioria deles sem solução aparente.

Nesta idade comecei a estudar teologia. Isso me empolgou, e até hoje me empolga. No entanto, minha viagem na teologia também me trouxe problemas. Nos primeiros anos estudei tudo sobre as doutrinas defendidas pelo ministério que fazia parte. Sabia tudo, mas aquilo não me encantava, e nunca consegui falar com paixão daquilo que chamavam de ortodoxia, o que hoje sei que não deveria carregar esse nome.


Depois de um tempo, conheci a teologia reformada. Foi emocionante a leitura, mas não consegui conviver com as certezas dessa teologia. Começava a ficar claro que não conseguia amar a Deus se ele fosse daquela forma.

Conheci a teologia liberal, neo-ortodoxa, neoliberal, libertação, latino-americana, secular, feminista, negra, inclusiva. Passei a me dedicar aos estudos do Novo Testamento. Li muito sobre a questão do Jesus histórico. Avaliei os textos em busca de tal Jesus. Alguns anos de grego, o que foi abandonado, quando abandonei também tal busca.


Aos 23 anos numa tarde em frente ao mar, consultei meu coração. A partir daquele dia gostaria de ser fiel a minha consciência, pregar o que estava em meu coração. Isso me levou a sair da igreja onde havia sido consagrado e sucessivamente das três próximas igrejas que participei. De fato não havia espaço para mim entre aqueles que viam na minha mensagem uma perversão.

Aos 25 anos já não estava mais entre os evangélicos e fui tratado como herege por todos aqueles que outrora me chamavam de amigo. A coisa piorou quando na minha caminhada associei-me com os do Caminho, entre eles o Caio Fábio a quem também haviam declarado herege.


Tive que deixar alguns empregos. Tive que ver amigos me tratando como desconhecido. Tive que ver meu nome sendo difamado na boca de muitos. Tive que experimentar a mais profunda solidão e foi nesse período que de fato meu coração foi plenamente tomado pela Graça. Já não havia mais nenhuma a barganha a fazer com nada e nem com ninguém.

Continuei pregando o Evangelho e agora mais livre do que nunca. Continuei dando aula de teologia e agora de fato sendo um teólogo que não tem a presunção de encaixar Deus em meus finitos pensamentos.


E hoje, nesta sexta-feira santa sinto-me livre de ter que defender o que quer que seja para quem quer que seja. Afinal, o que sei sobre Deus? O que sei Dele na verdade não serve para ninguém, pois o que sei é fruto de um coração alcançado misteriosamente. Sei o que sei para mim. O que tenho a dizer para quem serve com convicção o deus do terror? Nada.

A fé que tenho, de fato tenho para mim mesmo. O caminho que sigo, de fato sigo só, mesmo sabendo que há companheiros de jornada.


Hoje, abri minha caixa de emails e vi alguns textos de amigos. Poderia participar e falar alguma coisa, mais o que? O que creio, creio para mim, mas não sou a verdade e nem mesmo o guardião dela.

Hoje quero deixar cada um seguir seu caminho. Seguindo o meu caminho, vou falando da boa-nova do amor do meu Deus por todos os homens e de salvação gratuita para todos, quem quiser ouvir ouça, quem não quiser não ouça. Não pensem que tentarei converter alguém a alguma coisa. Não creio em coisas, creio num Ser, e com ele não adianta conhecimento, apenas relacionamento, e isso é mistério.


Quero de fato respeitar a todos, visto que em muitos momentos, falei apaixonadamente e acabei por passar a impressão que era detentor da verdade, senhor da revelação. Não! Eu não sou!

Para respeitar preciso confessar que não posso mais participar de rodas onde Deus seja debatido. Não tenho um Deus para debater, e nem para colocar na arena das verdades-humanas. Na verdade não tenho um Deus para ofertar aos outros. No máximo posso falar da convicção do meu coração e da paz que procede Dele. Ou seja, só posso falar de mim e não de Deus.

Aos amigos que me pedem para participar das discussões, perdoem-me, não posso. Como teólogo posso participar de tudo que diga respeito a nossa limitada e pobre compreensão do fenômeno religioso, mas não posso discutir quem está acima de todo conceito.


O caminho continua sendo para mim. O Caminho é da Graça e na Graça. Os homens que caminham neste caminho são por mim admirados e amados. Mas ninguém se sinta obrigado a nada, por me ver fazendo algumas coisas. O que faço, faço para mim. Sigo com alegria na companhia destes homens que como eu, não têm outro caminho a fazer.

Ivo Fernandes
Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Descansando na Graça


A história relatada em Lucas 10 sobre Maria e Marta e de como Maria escolheu a melhor parte tem me ensinado bastante nos últimos anos. Desde os meus 18 anos que pastoreio, desde os 15 que vinha pregando. Minha vida só fazia sentido na prática do serviço pastoral.

Sempre fui feliz por ajudar as pessoas, mas de maneira quase inconsciente meu serviço ia se tornado numa espécie de escapismo para não tratar de mim mesmo. Para não ter que parar e enxergar direito minhas mazelas, não perceber minhas sombras.

Quanto mais atividade mais acreditava que em mim não havia brechas, e que, portanto o pecado estava superado. Hoje sei que nada é mais perigoso para a alma do que as convicções nascidas de uma mente que se enxerga apenas pelo serviço que executa.

Tive que aprender, não de maneira fácil que minha natureza é cheia de desvios, que sou sombra e luz, fraqueza e força. Tive que aprender mais sobre minha humanidade e abandonar minhas certezas “santas” a respeito de mim mesmo.

Aprendi que Aquele que eu dizia seguir nunca se dedicou ao serviço de maneira que a vida lhe fosse tirada como um dom para ser vivido. Olhei e vi Jesus caminhando sem pressa, sem agendas, sem compromissos inadiáveis. Vi Jesus tendo tempo para amigos, para crianças, para festas, para o silêncio e para a conversa.

Desde então tenho me permitido descansar. Sei que descansar exige fé. Fé Naquele que tudo já fez. Fé Naquele que tudo sabe. Fé naquele que tudo pode.

Tenho me permitido o silêncio em frente ao mar, as brincadeiras com minhas filhas, as conversas com meus amigos, o namorar com minha amada.

E é descansado que percebi que o amor só se sente na calma. Na agitação o coração não percebe o que de fato faz bem. É no descanso que sentimos a presença do favor imerecido de Deus, pois na agitação tudo é pesado e cansativo.

Vemos tudo melhor quando estamos com o coração e corpo sossegados. Vejo melhor a mim mesmo, vejo melhor quem me cerca, vejo melhor a vida, vejo melhor o próprio Deus.

Descansando na Graça de Deus faço coro a Almir Sater em sua canção “Ando devagar”

Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei,
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida, seja simplesmente
Compreender a marcha, ir tocando em frente,
Como um velho boiadeiro, levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou,
Estrada eu sou,
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora,
Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz,
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei de mais,
Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz

Ivo Fernandes
12 de novembro de 2009


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Creio - A Esperança


A esperança cristã se une a esperança judaica, e por que não dizer de todos os homens quanto à realidade do Reino. Os profetas anunciaram sua vinda e sua duração eterna (Dn 2;6;7). Porém Jesus nos revelou que tal Reino não vem com aparência exterior, mas já é realidade entre nós (Lc 17.20,21), porém esse Reino não pertence as mesmas categorias dos reinos dos homens (Jo 18.36).

O Reino é um reino de justiça onde toda opressão é exterminada, um reino de paz (Is 9.1-7). Esse Reino pertence aos pobres de espírito, aos que foram e são perseguidos por causa do amor a justiça (Mt 5), aos que se tornam como crianças na dependência do sagrado(Mt 18.3). Estes filhos do Bem são sementes do Reino no mundo(Mt 13.38).

No momento o Reino dos céus está entre os reinos do mundo, tal como o trigo em meio ao joio, tal como um tesouro escondido num campo, não cabe aos filhos do Reino tentar separar o joio do trigo, isso se dará na consumação dos tempos, o que se precisa é ter coragem de como um homem que encontrou uma pérola de grande valor, fazer tudo para possuí-la (Mt 13).

No Reino o maior é sempre aquele que serve, aquele que se dispõe ao perdão, que busca sempre a harmonia (Mt 18), por tal razão é que é difícil os homens ricos de si mesmo entrarem no Reino dos céus(Mt 19.24), e também os homens que barganham com o Senhor do Reino (Mt 20).

Devido à natureza caída dos homens é necessária uma conversão da consciência para que o Reino seja entendido e vivido, de outro modo não experimentam tal realidade (Jo 3), daí o chamado ao arrependimento(Mt 4.17).

Cabe aos filhos do Reino anunciar tal realidade, não somente com palavras, mas curando os enfermos, expulsando os demônios, libertando os oprimidos, alimentando os famintos, ressuscitando os mortos, transformando realidades, sem preguiça ou desistência, pois o Reino requer de seus filhos radicalidade no compromisso (Lc 9).

Enquanto no Caminho os filhos deste promovem o Reino também renovam suas esperanças Naquele que pelo seu poder e Graça reinará sobre todos os reinos do mundo (Apc 11.15). Nesse tempo de salvação universal o mal já não mais existirá (Apc 12.10).

Haverá um novo céu e uma nova terra onde tudo que nos separa já mais existirá. O mundo e Deus estarão em unidade visível e perfeita como um casamento. Não haverá mais lágrima, nem pranto, nem clamor, nem dor e nem morte. E todo mal será exterminado na segunda morte. E os salvos andarão na Luz, que é o Cordeiro que foi imolado desde a fundação do mundo para fazer convergir em si todas as coisas. (Apc 21)

A Glória pertence a Deus!

Ivo Fernandes
30 de outubro de 2009

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...