quinta-feira, 24 de maio de 2012

Eu e o Lego



Quando era eu era menino brincava como menino, mas quando cheguei a ser homem senti saudade das brincadeiras de menino, e assim, menino decidi continuar sendo. E em que consisti minha meninice? Na insistência para estar acordado, no sorriso largo, na vontade de experimentar o novo, na dança, na capacidade de perdoar amigos e de estar bem com todos.

Ontem, tive uma bela surpresa ganhei um presente especial, um playmobil. E o que há de especial num presente desses? Ele me trouxe boas lembranças.

Fui criado num lar sem crianças. Meus primos apesar de próximos fisicamente, não eram tão próximos de fato, assim na maior parte do tempo brinquei sozinho. Acompanhava minha velha mãe, minha maior companheira da infância, nas novelas e na cozinha, e lia os livros que minha irmã me estimulava, aos 10 já tinha lido tudo de Vinícius.

Minhas brincadeiras consistiam em criar realidades diversas, como se a cada espaço de tempo fosse eu um diretor de uma novela em que também era o ator principal. Assim foi até os meus 15 anos, e ainda hoje, algumas vezes, me pego inventando novelas, e tal imaginação está presente de maneira mais sofisticada nos muitos de mim.

Não tinha muito brinquedo, primeiro por causa do pouco dinheiro, segundo, por filosofia daquelas que me criavam. Via os primos tendo tudo e eu quase nada, mas nunca reclamei, sempre precisei de muito pouco, bastava-me espaço, qualquer material e imaginação.

Um dia andando no terreno baldio ao lado da minha casa, encontrei um boneco playmobil sem o cabelo, portanto com a cabeça tendo um buraco. Ele, que batizei de Lego, tornou-se o personagem principal das minhas brincadeiras com bonecos, que havia conseguido trocando tampinhas de refrigerantes.

Eu brinquei muito porque precisava de muito pouco. Lembro-me de minhas lutas com as ondas do mar, e que relembrei e revivi de maneira fantástica ontem. Sim! O tempo passou, eu envelheci de diversas formas, mas o velho menino ainda me habita. Permanece aqui meu delirar com as manhãs e meu desejar da noite. Ainda sinto cheiros e gostos. Celebro músicas, adoro companhias, e meu sorriso é constante. Sofrer? Sim! Muito e de muitas formas, mas que menino gasta tempo com as dores quando estas interrompem a brincadeira?

Hoje tenho novamente meu Lego, também mais velho, é moreno, tem barba e agora cabelo. Velhos amigos que se reencontram e se descobrem os meninos de sempre.

Ivo Fernandes
24 de maio de 12

Um comentário:

Silvia disse...

"Minhas brincadeiras consistiam em criar realidades diversas, como se a cada espaço de tempo fosse eu um diretor de uma novela em que também era o ator principal. Assim foi até os meus 15 anos, e ainda hoje, algumas vezes, me pego inventando novelas, e tal imaginação está presente de maneira mais sofisticada nos muitos de mim."

Emocionante. fui profundamente tocada por esse seu texto. Chorei.

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