segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Para que todos saibam



Com oito anos de idade ouvia de vários profetas evangélicos que Deus havia me escolhido para uma grande obra, em virtude disso, não pude viver como uma criança normal, assim, desde cedo fui sendo preparado para tal missão. Com 12 anos estava no púlpito, com 15 pregando em vários lugares, com 18 assumindo a liderança de uma igreja evangélica.

Porém sempre tive dificuldade em comunicar aquilo que era ensinado a comunicar. Jamais me interessei pelos temas comuns que atraiam tanto as pessoas. Desde a adolescência me preocupava mais com o estado emocional dos jovens que liderava, em virtude de suas experiências sexuais, do que saber se elas eram ou não pecado.

Tentando encontrar uma ideologia que minha consciência aceitasse, estudei tudo que podia, a doutrina dos pais da igreja orientais e ocidentais, a doutrina católica medieval, a escolástica, os pensadores protestantes, reformados, radicais, liberais, ortodoxos, fundamentalistas, neo-ortodoxo, pós-liberais e contemporâneos. Porém não me encaixava plenamente em quase nada.

Toda essa busca me levou a perceber que eu não precisava encontrar tal ideologia, afinal toda ideologia é verdade e mentira, simplesmente porque todas são humanas, muitas vezes semelhantes em seus anseios e propósitos, e completamente iguais em suas fragilidades.

Com isso em mente entendi que não tinha a Verdade, mas uma verdade, a minha verdade, não era absoluta, era relativa a mim e a toda a minha caminhada. E da mesma forma entendi que todos os seres humanos estão nesta senda vivendo processos semelhantes.

Esse entendimento me libertou de vez da obrigação que queriam me impor de converter pessoas a determinadas ideologias, o que nunca me alegrou. Porém continuo comunicando a minha fé, e creio que todos têm o direito de saber se quiserem, afinal sei que sou resultado da reflexão que fiz a partir de tudo que vi, ouvi e li.

Sem proselitismo desejo que todos saibam aquilo que me faz bem, que me acalma o coração, que me alegra o viver e acima de tudo que me faz viver de maneira pacificada.

Desejo que todos saibam que creio que existe um Deus, mas que esse ‘um’ não é um número ou condição de ser de Deus, pois Nele pode habitar uma comunidade.  Que esse Deus é Amor ou Graça visto que o Amor-Graça é a Força que gera, que cria sem a necessidade de criar. E que toda a Sua criação mesmo sendo criada do Nada, é Nele que é e vai sendo, pois fora Dele simplesmente nada pode ser.

Desejo que todos saibam que creio que a criação tem um propósito, um sentido, uma meta, uma direção, um caminho que dá no próprio Deus, que para isso o Senhor abriu um espaço em Si mesmo, para que a criação pudesse ser livre, em outras palavras Deus morreu, para que a criação pudesse vir-a-ser em liberdade, pois fora da liberdade não há evolução e caminho nenhum a ser feito.

Desejo que todos saibam que creio que toda história humana carrega o princípio dessa revelação, mas por causa da liberdade têm-se também a possibilidade da transgressão, e pela transgressão o homem corrompe seu caminho natural, desviando-se da Vida. Porém, Deus, em sua suprema Graça e soberania, matou o poder da morte – conseqüência da transgressão, quando semeou a história com seu próprio sangue, fazendo nascer no solo do paradoxo humano a árvore da vida, cuja folhas são para a cura de todos os povos.

Desejo que todos saibam que creio que Jesus Cristo é revelação dessa verdade feita história, carne e sangue, e que, portanto podemos dizer que é Ele é Palavra Encarnada, onde Graça e Misericórdia se manifestam em palavras e gestos. Ele é um Caminho que todos podemos trilhar a fim de conhecermos a Verdade e experimentemos a Vida. Caminho não feito de doutrinas, nem sistematizado por lógicas humanas, nem dominado por qualquer grupo. Um caminho existencial que só a alma pode tomar por meio da fé, que não é nenhuma força mágica, mas uma disposição interior de se lançar plenamente naquilo que a mente não sabe, mas que, porém não consegue negar.

Toda a vida de Jesus é manifestação da Verdade sendo impossível separar seus ensinos de suas ações, ou separar sua pessoa de suas palavras. Daí se dizer que Ele é a Verdade. Ele nos ensinou sobre a realidade final, que chamou de Reino de Deus. Revelou como participamos disso pela via da negação do ‘si - mesmo’, e da afirmação do Eu na relação com o Tu, único lugar onde Deus se manifesta. Por isso mesmo, Ele que foi um Eu pleno doado para todos é habitação plena de Deus, encarnação do Eterno, Deus-Homem, a quem chamamos de Senhor e de Primogênito entre muitos irmãos.

Com sua morte nos deu o exemplo maior de doação, fazendo de sua cruz histórica revelação da cruz eterna onde o próprio Deus morreu por todos. E com sua ressurreição nos mostrou que o fim da história é plenitude, mas que por meio da pregação do Evangelho – a boa-nova do Amor de Deus – nos tornamos semeadores desta Realidade Final, trazendo o que será, para Hoje, pois quando se crer e se mergulha – se é batizado -  nesse entendimento, o que será É; passa-se da morte para a vida, transportar-se do reino das trevas para o Reino de Amor, ainda que esteja morto viverá, e do seu ser jorram fontes de águas vivas.

Desejo que todos saibam, por que esse Evangelho na vida de todas as pessoas que nele creram tornou-se poder para a salvação, ou seja, tornou-se poder para a libertação da escravidão do ciclo infernal da culpa-penitência, fazendo o ser em liberdade prosseguir para ser o que é Naquele e para Aquele que o criou para este propósito.

Como não comunicar tão grande salvação?!

Ivo Fernandes
28 de julho de 2010


Um comentário:

Paulo César Cândido disse...

Belo texto Ivo, isso é verdade, aprendi separar a fé da doutrina do dogma em sua aula e isso me fez bem, apesar de saber que a doutrina e o dogma é salutar muitas vezes para benefício da obra de Deus na terra, pois sem dogma e doutrina tudo seria um caos não acha?

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