quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Oração



Reconheço que não te amo Senhor com todas as forças da minha vida, sou carente de tua misericórdia.
Reconheço que não encarnei em minha vida teu mandamento de amor ao próximo, sou carente do teu perdão.
Reconheço que transgrido tua Lei, sou carente da tua salvação.
Reconheço teu amor manifestado no Cristo da Cruz.
Reconheço-te como Senhor e Salvador da minha vida.
Reconheço-te como único Deus.

Salva-nos Senhor!
Salva-nos porque somos pecadores.
Salva-nos porque nosso egoísmo está nos destruindo!
Salva-nos da nossa arrogância!
Salva-nos da nossa impureza!
Salva-nos da nossa religião!
Salva-nos do ódio e da hipocrisia que por ela foi em nós gerado!
Salva-nos de pecar contra o Espírito quando sufocamos o Evangelho por medo de perder nossas posições e benefícios neste mundo!
Salva-nos da cegueira que nos impede de ver a Palavra Viva!
Salva-nos daqueles que nos exploram!
Salva-nos de trocarmos a simples fé por qualquer objeto de barganha!
Salva-nos de toda verdade que não carregue em si a Verdade do Amor!


Advoga Senhor a causa daqueles que não podem se representar diante do Justo Juiz
Sê tu Senhor nosso Advogado!

Obrigado Senhor pela provisão do sangue que nos justificou
Obrigado pela minha salvação, não só minha, mas do mundo inteiro.
Obrigado!

Amém

Ivo Fernandes
4 de outubro de 2006

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A face feia de Deus



Pela manhã logo cedo ligo minha televisão e faço uma viagem pelos canais que me levam a observar aquele fenômeno – milhares de pessoas lotam templos neopentecostais. Tudo gira em torno de promessas de um deus maravilhoso que resolverá todos os problemas se você pagar bem. É no mínimo intrigante tal fenômeno.

Paro um pouco e reflito sobre a sinceridade de cada pessoa ali presente. São mulheres, senhoras, mães e avós de famílias, homens de bem, trabalhadores, na maioria pobres. Gente simples buscando um deus que aprenderam existir sobre tal face, a do provedor. Em outro canal, outra igreja, milhares de pessoas, buscando o deus sofrido na cruz, pela via da penitência salvar-se do pecado. São tantas buscas, tantos rostos para Deus.

Ainda na manhã desse dia saio para almoçar e decido ir para um lugar por mim ainda não visitado. Uma barraca ao pé do mangue visitada por pessoas pobres, simples. Uma gente sofrida revelada nos faces enrugadas e com pouca beleza. Nenhum corpo escultural, tatuagens mal feitas, crianças visivelmente mal alimentadas. Nada parecido com outro lugar que tinha ido semana anterior. Ali contemplei a beleza do feio.

À noite na reunião dos do Caminho, ali sentado em minha cadeira, observo cada um que chega. Uma família que vem de longe, pessoas simples, uma mulher com seus filhos, seu marido, e sua mãe de cabelos brancos. Depois um casal bem vestido, e outro, e depois outro. Até que entra um jovem com sua garrafa de vinho e suas brincadeira muitas vezes fora de hora, e pensei em tudo que vivi e vi naquele dia.

Como fundo de minha fala tocava uma música que eu sem saber perguntava sobre o rosto de Deus. E ali pensei, e se Deus fosse feio, fosse negro, fosse mulher, fosse pobre, fosse sujo, fedorento. Se entre todos nós naquela noite fosse justamente aquele jovem com cheiro de bebida como me comportaria? Se Deus fosse como qualquer um de nós? Não como as pinturas das belas telas. Não como o poderoso ou o piedoso das igrejas. Se fosse apenas como um homem marcado pelo dia a dia, será que os templos estariam lotados? Continuaria acreditando nele?

Pode parecer absurdo minha indagação, mas não é isso que nos ensina o símbolo da encarnação? Se Deus fosse a cara do indesejável em nossas mesas?  Se fosse um pecador, nascido em área pobre, de família pobre, sem formosura, sem atrativos, apenas um simples trabalhador, sem educação formal, sem bom cheiro, eu iria desejá-lo?

Se em vez de um rei apenas um carpinteiro iria de fato adorá-lo?

Hoje amanheci apaixonado pela face feia de Deus.

Ivo Fernandes
22 de outubro de 2012

domingo, 15 de julho de 2012

A parábola do filho pródigo: Uma parábola sobre nós



A parábola do filho pródigo é rica em significado e conteúdo, uma dessas riquezas é que ela fala de nossa alma. Cada personagem dessa história sou eu mesmo. Em cada situação da vida me identifico com um dos indivíduos dessa história. E como caminho, saímos do lugar do filho mais novo em direção ao pai. Isso nós precisamos compreender, somos chamados a ser o pai dessa história.

O filho mais novo é o símbolo da nossa negação da realidade espiritual a que pertenço. É o negar do amor. É o caminho em busca do que já se tem. E o que move o filho mais jovem em correr atrás do que já tem? A descrença. Por causa da descrença busco um amor incondicional no mundo, o que é uma impossibilidade. O filho mais jovem é o símbolo de nossa rebelião e negação do amor de Deus por causa da descrença.

O caminho do filho mais jovem é perdição, e sua sorte está no retorno para casa. Livrando da dúvida a respeito do amor de Deus, preciso crer num Deus que não pede explicações.

Associar-se ao filho mais jovem é mais fácil para a maioria de nós. Pecador que se arrepende nos é uma imagem comum. Mas associar-se a um homem com ressentimentos profundos é muito mais difícil.

A história dos filhos é uma história semelhante. Os dois precisam de cura e perdão, ambos precisam voltar para casa. Ambos precisam crer no amor do Pai.

O filho mais velho é o símbolo dos que viveram vidas regradas como um peso excessivo, e que portanto carrega no coração diversas dores. É o símbolo do infeliz, já que alegria e ressentimento não podem coexistir.

A história de cada filho é a história de cada um de nós. Temos um pai que por seu infinito amor nos deu liberdade de decidir o fim de nossas histórias. Podemos como filhos mais novos morrer com inveja dos porcos, ou retornar para casa, confiando no Amor do Pai. Podemos ficar do lado de fora da festa, cheio de ressentimento, como o filho mais velho ou com confiança e gratidão entrarmos na celebração.

Porém a história não acaba na identificação dos filhos, mas no desafio de me tornar o pai como um passo essencial à realização espiritual. A pergunta é: Você quer ser como o pai? Será que deseja não somente ser perdoado, mas perdoar; não somente ser recebido, mas receber; não somente ser tratado com misericórdia, mas ser misericordioso?

A parábola do filho pródigo traz a essência da mensagem de Jesus – O caminho para se tornar como o Pai.

Ivo Fernandes
6 de julho de 2012

domingo, 17 de junho de 2012

A questão do inferno


Hoje se fala pouco e por um lado isso é muito bom, revela que nos libertamos dos horrores provocados pela pregação do inferno na idade média, no entanto calar sobre o tema não me parece ser o mais adequado, em razão de Jesus Cristo ter dele falado. O que é necessário é uma compreensão que respeite o Evangelho e a fé no Amor de Deus. Afinal esse tema está dentro do tema da salvação, daí sua importância.

Sabemos que quando falamos do amor de Deus toda pregação do inferno parece ficar sem sentido, pois dá a entender uma contradição em relação à bondade e a misericórdia de Deus. Talvez um dos problemas seja a nossa leitura literalista dos textos, quando não se pode tomar por objetivo o que inobjetivável.  A linguagem que aborda o céu e o inferno remete a questões de alma.

Então seguindo a lógica do amor de Deus, não podemos pensar o inferno como castigo de Deus ou vingança. É inaceitável pensarmos num castigo eterno para ofensas limitadas de uma criatura frágil como o ser humano. Tudo que Deus faz é em vista da salvação.

Logo, o que podemos falar sobre o inferno? Primeiro que ele é símbolo de não-salvação. É o que não-é ao passo que a salvação é o que é. E sobre a possibilidade da não-salvação não podemos negar tal estrutura nas páginas do Evangelho, restando-nos apenas a afirmação que Deus não deseja que nenhum se perca. E isso é o trágico desse tema, a perda da salvação. E este tema está ligado diretamente ao tema da liberdade humana. Eu diria que o condenado é aquele que quer continuar obstinado contra Deus. Mas se inferno é fruto de liberdade, a experiência da salvação também, logo onde houver liberdade haverá sempre a possibilidade de salvação.

Deus é bom, mas é absurdo imaginar que por sua bondade violentará a liberdade humana e forçará salvação. Mas tal escolha não poderá fazer deste individuo um ser em estado imortal de condenação, pois a imortalidade é um dom dado para quem está no domínio do Reino.

Todas essas palavras estão no território da conjectura, é apenas uma proposta de diálogo. A segurança está unicamente no fundamental – Deus é Amor, e nós somos seres livres, e da liberdade pode nascer a resistência que pode gerar a não-salvação, a morte eterna, e que tal situação não é um castigo de Deus, é uma perda.

Ivo Fernandes
17 de junho de 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Eu e o Lego



Quando era eu era menino brincava como menino, mas quando cheguei a ser homem senti saudade das brincadeiras de menino, e assim, menino decidi continuar sendo. E em que consisti minha meninice? Na insistência para estar acordado, no sorriso largo, na vontade de experimentar o novo, na dança, na capacidade de perdoar amigos e de estar bem com todos.

Ontem, tive uma bela surpresa ganhei um presente especial, um playmobil. E o que há de especial num presente desses? Ele me trouxe boas lembranças.

Fui criado num lar sem crianças. Meus primos apesar de próximos fisicamente, não eram tão próximos de fato, assim na maior parte do tempo brinquei sozinho. Acompanhava minha velha mãe, minha maior companheira da infância, nas novelas e na cozinha, e lia os livros que minha irmã me estimulava, aos 10 já tinha lido tudo de Vinícius.

Minhas brincadeiras consistiam em criar realidades diversas, como se a cada espaço de tempo fosse eu um diretor de uma novela em que também era o ator principal. Assim foi até os meus 15 anos, e ainda hoje, algumas vezes, me pego inventando novelas, e tal imaginação está presente de maneira mais sofisticada nos muitos de mim.

Não tinha muito brinquedo, primeiro por causa do pouco dinheiro, segundo, por filosofia daquelas que me criavam. Via os primos tendo tudo e eu quase nada, mas nunca reclamei, sempre precisei de muito pouco, bastava-me espaço, qualquer material e imaginação.

Um dia andando no terreno baldio ao lado da minha casa, encontrei um boneco playmobil sem o cabelo, portanto com a cabeça tendo um buraco. Ele, que batizei de Lego, tornou-se o personagem principal das minhas brincadeiras com bonecos, que havia conseguido trocando tampinhas de refrigerantes.

Eu brinquei muito porque precisava de muito pouco. Lembro-me de minhas lutas com as ondas do mar, e que relembrei e revivi de maneira fantástica ontem. Sim! O tempo passou, eu envelheci de diversas formas, mas o velho menino ainda me habita. Permanece aqui meu delirar com as manhãs e meu desejar da noite. Ainda sinto cheiros e gostos. Celebro músicas, adoro companhias, e meu sorriso é constante. Sofrer? Sim! Muito e de muitas formas, mas que menino gasta tempo com as dores quando estas interrompem a brincadeira?

Hoje tenho novamente meu Lego, também mais velho, é moreno, tem barba e agora cabelo. Velhos amigos que se reencontram e se descobrem os meninos de sempre.

Ivo Fernandes
24 de maio de 12

terça-feira, 17 de abril de 2012

O caminho da espiritualidade – o caminho do anfitrião



Não se pode pensar no movimento que vai da hostilidade à hospitalidade sem uma constante conexão interna com o movimento que leva do isolamento à solidão. Isolados não podemos ser hospitaleiros, porque estamos impossibilitados de criar espaços livres.

É preciso que o anfitrião esteja capaz de oferecer o espaço onde o hóspede pode ouvir sua própria voz interior, mas para isso, ele mesmo precisa sentir-se em casa, em sua própria casa.

Sentir-se em casa faz parte do primeiro movimento, do isolamento à solidão, e para oferecer o espaço adequado ao hóspede é preciso que o anfitrião torne-se pobre. Quando deixamos de querer que nossas necessidades sejam completamente preenchidas, podemos oferecer aos outros esse espaço.

Só vemos o estranho como inimigo quando temos algo a defender, quando estamos agarrados a propriedade privada, seja nosso conhecimento, nossa fama, nosso dinheiro e bens. É preciso esvaziar a mente, abrir mão das riquezas, das ideias, dos conceitos e opiniões que nos colocam no lugar de completos. É preciso o reconhecimento que não sabemos. Por exemplo, somente quando sabemos de nossa pobreza em relação ao conhecimento de Deus é que somos abertos aos homens que possuem religiões diferentes da nossa.

Uma mente cheia de preconceitos, preocupações, invejas, medos não é capaz de gerar espaço para o estranho. Quando confundimos o nosso caminho com O Caminho destruímos a possibilidade do movimento espiritual.

O verdadeiro caminho da espiritualidade exige um árduo e doloroso processo de auto esvaziamento. Esse é o ensino presente na doutrina da encarnação, onde o próprio Deus faz o movimento da força para a fraqueza.

Ivo Fernandes
8 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

O caminho da espiritualidade e as formas de hospitalidade


O movimento que leva da hostilidade à hospitalidade é um movimento que determina nosso relacionamento com as pessoas. Provavelmente nunca nos livraremos de todas as nossas hostilidades; às vezes o melhor a fazer numa relação em hostilidade seja manter-se a distância, para que o tempo nos ajude no processo de cura.

Mas no caminho da espiritualidade precisamos desenvolver a hospitalidade, e dois lugares especiais podem nos ajudar nisso, a família e a comunidade religiosa. Na família, em especial a relação entre pais e filhos, pois estes últimos não são propriedades daqueles. Nossos filhos são nossos mais importantes hóspedes, entram, ficam um tempo e depois vão embora. Nesse tempo em que ficam, é preciso que venhamos a conhecê-los, e assim amá-los até o ponto de termos um relacionamento verdadeiro com eles. Para isso é preciso que os pais permitam o afastamento dos filhos. Libertá-los dos nossos desejos, pois é preciso lembrar que eles são apenas hóspedes que têm seus próprios destinos que não conhecemos e nem ditamos.

A comunidade religiosa também pode nos ajudar a desenvolver a hospitalidade, pois nela o ensino e a cura são presentes. Precisamos aprender a proporcionar um espaço sem medos, onde a pessoa fica tranquila para se expor se desejar. Cada pessoa dentro de uma comunidade religiosa que visa à hospitalidade tem algo a oferecer, assim é na comunidade que precisaremos aprender a rejeitar a necessidade de impressionar e controlar, e desenvolver a habilidade de estimularmo-nos ao bem.

A igreja não é uma instituição forçando-nos a seguir suas regras; é uma comunidade de pessoas que nos convida a saciar nossa fome e nossa sede em suas mesas. Ela é um espaço de cura, onde todos sabem que podem curar e que precisam ser curados. Isso nos aproxima dos estanhos que agora são próximos. É nesse espaço onde passamos a conhecer de fato o outro. Onde podemos contar e ouvir histórias, sem isso gerar juízo condenatório. É um lugar de recepção e confronto. Não estamos sendo hospitaleiros quando deixamos os estranhos isolados. É preciso o encontro real entre os dois, o que gera inevitavelmente confronto, e a partir daí em razão do acolhimento o diálogo. Receptividade sem confronto leva a uma neutralidade confortável que não serve a ninguém. Confronto sem receptividade leva a uma agressividade opressiva que fere a todos.  

Ivo Fernandes
01 de abril de 12

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O caminho da espiritualidade – o caminho em direção aos estranhos



Já aprendemos que a primeira característica da vida espiritual é o movimento contínuo do isolamento para a solidão. A segunda característica, igualmente importante, é o movimento pelo qual nossas hostilidades podem converter-se em hospitalidade. Esse caminho é cheio de dificuldades, porém é no contexto da hospitalidade que o anfitrião e o convidado podem trazer vida nova um ao outro.

O grande problema desse caminho é nossa concepção do próximo como estranho. Aprendemos que devemos evitar o estranho, seja pela justificativa da segurança ou de preconceitos diversos. O fato é que enquanto o próximo for estranho, seremos hostis a sua presença. E sem encontro com o próximo não há caminho de espiritualidade. Então para isso precisamos desenvolver a hospitalidade, que nada mais é do que uma amizade sem amarras, e uma liberdade sem abandono.

Hospitalidade é a criação de um espaço livre no qual o estranho pode entrar e tornar-se amigo, em vez de inimigo. Não é trazê-los para nosso círculo, mas oferecer uma liberdade sem amarras. É nesse espaço livre que cada um poderá descobrir a si mesmo. Hospitalidade não é um convite sutil para adotar o estilo de vida do anfitrião, mas a dádiva de uma chance para que o hóspede descubra o seu próprio.

Para se criar esse espaço requer concentração e disciplina, pois tal criação nos gera medo já que não somos adaptados a esses espaços vazios de encontro conosco mesmo. A disciplina consiste em trabalhar nossas preocupações diárias que nos impedem da criação desse espaço. Lembremo-nos das palavras de Jesus sobre isso:

Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?(Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. Mateus 6:25-34

segunda-feira, 12 de março de 2012

Caminho da espiritualidade – da solidão para a compaixão



Já está claro para nós que solidão não se refere a isolamento, que na verdade esse encontro conosco mesmos é essencial para todo e qualquer outro encontro. Na verdade, a solidão necessariamente nos levará ao encontro da vida, e jamais a fuga da mesma. Pessoas que negam o mundo como ele é e criam suas tranqüilidades artificiais são auto-enganadas.

O caminho da espiritualidade acontece no solo da realidade, e desenvolver a mesma requer a capacidade de me envolver com o mundo a minha volta. Não podemos contemplar nossa história sem perceber as relações que ela possui com a história do mundo. Precisamos ter uma relação simbólica com o mundo, e unir, reunir os eventos exteriores com os interiores. Não somos chamados para posturas diabólicas divididos entre uma coisa e outra, somos chamados a reconciliação.

Assim, precisamos olhar a vida com todas as suas surpresas e interrupções como possibilidades de nos revermos, de nos refazermos. Porém muitos questionam a possibilidade real disso. Suportaremos a realidade? Como enfrentá-la sem nos tornamos paralisados, deprimidos, ou mesmo cínico? A resposta está na solidão. É a partir dela que percebemos os muros que erigimos para evitar conhecer e sentir o fardo da dor humana. Na solidão ouvimos e não só ouvimos, mas percebemos o quanto somos iguais em tudo. O humano não nos é mais estranho. O mal do mundo é também o meu mal, e o bem do mundo também é meu. Somente com essa percepção damos o salto do orgulho para a compaixão. E da solidão nos envolvemos com as questões humanas, deixando a hostilidade em direção a hospitalidade.

Ivo Fernandes
11 de março de 2012 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Caminho da Espiritualidade – a solidão necessária



Solidão, de maneira simples significa estar só. E num primeiro momento nos parece impossível estar só sem nos retirarmos de perto das distrações do mundo, porém, no caminho da espiritualidade a solidão necessária não é a física, mas a do coração.

A solidão do coração é o caminho do desenvolvimento da sensibilidade interior, que é necessária antes de desenvolvermos sensibilidades interpessoais. A solidão do coração aprofunda nossas afeições pelos outros, a intimidade da vida, da amizade, das relações amorosas e das comunidades. É Ela que nos permite dar força ao outro através do respeito mútuo, da consideração pela individualidade do outro, da distância respeitosa da privacidade do outro e de uma reverente compreensão da sacralidade do coração humano.

Nas palavras de Rainer Maria Rilke, o amor consiste em duas solidões que se protegem, que se delimitam e se saúdam. Sem a solidão do coração jamais podemos ver melhor o outro e nem a nós mesmos. Quantos encontros não nos frustram, pois o que buscávamos não era necessariamente a presença física, mas a totalidade do outro que se pode ser experimentada depois que experimento da minha necessariamente pelo caminho da solidão do coração.

Quem aprendeu esse caminho aprendeu a viver sem as expectativas que tantas vezes destroem emoções e relações.

Ivo Fernandes
4 de março de 2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O caminho da espiritualidade – Encontro Consigo



O caminho da espiritualidade é um caminho solitário. Ninguém pode fazer por nós esse caminho. Durante muito tempo tinha por meta a santidade, mas por vezes me confundi no entendimento sobre o que seria de fato ser santo. Faz alguns anos que tenho entendido que viver uma vida no Espírito de Cristo é um caminho de santidade, é um caminho de espiritualidade.

Como se trata de um caminho solitário não pretendo oferecer respostas ou mesmo soluções, mas espero contribuir a partir da minha experiência com o caminho daqueles que me ouvem. Entendo que o caminho da espiritualidade passa pelo encontro com nosso eu interior, com o nosso próximo e com Deus. Na relação conosco mesmos precisamos lidar com o isolamento. Na relação com o próximo, com nossa hostilidade. E na nossa relação com Deus, com a ilusão. E não adianta pensar que tal caminho nos afastará das dores da vida, ao contrário, o verdadeiro caminho da espiritualidade nasce das dores da vida.

No encontro conosco precisamos lidar com o isolamento, essa experiência humana universal. Em geral tentamos escapar da sensação de isolamento ocupando-se com milhares de tarefas; um projeto a concluir, um amigo a visitar, um livro a ser lido, algo para assistir ou ouvir, etc. Consideramos que um dia entre essas coisas encontraremos o que dará conta desse anseio latente por unidade e completude, porém, nenhum amigo, amante, marido, esposa, igreja ou grupo poderá fazer isso. E se continuarmos tentando fazer dos outros esse “messias” faremos mal a todos em volta, pois ninguém deve ocupar tal lugar.

Precisamos aprender a conviver conosco. Cada um precisa de encontro consigo. Ninguém deve estar neste encontro além de nós mesmos. Só é capaz de viver em paz com os outros quem aprendeu a viver consigo mesmo em paz. Nenhuma relação que desrespeite esse espaço do outro, essa singularidade do outro faz bem.

Em síntese, em vez de negarmos o isolamento com atividades diversas, precisamos aprender a ser só, e nessa solidão aprender a só ser.

Precisamos aprender a fazer da solidão uma possibilidade, uma nova criação, um ponto de encontro. Quando aprendemos isso não mais viveremos em um frenesi de atividades, obcecados e temerosos pelas oportunidades perdidas.

Ivo Fernandes
26 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sobre o princípio da colheita



O princípio da colheita, ou da causa e efeito é muito comum entre nós, talvez pela repetição dele na natureza em diversos momentos. Mas o que podemos afirmar é que tal princípio é uma realidade existencial, mas não absoluta. Sabemos que existem leis que regem o universo, mas é ingenuidade beirando a estupidez considerar que o universo humano possa ser mapeado e definido por leis exatas. A história humana é a prova que não existem leis inexoráveis quando o assunto é a alma.

Apesar da Bíblia em muitas de suas partes conterem o principio da colheita, também possui muitos outros que nos ensinam que a vida não cabe no resumo da causa e efeito. Muitos salmos trazem esse ensino, a história de Jó é um belo exemplo, e os ensinos do profeta Ezequiel aponta para isso.

Pessoas que ignoram isso vivem pelos mecanismos da vista e sua relação com Deus é de troca, o que pode funcionar por um tempo, mas não por todo tempo, gerando posteriormente frustrações diversas.

O caminho da fé é feito justamente no espaço onde as leis de causa e efeito falham ou nada traduzem. Serve-se a Deus por Ele e jamais pelos efeitos conseqüentes dessa possível relação. Jó foi um homem assim. Sua relação com Deus não se baseava no principio da colheita, mas no princípio do amor. O diabo, na história, desafia esse amor, ferindo o princípio da causa e efeito. Conseguiria permanecer crendo aquele que tem contra si toda lógica possível?

Quem anda pela vista pergunta onde está Deus diante de tanta injustiça no mundo. Quem anda pela fé não faz perguntas, e quando as faz jamais espera que as respostas determinem sua relação, pois ainda que o céu esteja encerrado, e alma grite pela presença do Divino, quem anda pela fé entrega seu espírito ao Silêncio presente.

Com isso não estou dizendo que o principio da colheita é nulo, mas afirmando que no que concerne a alma não cabe a nós estabelecer relações. E por isso somos exortados a plantar para colher conforme em Gálatas, mas somos proibidos de fazer juízo sobre essa relação, conforme fizeram os amigos de Jó sobre sua situação.

Aos que caminham pela fé e não pela vista permanece a esperança de que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus.

Ivo Fernandes
28 de janeiro de 2012 

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...