quarta-feira, 28 de julho de 2010

A grandeza das Escrituras


Não podemos confundir Revelação com os objetos que apontam para ela ou dela testificam, assim como não podemos confundir a Palavra com as escrituras. É claro que existe uma unidade entre uma e outra, mas ainda assim não se pode confundi-las. As escrituras são testemunhas da Palavra e sua singularidade está no fato de se tratar dos relatos daqueles que foram testemunhas oculares do evento sem igual da revelação.

Ignorar a diferença é confundir o humano com o divino, e as escrituras são os relatos dos homens, portanto humana, do encontro com a Palavra, e neste caso também divina. E na sua humanidade as escrituras encontram sua fragilidade, mas que não se faz empecilho ao poder da Revelação nela contida.

Pertence à humanidade da escritura os relatos de como os homens concebiam a criação, relatos que misturam história, lendas e sagas, além das concepções teológicas que estavam intrinsecamente ligados a cultura dos escritores. Pertencem também as duplicações e contradições encontradas na comparação dos textos.

A maioria dos homens que luta contra essa diferença, procura deter o poder nas mãos. Não permitem a liberdade da Palavra, pois assim deixariam de exercer o controle que exercem quando afirmam possuir a correta interpretação textual.

A grandeza das escrituras não é a infalibilidade e sim o fato de que por meio dela podemos ter um encontro com a Palavra.

Ivo Fernandes

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Jesus: esperança para as cidades


Cidade é uma área urbanizada, que se diferencia de vilas e outras entidades urbanas através de vários critérios, os quais incluem população, densidade populacional ou estatuto legal, embora sua clara definição não seja precisa, sendo alvo de discussões diversas. A população de uma cidade varia entre as poucas centenas de habitantes até a dezena de milhão de habitantes. As cidades são as áreas mais densamente povoadas do mundo. Sociedades que vivem em cidades são frequentemente chamadas de civilizações.

As primeiras cidades conhecidas apareceram na Mesopotâmia, tais como Ur, ao longo do Rio Nilo, na Civilização do Vale do Indo e na China, entre aproximadamente sete a cinco mil anos atrás, geralmente resultante do crescimento de pequenos vilarejos e/ou da fusão de pequenos assentamentos entre si. Antes desta época, assentamentos raramente alcançavam tamanho significativo, embora exceções como Jericó, existam. O crescimento de impérios antigos e medievais levou ao aparecimento de grandes cidades capitais e sedes de administração provincial, como Babilônia, Roma, Antioquia, Alexandria, Cartago, Selêucida do Tigre, Pataliputra (localizada na atual Índia), Changan (localizada na atual República Popular da China), Constantinopla (atual Istambul), e, posteriormente e sucessivamente, diversas cidades chinesas e indianas aproximando-se ou mesmo superando a marca do meio milhão de habitantes. Roma possuía mais de um milhão de habitantes no século I a.C., sendo considerada por muitos como a única cidade a superar esta marca até o início da Revolução Industrial.

Durante a Idade Média na Europa, uma cidade era tanto uma entidade político-administrativa como um agrupamento de casas. Morar nas cidades passou a ser considerada um ato de liberdade, em relação às obrigações rurais para o Senhor e para a comunidade feudal à época. Stadtluft macht frei (O ar das cidades torna você livre) era um ditado popular em regiões da atual Alemanha.

A maioria das cidades do mundo, após a ascensão do feudalismo, eram pequenas em termos de população, sendo que em 1500, existiam somente aproximadamente duas dúzias de cidades com mais do que cem mil habitantes. Em 1700, este número era pouco menor do que quarenta, um número que pularia para 300 em 1900, graças à Revolução Industrial.

O início da Revolução Industrial e a ascensão e o crescimento da indústria moderna, no final do século XVIII, levou à massiva urbanização e à ascensão de novas grandes cidades, primeiramente na Europa, e posteriormente em outras regiões, na medida em que as novas oportunidades geradas nas cidades fizeram com que grandes números de migrantes provenientes de comunidades rurais instalassem-se em áreas urbanas.

Os principais problemas socioculturais que as cidades enfrentam são a criminalidade, a pobreza, e atritos entre diferentes grupos étnico-raciais e/ou culturais. Além disso a maioria das grandes cidades enfrenta um grave problema ambiental: a poluição atmosférica. Algumas cidades geram tanta poluição que o ar acaba por tornar-se saturado de materiais exógenos, criando uma névoa espessa, de cor acinzentada denominada smog.

O pesado tráfego de veículos é a principal causa da poluição atmosférica nas cidades. A poluição atmosférica, gerada pelas indústrias e veículos motorizados, é uma séria ameaça à saúde dos habitantes de um dado lugar, sendo responsável pela deflagração de inúmeros problemas como alergias, doenças respiratórias, cardiopatias, stress, entre outros.

E junto a esse quadro temos a constatação que o cristianismo está presente na maioria das cidades do mundo como uma das religiões mais representativas das cidades. Não há um continente onde o cristianismo não tenha chegado. Atualmente America Latina e África são os dois centros mundiais do cristianismo. Estranhamente os continentes mais conflituosos principalmente do ponto de vista social que temos. E quanto as cidades ocidentais sabemos que o cristianismo desempenhou importante papel na formação delas. A primeira nação a adotar o cristianismo como religião oficial foi a Armênia, fundando a Igreja Ortodoxa Armênia, em 301.

No início do século XXI o cristianismo conta com entre 1,5 bilhão e 2,1 bilhões de seguidores, representando cerca de um quarto a um terço da população mundial, e é uma das maiores religiões do mundo. O cristianismo também é a religião de Estado de diversos países.

Sendo assim não podemos apresentar o cristianismo como esperança das cidades, já que na verdade na maior parte do mundo os dois estão intimamentes ligados e se confudem em muitos aspectos. Precisamos então, diferenciarmos Jesus do cristianismo, ou melhor mostrar a diferença entre os dois, e apresentar Jesus como esperança para as cidades.

É importante salientarmos que Jesus não fundou o Cristianismo, e que o que chamamos hoje de Cristianismo é uma construção religiosa humana, feita pelos seguidores de Jesus ao longo de mais de dois mil anos de história. O que chamamos hoje de Cristianismo está profundamente afetado por pelo menos três grandes eras: a era de Constantino, a era da Reforma Protestante e a era dos Avivamentos na Inglaterra e nos Estados Unidos, sendo praticamente impossível saber a distância que existe entre o que Jesus tinha em mente quando declarou que edificaria a sua Eclésia e o que temos hoje como Cristianismo Católico Romano, Protestante, Ortodoxo, Pentecostal, Neopentecostal e Para-eclesiásticos.

Então todas as vezes que esquecemos isso e nos envolvemos apenas com a missão de expansão dos ministérios religiosos que fazemos parte não contribuímos para a transformação real das cidades, mas apenas pela perpetuação de seu modelo, tendo apenas uma mudança na estatística quanto aos membros de determinada religião.

Agora se nos dedicarmos a apresentar Jesus podemos pensar numa nova forma de vivermos em comunidade. E qual a diferença entre o cristianismo e Jesus?

O cristianismo é uma religião sustentada por um conjunto de doutrinas e um sistema clerical, que estabelece, por meio desses, critérios de relação entre os homens e entre eles e Deus, acreditando que tais critérios são baseados na verdade revelada únicamente aos representantes dessa religião que possuem caráter de inerrante e infálivel, e, portanto, sendo impossível questioná-los.

Porém como já dissemos Jesus nunca fundou uma religião com tais características, aliás, nunca fundou religião nenhuma, o que mais faz repetir a frase de Nolan:

“Jesus tem sido mais frequentemente honrado e venerado por aquilo que ele não significou, do que por aquilo que ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas, às quais ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas, pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome. Jesus não pode ser totalmente identificado com o grande fenômeno religioso do mundo ocidental, conhecido como cristianismo. (Albert Nolan – Jesus antes do cristianismo)

O Jesus que é esperança para as cidades, não é o Jesus da doutrina cristã necessariamente, enclausurado nos castelos teológicos da arrogância humana. O Jesus que é nossa esperança é Aquele que as páginas do Evangelho revelam que tinha sua atenção voltada aos pobres (mendigos, doentes, desempregados, viúvas, órfãos, operários diaristas, camponeses, escravos e os pecadores – desviados dos costumes tradicionais) – aqueles que dependem da misericórdia de outrem, aceitando os pecadores como iguais, afastando deles a culpa, a vergonha e a humilhação, e lhes concedendo perdão. O Jesus cheio de compaixão dos Evangelhos e não o Jesus frio das imagens ou da teologia é que é esperança para os povos.

E não só por essa característica, mas por ter sido um ser inclusivo no meio de uma sociedade exclusivista e principalmente por anunciar um novo modelo de cidade (Reino). Esse era o tema de Jesus. Ele não se ocupou com outros temas, não discutiu teorias da origem do mal ou da miséria. Não se deteve em dilemas dualistas, apenas anunciou essa nova cidade-reino; o Reino dos pobres (Lc 6.20-26; 16.19-31) – não confundir com ideologia da pobreza; o Reino da partilha (Mc 6.52;8.17-18.21;At 4.34); o Reino das crianças – o oposto da grandeza, status, prestígio.

“Aqueles que não possam suportar que os mendigos, ex-prostitutas, empregados, mulheres e crianças sejam tratados como seus iguais, aqueles que não possam viver sem se sentirem superiores, ao menos em relação a algumas pessoas, simplesmente não se sentirão em casa no reino de Deus, tal como Jesus o compreendia. Esses vão querer se excluir do Reino.” (Albert Nolan)

Como solução para os problemas não apresentou nenhuma fórmula ritualística, encantamentos ou invocação de nomes. A fé era o único poder de fato, e não podemos confundir fé com conjunto de dogmas ou doutrinas, mas uma convicção fortíssima - esperança.

Fé não é um poder mágico, é uma decisão clara em favor do reino de Deus (Mt 6.33ss). A incredulidade pode adiar, mas não impedir que o Reino venha (Lc 13.6-9). A catástrofe virá, mas o Reino é o destino final (Mc 13.7-8). O arrependimento é o caminho para mudar os rumos.

Jesus morreu voluntariamente para que o Reino pudesse vir.

Jesus não fundou uma organização, ele inspirou um movimento. Jesus não estabeleceu sucessores, mas chamou gente para crer no que Ele cria. Será que hoje nós que nos chamamos seus discípulos, vamos responder ao seu chamado e também nos tornar esperança para as cidades, para a nossa cidade?

Referência Bibliográfica
Barros, José D'Assunção. Cidade e História. Vozes, 2007

Ivo Fernandes
18 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Do nascimento ao Silêncio


“Existe em mim um hiato, uma pergunta que não sei, um desejo de não sei o quê”

Tento encontrar na minha história uma explicação, aí lembro que não existe resgate do passado, tudo que é está aqui, no momento chamado Agora. É de onde estou que significo e resignifico o que chamo de passado. Minha história eu inventei. Nessa tela todas as cores fui eu que escolhi, mesmo não crendo em escolhas livres, não posso transferir para outros uma decisão que só eu tomei.

Não chamo de infelicidade esse sentimento que me toma, talvez tristeza, companheira dos poetas, apesar de eu preferir silêncio. Sim! O que há em mim é um grande silêncio, que por vezes tentei negá-lo com o barulho que fiz. E como eu fiz barulho!

Entrei no ciclo da angústia na busca de saber o que ou quem sou. De quem era filho? Quem era minha família? Porque fiz da história uma piada e da tragédia humor? Quem era meu pai? Quem era minha mãe? Quem eram os meus irmãos e irmãs?

Lembro de lágrimas, de quartos fechados, e ainda aqui consigo ouvir o som do silêncio, quebrado apenas pelos soluços no meio da noite. Mas porque chorava? De que sentia falta? Era falta?

E como é comum aos solitários, escrevi, registrei momentos, e chorei mais vezes, tornei-me poeta vagabundo. E da poesia veio à paixão, veio os amores, e agora minha busca parecia ser outra. Durante muito tempo pensei tratar-se daquela que amei em minha adolescência que parecia ter me feito esquecer qualquer uma que lhe antecedeu, mas o tempo me mostrou que o sempre acaba, e não era ela, nem os olhos verdes dos meus sonhos, nem a da profecia que perseguia. Pensei ser a idealização da mulher ideal, mas isso foi desfeito.

Meus amores misturavam-se com a descoberta do meu corpo, e para minha angústia não me via apenas um, nem dois, era muitos. Não sou apenas o filho da vida, nem da graça, sou também do abandono e da tragédia. E não sendo quem comecei a acreditar que deveria ser, sofri.

Culpa, medo, angústia, dor e sofrimento me habitavam, sentimentos que conviviam com sonhos, desejos, impulsos. Era alma e corpo, era criança e adulto, era tolo e sábio, santo e imundo, homem e mulher. Mas quis ser outro. Neguei a mim mesmo, meus conflitos, meu paradoxo e tornei-me imagem. Agora acreditava que minha busca tinha nome. Acreditei em um plano para minha vida, e por ele abandonei todos os outros caminhos. Passei a dedicar-me ao propósito para o qual havia nascido. E por um tempo parecia ter encontrado o objeto de minha busca, e de poeta tornei-me teólogo.

Tentei por vezes sufocar as aparições de um Ivo que tentava esquecer. Como eu lutei! Fiz novas escolhas, todas que pudessem garantir que jamais seria outra coisa além daquilo que agora acreditava ser. Construi meu castelo e a verdade estava comigo e todo desvio era apenas tentativa maligna de me tirar do propósito. Mas meu castelo ruiu. Minha alma não conseguia conviver com a negação de si mesma. E então ouvi e vi a rede de mentiras em que estava envolvido, e o que chamava de verdade era apenas uma idéia que tinha o interesse de muitos de por meio dela dominar os homens.

Não consegui negar o que via, não podia ignorar mais o que ouvia. Gritei! E de teólogo tornei-me profeta, e agora minha crença não era mais em deuses, mas nos homens que tinham fé. Minha busca agora era pela justiça. Mas aos poucos meus heróis foram morrendo, e minha honestidade me fez perceber que não era um. Não podia mais iludir e me iludir quanto ao meu caminho. Eu não era quem queria ser. Não era outro, não era nova criatura, não era santo, não era um discípulo Daquele que amava, e junto com essa confissão foi também a confissão de que nada sabia.

É aqui onde me encontro. Aceitei o paradoxo que sou. Abandonei meus discursos absolutos, meus discursos são todos relativos. Desisti de tentar entender. Não sei qual é a Verdade. E vi que não encontrara o objeto de minha busca, porque não precisava encontrar o que nunca perdi, o meu Silêncio. Sim! O Silêncio dominante da minha alma.

Voltei a ser poeta e apenas um poeta vagabundo que não se preocupa em definir-se ou explicar o que quer que seja. Um poeta que sabe o que não se aprende, que ouve o que não se escuta, que sente o que não se vê, e por isso não tem mais perguntas, e nada mais busca porque já se encontrou Naquele que é o Grande Silêncio.

E como não poderia ser diferente, tudo que escrevi poderia ser dito simplesmente assim:

Silêncio Divino

Eu já acreditei em deuses
Eu já me emocionei com heróis
Eu já sonhei ser alguém que não fosse eu
Eu me gastei buscando o vazio

Orações não respondidas
Injustiças em nome de deus
Uma natureza indomável
Uma verdade inegável
Tudo isso como pedras no caminho

Meus pés no chão sendo feridos pela realidade
E pouco a pouco meus castelos desfeitos
Mas o mar continuava o mesmo

Continuo caminhando pela mesma praia
Continuo com minha oração secreta
Continuo a ter os pés banhados pelas águas do mar
Continuo ouvindo o Vento
Continuo contemplando o horizonte
Continuo crendo No que me transcende

Não busco mais entender o Mistério
Sou apenas um caminhante que entendeu que não sabe
E tudo que escrevo ou digo são tolices infantis
Mas não queriam me impedir de seguir esse caminho errado
Já me acostumei com a solidão da caminhada
O silêncio é minha salvação
Nele não sou mau nem bom
Nele não creio nem nego
Nele nem sou nem deixo de ser
Deus é um grande silêncio

Ivo Fernandes
12 de julho de 2010

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...