terça-feira, 17 de abril de 2012

O caminho da espiritualidade – o caminho do anfitrião



Não se pode pensar no movimento que vai da hostilidade à hospitalidade sem uma constante conexão interna com o movimento que leva do isolamento à solidão. Isolados não podemos ser hospitaleiros, porque estamos impossibilitados de criar espaços livres.

É preciso que o anfitrião esteja capaz de oferecer o espaço onde o hóspede pode ouvir sua própria voz interior, mas para isso, ele mesmo precisa sentir-se em casa, em sua própria casa.

Sentir-se em casa faz parte do primeiro movimento, do isolamento à solidão, e para oferecer o espaço adequado ao hóspede é preciso que o anfitrião torne-se pobre. Quando deixamos de querer que nossas necessidades sejam completamente preenchidas, podemos oferecer aos outros esse espaço.

Só vemos o estranho como inimigo quando temos algo a defender, quando estamos agarrados a propriedade privada, seja nosso conhecimento, nossa fama, nosso dinheiro e bens. É preciso esvaziar a mente, abrir mão das riquezas, das ideias, dos conceitos e opiniões que nos colocam no lugar de completos. É preciso o reconhecimento que não sabemos. Por exemplo, somente quando sabemos de nossa pobreza em relação ao conhecimento de Deus é que somos abertos aos homens que possuem religiões diferentes da nossa.

Uma mente cheia de preconceitos, preocupações, invejas, medos não é capaz de gerar espaço para o estranho. Quando confundimos o nosso caminho com O Caminho destruímos a possibilidade do movimento espiritual.

O verdadeiro caminho da espiritualidade exige um árduo e doloroso processo de auto esvaziamento. Esse é o ensino presente na doutrina da encarnação, onde o próprio Deus faz o movimento da força para a fraqueza.

Ivo Fernandes
8 de abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

O caminho da espiritualidade e as formas de hospitalidade


O movimento que leva da hostilidade à hospitalidade é um movimento que determina nosso relacionamento com as pessoas. Provavelmente nunca nos livraremos de todas as nossas hostilidades; às vezes o melhor a fazer numa relação em hostilidade seja manter-se a distância, para que o tempo nos ajude no processo de cura.

Mas no caminho da espiritualidade precisamos desenvolver a hospitalidade, e dois lugares especiais podem nos ajudar nisso, a família e a comunidade religiosa. Na família, em especial a relação entre pais e filhos, pois estes últimos não são propriedades daqueles. Nossos filhos são nossos mais importantes hóspedes, entram, ficam um tempo e depois vão embora. Nesse tempo em que ficam, é preciso que venhamos a conhecê-los, e assim amá-los até o ponto de termos um relacionamento verdadeiro com eles. Para isso é preciso que os pais permitam o afastamento dos filhos. Libertá-los dos nossos desejos, pois é preciso lembrar que eles são apenas hóspedes que têm seus próprios destinos que não conhecemos e nem ditamos.

A comunidade religiosa também pode nos ajudar a desenvolver a hospitalidade, pois nela o ensino e a cura são presentes. Precisamos aprender a proporcionar um espaço sem medos, onde a pessoa fica tranquila para se expor se desejar. Cada pessoa dentro de uma comunidade religiosa que visa à hospitalidade tem algo a oferecer, assim é na comunidade que precisaremos aprender a rejeitar a necessidade de impressionar e controlar, e desenvolver a habilidade de estimularmo-nos ao bem.

A igreja não é uma instituição forçando-nos a seguir suas regras; é uma comunidade de pessoas que nos convida a saciar nossa fome e nossa sede em suas mesas. Ela é um espaço de cura, onde todos sabem que podem curar e que precisam ser curados. Isso nos aproxima dos estanhos que agora são próximos. É nesse espaço onde passamos a conhecer de fato o outro. Onde podemos contar e ouvir histórias, sem isso gerar juízo condenatório. É um lugar de recepção e confronto. Não estamos sendo hospitaleiros quando deixamos os estranhos isolados. É preciso o encontro real entre os dois, o que gera inevitavelmente confronto, e a partir daí em razão do acolhimento o diálogo. Receptividade sem confronto leva a uma neutralidade confortável que não serve a ninguém. Confronto sem receptividade leva a uma agressividade opressiva que fere a todos.  

Ivo Fernandes
01 de abril de 12

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O caminho da espiritualidade – o caminho em direção aos estranhos



Já aprendemos que a primeira característica da vida espiritual é o movimento contínuo do isolamento para a solidão. A segunda característica, igualmente importante, é o movimento pelo qual nossas hostilidades podem converter-se em hospitalidade. Esse caminho é cheio de dificuldades, porém é no contexto da hospitalidade que o anfitrião e o convidado podem trazer vida nova um ao outro.

O grande problema desse caminho é nossa concepção do próximo como estranho. Aprendemos que devemos evitar o estranho, seja pela justificativa da segurança ou de preconceitos diversos. O fato é que enquanto o próximo for estranho, seremos hostis a sua presença. E sem encontro com o próximo não há caminho de espiritualidade. Então para isso precisamos desenvolver a hospitalidade, que nada mais é do que uma amizade sem amarras, e uma liberdade sem abandono.

Hospitalidade é a criação de um espaço livre no qual o estranho pode entrar e tornar-se amigo, em vez de inimigo. Não é trazê-los para nosso círculo, mas oferecer uma liberdade sem amarras. É nesse espaço livre que cada um poderá descobrir a si mesmo. Hospitalidade não é um convite sutil para adotar o estilo de vida do anfitrião, mas a dádiva de uma chance para que o hóspede descubra o seu próprio.

Para se criar esse espaço requer concentração e disciplina, pois tal criação nos gera medo já que não somos adaptados a esses espaços vazios de encontro conosco mesmo. A disciplina consiste em trabalhar nossas preocupações diárias que nos impedem da criação desse espaço. Lembremo-nos das palavras de Jesus sobre isso:

Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?(Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. Mateus 6:25-34

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...