Do nascimento ao Silêncio


“Existe em mim um hiato, uma pergunta que não sei, um desejo de não sei o quê”

Tento encontrar na minha história uma explicação, aí lembro que não existe resgate do passado, tudo que é está aqui, no momento chamado Agora. É de onde estou que significo e resignifico o que chamo de passado. Minha história eu inventei. Nessa tela todas as cores fui eu que escolhi, mesmo não crendo em escolhas livres, não posso transferir para outros uma decisão que só eu tomei.

Não chamo de infelicidade esse sentimento que me toma, talvez tristeza, companheira dos poetas, apesar de eu preferir silêncio. Sim! O que há em mim é um grande silêncio, que por vezes tentei negá-lo com o barulho que fiz. E como eu fiz barulho!

Entrei no ciclo da angústia na busca de saber o que ou quem sou. De quem era filho? Quem era minha família? Porque fiz da história uma piada e da tragédia humor? Quem era meu pai? Quem era minha mãe? Quem eram os meus irmãos e irmãs?

Lembro de lágrimas, de quartos fechados, e ainda aqui consigo ouvir o som do silêncio, quebrado apenas pelos soluços no meio da noite. Mas porque chorava? De que sentia falta? Era falta?

E como é comum aos solitários, escrevi, registrei momentos, e chorei mais vezes, tornei-me poeta vagabundo. E da poesia veio à paixão, veio os amores, e agora minha busca parecia ser outra. Durante muito tempo pensei tratar-se daquela que amei em minha adolescência que parecia ter me feito esquecer qualquer uma que lhe antecedeu, mas o tempo me mostrou que o sempre acaba, e não era ela, nem os olhos verdes dos meus sonhos, nem a da profecia que perseguia. Pensei ser a idealização da mulher ideal, mas isso foi desfeito.

Meus amores misturavam-se com a descoberta do meu corpo, e para minha angústia não me via apenas um, nem dois, era muitos. Não sou apenas o filho da vida, nem da graça, sou também do abandono e da tragédia. E não sendo quem comecei a acreditar que deveria ser, sofri.

Culpa, medo, angústia, dor e sofrimento me habitavam, sentimentos que conviviam com sonhos, desejos, impulsos. Era alma e corpo, era criança e adulto, era tolo e sábio, santo e imundo, homem e mulher. Mas quis ser outro. Neguei a mim mesmo, meus conflitos, meu paradoxo e tornei-me imagem. Agora acreditava que minha busca tinha nome. Acreditei em um plano para minha vida, e por ele abandonei todos os outros caminhos. Passei a dedicar-me ao propósito para o qual havia nascido. E por um tempo parecia ter encontrado o objeto de minha busca, e de poeta tornei-me teólogo.

Tentei por vezes sufocar as aparições de um Ivo que tentava esquecer. Como eu lutei! Fiz novas escolhas, todas que pudessem garantir que jamais seria outra coisa além daquilo que agora acreditava ser. Construi meu castelo e a verdade estava comigo e todo desvio era apenas tentativa maligna de me tirar do propósito. Mas meu castelo ruiu. Minha alma não conseguia conviver com a negação de si mesma. E então ouvi e vi a rede de mentiras em que estava envolvido, e o que chamava de verdade era apenas uma idéia que tinha o interesse de muitos de por meio dela dominar os homens.

Não consegui negar o que via, não podia ignorar mais o que ouvia. Gritei! E de teólogo tornei-me profeta, e agora minha crença não era mais em deuses, mas nos homens que tinham fé. Minha busca agora era pela justiça. Mas aos poucos meus heróis foram morrendo, e minha honestidade me fez perceber que não era um. Não podia mais iludir e me iludir quanto ao meu caminho. Eu não era quem queria ser. Não era outro, não era nova criatura, não era santo, não era um discípulo Daquele que amava, e junto com essa confissão foi também a confissão de que nada sabia.

É aqui onde me encontro. Aceitei o paradoxo que sou. Abandonei meus discursos absolutos, meus discursos são todos relativos. Desisti de tentar entender. Não sei qual é a Verdade. E vi que não encontrara o objeto de minha busca, porque não precisava encontrar o que nunca perdi, o meu Silêncio. Sim! O Silêncio dominante da minha alma.

Voltei a ser poeta e apenas um poeta vagabundo que não se preocupa em definir-se ou explicar o que quer que seja. Um poeta que sabe o que não se aprende, que ouve o que não se escuta, que sente o que não se vê, e por isso não tem mais perguntas, e nada mais busca porque já se encontrou Naquele que é o Grande Silêncio.

E como não poderia ser diferente, tudo que escrevi poderia ser dito simplesmente assim:

Silêncio Divino

Eu já acreditei em deuses
Eu já me emocionei com heróis
Eu já sonhei ser alguém que não fosse eu
Eu me gastei buscando o vazio

Orações não respondidas
Injustiças em nome de deus
Uma natureza indomável
Uma verdade inegável
Tudo isso como pedras no caminho

Meus pés no chão sendo feridos pela realidade
E pouco a pouco meus castelos desfeitos
Mas o mar continuava o mesmo

Continuo caminhando pela mesma praia
Continuo com minha oração secreta
Continuo a ter os pés banhados pelas águas do mar
Continuo ouvindo o Vento
Continuo contemplando o horizonte
Continuo crendo No que me transcende

Não busco mais entender o Mistério
Sou apenas um caminhante que entendeu que não sabe
E tudo que escrevo ou digo são tolices infantis
Mas não queriam me impedir de seguir esse caminho errado
Já me acostumei com a solidão da caminhada
O silêncio é minha salvação
Nele não sou mau nem bom
Nele não creio nem nego
Nele nem sou nem deixo de ser
Deus é um grande silêncio

Ivo Fernandes
12 de julho de 2010

Comentários

Gresder Sil disse…
Acredite! Não estas sós nesta caminhada solitária de nós todos, da solidão particular de cada alma frente ao que tudo diz sem dizer uma só palavra, o silencio é o absoluto...

Também não mais me importo ou busco uma verdade, estou satisfeito com o que sou, tenho uma confiança inabalável de que a “salvação” não esta em nenhum caminho particular ou na descoberta de alguma verdade especifica.

O mundo e a vida são incrivelmente cheios de sabedoria e beleza para que o soberano fosse tão mesquinho assim fazendo da vida um jogo de buscas e conquistas.

Por isso não busco e não estou na vida como um competidor, luto apenas pelo pão diário, nada mais. Sem lutas e buscas a minha alma esta saciada com o tudo do nado e com o barulho ensurdecedor do silencio que tudo revela sem nos mostra nada.

Não há o que temer! Tanta dor, prazer, sentidos, significados, intensidade, beleza, amor e fé neste mundo não iram acabar na exclusividade de uma verdade percebível e arbitraria, Ele não nos pregaria esta peça.
Ivo Fernandes disse…
Querido Esdras, sei bem que não estou só. Fico feliz de ter na caminhada gente como você.

Abraços
Adriana disse…
Estamos hebreus rompendo fronteiras, caminhando
Espero sua visita ao meu blog e se vc permitir quero postar este texto pois traduz meu momento no Caminho.

grande abraço

Adriana Chalela Curdoglo

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