domingo, 17 de junho de 2012

A questão do inferno


Hoje se fala pouco e por um lado isso é muito bom, revela que nos libertamos dos horrores provocados pela pregação do inferno na idade média, no entanto calar sobre o tema não me parece ser o mais adequado, em razão de Jesus Cristo ter dele falado. O que é necessário é uma compreensão que respeite o Evangelho e a fé no Amor de Deus. Afinal esse tema está dentro do tema da salvação, daí sua importância.

Sabemos que quando falamos do amor de Deus toda pregação do inferno parece ficar sem sentido, pois dá a entender uma contradição em relação à bondade e a misericórdia de Deus. Talvez um dos problemas seja a nossa leitura literalista dos textos, quando não se pode tomar por objetivo o que inobjetivável.  A linguagem que aborda o céu e o inferno remete a questões de alma.

Então seguindo a lógica do amor de Deus, não podemos pensar o inferno como castigo de Deus ou vingança. É inaceitável pensarmos num castigo eterno para ofensas limitadas de uma criatura frágil como o ser humano. Tudo que Deus faz é em vista da salvação.

Logo, o que podemos falar sobre o inferno? Primeiro que ele é símbolo de não-salvação. É o que não-é ao passo que a salvação é o que é. E sobre a possibilidade da não-salvação não podemos negar tal estrutura nas páginas do Evangelho, restando-nos apenas a afirmação que Deus não deseja que nenhum se perca. E isso é o trágico desse tema, a perda da salvação. E este tema está ligado diretamente ao tema da liberdade humana. Eu diria que o condenado é aquele que quer continuar obstinado contra Deus. Mas se inferno é fruto de liberdade, a experiência da salvação também, logo onde houver liberdade haverá sempre a possibilidade de salvação.

Deus é bom, mas é absurdo imaginar que por sua bondade violentará a liberdade humana e forçará salvação. Mas tal escolha não poderá fazer deste individuo um ser em estado imortal de condenação, pois a imortalidade é um dom dado para quem está no domínio do Reino.

Todas essas palavras estão no território da conjectura, é apenas uma proposta de diálogo. A segurança está unicamente no fundamental – Deus é Amor, e nós somos seres livres, e da liberdade pode nascer a resistência que pode gerar a não-salvação, a morte eterna, e que tal situação não é um castigo de Deus, é uma perda.

Ivo Fernandes
17 de junho de 2012

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