domingo, 16 de outubro de 2011

A relação com Deus segundo Jesus



Os Evangelhos não apresentam nenhum manual de adoração, nenhuma orientação ou modelo para sistematizarmos o processo. Jesus, apesar de ser chamado de Mestre, não comunica nenhum sistema teórico, não propõe nenhuma filosofia da religião ou da história. Ele está longe de ser enquadrado no perfil dos pensadores. Nem sequer anuncia amanhãs radiantes. Sua mensagem é o que podemos chamar de imprevisível e consequentemente distanciada das interpretações dominantes da religião de sua época.

Quanto à questão da relação com Deus, os judeus pensavam esta relação a partir dos conteúdos concretos da esperança messiânica, da importância atribuída a Lei, do privilégio reconhecido à eleição e da fascinação pela terra prometida. Em outras palavras, a relação com Deus acontecia mediada pela Lei, pelo templo e pelas convicções dos espaços identificáveis do Reino de Deus, a saber, o templo, a terra e o povo eleito.

Porém, não vemos nenhuma dessas ênfases em Jesus. Ele se declara Messias negando todas as ênfases judaicas (Jo 4, 21-27). O Deus de Jesus não está em lugar nenhum. O Templo e Cidade de Jerusalém perderam a vocação de mediarem à relação com Deus. Quanto a Lei, é evidente nos textos como Jesus a relativizou em favor da vida humana. Aos seus discípulos não exige fidelidade a Lei, mas a si próprio como visibilidade humana de Deus.

Enfraquecidos o Templo, a Cidade e a Lei como mediadores da relação com Deus, a convicção de povo eleito perde o sentido. A universalidade da Graça e a fraternidade humana são afirmadas. Agora não é possível basear-se numa etnia eleita, pois até das pedras Deus suscita filhos (Mt 3,9)

Tanto na oração do Pai Nosso (Mt 6.5-15) quanto na conversa com a  samaritana (Jo 4), os dois textos mais indicativos sobre o assunto , Jesus não responde a questão de como nos relacionamos com Deus, apenas indica que tal relação é resultado de uma profunda convicção de Deus, que ele chama de fé, e que ocorre nos ambientes secretos da alma, e não nas exterioridades e aparências. Assim nada e nem ninguém pode ocupar o lugar de identificação de Deus, restando à máxima que o “justo viverá da fé”.

Ivo Fernandes
16 de outubro de 2011

sábado, 8 de outubro de 2011

A dúvida e a fé



Vivemos num tempo onde a dúvida foi entronizada. Ela já não é caminho para a verdade como na modernidade, ela é o destino. Nenhuma verdade deve ser aceita, afinal não existem verdades, tudo é apenas interpretação.

Conhecer é pôr-se em relação a alguma coisa, e um conhecimento absoluto é não somente um ideal inatingível na prática como uma contradição em termos. E a radicalidade desse pensamento não reside em afirmar que o conhecimento varia segundo o ponto de vista, e sim em negar a existência de um ponto de vista transcendente que poderia reunir os demais em uma síntese ou totalização, e que seria a única condição pela qual poderíamos conceber uma “coisa em si” para além das perspectivas. Dito de outro modo, o que está em questão não é a possibilidade de conhecermos a verdade, mas a existência mesma da verdade, isto é, de um estado de coisas constituído do qual o conhecimento seria a representação mais ou menos exata.

Assim o caminho proposto é semelhante ao do eremita de Nietzsche: “[Um eremita] duvidará inclusive de que um filósofo possa ter opiniões “verdadeiras e últimas”, e que nele não haja, não tenha de haver, uma caverna mais profunda ainda por trás de cada caverna — um mundo mais amplo, mais rico, mais estranho além da superfície, um abismo atrás de cada chão, cada razão, por baixo de toda “fundamentação”. (Além do bem e do mal, § 289.)

Do outro lado está o sujeito religioso a assegurar a sua convicção inabalável, a sua certeza absoluta e o seu acesso perfeito à verdade divina. Admitir a remota possibilidade de não estar alinhado à verdade absoluta, constitui-se em uma fraqueza inadmissível para uma boa parte de religiosos.

Entre esses dois grupos estão os cristãos e teólogos pós-modernos, tentando fazer uma teologia que abra mão dos absolutos metafísicos. Uma teologia que rejeita o Deus Absoluto da tradição cristã e o Totalmente Outro da neo-otodoxia, forjando um Deus que permaneça vivo ainda que morto, um Deus que permaneça presente ainda que ausente, um Deus que não atrapalhe a entronização da dúvida.

E o que Jesus disse sobre essas coisas? Uma leitura das fontes que nos apresentam seus ensinos nos mostra que ele jamais teceu elogios à dúvida. Todas as vezes que a citou foi contrapondo a fé. Jesus não se dedica a questões que envolvem compreender Deus, ele não tem um Deus para compreender, mas para obedecer.

Isso então quer dizer que não há espaços para a dúvida na fé cristã? Eu responderia que não há espaço para a dúvida na Fé Jesuológica que é um ato de paixão, um ímpeto na direção do Impossível, e não um saber, um sentir ou um querer.

Concordando com Soren Kierkegaard que diz em Temor e tremor: “A fé é um assombro e, contudo, nenhum ser humano é excluído dela; pois a paixão reúne a vida humana e a fé é essa paixão”. A fé, portanto, não é algo que se possa dar, receber e muito menos entender, mas é a chave que apaixonadamente nos ajuda a tomar decisões.

A dúvida não está para a fé, mas para a crença, pois esta tem haver com o saber, e mesmo nas crenças fundamentalistas onde a dúvida é negada epistemologicamente, na verdade com isso ela é afirmada. É uma relação dialética, crença versus dúvida.

Desta forma posso afirmar que a dúvida está em mim e a fé também e só não são excludentes porque são de ordens completamente diferentes. Assim aquele que tem fé, duvida, mas jamais do objeto de sua fé, mas de toda e qualquer construção do saber.

Eu posso dizer então que duvido, mas isso não me gera uma crise de fé. Posso mudar minhas crenças movido por dúvidas, mas jamais minha fé, pois a semelhança  de um personagem de Dostoiévski: “[...] se lhe provassem matematicamente que a verdade estava fora de Cristo, você aceitaria melhor fi car com Cristo do que com a verdade?”.Toda sua vida ele guardou um sentimento exclusivo, um amor exaltado por sua face divina [...] se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e se realmente a verdade estivesse fora de Cristo, melhor para mim seria querer ficar com Cristo do que com a verdade” (DOSTOIEVSKI, F. M. Os demônios. p. 249, 250)

Ivo Fernandes
9 de outubro de 2011

A justificação pela fé – uma exposição no Caminho

Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3 A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a prote...