terça-feira, 17 de agosto de 2010

A QUESTÃO DO PECADO


A leitura dos capítulos iniciais de Gênesis é muito rica. Guarda segredos de nossa história, do nosso entendimento, do mundo que nos cerca e de nós mesmos. A Queda é um dos assuntos tratados e os textos nos permitem perceber algumas coisas, entre elas é que depois da transgressão de Adão nasce a consciência de si e essa consciência é de um ser separado de Deus.

Como era a consciência de Adão antes da Queda? Não sabemos. Tudo que vemos e sabemos já vemos e sabemos do lugar da queda. Mas suponho que era uma consciência que chamarei de consciência fetal. Adão sabia de si num nível semelhante ao ser ainda dependente da existência da mãe, onde tal dependência é fato, porém não é informação. É um saber sem saber.

O fato é que a raça humana deixou esse estado edênico e não dá mais para voltar para ele. O acesso a este lugar foi encerrado. Agora o éden só existe em nós, como uma nostalgia e um vazio de não o sei o quê. Esse sentir nos mostra que houve algo, mesmo que não nos diga o quê. Está em nós o fruto desta queda, a culpa, o medo, o paradoxo, a necessidade de nos cobrir e um sentimento de dependência. É desta forma que todos experimentamos o pecado e a morte, fruto de nossa finitude. Assim independente da doutrina, dos termos, o pecado é experimentado por todos.

O Evangelho crido nos faz nos identificar como nova criatura, mas esse ser novo não é um retorno, um reencontro, é algo totalmente novo. E por não ser um retorno, mesmo sendo agora pela fé nova criatura, ainda permanece em mim o vazio do Éden. Nasce aí a luta entre a carne e o espírito. O que sou pela fé, com o que sou ainda, enquanto fruto da queda. Desta forma é que sei que fora da Graça, que me revela quem sou pela fé, sou apenas esse ser abismado na ambiguidade, esse ser em constante conflito, esse ser em pecado. Assim a Graça me revela quem sou nela e fora dela.

Salvação é, portanto descanso, visto que vou precisar me aquietar naquilo que sou pela fé independente do que lateja em mim por causa da queda. A salvação também é esperança, em que um Dia só sejamos o que já somos pela fé. Isso é o que significa o céu. E a permanência em nós mesmos é o inferno. Sem esse descanso vivemos conduzidos por nossa natureza caída fazendo-nos mal mutuamente.

O reino só é vivido entre nós se buscarmos continuamente nos conformamos ao que somos pela fé, para isso precisaremos abandonar o passado, o passado edênico, o passado imediatamente vivido. É no passado que habita o velho homem, no futuro está o que seremos e pela fé construímos o presente nesta esperança.

E alguém pode perguntar os porquês de tudo isso. Penso que sem a auto-percepção que a Queda nos gerou jamais teríamos consciência da Graça! Primeiro teve que vir o Éden para vir a Nova Jerusalém. E tudo é garantido pelo Cordeiro imolado desde a fundação do mundo. É no ambiente da Graça onde tudo ocorre, até a Queda. Por isso se pode dizer onde abundou o pecado superabundou a Graça.

Ivo Fernandes
26 de outubro de 2008

Um comentário:

Simone Carneiro disse...

Oi Fernando

Muito lindo isso que vc escreveu.
Parabéns pela sua sensibilidade e sinceridade ao nos presentear com esse lindo texto.
grata.

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