terça-feira, 26 de abril de 2011

Minha fé




Caminhei bastante pra chegar até aqui, e aonde cheguei é um lugar de repouso.

Esse repouso se dá por causa da pacificação que minha mente vive. E essa pacificação é resultado de uma fé simples que desenvolvi depois de muita desconstrução e reconstrução.

Hoje posso resumir minha fé da seguinte maneira:

Creio em Deus, num só Deus, mas que pode ser muitos, pois cada homem em cada lugar do mundo pode chamá-Lo por nomes que traduzem seus anseios. Eu o chamo em especial pelo Nome que se manifestou em Cristo através da encarnação. Esse Cristo que é meu Deus é o mesmo que advoga minha causa diante Dele mesmo. Ele é o meu destino e o meu Caminho. Creio que por meio de Cristo o reino foi colocado no meu coração e este reino é regido pela lei da Graça que é o Amor. E este amor é destinado a todos os homens e que uma vez consciente dele podem viver a verdade na vida, sabendo que o grande objetivo é ir sendo aquilo que Nele já somos. Creio que somente com essa consciência será possível se construir uma sociedade pacífica.

Ivo Fernandes
2006

segunda-feira, 18 de abril de 2011

III Sobre a Graça



Muitos dizem que prego apenas sobre a Graça e o Amor de Deus, negligenciando a ira e a justiça. Quem me conhece sabe que isso é uma inverdade, só não vejo a ira e a justiça de Deus como a maioria destes vêem. Concordo com Russel quando diz que a ira é um dedo da mão de amor do Senhor. E mais, foi o próprio Jesus que disse que tudo se resume ao Amor, e também disse a Paulo que a Graça nos basta. Porque faria eu diferente do Senhor?

Falo sobre a Graça, sobre o Amor, sobre a fé, sobre a reconciliação, porque essa é missão que a mim foi confiada. No início foi o Amor, no fim será o Amor, o que passar disso, não cabe a mim anunciar. Ensino sobre o Amor, ensino sobre Deus, porque Deus é Amor. Sei que todas as demais coisas são entendidas somente depois da percepção do Amor, assim só serão vítimas da ira aqueles que não enxergaram a reconciliação efetuada. Deus queira que aqueles que falam muito sobre a ira não venham buscar a Graça como suficiente somente quando a dor e a tragédia vierem visitá-los.

Ivo Fernandes
2006

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O Evangelho e a questão do ser





"E depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero...
Eis que as três horas da madrugada eu me acordei
E me encontrei
Simplesmente isso:
Eu me encontrei calma, alegre
Plenitude sem fulminação
Simplesmente isso
Eu sou eu
E você é você
É lindo, é vasto
Vai durar
Eu sei mais ou menos
O que vou fazer em seguida
Mas por enquanto
Olha pra mim e me ama
Não
Tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo."

"...É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo... Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.
Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre"

A noção de ser perpassa a história da Filosofia desde Parmênides, passando por Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant, Sartre e Heidegger, dentre outros.
Parmênides de Eléia (cerca de 530 a 460 a. C.) fixou no ser imóvel e uno a fonte de tudo o que é. Parmênides narra em seu poema o encontro com a deusa Verdade, que o instrui a se afastar do caminho sensível, uma via de confusão, que leva as massas indecisas a acreditarem que ser e não-ser são iguais. O ser é todo inteiro - se o ser tivesse partes, algo nele seria separado, não fazendo parte do ser, mas isso seria não-ser. Conseqüentemente, o ser, sendo uno e indivisível, não pode ter partes. O ser é imutável - o ser não pode ter surgido do não-ser ou tornar-se não-ser, já que o ser só pode ser idêntico a si mesmo - e não pode ser e não-ser ao mesmo tempo. Acreditar que o ser foi gerado significa dizer que houve um tempo em que o ser era não-ser, o que é contraditório. Logo, o ser é eterno, sem começo nem fim.
Aristóteles também coloca, assim como Platão, a questão do Ser, como fundamental para o estabelecimento de uma ciência (epistéme) ou sabedoria (sophia). A investigação platônica sobre o assunto, segundo Aristóteles, foi influenciada basicamente por três filósofos antigos: Pitágoras, Heráclito e Parmênides. De Heráclito Platão teria tirado a noção de que as coisas sensíveis estão em perpétuo estado de fluxo, sendo impossível conhecê-las. De Parmênides, a imutabilidade e unidade do Ser, resolvendo o impasse entre os dois conhecimentos ao colocar o Ser na esfera do inteligível e não no sensível. De Pitágoras, Platão teria tirado – e isso não está expressamente escrito em nenhuma de suas obras – a importância dos números como estando na esfera do inteligível, algo intermediário entre o mundo sensível (lar da contradição, da aparência e da mimese) e as Formas imutáveis.

Contrariando o Ser platônico, que é universal, sendo o mesmo que está em tudo que lhe participa da forma, o ser aristotélico é formado de substâncias individuais. Se para Platão o mundo sensível é o mundo da opinião (doxa), para Aristóteles é o campo da experiência, em que a ciência deve se basear. Se para Platão, Sócrates é homem porque participa da forma do homem, para Aristóteles, Sócrates, como substância, é o ser, e ser homem é um atributo de Sócrates.

 

Mas num mundo em que o universal não subsiste por si próprio, formado apenas por coisas individuais concretas, como seria possível conhecer, visto que as coisas individuais concretas são em número infinito? A resposta estaria na indução, onde o indivíduo, partindo do particular para o universal, procura agrupar um conjunto de elementos comuns  em grupos e classes de coisas, para classificá-las e conhecê-las. Assim, ao observar uma variedade enorme de cachorros particulares, o homem abstrairia o comum entre eles para criar o conceito de cachorro. Tal conceito existiria apenas no logos, na linguagem e intelecto humanos.
 
O objeto de investigação da Metafísica não é qualquer ser, mas do ser enquanto ser. Esta investigação levaria à elaboração de uma ciência suprema, superior a todas as outras.

Na filosofia cristã Agostinho subordina toda a realidade e a ação do homem a uma única, infinita verdade, que é Deus. Os escolásticos perceberam que “a transcendência do ato puro, ontologicamente examinado, não alcança a totalidade da transcendência do ser infinito, que já é tema fundamental da teologia”. Fez-se, assim, uma distinção, porque o Deus cristão não é um objeto, mas o termo, a causa final, a conquista do ser humano.
O cume da ciência ontológica na escolástica se dá com Tomás de Aquino, a quem cabe, na cultura ocidental, “o mesmo papel que coube à Aristóteles no ciclo cultural grego: realizar a grande concreção das positividades da filosofia até então enunciadas”. O que Aquino realiza é uma síntese poderosa e genuinamente cristã entre Aristóteles e Platão.
Tomás, ao se debruçar sobre a obra aristotélica, não se preocupava em reconstruir a sua doutrina ou ser um mero comentador. Ele efetivamente tomou a filosofia de Aristóteles como o seu ponto de partida para um outro empreendimento.
Já no princípio de sua magistral Suma Teológica, Tomás deixará muito claro o quanto o conhecimento depende da realidade e o quanto a realidade depende do Ser. Em outras palavras, a existência de Deus, de um ser infinito, incausado e perfeito, é a questão primordial de toda e qualquer filosofia que se diga verdadeira. Toda investigação intelectual começa pelo encontro dessa base sólida de onde se irá partir. O próprio conhecimento é impossível senão como efeito da verdade. Deus é, assim, o problema dos problemas filosóficos. O ser é o ponto de partida e o ponto de chegada para qualquer ação humana.
Admitir que o Ser seja unívoco, isto é, nos levaria ao monismo, que admite uma única realidade, vista nas idéias panteístas (Deus é a única realidade), no materialismo (a matéria é a única realidade) ou no idealismo (o pensamento é a única realidade).
Como vimos, o ser é o conceito mais abstrato e também o mais concreto de todos. O ser é infinito não só em extensão, mas em compreensão, pois ele abarca tudo que é, em todos os tempos e acima deles. O ser é a “concreção suprema”, englobando toda a possibilidade que existe em sua infinitude. A verdadeira metafísica, a verdadeira ciência ontológica, toma o ser concretamente, “em toda sua densidade”, sem jamais considerar as abstrações do espírito como realidades físicas.
Descarte se diferenciará de Aquino ao tratar da “ontologia em primeira pessoa”, com origem no “eu”, e não mais em terceira pessoa – no ser. Posteriormente Kant afirma que nada podemos conhecer da coisa-em-si exceto a ciência de que não podermos conhecê-la.

O Ser apresenta-se, para Kant, como heterogêneo, como irredutível à natureza das elaborações ideais do entendimento e da razão. O Ser é neste sentido irredutível ao pensar. O Ser não pode ser produzido pelo pensar. O Ser é necessário como presença, pois o entendimento produz formas mas não coisas em si, no sentido hilético. Precisamos do Ser para conhecer, mas dele nada conhecemos porque ele é outro, apresenta-se como uma incógnita, pois o que dele conhecemos são representações. O Ser transcende a legalidade do entendimento. Este só produz formas, mas não a matéria prima. Porque para o nosso filósofo a razão pura teórica não conhece mas pensa, ou seja, ultrapassa os seus limites. É manifesta a necessidade que Kant tem de impor limites à razão pura teórica. Daí a sua crítica. "Ser não é evidentemente nenhum predicado real, isto é, um conceito do que quer que seja que se pudesse acrescentar ao conceito de uma coisa. É simplesmente a posição de uma coisa, ou de certas determinações, em si mesmas. No uso lógico, é unicamente a cópula de um juízo." O que é o Ser afinal? Kant diz: "É simplesmente a posição de uma coisa em si mesma ou de certas determinações em si mesma. O Ser é a presença da coisa na existência.”

O Ser está presente, mas está presente como uma incógnita. A materialidade do Ser é indispensável para o conhecimento, mas é incognoscível. A ordem formal não tem nada a ver com a ordem material e é por isso que a primeira pode ser dita a priori. A matéria tem de estar necessariamente presente porque é ela que garante a existência, que garante o real e por outro lado - aspecto idealista - é uma presença inerte, pois o espírito, o pensar que vai determinar formalmente essa posição desconhecida, isto é incognoscível.

Nas páginas do Evangelho e em especial na mensagem de Jesus, procurei encontrar o mesmo assunto sendo debatido. Num primeiro momento, considerei que a questão do ser não era tratado pelo profeta de Nazaré. Depois voltei atrás, e considerei que a questão do ser é tratada o tempo todo só que por outra ótica.

Parece que Jesus não separou o ser do “sendo”. A questão resolve-se num vir-a-ser ou num torna-se. Em outras palavras, a questão do ser resolve-se no existir e existir é construir um projeto, para ele o projeto era o Reino de Deus.

Na construção o homem sofre a interferência de uma série de fatores adversos que o desviam de seu caminho existencial. Trata-se de um confronto entre o eu com os outros. Um confronto no qual o homem comum é, geralmente, derrotado. O seu eu é destruído, arruinado, dissolve-se na massa humana. Em vez de tornar-se um “eu”, o homem torna-se aquilo que os outros desejam. O sentimento profundo que faz o homem despertar da existência inautêntica é a angústia, pois ela revela a nossa impessoalidade no cotidiano, o abandono do nosso próprio eu adiante da opressão do mundo como um todo.

A partir desse estado de angústia, abre-se para o homem, uma alternativa: fugir de novo para o esquecimento de sua dimensão profunda, isto é, o ser, e retornar ao cotidiano; ou superar a própria angústia, manifestando seu poder de transcendência sobre o mundo e sobre si mesmo.

Aqui está, para mim a chave da questão do ser no Evangelho: o homem pode transcender, o que significa dizer que o homem está capacitado a atribuir um sentido ao ser.

Não encontro qualquer determinismo na mensagem de Jesus, não existe qualquer predeterminação com respeito ao homem, e que esta indeterminação e liberdade levam o homem a uma permanente angústia. O homem tem diante de si várias opções possíveis, é inteiramente livre, não se conforma a um predeterminismo lógico. A verdade não é encontrada através do raciocínio lógico, mas segundo a paixão que é colocada na afirmação e sustentação dos fatos: a verdade é subjetividade. A conseqüência de ser a verdade subjetiva é que a liberdade torna-se ilimitada. Consequentemente não se pode, também, fazer qualquer afirmativa sobre o homem. Inexiste um projeto básico, para o homem verdadeiro, uma essência definidora do homem porque cada um se define a si mesmo e assim é uma verdade para si.
No caminho da vida há várias direções, vários tipos de vida a escolher, e Jesus nos convida a uma consciência de fé, a um torna-se uma nova criatura, ao caminho do arrependimento.

Ivo Fernandes
15 de abril de 2011

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...