quinta-feira, 27 de maio de 2010

Uma conversa entre amigos sobre ideias e a cruz


Caro Ivo...

Sei bem que minhas impressões nada valem, mas, talvez só para ser sincero ou me comunicar um pouco gostaria de falar sobre elas...

Sinceramente, muita coisa que ouvi de você me tocou bastante, e continuam me "chateando" por dentro... e por tanto, me edificando. Acho que as coisas que você fala soa como a ironia de Kierkegaard. "Digo e tenho que dizer que não sou um cristão"... pois, de fato, ser cristão é alto, mais alto que nossas especulações aquietadoras. Isso nos deixa humilde... ao menos a mim deixa.
Bem, assim como você me disse que Freud "torna a fé adulta", acho que posso falar, ainda que em termos diferentes, que Nietzsche nos amadurece bastante. O combate dele contra o platonismo, seu dito de que a filosofia do futuro deveria reverter o platonismo, eu o tomo para mim também. Nem sei se isso é uma questão acadêmica mesmo, suponho que seja uma exigência da existência mesmo... deixar de ser platônico para entender melhor a vida, intensificar a vida... Bem claro está que o cristianismo é um "platonismo pra o povo"... que a rede de idéias é toda platônica... acho que "sair do arraial" é também desprezar o platonismo... Tenho isso como um meu desejo...

Ainda que talvez não consigamos deixar tanto a metafísica e olhar os lírios como lírios, os pardais como pardais... como Caeiro... acho bom que nos livremos das metáforas e linguagem platônica... os dualismos...essência-aparência... idéia-coisa...enfim... penso que quanto mais a linguagem do anuncio tiver a simplicidade anti-platônica, mais saudável será...

Sua ultima fala foi a mais interessante para mim... gostei bastante... fez algumas coisas se conectarem em mim...

Mas, quase senti o cheiro de uma "metafísica da Cruz"... como se você estivesse dizendo que a Cruz que aconteceu nas entranhas de Deus fosse mais valiosa,essencial, e a que aconteceu na historia não passava de um teatro, uma sombra para que cheguemos a compreensão daquela eterna...

Bem, sei que a linguagem tem suas complicações, que talvez sempre voltemos a didática de Platão, mas... eu não consigo conceber esse dualismo. Como se houvesse um acontecimento eterno, absoluto, mais valioso, e outro relativo, histórico, menos valioso. De um modo paradoxal e enlouquecedor, esses acontecimentos são idênticos... isso na minha compreensão... há uma unidade. A crucificação como manifestação no tempo de algo eterno, porém... como pensar isso sem o dualismo platônico? Ora, Deus não está no tempo (ao mesmo tempo em que comunga com ele)! De um modo maravilhoso a cruz histórica é a absoluta eterna, e tem de ser, para ser manifestação, revelação de Deus...

Apesar de falar essas coisas, não gosto de filosofar com o evangelho... detesto especulações... sinceramente, detesto isso de intelectual do Reino de Deus... A questão é mais "estomacal"... sinto pavor da linguagem platônica... Entendo muito bem que você não pensa com Platão, estou falando como ouvi... aliás, somos platônicos "por natureza"... pelo simples fato se sermos ocidentais...

Também não sei se é interessante chamar o evento da Cruz de "símbolo"... não sei porque isso me soa mal... talvez pela mesma razão... meu instintivo repudio a ver o evento como mera sombra... e para além, a idéia, verdade do evento. (Apesar de o símbolo esconder coisas na superfície do que atrás...) A revelação não é a idéia, mas a sombra mesma, a carne... o sensível... não a verdade por trás do sensível... Esse é o escândalo do evangelho... a revelação é a carne, a carne crucificada mesma... Gosto de pensar que a cruz é também o desnudamento da carne dos abstratos da linguagem e do pensamento, nossas produções. É Deus nos enlouquecendo!... por tanto, deve haver certo "caeirismo" ao olhar a cruz...

Falo isso, mas sei como talvez possa ser difícil o anuncio nesses termos... a luta é pela simplicidade... coisa complicada... e nem sei se o que falo tem alguma razoabilidade pra você... estou falando mais de impressões, coisas mesmo de sensibilidade... não tanto de filosofia...

Aguardando comprensão!

PS: não me tenha por metido a besta...

Abraços!

Resposta

Querido,

Li sua carta com delicadeza e, por total impossibilidade de não ser, como analista. E percebi que sua confusão quanto ao dito, se deu por uma razão simples, só entende o que outro pensa e o que o outro diz aquele que caminha tempo suficiente com o outro, para ver o todo e assim entender as partes e não o inverso.

Sobre o tema da cruz abordado nas últimas reuniões, só entenderá de fato o que eu tinha a dizer quem ouvi tudo, principalmente a última reunião, que você infelizmente não participou, onde abordei a cruz a partir do tema: A cruz e o problema do sofrimento - onde todo foco foi conforme o sugerido na sua carta-email. Porém existem muitas maneiras de ver a cruz e todas elas têm significados para o homem e, portanto para a vida, inclusive a platônica, mesmo, como você mesmo disse eu não sendo um platônico, sei disso.

Estou convicto que não existe apenas uma linguagem, e ao mesmo tempo de que tudo é apenas linguagem quando falamos de Deus, aí sei que toda linguagem é limitada, até as presas a argumentações mais “históricas” e menos “metafísicas”. Por isso sei que não há certezas de verdade, mas apenas a certeza do amor.

Para mim, Freud, Nietzsche, Ivo ou Allison, são apenas humanos na senda da vida tendo que lidar com o que nos transcende e ao mesmo tempo nos perpassa, assim o melhor é apenas dizer que tudo é válido, enquanto linguagem sobre Deus.

Sua antipatia pelo platonismo não é por mim compartilhada, mesmo me considerando muito mais materialista e me importando muito mais com aquilo que me cerca enquanto experiência do que como reflexão filosófico-teológica. Por isso mesmo decidi falar das várias formas de vê a cruz. Abordamos o significado religioso universal, da cruz como símbolo da reconciliação dos opostos; abordamos o tema a partir dos escritos paulinos; também a partir de Tillich, Jung, Bonhoeffer; e na última reunião sobre o assunto falamos da cruz enquanto a realidade da vida que atingiu o Cristo e que nos atinge sempre. Pena que dessa última você não pode participar.

A verdade, mano, é que até o que você escreveu é idéia, teologia, filosofia, linguagem, e há metáfora em tudo, o que é mais valioso não é algum tipo de linguagem, Platão é igual a Nietzsche, e toda discussão que colocar um acima do outro é ingênua.

Falei da cruz a partir de diversos enfoques, e em cada um dei o mesmo peso, se não pareceu não foi minha intenção. Assim a Cruz para mim é realidade histórica, que significamos de diversas maneiras, até você, quando a conecta com a Revelação.

Só alerto para que você e nem eu, confunda a “simplicidade”, falada por você, como a linguagem ideal para falar de Deus, pois não existe tal linguagem. Como Karl Barth já disse - o certo era não falarmos, mas diante da impossibilidade disso, que falemos com temor e tremor, sabendo que Deus é absoluto, mas tudo que produzimos é relativo.

Fica na paz,

Em Cristo que com sua vida e morte me estimula a ser-ir-sendo,

Contra-resposta

Caro Ivo,

Pelo amor de Deus, o que menos queria era dar um tom pesado a minha fala. De fato, esqueci (ato falho?), de ser mais enfático quanto ao valor baixo que dou ao meu próprio discurso ou as minhas idéias. Não sou alguém de tantas convicções, o que tenho é algumas pulsões que me inclinam a pensar de tal e tal maneira, tenho completa certeza de que tudo que penso nasce da minha fisiologia e da minha história, por tanto, ai de mim se considerar valioso, ou dar algum peso absoluto ao que penso. Na verdade, nada pode travar tanto alguém do que dar alguma valia aos próprios pensamentos, acho que o que me torna livre para pensar e falar é exatamente isso que você mencionou, sobre a relatividade de toda a linguagem. Esqueci mesmo de deixar claro que minhas impressões, ou nossa conversa sobre isso, não passa de uma espécie de "luxo" (ou lixo) do quem já experimentou que a fé em Jesus está para além dos discursos, que de fato é uma experiência numinosa e silenciosa. A linguagem é mesmo quase um mal necessário, tão frágil como semente, dependente completamente do terreno onde cair.

Passa longe de mim qualquer gosto por debates, gosto de conversas, ou seja, quando os dois têm "ouvidos para ouvir", e não há os gritos absolutizadores de um dos lados. O que eu queria era dialogar um pouco.

Meu ranço com o platonismo, ainda que eu o ache encantador, é que o julgo exatamente incompatível com essa relativização da palavra e da linguagem, visto que foi ele o propagador da lógica da representação, ou seja, da lógica de que um discurso vale pela realidade do qual discorre, como um espelho que retrata fielmente o que reflete. Sabemos que qualquer fala não retrata a realidade, e penso que desde o principio foi assim. Deus nunca falou para representar o que existe, mas para criar. A linguagem cria, não representa. Assim, a palavra gera sentimentos e impressões e tem nisso a sua força e utilidade, mas, nada daquilo que ela tenta abarcar consegue, e se alguém estiver em comunhão com a vida, entenderá que nem se deve tentar fazer isso. Ora, se é assim, quanto mais para falar do divino! Não é meu desejo achar a linguagem ideal para falar de Deus, isso já é queda. Não há ideais, como você disse. Mas, não nego a angustia dessa preocupação, de qual a linguagem, as metáforas, os modos de falar, mais interessantes... apesar disso, quase toda a resolução dessa angustia fica por conta da intuição.

Meu interesse em dialogar sobre coisas tão tolas é apenas o de sempre, tornar o estranho familiar... estou falando de nós dois.

Gosto da economia das palavras e do silêncio. Tentei deixar claro que minhas impressões não passam de talvez alguns desregramentos de meus sentidos, e passam longe da Verdade, são apenas verdadezinhas úteis a mim, ao funcionamento da minha ordenação interna, ao modo como falo e penso, e estão sempre em devir. A coisa boa de conversar é essa aventura de balbuciar o que nada mais é do que um acontecimento fisiológico singular e privado, abrindo-se também para tudo isso no outro.

De fato, a linguagem é uma grande fonte de mal-entendidos... mas, é uma alegria que apesar dela, o amor é uma fonte de bons-entendimentos.

Abraços...

E mais conversa

Mano,

Não considerei pesada a sua fala, apenas deu o tom da resposta na sintonia da carta, o que para mim foi séria, mas não pesada.

Todos nós, mesmo que tentemos não fazer, acabamos por enfatizar certas posições. O que não determina que somos inflexíveis. E meu carinho por você nasceu desde o momento que percebi em você a humildade necessária que assim confessa.

Afirmo-lhe que é sincera minha inicial amizade por você, e meu coração místico-intuitivo me fala bem de você.

Conheço bem a fraqueza da linguagem e também sua força, como você bem pontuou de não só representar, mas principalmente criar.

Não considero nossa fala um debate e sim uma conversa, não é uma disputa de idéias, é apenas diálogo entre amigos.

O que você compreende do platonismo é por mim compartilhado, exceto o sentimento.

Quanto ao tornar o estranho familiar, que tal um café?

Abraços

2 comentários:

Hugo Lucena Theophilo disse...

Ivo, eu te disse, esses caras são perigosos...rsrs

Anônimo disse...

A conversa foi maravilhosa, cada um em sua singularidade, expressando sua compreensão. Não há certo nem errado, falso ou verdadeiro. E do texto todo, os trechos abaixo me foram como rosas perfumadas.

"Por isso sei que não há certezas de verdade, mas apenas a certeza do amor."

"Como Karl Barth já disse - o certo era não falarmos, mas diante da impossibilidade disso, que falemos com temor e tremor, sabendo que Deus é absoluto, mas tudo que produzimos é relativo."

Essa do Kalr Barth quase me dá um orgasmo espiritual.rsrs

E ká entre nós. Eu adoro nossa vã filosofia. rsrsrs

Paulo Victor

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