domingo, 29 de dezembro de 2013

O planeta visitado


O nascimento de Jesus não configura o centro da mensagem dos escritos do NT. Na verdade é provável que alguns escritores nem tivessem informações sobre os fatos ocorridos. Apenas Mateus e Lucas registram o nascimento em Belém, porém apesar disso, a história do nascimento tornou-se para os que creem um dos momentos mais sublimes da Revelação.

O relato não deseja ser a prova incontestável de sua origem espiritual, pois o mesmo já era crido independente da história. Nunca foi usado no NT nos embates apologéticos, do livro de João por exemplo. Para a maioria dos cristãos primitivos é a vida pública de Jesus que testemunha a seu favor.

Então o que aprendemos dessa história marginal das escrituras? Penso que há uma poderosa mensagem contida na ideia da encarnação, pois temos nela o oposto do esperado dos deuses nas concepções mais tradicionais de divindades. Se aquele menino era divino e sobre ele estava o destino da humanidade, que coisa arrebatadora é pensar que tal destino repousou sobre a reação de dois camponeses, José e Maria, primeiros crentes a aceitar Jesus.

Se Jesus veio para nos revelar Deus, o que aprendo nesse primeiro natal? Aprendo que Deus revelado na manjedoura é um Deus humilde, o Deus menino, ao contrário de grande como visto pela maioria das religiões é Deus pequeno, talvez por isso o espetáculo de tal nascimento só foi visto por serviçais analfabetos que vigiavam rebanhos alheios, pastores visto pela sociedade da época como gente de segunda classe. Dá pra entender porque esse menino futuramente seria conhecido como amigo de pecadores, quando vemos quem fez sua primeira visita.

Aprendo que Deus é acessível. Diferente dos deuses que por sua grandiosidade causavam espanto, medo, o Deus da manjedoura não assusta. É um Deus fraco, uma família, em fuga, perseguida da ira dos sistemas de morte e poder. Só um Deus assim pode de fato se importar com pobres, famintos, frágeis, excluídos, não para se oferecer como aquele que resolverá seus problemas e que todos devem temer, mas como para se juntar a eles, caminhando na fraqueza e ensinando o poder da vida em meio às contradições da existência.

O Natal pode não ser o tema mais importante dos relatos bíblicos, mas coroou a história de maneira que hoje é impossível pensar Jesus e seu Deus sem a manjedoura. Cruz e manjedoura são partes de uma mesma coisa. Sobre esta pedra está a minha fé. O Deus que não conhece fronteiras assumiu as limitações do espaço chocantes da pele de um bebê, as restrições sinistras da mortalidade. O Deus de toda a Vida aprendendo a respirar, andar, mover-se, existir.

Natal, o dia em que o pequeno planeta foi visitado!

Ivo Fernandes

20 de dezembro de 2013

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A fé é absurda


O chamado do Evangelho é absurdo. A fé é um ato irracional, não é objetiva, lógica ou capaz de ser explicada, porém não é inconsistente. A fé não é um dom de Deus oferecido apenas a alguns poucos predestinados. Ela emerge de nós tecida dos absurdos e esperanças da vida. É uma paixão pelo desconhecido, um desejo de impossível. Sim! Fé é paixão!

Ela é um assombro e nenhum ser humano está excluído dela. Não se trata de uma crença, mas de um caminho. E é um caminho de angústia, temor e tremor. É um vale das sombras e da morte. Fé é abraçar a incerteza como promessa.

Deus não pode ser compreendido, nem seus atos desvelados. Por isso é necessário que aqueles que Dele se aproximem tenham fé, pois sem fé é impossível agradar a Deus. A Fé é escândalo para a Razão.

O chamado do Evangelho é para um abandono absoluto perante Deus como paradoxo. Não há nenhuma garantia que anteceda o salto da fé. A decisão do salto é individual e intransferível. E todo caminhante é responsável pela decisão que tomar. O caminho da fé é um caminho solitário. O Caminho de Abraão é um caminho só rumo ao monte Moriá.

Podemos até demonstrar a razão da nossa fé, mas não podemos fazer isso objetivamente, muito menos prová-la racionalmente. Posso explicá-la simplesmente vivendo. A fé vive em virtude do absurdo e o absurdo não tem explicação. É a esperança contra a esperança.

É estar nas mãos de Deus e não saber o que Ele quer, qual o seu prazer. É estar totalmente preparado para o que jamais se prepara, Àquele que vem como Ladrão, e nos assalta.

Ivo Fernandes

20 de julho de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A última semana de Jesus


Inegavelmente a última semana da vida de Jesus é o interesse dos escritores Evangelistas, e de onde partem todas as crenças contidas no novo testamento. Não existe uma história de Jesus, existe uma história da morte de Jesus, nascimento e ressurreição são apêndices necessários, mais não centrais.

Para a tradição cristã desde os escritores neotestamentários a cruz estava no discurso de Jesus, e para ela ele caminha na sua última semana, que começa com a entrada ‘triunfal’ em Jerusalém, e usamos esse termo como ataque a tudo que pensamos como triunfo, afinal o que havia de um triunfal numa multidão de pobres em torno de um homem sem nenhuma glória sentando num jumento e com uma capa a servir de sela? Se aquele homem era um rei, sem dúvida não se tratava de um reino conhecido.

Depois temos a Ceia onde estranhamente o hospede de honra lava os pés de seus discípulos, ato considerado degradante até para um escravo. Que tipo de sociedade é essa que compõe a o reino deste rei estranho?

Nessa Ceia Jesus pede que fizéssemos três coisas para lembrarmos-nos dele; batizássemos os outros, como fora batizado por João, repartíssemos o pão numa refeição memorial e lavássemos os pés uns dos outros. Estava claro que seu reino era um reino de serviço e humildade.

Nessa mesma noite aparece a figura do traidor e o que vemos? O rei amando quem o trairia. Mas a traição não estaria apenas no beijo de quem o vendeu, mas também no sono de quem o deixou só na sua hora de agonia, na covardia de quem não teve coragem de dizer que o conhecia, no abandono geral quando foi preso. E das muitas traições vemos um rei sofrido e angustiado. E o Getsêmani termina de maneira que nos é tão familiar, com a história de uma oração não respondida.  Um homem que se coloca na total dependência de Deus, como fazia desde a sua tentação no deserto.

Então se segue a prisão e os interrogatórios, sem nenhuma defesa, nem ele próprio se defende. Aqui vemos como a bondade pode ser perigosa para as instituições humanas. E ali estava o Messias menos provável de todos os tempos, e quando já não havia, mas nenhuma condição de dar crédito a um rei ultrajado, ele confessa publicamente quem era – o Cristo de Deus, e porque só agora quando nos era logicamente impossível aceitar? Talvez porque esse reino não é fundado em lógicas racionais, mas no paradoxo da fé.

E aí a crucificação. E durante todo trajeto um homem com uma relação estranha com seu objeto de execução. E por quê? A cruz não é um desvio no caminho, nem um obstáculo para o reino, nem mesmo o caminho do reino, ela é o reino que vem.

Do seu lado dois ladrões que bem demonstram como podemos reagir a um rei crucificado. Zombando de sua tolice ou crendo no mistério do amor ali revelado e no reino ali manifesto.

A morte de Jesus destruiu a possibilidade de ele ser um Messias, um rei para muita gente. Mas estranhamente para outros começou o caminho da adoração de um Deus. O Deus da Cruz! O Deus que escolheu o caminho da fraqueza!

Ivo Fernandes
28 de novembro de 2013



Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...