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Mostrando postagens de 2013

O planeta visitado

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O nascimento de Jesus não configura o centro da mensagem dos escritos do NT. Na verdade é provável que alguns escritores nem tivessem informações sobre os fatos ocorridos. Apenas Mateus e Lucas registram o nascimento em Belém, porém apesar disso, a história do nascimento tornou-se para os que creem um dos momentos mais sublimes da Revelação.
O relato não deseja ser a prova incontestável de sua origem espiritual, pois o mesmo já era crido independente da história. Nunca foi usado no NT nos embates apologéticos, do livro de João por exemplo. Para a maioria dos cristãos primitivos é a vida pública de Jesus que testemunha a seu favor.
Então o que aprendemos dessa história marginal das escrituras? Penso que há uma poderosa mensagem contida na ideia da encarnação, pois temos nela o oposto do esperado dos deuses nas concepções mais tradicionais de divindades. Se aquele menino era divino e sobre ele estava o destino da humanidade, que coisa arrebatadora é pensar que tal destino repousou sob…

A fé é absurda

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O chamado do Evangelho é absurdo. A fé é um ato irracional, não é objetiva, lógica ou capaz de ser explicada, porém não é inconsistente. A fé não é um dom de Deus oferecido apenas a alguns poucos predestinados. Ela emerge de nós tecida dos absurdos e esperanças da vida. É uma paixão pelo desconhecido, um desejo de impossível. Sim! Fé é paixão!
Ela é um assombro e nenhum ser humano está excluído dela. Não se trata de uma crença, mas de um caminho. E é um caminho de angústia, temor e tremor. É um vale das sombras e da morte. Fé é abraçar a incerteza como promessa.
Deus não pode ser compreendido, nem seus atos desvelados. Por isso é necessário que aqueles que Dele se aproximem tenham fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus. A Fé é escândalo para a Razão.
O chamado do Evangelho é para um abandono absoluto perante Deus como paradoxo. Não há nenhuma garantia que anteceda o salto da fé. A decisão do salto é individual e intransferível. E todo caminhante é responsável pela decisão que t…

A última semana de Jesus

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Inegavelmente a última semana da vida de Jesus é o interesse dos escritores Evangelistas, e de onde partem todas as crenças contidas no novo testamento. Não existe uma história de Jesus, existe uma história da morte de Jesus, nascimento e ressurreição são apêndices necessários, mais não centrais.
Para a tradição cristã desde os escritores neotestamentários a cruz estava no discurso de Jesus, e para ela ele caminha na sua última semana, que começa com a entrada ‘triunfal’ em Jerusalém, e usamos esse termo como ataque a tudo que pensamos como triunfo, afinal o que havia de um triunfal numa multidão de pobres em torno de um homem sem nenhuma glória sentando num jumento e com uma capa a servir de sela? Se aquele homem era um rei, sem dúvida não se tratava de um reino conhecido.
Depois temos a Ceia onde estranhamente o hospede de honra lava os pés de seus discípulos, ato considerado degradante até para um escravo. Que tipo de sociedade é essa que compõe a o reino deste rei estranho?
Ness…

Homenagem aos mortos

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Uma frase muito comum nos ensinos familiares é “temos que aprender a viver”. Já uma bastante incomum é “temos que aprender a morrer”. Quase nos dizendo que vida e morte são tão antagônicas que tais ensinos não podem ser dados ao mesmo individuo. No entanto o que vemos a cada dia é uma geração que não sabe viver, justamente porque não sabe morrer.
No texto que discursei sobre a linguagem e a morte, disse que só o ser humano morre, fato explicado pela questão da consciência. Só o homem sabe-se finito, sabe-se ser-para-a-morte. Não é por acaso que para Platão, o filósofo é aquele que aprendeu a morrer.
É justamente no pensar sereno sobre a morte que pensamos melhor a existência. Mas como pensar sobre algo que não sabemos? Só vejo um jeito, inventando, criando! Sim, devemos criar o sentido da morte e assim inventar um sentido para a vida. Dessa forma não ficaremos presos aos cultos fúnebres, mas apenas daremos a eles o que cabe, o tempo das lágrimas necessário.
A morte inventada é morte c…

A Linguagem e a Morte

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"A linguagem é a expressão adequada de todas as realidades?" Fonte - O Livro do Filósofo Autor - Nietzsche , Friedrich
Só podemos experimentar a morte como símbolo!
Existem duas características fundamentais do ser humano, a linguagem e a morte e no meio delas a angústia. Dessas procedem ‘quase’ todas as outras, como a consciência por exemplo. No entanto tais características ditas como fundamentais, estão em volta de um mistério. E todo mistério é um indizível. A linguagem não pode falar de si, na verdade a linguagem não pode falar de nada. Tudo que está na linguagem é segundo momento, ela não pode traduzir o ser, logo, mostrar algo, querer captar o Isto na indicação significa apenas ter a experiência de que a certeza sensível é, na verdade, um processo dialético de negação e mediação; que, portanto, o absoluto, será sempre descrito relativamente. A Verdade é inacessível à linguagem. Sendo assim a linguagem conserva o indizível dizendo-o, colhendo-o na sua negatividade. Apreende…

Tempo

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Perguntei outro dia “Como se esquece de alguém se ama?”. Afirmei em uma poesia que “Um novo amor não serve para matar a saudade de outro”.
Ontem conversei bastante sobre sentimentos, passado, amores, e pensei comigo mesmo o quanto nos perdemos do bem do amor presente por ficarmos presos ao passado. Existe um fato que não podemos negar, amores acabam.
Chega a hora em que a pessoa que você precisa não estará lá. Que partiu aquela que imaginava que seria pra sempre. E o que se faz nessa hora? Aprendi que nenhuma atitude desesperada dará conta, ao contrário quanto mais nos debatemos para esquecer mais forte fica a presença ausente da que se foi.
Não é possível simplesmente com um grito libertar o coração. A multidão de conselhos só nos irrita, as fugas psicoterapêuticas nos cansam, aliás, qualquer fuga é em vão. Trabalho, festas, nada dará conta.
A velha sabedoria aqui volta para nos ensinar. Só o tempo dará conta de todas as coisas. Logo é preciso paciência, deixar as coisas terem seu…

O amor é um sofrer

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O amor é um sofrer, e não me refiro aos amores românticos que duram o tempo do seu próprio verão. Amores assim são frutos de vaidades egoístas, justificados pelo tesão que acaba ou surge. Assim os que amam desta forma podem dizer que não tem culpa mais de amar, pois não mandam nos seus sentimentos. Porém quem ama apenas nos eventos de verão nunca amou de fato.
É triste ver o caminho das relações ditas modernas que alicerçadas na justificava do prazer desfazem laços que deveriam permanecer por toda existência. Afinal o que levava mulheres a permanecerem com seus maridos por resto da vida e o que leva ao descarte tão rápido nos tempos atuais?
Ouvi algumas histórias esses dias que ainda não saíram da minha mente. Uma conversa entre uma mãe e uma filha sobre sua separação. A mãe dizia que no seu tempo quando o homem não ‘prestava’ elas o concertavam, e hoje na geração da sua filha elas descartam. Mas ao descartar encontrarão o ideal? O perfeito? E como ele seria? Tratar-se-ia de um que f…

O segredo de viver contente em qualquer situação

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Acabei de reler o livro de Filipenses, carta de Paulo aos do Caminho que se reuniam na cidade de Filipos, segundo o testemunho da igreja primitiva.
Paulo escreveu essa carta da prisão (1.13,14) e apesar dessa circunstância é de suas cartas a que mais exorta a alegria. Ele mesmo confessa seu estado de júbilo, e escreve aos irmãos para que eles se regozijem a despeito das circunstâncias (1.27-30; 4.4).
Sabemos o quão difícil é ter disposição do espírito para a alegria em circunstâncias de sofrimento. Mas nessa carta Paulo nos mostra o segredo disso. E é lógico que não se trata de um caminho simplesmente terapêutico, trata-se de um caminho de fé.
É a fé que permite nos regozijarmos até no sofrimento (1.29), e nela andarmos em unidade, sem ambição egoísta ou vaidade, raízes de muitos sofrimentos (2.2-5). A fé nos faz descansar na certeza que Deus é Aquele que efetua em nós tanto o querer como o realizar, de acordo com a boa vontade Dele (2.13) e com isso podemos por em ação nossa salv…

Relacionamentos e sexualidade

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No decorrer desses anos de atendimento clínico-pastoral percebi que um dos muitos fatores que levam relacionamentos ao fim é o desgaste da vida sexual. E na tentativa de ajudar os que me procuram sempre busquei conhecer mais sobre o assunto da sexualidade.
Aprendi que se faz necessário ampliar a compreensão do termo, visto que o tema ainda não é tratado da maneira que deveria nem mesmo nos ambientes das universidades, quem dirá nos rodas de amigos e dentro das famílias. Dentro do conceito de sexualidade, a atividade sexual é apenas uma das expressões.
Também percebi que em certos grupos as dificuldades são maiores, grupos onde o prazer é enxergado com culpa, onde a velhice é acompanhada de baixa autoestima, que pensam o relacionamento sexual apenas como meio de reprodução ou liberação de tensão, que vivem relações de dominação e submissão. 
Então para se manter o erotismo e o interesse sexual, em uma relação que sofre com as tensões do dia-a-dia, em vários aspectos, e que sofre com…

O pensar da febre

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Estou com febre e meu corpo todo dói. Enquanto isso penso. Ontem lia as primeiras páginas de “A paixão segundo G.H” e já fiquei tomado pela questão da identidade, da pessoa, do que significa o humano. Rabisquei bastante e desejo mergulhar mais fundo nas questões sugeridas. Daí perguntei no grupo – sociedade – do facebook: O que é pessoa?Meu amigo Al Duarte respondeu: uma máscara boiando no mar... Estávamos agora diante de outros termos que desencadeariam uma serie de perguntas: O que esconde a máscara? Ainda há rosto diante da infinidade de máscaras?  Para mim estávamos diante da virtualidade que nos cerca e nos atravessa. Metafísica? Sim, é preciso resgatar a metafísica das formas, e falar de uma metafísica da força. Pessoa não pode ser pensado como algo dado, acabado. Não pode ser pensado como fixo Eu. Nem como corpo-objeto apesar de dele jamais se libertar. Pessoa é potência, multiplicidade de eus. Não é necessariamente o que me organiza, mas justamente o contrário.Da questão pesso…

Convocação do Tempo

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Certo dia entrei numa casa velha. Longos corredores, várias portas, uma escada que me levava para onde as recordações estavam. Poeira e teias de aranha disputavam lugares com armários, portas retratos e um relógio de parede. Tirei o excesso de pó e vi que o relógio ainda funcionava. Fiquei ali, olhando o movimento de suas peças, e me senti tomado pela sensação de perceber o tempo. Ao som de cada segundo, era como se pudesse sentir o pulsar do seu coração. E como se cada minuto contasse histórias, ouvia a sua sentença sobre todas as coisas.
Naquele momento, eu que durmo com a morte não mais a estranhei. Percebi que não é correndo contra o tempo que se vive mais, antes é no passo calmo que escuta o som do relógio. Vive-se mais quando se vive para ficar na história, nos sobrados, nos portas-retratos, na poeira e na memória.
O tempo não para, mas caminha lentamente com passos marcados, como que cantando cada segundo.
Todos que correm para ganhar tempo perderam a caminhada e toda história n…

Recomeçar

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Faz alguns dias que completei 32 anos. É! Ainda tem pessoas que se assustam quando revelo. A grande maioria me considera mais velho, talvez em razão do lugar e da representação que ocupo. O fato é que em cada aniversário fico mais reflexivo do que o de costume, introspecto e na maioria das vezes mais triste. É tempo de renovação.
Esse ano duas coisas aconteceram que o marcaram, um foi minha enfermidade que chamo de morte por várias razões minhas. Meus primeiros sintomas se deram logo após meu aniversário do ano passado. Seguiram-se dias de angústia e então morri. Logo fez um ano depois da minha morte. E quantos aprendizados não tive nesse tempo, quantas sensações, coisas que só a morte nos traz. E a outra coisa foi a mudança de casa, e consequentemente da estação do Caminho.
Novo ano. Nova casa. Novo endereço. Novo momento. É uma casa nova, somos os primeiros moradores. Ela fica num local silencioso, na reserva ecológica Sapiranga. Agora mesmo enquanto escrevo escuto sons de pássaros. …

Abraão e Ulisses, entre os caminhos da Fé e da Razão

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Abraão e Ulisses são personagens centrais, um da cultura judaica o outro da cultura grega. Ambos heróis, mas humanos.
A história de Abraão relata o caminho de homem rumo ao Desconhecido, movido pela Fé. A de Ulisses é a história de um retorno para casa, para isso lutando contra o Desconhecido. Muitas questões podem ser levantadas em torno desses mitos-história, a que destaco, no entanto é a relação que os dois estabelecem com o Desconhecido no caminho que cada um traça. Ulisses parte de Ítaca  em  direção  a  Tróia,  se  perde  por  10  anos, mas  retorna  ao  seu  ponto  de  origem,

Abraão parte em busca de uma terra desconhecida, estabelecendo uma eterna errância. Em Ulisses, o Desconhecido precisa ser reduzido para que ele volte para o seu lugar seguro, o que chamarei de um caminho para si. Em Abraão, o Desconhecido é mantido inatingível, porém intensamente desejado.
Em Ulisses há um “eu” pensando em si mesmo, em Abraão há um eu em direção a um Outro. O caminho de Ulisses também pode s…