domingo, 29 de dezembro de 2013

O planeta visitado


O nascimento de Jesus não configura o centro da mensagem dos escritos do NT. Na verdade é provável que alguns escritores nem tivessem informações sobre os fatos ocorridos. Apenas Mateus e Lucas registram o nascimento em Belém, porém apesar disso, a história do nascimento tornou-se para os que creem um dos momentos mais sublimes da Revelação.

O relato não deseja ser a prova incontestável de sua origem espiritual, pois o mesmo já era crido independente da história. Nunca foi usado no NT nos embates apologéticos, do livro de João por exemplo. Para a maioria dos cristãos primitivos é a vida pública de Jesus que testemunha a seu favor.

Então o que aprendemos dessa história marginal das escrituras? Penso que há uma poderosa mensagem contida na ideia da encarnação, pois temos nela o oposto do esperado dos deuses nas concepções mais tradicionais de divindades. Se aquele menino era divino e sobre ele estava o destino da humanidade, que coisa arrebatadora é pensar que tal destino repousou sobre a reação de dois camponeses, José e Maria, primeiros crentes a aceitar Jesus.

Se Jesus veio para nos revelar Deus, o que aprendo nesse primeiro natal? Aprendo que Deus revelado na manjedoura é um Deus humilde, o Deus menino, ao contrário de grande como visto pela maioria das religiões é Deus pequeno, talvez por isso o espetáculo de tal nascimento só foi visto por serviçais analfabetos que vigiavam rebanhos alheios, pastores visto pela sociedade da época como gente de segunda classe. Dá pra entender porque esse menino futuramente seria conhecido como amigo de pecadores, quando vemos quem fez sua primeira visita.

Aprendo que Deus é acessível. Diferente dos deuses que por sua grandiosidade causavam espanto, medo, o Deus da manjedoura não assusta. É um Deus fraco, uma família, em fuga, perseguida da ira dos sistemas de morte e poder. Só um Deus assim pode de fato se importar com pobres, famintos, frágeis, excluídos, não para se oferecer como aquele que resolverá seus problemas e que todos devem temer, mas como para se juntar a eles, caminhando na fraqueza e ensinando o poder da vida em meio às contradições da existência.

O Natal pode não ser o tema mais importante dos relatos bíblicos, mas coroou a história de maneira que hoje é impossível pensar Jesus e seu Deus sem a manjedoura. Cruz e manjedoura são partes de uma mesma coisa. Sobre esta pedra está a minha fé. O Deus que não conhece fronteiras assumiu as limitações do espaço chocantes da pele de um bebê, as restrições sinistras da mortalidade. O Deus de toda a Vida aprendendo a respirar, andar, mover-se, existir.

Natal, o dia em que o pequeno planeta foi visitado!

Ivo Fernandes

20 de dezembro de 2013

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A fé é absurda


O chamado do Evangelho é absurdo. A fé é um ato irracional, não é objetiva, lógica ou capaz de ser explicada, porém não é inconsistente. A fé não é um dom de Deus oferecido apenas a alguns poucos predestinados. Ela emerge de nós tecida dos absurdos e esperanças da vida. É uma paixão pelo desconhecido, um desejo de impossível. Sim! Fé é paixão!

Ela é um assombro e nenhum ser humano está excluído dela. Não se trata de uma crença, mas de um caminho. E é um caminho de angústia, temor e tremor. É um vale das sombras e da morte. Fé é abraçar a incerteza como promessa.

Deus não pode ser compreendido, nem seus atos desvelados. Por isso é necessário que aqueles que Dele se aproximem tenham fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus. A Fé é escândalo para a Razão.

O chamado do Evangelho é para um abandono absoluto perante Deus como paradoxo. Não há nenhuma garantia que anteceda o salto da fé. A decisão do salto é individual e intransferível. E todo caminhante é responsável pela decisão que tomar. O caminho da fé é um caminho solitário. O Caminho de Abraão é um caminho só rumo ao monte Moriá.

Podemos até demonstrar a razão da nossa fé, mas não podemos fazer isso objetivamente, muito menos prová-la racionalmente. Posso explicá-la simplesmente vivendo. A fé vive em virtude do absurdo e o absurdo não tem explicação. É a esperança contra a esperança.

É estar nas mãos de Deus e não saber o que Ele quer, qual o seu prazer. É estar totalmente preparado para o que jamais se prepara, Àquele que vem como Ladrão, e nos assalta.

Ivo Fernandes

20 de julho de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A última semana de Jesus


Inegavelmente a última semana da vida de Jesus é o interesse dos escritores Evangelistas, e de onde partem todas as crenças contidas no novo testamento. Não existe uma história de Jesus, existe uma história da morte de Jesus, nascimento e ressurreição são apêndices necessários, mais não centrais.

Para a tradição cristã desde os escritores neotestamentários a cruz estava no discurso de Jesus, e para ela ele caminha na sua última semana, que começa com a entrada ‘triunfal’ em Jerusalém, e usamos esse termo como ataque a tudo que pensamos como triunfo, afinal o que havia de um triunfal numa multidão de pobres em torno de um homem sem nenhuma glória sentando num jumento e com uma capa a servir de sela? Se aquele homem era um rei, sem dúvida não se tratava de um reino conhecido.

Depois temos a Ceia onde estranhamente o hospede de honra lava os pés de seus discípulos, ato considerado degradante até para um escravo. Que tipo de sociedade é essa que compõe a o reino deste rei estranho?

Nessa Ceia Jesus pede que fizéssemos três coisas para lembrarmos-nos dele; batizássemos os outros, como fora batizado por João, repartíssemos o pão numa refeição memorial e lavássemos os pés uns dos outros. Estava claro que seu reino era um reino de serviço e humildade.

Nessa mesma noite aparece a figura do traidor e o que vemos? O rei amando quem o trairia. Mas a traição não estaria apenas no beijo de quem o vendeu, mas também no sono de quem o deixou só na sua hora de agonia, na covardia de quem não teve coragem de dizer que o conhecia, no abandono geral quando foi preso. E das muitas traições vemos um rei sofrido e angustiado. E o Getsêmani termina de maneira que nos é tão familiar, com a história de uma oração não respondida.  Um homem que se coloca na total dependência de Deus, como fazia desde a sua tentação no deserto.

Então se segue a prisão e os interrogatórios, sem nenhuma defesa, nem ele próprio se defende. Aqui vemos como a bondade pode ser perigosa para as instituições humanas. E ali estava o Messias menos provável de todos os tempos, e quando já não havia, mas nenhuma condição de dar crédito a um rei ultrajado, ele confessa publicamente quem era – o Cristo de Deus, e porque só agora quando nos era logicamente impossível aceitar? Talvez porque esse reino não é fundado em lógicas racionais, mas no paradoxo da fé.

E aí a crucificação. E durante todo trajeto um homem com uma relação estranha com seu objeto de execução. E por quê? A cruz não é um desvio no caminho, nem um obstáculo para o reino, nem mesmo o caminho do reino, ela é o reino que vem.

Do seu lado dois ladrões que bem demonstram como podemos reagir a um rei crucificado. Zombando de sua tolice ou crendo no mistério do amor ali revelado e no reino ali manifesto.

A morte de Jesus destruiu a possibilidade de ele ser um Messias, um rei para muita gente. Mas estranhamente para outros começou o caminho da adoração de um Deus. O Deus da Cruz! O Deus que escolheu o caminho da fraqueza!

Ivo Fernandes
28 de novembro de 2013



domingo, 10 de novembro de 2013

Homenagem aos mortos


Uma frase muito comum nos ensinos familiares é “temos que aprender a viver”. Já uma bastante incomum é “temos que aprender a morrer”. Quase nos dizendo que vida e morte são tão antagônicas que tais ensinos não podem ser dados ao mesmo individuo. No entanto o que vemos a cada dia é uma geração que não sabe viver, justamente porque não sabe morrer.

No texto que discursei sobre a linguagem e a morte, disse que só o ser humano morre, fato explicado pela questão da consciência. Só o homem sabe-se finito, sabe-se ser-para-a-morte. Não é por acaso que para Platão, o filósofo é aquele que aprendeu a morrer.

É justamente no pensar sereno sobre a morte que pensamos melhor a existência. Mas como pensar sobre algo que não sabemos? Só vejo um jeito, inventando, criando! Sim, devemos criar o sentido da morte e assim inventar um sentido para a vida. Dessa forma não ficaremos presos aos cultos fúnebres, mas apenas daremos a eles o que cabe, o tempo das lágrimas necessário.

A morte inventada é morte como arte, e arte não se interpreta, se inventa, se intertrepa. Podemos e devemos fazer da morte uma força positiva da vida. Por isso que melhor do que ornamentar túmulos em homenagem aos mortos, a melhor maneira de homenageá-los é vivendo.

A morte seria o fim? Só se tivermos falando das estruturas orgânicas. A morte não pode matar a vida, talvez seja esse o grande ensinamento da ressurreição – a vida não morre.

Mas você pode me perguntar: como inventar a morte? Eu não poderia lhe responder, pois isso seria lhe oferecer modelos que matariam sua criatividade. Cada um de nós é autor solitário desse processo inventivo.
Desejo então uma boa morte para todos!

Ivo Fernandes

2 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Linguagem e a Morte


"A linguagem é a expressão adequada de todas as realidades?"
Fonte - O Livro do Filósofo Autor - Nietzsche , Friedrich

Só podemos experimentar a morte como símbolo!

Existem duas características fundamentais do ser humano, a linguagem e a morte e no meio delas a angústia. Dessas procedem ‘quase’ todas as outras, como a consciência por exemplo. No entanto tais características ditas como fundamentais, estão em volta de um mistério. E todo mistério é um indizível. A linguagem não pode falar de si, na verdade a linguagem não pode falar de nada. Tudo que está na linguagem é segundo momento, ela não pode traduzir o ser, logo, mostrar algo, querer captar o Isto na indicação significa apenas ter a experiência de que a certeza sensível é, na verdade, um processo dialético de negação e mediação; que, portanto, o absoluto, será sempre descrito relativamente. A Verdade é inacessível à linguagem.
Sendo assim a linguagem conserva o indizível dizendo-o, colhendo-o na sua negatividade. Apreende-se o Isto se temos o significado deste isto, que é um não-isto que ele encerra, logo, uma negatividade essencial. O Isto significa indicação ou a essência segundo o sujeito, assim Hegel afirma que o limite da linguagem cai sempre no interior da linguagem, que está desde sempre contido nela como negativo. Inicialmente o indizível é a coisa mais concreta, imediata, genérica e universal, mas é necessariamente o gênero supremo, além do qual não é possível definição.
Ora, se a linguagem é segundo momento, a nossa própria consciência também o é, pois a linguagem é a voz da consciência, pois todo som tem um significado, nela tem um nome, idealidade de uma coisa existente. E da consciência nasce a experiência da morte enquanto morte. O animal não morre e não fala, ele tem voz e cessa de viver. O homem é o falante e o mortal, e nisto está para o negativo, para o nada. É um ser-para-o-fim, ou seja, para a morte e, como tal, esta desde sempre em relação com ela.
Mas o fato de dizermos que a linguagem não fala aquilo que quer dizer, não significa que ela precisa calar, pois é na fala que a linguagem conserva o indizível dizendo-o, ou seja, colhendo-o na sua negatividade. Só é possível falar sobre o Indizível, dizendo-o.
É por causa da linguagem que o homem dar-se conta do nada. Mas antes da linguagem há a Voz, é ela que abre o lugar da linguagem e esta instaura as categorias do tempo. O ser é como a Voz, e ela está naquilo que é suprimido cada vez que se diz. Mas toda experiência disto no homem, o ser-o-aí tem seu lugar na linguagem no suprimir da Voz.
E perguntamos: o que existe na Voz? Nada. Mas daí a linguagem abre o ser e o sentido. Em outras palavras é na linguagem que o ser se mostra e se oculta. E essa experiência do ser é um chamado da Voz, que chama sem nada dizer. Poeticamente podíamos chamar a Voz de Silêncio. E no Silêncio está a morada do Logos.
Assim não confundamos linguagem e Voz. A linguagem não pode ser dita nem mesmo como absolutamente a voz do homem, como o zurro é a voz do asno, e o rechino é a voz da cigarra. O homem é o ser-o-aí, justamente porque possui uma voz que não é a linguagem. Para entender melhor isso talvez o texto de Giorgio Caproni, pode nos ajudar:

O FIM DO PENSAMENTO

Giorgio Agamben

Tradução de Alberto Pucheu


            Acontece como quando caminhamos no bosque e, subitamente, surpreende-nos a variedade inaudita das vozes animais. Silvo, trilo, chilro, lascas de lenha e metais estilhaçados, assobios, cochichos, cicios: cada animal tem seu som, nascido imediatamente de si. Ao fim, a nota dúplice do cuco ri de nosso silêncio, divulgando nosso ser insustentável, o único sem voz no coro infinito das vozes animais. Então, provamos do falar, do pensar. 

            Em nossa língua, a palavra pensamento tem por origem o significado de angústia, de ímpeto ansioso, que se encontra ainda na expressão familiar: stare in pensiero (estar atormentado). O verbo latino pendere, de onde deriva a palavra nas línguas romanas, significa estar suspenso. Agostinho utiliza-o neste sentido para caracterizar o processo do conhecimento: “O desejo que há na procura procede de quem busca e, de alguma maneira, permanece suspenso (pendet quodammodo), até repousar na união com o objeto enfim encontrado”. 

            Que coisa está suspensa, que coisa pende no pensamento? Pensar, na linguagem, não podemos, porque a linguagem é e não é a nossa voz. Eis uma pendência, uma questão não resolvida na linguagem: será nossa a voz, como o zurro a voz do burro e o trilo a voz do grilo? Por isto, ao falar, somos constrangidos a pensar e manter suspensas as palavras. O pensamento é a pendência da voz na linguagem. 

            (No seu trilo, é claro: o grilo não pensa). 

            À noite, passeando pelo bosque, a cada passo, sentimos animais invisíveis rastejarem por entre as moitas que ladeiam o caminho: se lagartos ou ouriços, tordos ou serpentes, não sabemos. O mesmo acontece quando pensamos: não tem importância o caminho da palavra que percorremos, mas a confusa agitação que sentimos ao redor, como a de um animal em fuga ou a de qualquer coisa que, de repente, acorda com os barulhos dos passos.

            O animal em fuga, que percebemos rumorejar pelas palavras, – foi dito –, é a nossa voz. Pensamos – temos as palavras suspensas e nós mesmos estamos como que suspensos na linguagem – porque esperamos, assim, reencontrar, ao fim, a voz. Um dia, – foi dito –, a voz se inscreve na linguagem. A procura da voz na linguagem é o pensamento.

            Que a linguagem surpreenda e sempre antecipe a voz, que a pendência da voz na linguagem não haja mais fim: este é o problema da filosofia. (Como cada um resolve esta pendência é a ética).

Mas a voz, a voz humana não é. Não é nossa a voz que podemos seguir no traçado da linguagem, colhendo-a – para recordá-la – no ponto em que ela se desfaz no nome, se inscreve na letra. Nós falamos com a voz que não temos, que jamais foi escrita (agrapta nomima, Antígona, 454). E a linguagem é sempre “letra morta”.

Pensar, podemos apenas se a linguagem não é a nossa voz, apenas se, nisso, medimos o insondável de nossa afonia. O que chamamos de mundo é este abismo.

A lógica mostra que a linguagem não é a minha voz. A voz – ela diz – foi, mas já não é, nem poderá mais ser. A linguagem tem lugar no não-lugar da voz. Isto significa dizer que o pensamento nada há de pensar da voz. Esta é a sua piedade.

Então, a fuga, a pendência da voz na linguagem deve ter fim. Podemos deixar de ter a linguagem, a voz, em suspensão. Se a voz jamais foi, se o pensamento é pensamento da voz, ele não tem mais nada a pensar. O pensamento cumprido não tem mais pensamento.

Do termo latino que, por séculos, designou o pensamento, cogitare, na nossa língua, restou apenas um traço na palavra tracotanza[1]. Ainda no século XIV, coto, cuitanza, queria dizer: pensamento. Através do provençal oltracuidansa, tracotanza provém do latino ultracogitare: exceder, passar o limite do pensamento, sobrepensar, spensare.

O que foi dito poderá ser dito de novo. Mas o que foi pensado não poderá mais ser dito. Da palavra pensamento, tu te despedes para sempre.

Caminhamos no bosque: de repente, sentimos um fremir de asas ou de ervas agitadas. Um faisão voa e mal temos tempo de vê-lo desaparecer por entre os galhos, um porco-espinho se embrenha no mato mais denso, a serpente faz as folhas secas crepitarem sob si. Não o encontro, mas esta fuga de animais selvagens invisíveis, é o pensamento. Não, não era a nossa voz. Nós nos avizinhamos da linguagem o quanto era possível, quase a roçamos, em suspensão: mas o nosso encontro não ocorreu, e, agora, retornamos, impensadamente, desta vizinhança, para a casa.

A linguagem, portanto, é a nossa voz, a nossa linguagem. Como tu agora falas – eis a ética.        

Assim consentir com tais coisas, ou escutar a Voz que não diz, significa consentir com morte, ser capaz de morrer ao invés de simplesmente cessa de viver. Significa ter experiência da morte como morte, fazer experiência da supressão da voz e do surgimento, em seu lugar, de outra Voz, que constitui o originário fundamento negativo da palavra humana. Estar na linguagem sem ser aí chamado por nenhuma Voz, simplesmente morrer sem ser chamado pela morte é, talvez, a experiência mais abissal que não possibilitaria o sermos o ser-aí.
Ivo Fernandes

12 de maio de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tempo


Perguntei outro dia “Como se esquece de alguém se ama?”. Afirmei em uma poesia que “Um novo amor não serve para matar a saudade de outro”.

Ontem conversei bastante sobre sentimentos, passado, amores, e pensei comigo mesmo o quanto nos perdemos do bem do amor presente por ficarmos presos ao passado. Existe um fato que não podemos negar, amores acabam.

Chega a hora em que a pessoa que você precisa não estará lá. Que partiu aquela que imaginava que seria pra sempre. E o que se faz nessa hora? Aprendi que nenhuma atitude desesperada dará conta, ao contrário quanto mais nos debatemos para esquecer mais forte fica a presença ausente da que se foi.

Não é possível simplesmente com um grito libertar o coração. A multidão de conselhos só nos irrita, as fugas psicoterapêuticas nos cansam, aliás, qualquer fuga é em vão. Trabalho, festas, nada dará conta.

A velha sabedoria aqui volta para nos ensinar. Só o tempo dará conta de todas as coisas. Logo é preciso paciência, deixar as coisas terem seu próprio ritmo. O problema é que cada vez mais consideramos que não temos tempo. Não queremos suportar mais nada. Corremos da dor desesperadamente. Ninguém aguenta ficar triste. Mas da tristeza não se pode fugir. Quem a evita prolonga-a. Certas dores precisam ser sentidas, pois só passam depois de devidamente doídas.

Chega a hora onde é preciso aceitar que certas coisas acabam. A hora de enfrentar certas separações. E entender que muitas vezes a única solução é viver o luto necessário. Só assim no compasso do tempo é que cada coisa tem sua própria solução.

Ivo Fernandes

17 de outubro de 2013

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O amor é um sofrer


O amor é um sofrer, e não me refiro aos amores românticos que duram o tempo do seu próprio verão. Amores assim são frutos de vaidades egoístas, justificados pelo tesão que acaba ou surge. Assim os que amam desta forma podem dizer que não tem culpa mais de amar, pois não mandam nos seus sentimentos. Porém quem ama apenas nos eventos de verão nunca amou de fato.

É triste ver o caminho das relações ditas modernas que alicerçadas na justificava do prazer desfazem laços que deveriam permanecer por toda existência. Afinal o que levava mulheres a permanecerem com seus maridos por resto da vida e o que leva ao descarte tão rápido nos tempos atuais?

Ouvi algumas histórias esses dias que ainda não saíram da minha mente. Uma conversa entre uma mãe e uma filha sobre sua separação. A mãe dizia que no seu tempo quando o homem não ‘prestava’ elas o concertavam, e hoje na geração da sua filha elas descartam. Mas ao descartar encontrarão o ideal? O perfeito? E como ele seria? Tratar-se-ia de um que foi amigo de infância, tem coisas semelhantes, saem juntos para festas e bebem entre colegas? O que se faz com as promessas de amor de outrora? São simplesmente esquecidas?

Um amor de verdade não acaba. O que acaba é a decisão de se viver com o sofrer que é lhe é próprio na busca ‘infeliz’ da felicidade. Trocamos a rotina das relações pelos encontros alegres com aqueles que não choraram conosco. Trocamos as construções pelos prazeres de algumas noites. Trocamos o carregar do fardo mútuo por uma caminhada supostamente leve, mas sem a profundidade de um sentir. Abandonamos famílias justificando-se pelo engano das sensações. Esperando o quê?

Contemplem a história ao redor e vejam o fruto deste tempo. O amor está morrendo, porque não desejamos mais sofrer. Queremos apenas a felicidade ilusória garantida pela bajulação, e não pela verdade.

A outra história que ouvi tratava-se um pai falando ao seu filho sobre amor. Dizia ele ao filho que abandonava o lar, “o que você está procurando? Amor? Meu filho, o amor é a decisão de viver com alguém com quem você estabeleceu elos eternos mesmo quando os sentimentos estão frios ou mortos. É essa decisão que mais cedo ou mais tarde fará tudo ressurgir.”

Amar é uma decisão de sofrer e permitir que daí nasçam não felicidades fortuitas, mas alegrias permanentes.
Quem ainda deseja amar e ser amado nos dias de hoje?

Ivo Fernandes
8 de outubro de 2013


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O segredo de viver contente em qualquer situação


Acabei de reler o livro de Filipenses, carta de Paulo aos do Caminho que se reuniam na cidade de Filipos, segundo o testemunho da igreja primitiva.

Paulo escreveu essa carta da prisão (1.13,14) e apesar dessa circunstância é de suas cartas a que mais exorta a alegria. Ele mesmo confessa seu estado de júbilo, e escreve aos irmãos para que eles se regozijem a despeito das circunstâncias (1.27-30; 4.4).

Sabemos o quão difícil é ter disposição do espírito para a alegria em circunstâncias de sofrimento. Mas nessa carta Paulo nos mostra o segredo disso. E é lógico que não se trata de um caminho simplesmente terapêutico, trata-se de um caminho de fé.

É a fé que permite nos regozijarmos até no sofrimento (1.29), e nela andarmos em unidade, sem ambição egoísta ou vaidade, raízes de muitos sofrimentos (2.2-5). A fé nos faz descansar na certeza que Deus é Aquele que efetua em nós tanto o querer como o realizar, de acordo com a boa vontade Dele (2.13) e com isso podemos por em ação nossa salvação, pois na certeza do cuidado de Deus, prosseguimos alegremente (2.12).

A fé não destrói o problema em si, nem mesmo o ameniza em suas próprias circunstâncias, mas por nos apontar a grandeza do conhecimento de Cristo, nos livra das queixas intermináveis(2.14), e nos ajuda a prosseguir para alcançar a perfeição, na certeza que já fomos alcançados por Cristo(3.12).

A fé nos põe a caminho, nos conduzindo em maturidade (3.13-15). Todo sofrimento tem sua raiz no mundo. A vitória sobre ele está na nossa cidadania que está nos céus (3.20). Essa é a fé que vence o mundo, e não estou me referindo a uma atitude de fuga da realidade, mundo e céus não são espaços geográficos, mas condições do espírito.

O segredo da alegria é a fé. Com ela não andamos ansiosos por coisa alguma (4.6) e temos paz que excede todo entendimento (4.7), podendo nos dedicar ao que é bom(4.8). Quem possui a fé aprendeu a viver contente em qualquer situação, pois tudo pode Naquele que o fortalece (4.9-13).

Ivo Fernandes

29 de setembro de 2013

domingo, 18 de agosto de 2013

Relacionamentos e sexualidade


No decorrer desses anos de atendimento clínico-pastoral percebi que um dos muitos fatores que levam relacionamentos ao fim é o desgaste da vida sexual. E na tentativa de ajudar os que me procuram sempre busquei conhecer mais sobre o assunto da sexualidade.

Aprendi que se faz necessário ampliar a compreensão do termo, visto que o tema ainda não é tratado da maneira que deveria nem mesmo nos ambientes das universidades, quem dirá nos rodas de amigos e dentro das famílias. Dentro do conceito de sexualidade, a atividade sexual é apenas uma das expressões.

Também percebi que em certos grupos as dificuldades são maiores, grupos onde o prazer é enxergado com culpa, onde a velhice é acompanhada de baixa autoestima, que pensam o relacionamento sexual apenas como meio de reprodução ou liberação de tensão, que vivem relações de dominação e submissão. 

Então para se manter o erotismo e o interesse sexual, em uma relação que sofre com as tensões do dia-a-dia, em vários aspectos, e que sofre com o desgaste do tempo, faz-se necessário entender a sexualidade como fundamental para a satisfação dos relacionamentos amorosos e que tal sexualidade envolve fatores como intimidade,amizade, desejo,erotismo, autonomia, singularidade.

Não se pode perder de vista que é necessário manter a intimidade, a paixão, mas entender que compromisso, e uma decisão que dará manutenção das mesmas. Compromisso de manter a presença do carinho, da ternura e da confiança, possibilitando diálogos sinceros. É por meio desse diálogo sustentado pelo que falei anteriormente que o respeito à singularidade do outro surge, e sem esse respeito é impossível à manutenção de uma relação saudável.
Diante do outro é necessário também que se desenvolva o equilíbrio de união e distanciamento. Pois a saúde do relacionamento depende disso, pois assim como o excesso de distanciamento não permite a ligação afetiva, o excesso de união elimina a individualidade. Concluindo-se então que o distanciamento, além do físico também o psíquico, é uma precondição da ligação afetiva e, consequentemente, sexual.
O tempo tem que ser contado a favor e não contra as relações para isso, deve se considerar que é devido à aquisição das experiências passadas que pessoas são capacitadas o autoconhecimento que inclui o do seu corpo, e também conhecer o corpo do companheiro afetivo e reconhecer as atividades que lhes proporcionam mais prazer.

Por fim o casal necessita desprender um momento para o namoro, e, nessas ocasiões, possibilitar situações que favoreçam a erotização mútua. Para tal, faz-se necessário que esteja disponível, física e psiquicamente, para encontrar-se com o outro e possibilitar a expressão de novas formas de erotização e prazer, reconhecendo no corpo do outro, a possibilidade de sedução, da beleza e acompanhada da experiência de vida.

Ivo Fernandes

17 de agosto de 2013

sábado, 13 de julho de 2013

O pensar da febre


Estou com febre e meu corpo todo dói. Enquanto isso penso. Ontem lia as primeiras páginas de “A paixão segundo G.H” e já fiquei tomado pela questão da identidade, da pessoa, do que significa o humano. Rabisquei bastante e desejo mergulhar mais fundo nas questões sugeridas. Daí perguntei no grupo – sociedade – do facebook: O que é pessoa?
 
Meu amigo Al Duarte respondeu: uma máscara boiando no mar... Estávamos agora diante de outros termos que desencadeariam uma serie de perguntas: O que esconde a máscara? Ainda há rosto diante da infinidade de máscaras? 
 
Para mim estávamos diante da virtualidade que nos cerca e nos atravessa. Metafísica? Sim, é preciso resgatar a metafísica das formas, e falar de uma metafísica da força.
 
Pessoa não pode ser pensado como algo dado, acabado. Não pode ser pensado como fixo Eu. Nem como corpo-objeto apesar de dele jamais se libertar. Pessoa é potência, multiplicidade de eus. Não é necessariamente o que me organiza, mas justamente o contrário.
 
Da questão pessoa surgiu a questão do humano. E de maneira semelhante não penso humano como uma forma fixa. Como se o humano carregasse algo de melhor a qualquer outra coisa. Bom, dessa conversa surgiu à dica de um filme: Instinct (Instinto) drama produzido nos Estados Unidos em 1999, co-escrito por Gerald Di Pego dirigido por Jon Turteltaub.  Nele pode-se discutir essa questão do humano.
 
Adorei o filme, considero que em certos momentos me pareceu haver certa exaltação do “natural” e acho isso tão perigoso quanto os jogos das formas fixas. Porém certos elementos nos fazem questionar muitas coisas. A relação do antropólogo com o mundo, com sua filha, o que procura ensinar e o que aprendeu. O que para mim fica é que por mais que Ethan Powell tivesse sido aceito no grupo dos gorilas e isso tivesse mudado sua visão de mundo, o homem tem distinção. Fugir da filha poderia ser a negação dessa distinção que não queria confessar.
 
O que nos distingue não deve ser evitado. O que dizer desse momento em que escrevo? Dessas reflexões que faço? Da fé? Do amor? Do pensamento? Agora o que nos diferencia não nos coloca numa posição de controle. É certo que tais elementos são os maiores produtores da ilusão. E nossa ilusão maior é pensar que nossa diferença nos faz soberanos.
 
Uma das horas marcantes do filme trata justamente disso, quando no diálogo do antropólogo com o psiquiatra, onde este pergunta: O ser humano é mal, a civilização humana é má. Então o que sugere? Destruir as cidades, abrir mão de tudo e viver como animais? O antropólogo responde: Não... basta abrir mão da soberania
 
Eis aí nosso problema, a forma fixa da qual não queremos abrir mão. Pessoa, Humano, categoria do Homem é sua distinção, sua diferença que deve ser celebrada, mas jamais exaltada, criando hierarquias. E o que pode promover essa mudança crucial senão a potência, a força da liberdade, produto do que nos distingue, mas que não é uma ilusão.
 
Desculpe qualquer coisa, eu tô com febre...
 
Ivo Fernandes
13 de julho de 2013


Convocação do Tempo


Certo dia entrei numa casa velha. Longos corredores, várias portas, uma escada que me levava para onde as recordações estavam. Poeira e teias de aranha disputavam lugares com armários, portas retratos e um relógio de parede. Tirei o excesso de pó e vi que o relógio ainda funcionava. Fiquei ali, olhando o movimento de suas peças, e me senti tomado pela sensação de perceber o tempo. Ao som de cada segundo, era como se pudesse sentir o pulsar do seu coração. E como se cada minuto contasse histórias, ouvia a sua sentença sobre todas as coisas.

Naquele momento, eu que durmo com a morte não mais a estranhei. Percebi que não é correndo contra o tempo que se vive mais, antes é no passo calmo que escuta o som do relógio. Vive-se mais quando se vive para ficar na história, nos sobrados, nos portas-retratos, na poeira e na memória.

O tempo não para, mas caminha lentamente com passos marcados, como que cantando cada segundo.

Todos que correm para ganhar tempo perderam a caminhada e toda história nela contida. Será que na correria já nos questionamos pra onde estamos indo com tanta pressa?

O tempo nos convoca a sabedoria: é preciso contemplar o segundo que nunca mais se repetirá.


Ivo Fernandes

domingo, 9 de junho de 2013

Recomeçar


Faz alguns dias que completei 32 anos. É! Ainda tem pessoas que se assustam quando revelo. A grande maioria me considera mais velho, talvez em razão do lugar e da representação que ocupo. O fato é que em cada aniversário fico mais reflexivo do que o de costume, introspecto e na maioria das vezes mais triste. É tempo de renovação.

Esse ano duas coisas aconteceram que o marcaram, um foi minha enfermidade que chamo de morte por várias razões minhas. Meus primeiros sintomas se deram logo após meu aniversário do ano passado. Seguiram-se dias de angústia e então morri. Logo fez um ano depois da minha morte. E quantos aprendizados não tive nesse tempo, quantas sensações, coisas que só a morte nos traz. E a outra coisa foi a mudança de casa, e consequentemente da estação do Caminho.

Novo ano. Nova casa. Novo endereço. Novo momento. É uma casa nova, somos os primeiros moradores. Ela fica num local silencioso, na reserva ecológica Sapiranga. Agora mesmo enquanto escrevo escuto sons de pássaros. Na frente dela tem um pé de cajueiro, um novo local consagrado para minhas orações.

Enfim, muitas novidades, mas o meu aprendizado de hoje depois de um dia inteiro tentando dar conta da bagunça para receber mais tarde meus amigos e irmãos para a reunião da Estação do Caminho, é sobre os desafios de recomeçar.

Todo recomeço tem alegrias e desafios que por vezes se mostram cansativos e batalham contra nosso ânimo, porém as bênçãos do novo são maiores que a luta em vivenciá-lo. Primeiro para recomeçarmos é preciso decisão. Ninguém recomeça se não desejar isso. É preciso força de vontade, fé. A maioria das pessoas não recomeça, pois sabe o trabalho que dá, preferem deixar as coisas como estão a enfrentar os desafios impostos pelo recomeço, não experimentam novas possibilidades, e o futuro é uma mesmice eterna.

Segundo é preciso maturidade, pois quando os desafios surgirem é ela que nos garante não retrocedermos. E os desafios são muitos. Recomeço traz consigo mexer em coisas antigas, guardadas e muitas vezes esquecidas, e ao deparar-se com elas ter que tomar decisões sobre o que fazer. Conservar? Dar o fim necessário? Reutilizar de outro modo? Quantas coisas não precisamos simplesmente jogar fora. Quantas caixas e mais caixas de lixo que ocupavam nossa antiga casa, nova antiga vida! O que não se pode jogar fora? Como reutilizar? De que forma encaixar num novo canto, combinar com uma nova cor? Quando fazemos isso percebemos que o mesmo agora no novo se reveste de outros significados sem perder a história que o objeto traz.

Isso tudo leva tempo. Gasta nossas energias físicas e mentais. Por isso a terceira coisa necessária é paciência. O impaciente poderá cometer muitos erros. Só o paciente produzirá o melhor. Não se precipitará em resolver todas as coisas ao mesmo tempo. Irá por parte conforme condições adequadas, mas no final terá o que deseja realizado. Enquanto aguarda precisará conviver com o transtorno do processo. Coisas sem lugar, projetos inacabados. Mas se for diferente apenas aumentará problemas para ter que resolver depois.

A quarta coisa necessária é companhia. Nenhum recomeço é bom sozinho. É preciso companhia para partilhar da limpeza e das decisões a serem tomadas. É certo que muitas coisas dependem exclusivamente do individuo, mas uma boa parte requer o olhar do outro, a fala do outro, afinal todo recomeço implica em novas possibilidades de relações. Cercar-se de amigos, junto com a quinta coisa, música.

A música é peça fundamental em todo recomeço. Nova trilha sonora. Com música tudo que se faz ganha sentido e profundidade.

Por fim a partilha. Recomeçar para não compartilhar é como nadar sem ter mar. Nossa construção só faz sentido na medida em que nossa nova casa abriga velhos e novos amigos.

Bom! Eu estou recomeçando e desejo brindar com todos que chegarem por aqui à benção do Novo Dia chamado Hoje!

Ivo Fernandes

9 de junho de 2013

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Abraão e Ulisses, entre os caminhos da Fé e da Razão



Abraão e Ulisses são personagens centrais, um da cultura judaica o outro da cultura grega. Ambos heróis, mas humanos.

A história de Abraão relata o caminho de homem rumo ao Desconhecido, movido pela Fé. A de Ulisses é a história de um retorno para casa, para isso lutando contra o Desconhecido.
Muitas questões podem ser levantadas em torno desses mitos-história, a que destaco, no entanto é a relação que os dois estabelecem com o Desconhecido no caminho que cada um traça. Ulisses parte de Ítaca  em  direção  a  Tróia,  se  perde  por  10  anos, mas  retorna  ao  seu  ponto  de  origem,

Abraão parte em busca de uma terra desconhecida, estabelecendo uma eterna errância.
Em Ulisses, o Desconhecido precisa ser reduzido para que ele volte para o seu lugar seguro, o que chamarei de um caminho para si. Em Abraão, o Desconhecido é mantido inatingível, porém intensamente desejado.

Em Ulisses há um “eu” pensando em si mesmo, em Abraão há um eu em direção a um Outro. O caminho de Ulisses também pode ser chamado o caminho do homem racional, que deseja vencer o Desconhecido para habitar nas terras seguras da Razão. O caminho de Abraão pode ser chamado o caminho da Fé, que sai da segurança do seu mundo rumo ao Desconhecido.

Os dois possuem éticas próprias, a do primeiro uma ética em torno do sujeito, a do segundo em torno do Outro. No primeiro o homem se torna um formador de si mesmo, no segundo um material forjado pelas mãos de Outro.

Tais caminhos estão relacionados à busca mais básica da humanidade, a resposta às perguntas: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Porque existe o mal? O que é que existirá depois desta vida? Estas perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-las tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem: da resposta a tais perguntas depende efetivamente a orientação que se imprime à existência.

Na busca por responder tais perguntas, o homem desenvolveu variados recursos, de entre eles sobressai à filosofia, cujo contributo específico é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta. Porém o caminho da fé não foi substituído e nem destruído.

A recomendação conhece-te a ti mesmo, que estava esculpida no templo de Delfos, que deve ser assumida como regra mínima de todo o homem que deseje distinguir-se, no meio da criação inteira, pela sua qualificação de « homem », ou seja, enquanto «conhecedor de si mesmo » não é possível somente pelos caminhos da razão, apenas na viagem de Ulisses. O mistério é inegável, o Desconhecido pode falar mais de nós do que imaginamos.

Ouso afirmar que a viagem que devemos fazer é síntese da viagem desses dois personagens. Não somente em direção a si ou somente em direção ao Outro, mas no caminho de si chegar ao Outro, ou mesmo na viagem em direção ao Outro encontrar-se consigo.

O caminho é entre a Fé e a Razão. Entre o Eu e o Outro. Entre o Conhecido e o Desconhecido. Entre a Filosofia e a Espiritualidade. Entre Deus e o Homem.

Qualquer um dos caminhos, de Ulisses e de Abraão, da Razão e da Fé são mais pobres isoladamente. A razão, privada do contributo da Fé, percorrerá sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final. A Fé, privada da razão, corre o risco de se tornar mera superstição.

Meu desejo como viajante que deseja conhecer a si mesmo, retornar pra casa, mas não negar o Desconhecido, antes penetrá-lo é que a Fé e a Razão recuperem aquela unidade profunda que as torna capazes de serem coerentes com a sua natureza, no respeito da recíproca autonomia.

Desejo caminhar com a obediência assombrosa da fé de Abraão sem perder a coragem e audácia da Razão de Ulisses.

Ivo Fernandes
28 de abril de 2013

(A história de Abraão encontra-se no livro Gênesis da Bíblia Judaica-Cristã e a de Ulisses no Livro de Homero – A Odisséia)

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