segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Deus transcendente e imanente e a nossa espiritualidade




“Há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos ( transcendente), por meio de todos (transparente) e em todos (imanente)” (Ef 4,6).

Não existe espiritualidade que não seja experiência. Deus não é somente para ser pensado, mas sentido. Esse sentir não pode se confundir com as imagens que construímos sobre Ele. Quem experimenta Deus é livre para assumir e reassumir os símbolos que falam dele, pois não pretendem defini-lo. Experimentar Deus é mais que nele crer, é um saber que se manifesta na vivência.

Não se trata de negar as imagens, afinal Deus é identificado com os conceitos que dele fazemos. Trata-se antes de reconhecer a insuficiência de todas as imagens, pois Deus é transcendente. Neste estágio não nos preocupamos com os antropomorfismos, pois sabemos que tudo o que dissemos de Deus é antropomorfo.

O mesmo Deus que é transcendente, que não se confunde com as coisas, está presente nelas, fazendo de todas as coisas veículos de revelação. Representado como totalmente fora do mundo, Deus de fato não seria experimentável.

A religião se torna um problema quando confunde Deus com as doutrinas sobre Ele. Assim, espiritualidade convive em paz com a transcendência e imanência, é fruto da reconciliação entre Deus e o mundo.

Ivo Fernandes
29 de agosto de 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sobre a crítica bíblica




Qualquer pessoa que leve a sério o estudo das escrituras não poderá mais se esquivar dos conteúdos das demais ciências, como arqueologia, história, sociologia, antropologia, etc.
Não podemos mais ler as escrituras de maneira mágica, esotérica ou como se o livro tivesse descido do céu, como que escrito pelo próprio dedo de Deus. Precisamos respeitar a história da transmissão textual, com toda a sua evolução.
O estudo da história e da crítica textual da bíblia se justifica, principalmente, pela perda de muitos dos códices, os “originais” dos autores. Atualmente, existem cerca de cinco mil manuscritos, sendo que perto de cinqüenta e três contêm todo o Novo Testamento. A situação do Novo Testamento é muito melhor que a de todos os escritores antigos. Da maioria deles temos manuscritos somente a partir do século IX d.C., e assim mesmo em número bem reduzido. Do Novo Testamento temos dezessete manuscritos do século IV e vinte e sete do século VI. Temos ainda citações encontradas em escritores do século II. Isso quer dizer que entre os originais e as cópias temos a distância de uns 300 anos apenas.
A crítica bíblica (textual, literária e histórica) não tem a intenção de negar o que está na Bíblia, mas sim de conduzir o pesquisador a uma observação mais acurada de seu conteúdo, das diversas traduções sofridas pelo texto, com o intuito de analisá-la sob o ponto de vista histórico, e não apenas  religioso.
Todos os que temem a crítica revelam a fragilidade de seus dogmas, fundamentados apenas na autoridade religiosa das instituições. Alardeiam que tal forma de estudo bíblico conduzirá o crente a negação da fé. Nada mais ridículo que isso. Toda análise textual tem um objetivo: tentar dirimir questões e incertezas.
Estudar criticamente a bíblia e suas traduções não é questionar a fé religiosa em seu conteúdo, mas aproximar o estudante da história e da cultura dos povos que produziram esta coletânea de livros. Não é questionamento da fé, mas dos processos que deram origem as formas da religião e seus códigos.
A bíblia como livro produzido na história por diversos autores humanos não está isenta de uma análise crítica-histórica, e só respeitando isso é que este livro nos servirá de maneira adulta e proveitosa.

Ivo Fernandes
9 de junho de 2010

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sexualidade e Evangelho



Um dos temas mais perturbadores para a religião cristã é a questão da sexualidade.  Entretanto, não deixa de ser uma surpresa o fato de constatarmos que este tema ocupa um lugar bastante secundário nos Evangelhos. Qualquer exegeta sério sabe que o Novo Testamento não oferece um ensino completo e sistemático sobre esse assunto, no entanto a religião cristã atribui à sexualidade um caráter privilegiado no encontro com Deus.

Temas tão discutidos como a masturbação, homossexualidade, relações pré-conjugais não possuem muita referência explicita nos Evangelhos, e, no entanto atormentam a consciência de muitos cristãos. Talvez isso explique o porquê que a religião cristã é mais paulina (o que para mim, se constitui também numa leitura equivocada de Paulo) do que cristã, nesse sentido.

Nos Evangelhos, Jesus não se apresenta como inimigo do corpo, pregando sacrifícios ou privações. Ele mesmo não foi um asceta, nem um essênio. Possuía uma vida tão comum que é acusado de comilão e beberrão (Mt 11.19).

Os comportamentos sexuais concretos não são objeto de preocupação do Evangelho, mas sim as estruturas básicas por meio das quais a sexualidade se desenvolve e produz as maiores alienações, entre elas a figura da família que será dessacralizada por Cristo inaugurando um novo modo de filiação – os laços do espírito (Mc 3.31-35; Mt 10.37;12.46-50; Lc 8.19-21;11.27;14.26), a figura do pai que será superado, num chamado a torna-se adulto na dedicação ao reino (Mt 23.8-11), e a imagem da mulher restaurada em igualdade de condições e direitos (Mt 19.1-12;28.7;Lc 8.43-48; Jo 4.39; ).

Não encontramos um código sexual na mensagem de Jesus, mas um chamado a liberdade governada pelo amor. Deste modo, a questão dos comportamentos sexuais específicos é deixada em nossas mãos como pessoas adultas que, pelo discernimento da fé, são guiadas em tudo pelo amor. Sem amor tudo que se fizer é pecado, inclusive deixar de fazer.

O Deus obcecado por comportamentos sexuais com certeza não é o Deus de Jesus.

Ivo Fernandes
25 de março de 2009

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Revelação



Revelação é o nome dado ao ato de Deus comunicar-se, comunicação que só é possível por sua própria vontade, sendo assim um ato de Graça. Está intrinsecamente ligada a vontade de Deus que todos os homens cheguem ao pleno conhecimento da Verdade (Ef 4.13; 1 Tm 2.4). Sendo assim, não podemos pensar a Revelação limitada, na verdade ela é livre como a Graça, livre para revelar-se a quem quer, onde quer, e do modo como deseja fazê-lo. E mesmo a Revelação em Cristo não é uma limitação da Revelação ou mesmo um impedimento para que ocorra como, onde e quando quiser, ela é a Revelação, pois a Unidade, plena reconciliação, está manifesta.

Deus antes de haver qualquer criação deu-se por suas criaturas a fim de trazê-las a existência e por fim levá-las a plenitude da realização Nele. O Cordeiro foi imolado antes de haver mundos por toda a criação e não só por um grupo de homens.

A Graça é Universal. A Revelação é Universal. A Salvação é Universal. É por causa disso que mesmo aqueles que não possuem nenhuma informação sobre Jesus Cristo podem tê-lo quanto realidade espiritual. Eis o mistério da Graça!

Sendo Universal, a Revelação não é uma “verdade” dogmática, teológica, um conjunto de textos ou doutrinas, nem mesmo um livro ou religião. A Revelação ocorre nos ambientes da alma humana e se processa na história dos homens. Podemos dizer que a produção humana, como um livro sagrado, faz parte, como veículos de revelação, mas não é a Revelação em si mesma.

É na Humanidade que Deus manifesta-se, e no Homem Pleno estava toda a plenitude de Deus. O homem é um ser histórico, logo a Revelação ocorre na história e pela história, e na história está à produção humana, como a religião. Porém, mesmo estando manifesta, a Revelação não está ao escrutínio do observador humano.

Deus se revela ao homem nas suas contingências históricas e o homem então registra as impressões que essa revelação causou nele. Esta descrição humana das impressões é considerada histórica, mas esta mesma história não pode ser considerada revelação, porque a revelação não é narrativa nem é alguma coisa a respeito de Deus.  A Revelação é dinâmica e não fica presa e nem fixa na história.

Ivo Fernandes
17 de novembro de 2009


 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Para que todos saibam



Com oito anos de idade ouvia de vários profetas evangélicos que Deus havia me escolhido para uma grande obra, em virtude disso, não pude viver como uma criança normal, assim, desde cedo fui sendo preparado para tal missão. Com 12 anos estava no púlpito, com 15 pregando em vários lugares, com 18 assumindo a liderança de uma igreja evangélica.

Porém sempre tive dificuldade em comunicar aquilo que era ensinado a comunicar. Jamais me interessei pelos temas comuns que atraiam tanto as pessoas. Desde a adolescência me preocupava mais com o estado emocional dos jovens que liderava, em virtude de suas experiências sexuais, do que saber se elas eram ou não pecado.

Tentando encontrar uma ideologia que minha consciência aceitasse, estudei tudo que podia, a doutrina dos pais da igreja orientais e ocidentais, a doutrina católica medieval, a escolástica, os pensadores protestantes, reformados, radicais, liberais, ortodoxos, fundamentalistas, neo-ortodoxo, pós-liberais e contemporâneos. Porém não me encaixava plenamente em quase nada.

Toda essa busca me levou a perceber que eu não precisava encontrar tal ideologia, afinal toda ideologia é verdade e mentira, simplesmente porque todas são humanas, muitas vezes semelhantes em seus anseios e propósitos, e completamente iguais em suas fragilidades.

Com isso em mente entendi que não tinha a Verdade, mas uma verdade, a minha verdade, não era absoluta, era relativa a mim e a toda a minha caminhada. E da mesma forma entendi que todos os seres humanos estão nesta senda vivendo processos semelhantes.

Esse entendimento me libertou de vez da obrigação que queriam me impor de converter pessoas a determinadas ideologias, o que nunca me alegrou. Porém continuo comunicando a minha fé, e creio que todos têm o direito de saber se quiserem, afinal sei que sou resultado da reflexão que fiz a partir de tudo que vi, ouvi e li.

Sem proselitismo desejo que todos saibam aquilo que me faz bem, que me acalma o coração, que me alegra o viver e acima de tudo que me faz viver de maneira pacificada.

Desejo que todos saibam que creio que existe um Deus, mas que esse ‘um’ não é um número ou condição de ser de Deus, pois Nele pode habitar uma comunidade.  Que esse Deus é Amor ou Graça visto que o Amor-Graça é a Força que gera, que cria sem a necessidade de criar. E que toda a Sua criação mesmo sendo criada do Nada, é Nele que é e vai sendo, pois fora Dele simplesmente nada pode ser.

Desejo que todos saibam que creio que a criação tem um propósito, um sentido, uma meta, uma direção, um caminho que dá no próprio Deus, que para isso o Senhor abriu um espaço em Si mesmo, para que a criação pudesse ser livre, em outras palavras Deus morreu, para que a criação pudesse vir-a-ser em liberdade, pois fora da liberdade não há evolução e caminho nenhum a ser feito.

Desejo que todos saibam que creio que toda história humana carrega o princípio dessa revelação, mas por causa da liberdade têm-se também a possibilidade da transgressão, e pela transgressão o homem corrompe seu caminho natural, desviando-se da Vida. Porém, Deus, em sua suprema Graça e soberania, matou o poder da morte – conseqüência da transgressão, quando semeou a história com seu próprio sangue, fazendo nascer no solo do paradoxo humano a árvore da vida, cuja folhas são para a cura de todos os povos.

Desejo que todos saibam que creio que Jesus Cristo é revelação dessa verdade feita história, carne e sangue, e que, portanto podemos dizer que é Ele é Palavra Encarnada, onde Graça e Misericórdia se manifestam em palavras e gestos. Ele é um Caminho que todos podemos trilhar a fim de conhecermos a Verdade e experimentemos a Vida. Caminho não feito de doutrinas, nem sistematizado por lógicas humanas, nem dominado por qualquer grupo. Um caminho existencial que só a alma pode tomar por meio da fé, que não é nenhuma força mágica, mas uma disposição interior de se lançar plenamente naquilo que a mente não sabe, mas que, porém não consegue negar.

Toda a vida de Jesus é manifestação da Verdade sendo impossível separar seus ensinos de suas ações, ou separar sua pessoa de suas palavras. Daí se dizer que Ele é a Verdade. Ele nos ensinou sobre a realidade final, que chamou de Reino de Deus. Revelou como participamos disso pela via da negação do ‘si - mesmo’, e da afirmação do Eu na relação com o Tu, único lugar onde Deus se manifesta. Por isso mesmo, Ele que foi um Eu pleno doado para todos é habitação plena de Deus, encarnação do Eterno, Deus-Homem, a quem chamamos de Senhor e de Primogênito entre muitos irmãos.

Com sua morte nos deu o exemplo maior de doação, fazendo de sua cruz histórica revelação da cruz eterna onde o próprio Deus morreu por todos. E com sua ressurreição nos mostrou que o fim da história é plenitude, mas que por meio da pregação do Evangelho – a boa-nova do Amor de Deus – nos tornamos semeadores desta Realidade Final, trazendo o que será, para Hoje, pois quando se crer e se mergulha – se é batizado -  nesse entendimento, o que será É; passa-se da morte para a vida, transportar-se do reino das trevas para o Reino de Amor, ainda que esteja morto viverá, e do seu ser jorram fontes de águas vivas.

Desejo que todos saibam, por que esse Evangelho na vida de todas as pessoas que nele creram tornou-se poder para a salvação, ou seja, tornou-se poder para a libertação da escravidão do ciclo infernal da culpa-penitência, fazendo o ser em liberdade prosseguir para ser o que é Naquele e para Aquele que o criou para este propósito.

Como não comunicar tão grande salvação?!

Ivo Fernandes
28 de julho de 2010


1 Coríntios – Uma síntese

A Certeza Deus é fiel (1.9) A Promessa Ele os conservará firmes até o fim, de modo que sereis irrepreensíveis no Dia de no...