sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Velho-novo Natal


Hoje ao chegar na obra (construção da minha casa – nos fundos da casa da minha mãe no Serviluz - Cais do Porto – Praia do Futuro) vi um colega da infância e imediatamente me lembrei de tantos, e saí conversando com minha irmã sobre eles, afinal sai do bairro aos 18 anos e agora quase 15 anos depois é que retorno.

Por onde anda a bela moça da casa a frente? Lembrei que das muitas brincadeiras nas casas da marinha em frente à minha. Meus primeiros beijos e primeiras paqueras e primeiras experiências eróticas. Não tenho contato com nenhum dos que moraram nessas casas, sei que dois deles foram assassinados por causa de envolvimentos no mundo das drogas.

Olhei a pracinha, hoje tão diferente do que já foi e lembrei do tempo que ainda era apenas um terreno onde cortei meu pé profundamente, e onde tempos depois joguei vôlei, e tive algumas brigas. Na sua frente morou o meu segundo grande amor. Lembrei dela e de um reencontro que tive com ela onde ela não me reconheceu.

Falei com minha irmã sobre o destino de muitos. Homossexuais casados, outras vítimas da aids, outros ainda por lá, como se a vida permanecesse a mesma. Alguns casados e com filhos, outros viciados em álcool e drogas e outros mortos pelas mesmas.

Envelhecemos! Eu mesmo mudei o corpo, o rosto, a vida, mas que engraçado, estou de volta. Voltar não significa ir para o passado, pois o passado não existe, até minhas lembranças não são apenas memórias, são atualizações. Volto para o passado-presente, retorno para o mesmo-outro lugar. Sou outro e tudo é outra coisa. A vida como rio passou-está passando- e passará.

Como serão meus dias neste velho-novo lugar? Verei velhos conhecidos? Será um encontro formal? Teremos algo para dizer uns aos outros? Retornos são cheios de silêncio.

Minha volta está se dando no natal de 2014, provavelmente não terei nenhuma casa para visitar, as portas estão fechadas, os moradores são outros. E a minha casa? Como será? Abrirei para o antigo? Para o novo?

O fato é que ela não estará pronta a tempo, não terei uma casa no natal, nem para mim nem para receber. Ora que enigmático! Aquele que celebramos no natal não teve um lugar para nascer. Assim estarei onde me receberem, talvez na companhia de pastores e bichos. Mas aquele que não teve onde nascer tornou-se casa para muitos viajantes. Assim desejo que minha casa não seja apenas um espaço para meu egoísmo mas uma possibilidade de estar dos viajantes, que assim como eu estão apenas de passagem como o rio que passa.

Ivo Fernandes

19 de dezembro de 2014

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Creio e penso - Deus


Em 2009 escrevi um texto com o título “Creio – Deus” onde enfatizava a questão da fé como necessária para saber de Deus, pois fora da fé não havia conhecimento de Deus.
Pois bem, a velha questão fé e razão voltou a ocupar minha vida novamente, pois tem sido objeto de meus estudos atuais. E relendo o texto, vi que mudaria alguma coisa no que havia escrito, dando lugar legítimo a razão também.
Segue agora uma síntese daquele texto com os pensamentos de agora:

Deus. Quem é Deus? O que é Deus? Quem já o viu? Onde ele está? O que está fazendo?

Eu creio em Deus. Mas o que isso significa? Significa que minha relação com Ele vai além do que minha reflexão racional conclui sobre ele. Significa dizer que minha crença mescla elementos da minha imaginação, racionalidade e fé, e é esta última que dá condições de estar em paz com Deus.

Pela fé sei que Deus é mais do que qualquer especulação, doutrina ou conceito sobre Ele mesmo. Deus é o que É. E por ser o único que de fato É, só o Espírito conhece as profundezas de Deus, visto que tudo mais só o é em razão Daquele que É.

Pesquiso a única coisa que de fato é possível pesquisar e ainda com temor e tremor – o pensamento humano a respeito de Deus, o sentimento do homem em relação ao que lhe transcende, as experiências históricas da fé. Sei que Deus não pode ser mapeado, não pode ser perscrutado, Ele habita em luz inacessível, só Ele tem a imortalidade, e nenhum homem nunca o viu e nem pode ver. Porém também sei que uma vez a criação é dele e vem dele e fora dele nada é, nossa limitada compreensão das coisas apontam para Ele, e podemos andar com segurança dentro desses limites.

Sei que quando imaginamos deus, tal imaginação revela muito mais de nós do que de Deus. Quando buscamos a Deus pela razão podemos concluir sobre sua glória, mas sua graça e seu amor são discerníveis pela fé.

Faz parte da imaginação a concepção que deus que criou todas as coisas por uma espécie de necessidade de companhia; que deus não conseguindo a plena simpatia de suas criaturas as castiga com tormentos infinitos; que deus trava uma batalha de amor e ódio com suas próprias criaturas; que deus no critério de sua escolha é caprichoso; que depende de uma confissão religiosa; ou que tenha estrema dificuldade em lidar com as pulsões sexuais humanas que ele mesmo criou;

Faz parte da vaidade da razão tentar encaixar Deus apenas dentro de certas reflexões. A razão nos leva a percepção da glória, ou seja, a saber que Deus É. E isso é a coisa mais certa que a razão pode concluir.

Porém a Fé usa da poesia para referir ao que sabe que escapa a toda linguagem. Logo só a fé gera conhecimento pacificado de Deus.

Podemos negar o deus da imaginação alheia, podemos questionar as conclusões racionais, mas sob o mesmo solo da fé não temos outro caminho senão a confissão. Pois o Deus que É não precisa de defensores, de advogados e nem de representantes.

O que então posso saber de Deus? Aquilo que Ele de Si revelou na História, na Humanidade, na Criação e de maneira singular na Palavra Encarnada. Sim! Em Jesus, que condensa a Criação, a Humanidade e a Palavra, porque Nele está a Reconciliação Universal, vemos o que Deus decidiu manifestar. E Nele vejo um Deus que pode ser referido por meio de uma só palavra – Amor.

Eu creio que Deus é Amor e Nele não há treva alguma. É por causa do Amor que creio que o Deus que É se “fez” para o homem e o homem para Si, e conduzirá todas as coisas para Si mesmo, quando Ele será tudo em todos de maneira manifesta.

“Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” 1 Jo 4.16

Ivo Fernandes
7 de dezembro de 2014


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Vida e morte no ensino do Nazareno


Leitura: Mateus 22

No período em que Jesus viveu, aquilo que chamamos de judaísmo era marcado por diversos grupos diferentes e até rivais tanto nas questões políticas quanto teológicas, por isso é improprio falarmos de um pensamento judaico, sendo correto falar dos pensamentos judaicos.

Quando buscamos o que Jesus ensina temos um trabalho árduo e muitas vezes impossível pela frente, pois os escritos possuem muitas fontes, e sabendo da diversidade de pensamentos presentes na época, sabemos das possíveis diversas interpretações que as pessoas e as comunidades tiveram do ensino dele.

Assim só é possível falarmos do ensino de Jesus sempre com cautela e criticidade, se valendo das melhores análises exegéticas, hermenêuticas, históricas, e claro para os que creem da chave hermenêutica do amor.

Quanto ao tema vida e morte, sabemos que desde o período do exílio na Babilônia que o povo judaico sofreu bastante a influência do Zoroastrismo, religião persa, e posteriormente do sincretismo grego. Portanto a nova religião judaica possuía vários elementos que não estavam presentes em sua primitividade.

Muitas correntes acreditavam na vida após a morte, numa luta cósmica entre o bem e mal, no fim do mundo, na ressurreição dos mortos, no juízo e no paraíso.
Quais foram as influências de Jesus é impossível sabermos a não ser por aproximação de temas. Porém como o ensino do Nazareno tinha uma temática extremamente ligada a vida enquanto existência, crenças metafisicas, transcendentais são mais difíceis de definir em seu ensino.

É justamente o caso da vida após a morte. Para mim fica claro, a crença dele nisso, porém não me parece que sua preocupação era ensinar tal doutrina, mas falar de vida e morte como potência e fim da mesma. Ou seja até nesse tema, o ensino do Nazareno se aproxima da existência, daquilo que nos diz respeito aqui e agora. No texto sugerido a primeira parábola trata-se de um convite do Rei para as bodas do Filho, e não encontro na mesma nenhuma referência para pensarmos em algo além túmulo, antes Jesus mesmo diz trata-se de uma parábola sobre o Reino, e para ele o Reino não era uma vida além mas um modo de viver. Assim o convite trata de uma escolha que devemos fazer aqui e agora. Depois vem a questão do tributo a César que já expliquei num texto anterior, e de novo a questão é de Reino, o Reino de Deus não deve nada a César e o de César não tem nada de Deus, assim cabe a cada um uma escolha.

Aí sim chega a questão da ressurreição. Os interlocutores trazem a questão e o texto nos afirma que não acreditavam na mesma, logo a questão parecia ser para zombar de uma possível crença de Jesus. Apontam para o que consideram ridículo numa crença de vida após a morte. Jesus então responde que o primeiro problema do comportamento dos seus interlocutores era a ignorância.

São os ignorantes que zombam do que não sabem. Que menosprezam o que não entendem, e que interpretam de maneira infantil e estúpida metáforas sobre a realidade.

Jesus ensina que a vida após a morte não é uma continuação da existência sob o domínio das baixas paixões, dos egoísmos ou das necessidades. Aqui ele se diferencia completamente da visão comum que esperavam continuar a existir para sempre. Aponta que ressurreição tem a ver com eternidade e não com continuidade. E que portanto Deus não seria Deus de mortos que voltariam a vida, mas de vivos que a morte não mata.

Assim ouso afirmar que para Jesus o mais importante não se tratava do retorno de um corpo, ou da continuidade pós morte, mas da vida e da dinâmica da mesma. Pois para Ele viver era possuir o próprio Deus, ser cidadão do Reino, onde a própria a morte havia sido significada com a Vida.

Vida e morte portanto no ensino de Jesus trata-se de condições do espírito, e não necessariamente de realidades metafisicas. Por isso que logo diz que tudo se resume no Amor, pois Nele a morte e a vida são a mesma coisa, visto ser o mesmo Eterno.

Por isso ele mesmo se coloca no final texto como superior a Davi, que já havia morrido, dizendo-se Senhor deste, pois ele o Filho era alguém que possuía a Vida e a morte jamais a tragaria.

O convite dele é para o seguirmos e deixar os mortos sepultar os seus mortos (Mateus 8:22). É para seguirmos sem mesmo dos matam o corpo mas não podem matar a alma (Mateus 10:28). Sabendo que aqueles que creem na Vida, nunca morrem ainda que estejam mortos (João 11;25)

E você está Vivo?

Ivo Fernandes

29 de outubro de 2014

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A Totalidade Divina e o Totalitarismo


No texto anterior sobre o juízo contra o próximo eu falei sobre a visão da totalidade para a cura do “particularismo” que é a raiz de todo juízo e preconceito. Essa semana assisti um filme que trata do tema do totalitarismo, chamado “o doador de memórias”, o que imediatamente me fez lembrar de diversos outros filmes como, “divergente” e “jogos vorazes”. Todos estes filmes trazem um drama filosófico, onde o papel do Estado é questionado, nossa visão de mundo também. Apresentam sociedades ideias sempre depois de uma situação de guerra e caos que quase dizimou a humanidade que no entanto se revelam totalitaristas.

E aqui cabe definirmos totalitarismo: “Sistema político no qual o Estado, normalmente sob controle de uma única pessoa, político, facção ou classe, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada, sempre que o possível.” Eric Hobsbawm.

No caso do filme “O Doador de Memórias”, adaptação do best-seller de Lois Lowry, a questão é: qual o preço que aceitaríamos pagar para criar um mundo livre de guerras, de violência e de todos os males que atacam nosso planeta? No filme a resposta é a criação de uma sociedade aparentemente perfeita nascida da exclusão e do bloqueio de memórias coletivas, junto com a inclusão de ideias que fazem cada pessoa acreditar que a conformidade, ou seja a negação da singularidade, é a base da paz.

Fica a cargo da figura do Doador (Jeff Bridges) a função de guardar todas estas memórias de um passado marcado por guerras e violência, mas também por alegrias, festas, casamentos e tudo o mais que o nosso mundo oferece. A história começa para valer quando Jonas (Brenton Twaites) é selecionado para se tornar o Recebedor de tais memórias. O garoto, angustiado por ter descoberto praticamente uma nova forma de se viver, decide mudar a estrutura social de todas as comunidades, fazendo-os retomarem estas memórias.

Diferente de quase todos os filmes que trabalham essa ideia, este não apresenta um governo ditatorial e uma sociedade realmente oprimida. Essa é a grande questão da história, já que, de fato, somos apresentados a comunidades livres de guerras, de violência e de sentimentos egoístas. As pessoas são levadas a tomar decisões pré-ajustadas, mas não há, de modo algum, uma opressão, uma estrutura que as obrigue a tomar tais atitudes. A chefe anciã, interpretada de modo eficaz por Meryl Streep, não é uma ditadora, é somente alguém que defende o atual sistema. Não há nela, nem em ninguém, uma figura ameaçadora, poderosa ou amedrontadora.

Alguns elementos se destacam, cada membro desta comunidade, depois de exaustivamente observado pelos anciãos desde seu nascimento, ao completar certa idade, é encarregado de uma função específica de acordo com a vocação revelada em sua trajetória. As pessoas atuam na profissão escolhida pelos anciãos, não fazem sexo (os bebês são criados artificialmente) e moram num mundo literalmente em preto e branco.

Porém o jovem Jonas constata que toda aquela aparente harmonia é fruto da ignorância. As pessoas nem sequer são capazes de enxergar as cores, sendo privadas de sentimentos comuns à humanidade. Todos os dias, assim que acordam, submetem-se a um medicamento convencidas de que estão sendo poupados de todo e qualquer sofrimento.

Semelhantes a esses filmes desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias. O totalitarismo que se preza deve chegar ao ponto em que tem de acabar com a existência autônoma de qualquer singularidade, mas isso não se dá sem um aparelhamento ideológico que conduz as massas a serem a força de tais sistemas. Hitler, que conhecia muito bem essa interdependência, exprimiu-a certa vez num discurso: "Tudo o que vocês são, o são através de mim; tudo o que eu sou, sou somente através de vocês".
Conscientes do colapso social a ideologia totalitarista oferece às massas de indivíduos atomizados, indefiníveis, instáveis e fúteis um meio de se auto definirem e identificarem, não somente restaurando a dignidade que antes lhes advinha da sua função na sociedade, como também criando uma espécie de falsa estabilidade que fazia deles melhores candidatos à participação ativa, o que também pode ser visto em outro filme chamado “A onda”.

Assim em nome de uma sociedade perfeita abrimos mãos da nossa liberdade individual e fomentamos o controle ao ponto de acabarmos com nossa singularidade. Uma vez inseridos no sistema seremos mantidos nele por meio das drogas que nos prescreverão e nos será ministrada diuturnamente, quer pela mídia, ou mesmo pelas instituições de ensino. E quando alguém ousar romper com os padrões o tacharemos de inimigo.

E o que tudo isso tem a ver com a religião? Em todos os totalitarismos históricos surge uma raiz religiosa mas os mais sanguinários foram os que se reclamaram de origem divina. Não é preciso recuar a Nabucodonosor ou Dário, para quem uma simples palavra deles era sagrada, para nos darmos conta da perversão da religião.

Os tribunais medievais são um exemplo de crueldade alimentadas pelo direito divino. O nazismo e o fascismo foram regimes totalitários que não só se reclamaram da vontade divina que queriam cumprir como atraíram o apoio religioso e a mentalidade anti-semita de diversos setores do cristianismo.

Dos totalitarismos só o comunismo não se reclamou da vontade divina e até combateu as religiões. O estalinismo, a mais demente e cruel face do comunismo, combateu a religião, mas idolatrou Stalin, e deificou o Estado que, de fato, reproduziu o Deus do Antigo Testamento: despótico, violento, vingativo e cruel. E ainda hoje, as ditaduras existentes encontram nas teocracias que subsistem o expoente máximo da perversão e da crueldade
E não é preciso muito para identificarmos as origens do Totalitarismo moderno e das práticas de controle do pensamento no século II com a institucionalização da Igreja Católica e o surgimento da ortodoxia que iria identificar heresias e hereges. Logo é quando os diversos cristianismos primitivos com sua pluralidade de pensamento é sufocado com a institucionalização da Igreja e que os padres como Tertuliano de Cartago pressentiram a necessidade de racionalizar os dogmas da religião através de termos como “ortodoxia” oposta da “heresia” que surge a necessidade do controle do pensamento por meio de uma forma de Poder. Além de conquistar terras, escravos e riquezas, pela primeira vez as estratégias políticas de dominação passaram a ter necessidade de reprimir por diversos instrumentos qualquer pensamento divergente da norma.

No cristianismo institucionalizado um inimigo já não era definido pelos seus atos, mas por seus próprios pensamentos! Como a ala ortodoxa cresceu e se associou ao governo romano, volumosos textos foram escritos sobre como reconhecer, decifrar e corrigir aqueles que haviam feito uma escolha longe do “bom pensamento”. Pela primeira vez na História uma forma de pensar poderia ser criminalizada pelo Estado.

E isso não é só presente no catolicismo medieval, também no protestantismo. Basta assistir as “Bruxas de Salém” para se ter uma ideia.  A prática da tortura, tribunais simulados, provas plantadas, o incentivo à delação, execuções públicas exemplares, entre outras técnicas, sofisticaram-se ao ponto de o medo ser o suficiente para literalmente fazer populações inteiras se tornarem ortodoxas ou “politicamente corretas”.

Porém nenhum esquema totalitarista seja social ou religioso ganha apoio do Evangelho de Jesus de Nazaré. Pois se as forças desses sistemas estão na tentativa de se livrar do caos por meio de uma unificação de massas e sufocamento das singularidades, estabelecendo um pensamento único e uma moral universal, o ensino de Jesus aponta numa direção totalmente inversa, pois nele nunca nos foi apresentado um sistema de mundo ideal.

Jesus nunca idealizou o mundo, pelo contrário ele nos chama o tempo todo para o chão da existência com toda a confusão. Nunca pediu para negarmos a dor ou fugirmos dela. Nunca apresentou a natureza humana como capaz de ser domada por sistemas morais com a finalidade da felicidade. Jesus sabia que o homem era belo e terrível e por isso mesmo nos ensinou em vez de caminhos totalitaristas o caminho da totalidade, ou seja de enxergarmos a diversidade que há no mundo e buscarmos a fé, a esperança e o amor.  

Jesus nos chama a romper com a distopia imposta pelo sistema e avançar para além de suas fronteiras, vislumbrando e desbravando a utopia do reino de Deus. E o reino de Deus não é um reino de anestesiados e nem de ignorantes. Ele mesmo, chamado homem de dores, vi o caos do seu tempo mas nunca perdeu a esperança, pois em meio a tragédia sempre enxergou a beleza. Ele é o que se recusa tomar a mistura oferecida pelos soldados romanos que visava amenizar sua dor. A dor, afinal, é não uma maldição, pois ela faz parte desse grande todo onde também está a alegria.

Portanto, todo sistema que mesmo na promessa de um mundo perfeito destrói singularidades é um sistema diabólico, são sistemas totalitaristas, porém aqueles que sabendo que Deus é a Totalidade e nele estão todas as singularidades e por isso mesmo respeitam as diferenças e amam o próximo são filhos do Reino. Este é o Evangelho!

Ivo Fernandes

17 de setembro de 2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A mensagem política de Jesus?!


Mateus 20.1-28

Sabemos que a figura de Jesus é usada para todos os gostos, mas temos tentando resgatar por meio de análises sérias qual teria sido a mensagem de Jesus de Nazaré. Assim muitas questões surgem para saber se ele abordou diversos temas. Num período como o nosso onde os políticos se aproveitam da religiosidade das pessoas para angariar votos faz-se importante saber qual era a mensagem política de Jesus. Havia uma?!

Quando vamos analisar como Jesus se comportou na sociedade de seu tempo, vemos que nem todas as coisas são claras. E mais a gente aborda a questão da atitude política de Jesus interrogando os Evangelhos a partir de nossas preocupações, o que em si não é um problema desde que possamos deixar também que o Evangelho nos interrogue e nos interpele.

Para pensarmos a mensagem política de Jesus temos que tentar enxerga-lo em seu próprio tempo. É preciso levar em conta o mundo dele; o contexto sócio-político, as estruturas vividas por ele.

A sociedade em que Jesus viveu era uma sociedade pré-capitalista, transacional, substancialmente agrícola. Não era urna sociedade industrial como a nossa. Lá predominava a agricultura. E como eram as relações na agricultura? A propriedade da terra na palestina, Judéia, Samaria, Galiléia, estava concentrada nas mãos de pouca gente. Aliás, dá para perceber que no fundo de muitas parábolas, temos a situação do latifúndio, da concentração da propriedade da terra. E inegavelmente nestas parábolas encontramos uma atitude crítica sobre a riqueza. Em várias passagens Jesus antagonizou Deus e as riquezas (Mt 6.24; 19.22-24; Mc 4.19; Lc 6.25;12.15,21). Para ele o caminho da vida passa pela partilha, sem essa consciência era impossível seguir Jesus. Portanto como economia e política andam juntas, já podemos desvelar uma postura de Jesus frente a esse assunto.
No tempo de Jesus, o Estado é o que chamamos hoje de teocrático. Ou seja, um Estado re­ligioso. O sumo sacerdote é o dirigente político da nação. Existe ainda o Sinédrio, que é uma espécie de tribunal, de conselho, formado por 80 homens que dirigem a nação, tendo à frente o sumo sacerdote. Qualquer comportamento religioso, nesta situação, é um comportamento político. Não havia divisão, política de um lado, religião de outro. Logo quando Cristo, por exemplo, cura em dia de sá­bado e não observa as tradições, ele está ten­do um comportamento subversivo, antipolítico. Com posturas semelhantes a essa ele dessacraliza o poder político, não pensa em poder religioso, teocrático.

Cristo tem uma atitude critica   frente aos poderosos. O conflito entre Jesus e os di­rigentes do povo atravessa os Evangelhos de ponta a ponta. No Evangelho de São Marcos, o mais antigo dos Evangelhos (embora apareça em segunda posição no livro do Novo Testamento), a gente percebe um progresso na oposição entre Cristo e os dirigentes. No capítulo 2, quando cura um paralítico, os Fariseus cochicham entre si e dizem. “Esse homem blasfema, porque ele perdoa pecados”. No capítulo 2, Jesus esta jantando com os publicanos. Os Fariseus conversam com os discípulos e dizem:” Como é que o mestre de vocês almoça com os publicanos”. Logo em seguida, quando os discípulos infringem o sábado, esmagando, descascando as espigas de trigo e comendo, então ai aparece o ataque direto a Cristo: “Como é que seus discípulos infringem o dia de sábado?” Mais adiante, atacam-no porque ele não lava as mãos antes de comer, desrespeitando a tradição.

Em Jerusalém, o conflito é aberto. Jesus ataca diretamente os Escribas, Fariseus, os Sumo Sacerdotes e os Saduceus, Expulsa os vendilhões do Templo, e declara que o Templo vai acabar. O Templo significa o sistema da época. Amaldiçoa também a figueira, símbolo do sistema Judaico. A maldição da figueira significa maldição daquela sociedade. Foi logo entendido esse gesto profético de Jesus. É claro, uma semana após ela é levado ao tribunal, e condenado a morte na cruz.

Penso que com tudo isso Jesus não foi um político de oposição, mas um profeta. Não havia programa político na mensagem de Jesus. Ao contrário falou do fim da mesma, quando fala do fim dos poderes. Mesmo que algumas posturas pudessem fazer dele um tipo de Zelote, na totalidade da mensagem vemos que inclusive esse grupo é alvo das críticas de Jesus. Jesus não tinha partidos. Jesus anda em companhia dos fiscais, se relaciona com os romanos e resiste à tentação do poder.

E essa resistência é fundamental para entendermos a mensagem. Jesus considera que os sistemas de poder dividem os homens. Não podemos afirmar que Jesus estimulou revoltas, mas também não podemos dizer que afirmou o sistema. Por exemplo, no caso da moeda com a figura de César, ele claramente afirma para se dar a César o que lhe é próprio, mas com isso ele apenas afirma o limite do poder do sistema, afinal onde não houver a marca de César, há liberdade e ali há o Reino de Deus. Jesus está dizendo que o sistema não tem direito algum sobre a vida e a consciência dos homens.

Entre os discípulos de Jesus não há governo! Onde há governos não há o Reino de Deus, mas o caminho não é a revolta contra os governos para se instaurar novos sistemas que na prática viram outros governos, mas a criação de uma comunidade subversiva, o fermento em meio a massa. Sejam uma sociedade sem poder, sem autoridade, sem hierarquia. “Não seja assim entre vocês” ele disse. Não adianta tentar modificar a sociedade de poder, é preciso criar outra sobre novos fundamentos. E isso não se trata de uma dessocialização, como entenderam as comunidades do deserto.

Ora o próprio Deus de Jesus não nos é apresentado como um Poder. Entre o Pai e o Filho não há hierarquia. Eis o mistério da fé, Deus conhecido como Todo Poderoso abriu mão de seu poder e tornou-se servo de todos! E o que nos leva a afirmar a divindade de Jesus não é seu suposto poder, mas seu amor para com todos os homens.

A mensagem de Jesus não é convite político mas profético – abandonar o poder. (Mt 5). Ouse viver sem senhores! Um cristão não é de direita ou de esquerda e nem de centro, ele não é desse mundo – ou seja desse sistema de poder.

Ivo Fernandes
24 de setembro de 14


(As passagens em itálico são de Clodovis Boff)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A mensagem de Jesus sobre o juízo contra o próximo – sobre acusados e acusadores


Leitura: João 8:2-12
Dias anteriores vimos pelas diversas mídias o drama que envolveu o goleiro Aranha do Santos, tentando denunciar, no meio de uma partida de futebol em andamento, os insultos racistas gritados logo atrás de si, e depois o de uma das ofensoras, torcedora do grêmio, que foi flagrada pelas câmeras chamado o goleiro de macaco. Daí seguiu-se diversas manifestações contra o racismo. Grupos saíram no ataque da torcedora muito mais que na defesa do goleiro. Estariam eles compreendendo que se tratava da mesma coisa?
Todos sabem da minha luta contra o juízo contra o próximo, o quanto esse tema é central em minhas mensagens e como vivo a tentativa constante do amor ao diferente. Sabem da minha defesa em favor de grupos minoritários como os gays por exemplo. E não só de grupos minoritários mas daqueles que estão sendo ofendidos em sua condição, como os pobres por exemplo.
A pergunta que poderia fazer é de onde nasce esse racismo, e esse juízo contra o próximo, mãe de toda forma de preconceito? E o que é preciso para que esse mal acabe em nós?
Na história acima quem são os acusados e os acusadores? Onde há verdadeira justiça? Nos berros da moça ao jovem negro, ou dos grupos berrando palavras de ordem na delegacia para a moça? E os expectadores que veem em suas casas e publicam frases em redes sociais, quem eles são? Quem representam? Sob questionamentos todos tem uma justificativa.
Essa história me lembrou de outra, a da mulher adúltera levada a presença de Jesus para ser por ele julgada. De maneira semelhante a história acima, temos os elementos do flagrante, do levar a juízo, da acusação e da presença popular. E qual é a postura de Jesus frente a esse caso? Ele trata da questão que falei acima – fala sobre acusados e acusadores. E quem são? Fica claro no trato de Jesus que esses dois papeis estão sendo interpretado simultaneamente por todos. E é essa consciência que ele deseja despertar nos envolvidos. Naquela história não haviam inocentes, pois todos estavam implicados no pecado.
Aqui está a mensagem – todas as vezes que nosso olhar é particularizado, o resultado é juízo contra o próximo, ódio, vingança e coisas semelhantes a essas. O chamado é para que o olhar se amplie, saia do ambiente particular para contemplar a totalidade. Isso é ser filho de Deus, ou seja possuir sua natureza, e o que é Deus senão a Totalidade? Quanto mais particularizado mais diabólico sou. Lembre-se, estou falando particularizado, pois o particular é aquele que negando a própria singularidade e a dos demais tenta sufocar a diferença a partir de seu mundo. O singular que vê a totalidade, esse ama o diferente, pois na diferença aprende-se e evolui.
O perdão, a misericórdia e o amor são frutos desse espírito. Em outras palavras a presença de acusados e acusadores só se dão na ausência do divino, quando todos vivem no reino do particular. Porém quando acusados e acusadores são trazidos a presença do divino, aqui visto na pessoa de Jesus, não há como identificar os mesmos, pois no reino de Deus os particulares desaparecem e surgem os singulares que são partes da totalidade, e na totalidade todos são divinos. Não há na presença de Deus acusados e acusadores.
Nas duas histórias todos os envolvidos só enxergam as coisas pelo seu mundo particular, pouco importava a vida do outro, as razões do outro, a história e os condicionamentos anteriores que promoveram aquele momento. E mais, nessa particularidade conseguiram se esquivar dos acontecimentos como se não fossem coparticipantes de tudo que ocorria. Aqui está a raiz de todos os males. Esse é o mundo sem Deus.
Porém Jesus nos desafia a largar as pedras que temos nas mãos, que não se traduzem em justiça e sim em mentira, engano e confusão do reino dos particulares, e abraçar o caminho do perdão, próprio do reino de Deus.
E você o que tens nas mãos?
Ivo Fernandes

10 de setembro de 14

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A mensagem de salvação de Jesus


Texto: Lc. 18-19.10

Inegavelmente a mensagem de salvação é um dos pilares teológicos da tradição cristã, porém não é uma criação própria, ela está presente na maioria das religiões e até fora delas também. No NT a salvação está intimamente ligada a vida, morte e ressurreição de Jesus, sendo a cruz seu grande símbolo. Porém não é sobre o que produzimos enquanto igreja sobre a salvação que desejo abordar agora, mas sobre o que Jesus de Nazaré falou sobre esse assunto.
A palavra grega presente no NT para salvação “soteria” transmite a ideia de cura, redenção, remédio e resgate. Na maior parte dos textos onde esse termo aparece no discurso de Jesus salvar é sinônimo de cura e ou libertação (Lc. 18:42; 17:19; 7:50; 8:4; Mc. 5:34; 10:52; Mt 9:22)
Inegavelmente, Jesus em diversas passagens é visto como um homem que promove cura. (Mt 8:16-17; 9:12; Mc 2:17; Lc 4:18-23)
Na história de Zaqueu, um significado de salvação mais profundo surge na mensagem de Jesus.  O desejo de conversão de um homem para mudar seus atos de injustiça em atos de justiça e bondade. O fim do egoísmo era o sinal que a salvação entrara naquela casa e naquele homem.
Portanto o significado de salvação na mensagem de Jesus é referente a existência e não uma fuga da mesma, trata-se da caminhada, não apenas uma morada no céu. Trata-se de vida e vida em abundância. O grande objetivo de Jesus é gerar consciência de filhos de Deus.
Salvar a alma é torna-la espiritual, revesti-la de humildade e serviço ao próximo movido por amor incondicional. Isso é ser salvo, filho do Reino, filho de Deus. E Jesus entendia ser essa sua missão (Lc 9:51-56).
Para isso metaforicamente a comunidade cristã foi interpretando a salvação em termos metafísicos. E isso não é um problema se conseguíssemos retirar do símbolo potência para ser aquilo que pelo Mestre foi ensinado. O Problema é que tornamos nossos símbolos em dogmas. Retiramos deles o poder e não produzimos com ele verdadeira conversão, pois não nos implicamos na mensagem.
Salvação na mensagem de Jesus é fruto de uma relação, onde Deus, a mensagem e o homem participam ativamente.
Imaginemos um doente, onde o médico depois de examiná-lo diagnostica seu problema e receita a medicação e até mesmo dá ao paciente a mesma. Tudo foi dado mas a saúde só virá com a participação do doente seguindo as orientações do médico. Nessa história podemos perguntar quem salvou o doente? O remédio, o médico ou a decisão de tomar o remédio? Ou ainda as três ao mesmo tempo?
Jesus, como médico de nossas almas, não nos violenta. Nos oferece o remédio que nos cura de todas as nossas doenças: o Evangelho.  Mas a decisão de seguir o evangelho é nossa.
Não é à toa que Jesus sempre exclamou “Tua fé te salvou”. O Evangelho não é uma informação recebida mas um caminho a ser seguido. A fé não é uma mera confissão mas uma profissão.
O que devo fazer para ser salvo? Jesus responde – Ame! E nisto está toda lei e os profetas. Ame ao próximo e amarás a Deus. Não é salvo aquele que ainda não aprendeu a amar.

Ivo Fernandes

7 de setembro de 2014

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Conhece teu próprio caminho?


A sabedoria do prudente é entender o seu caminho

Você conhece o próprio caminho? Sabe de onde veio e para onde vai? E não estou me referindo a questões metafísicas, falo mesmo do próximo passo.
Conhecer a si mesmo e seu próprio caminho é a chave para conhecer todo o restante, como já anunciava a inscrição no templo de Apolo: ” Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.” — Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios (c. 650a.C.-550 a.C.)
O provérbio pode ter muitas interpretações, entre elas a de focar o conhecimento naquilo que procede do próprio indivíduo e não da multidão de opiniões. É claro que confiar em nosso conhecimento interior não nos livrará de cometer enganos. Mas certamente vai nos permitir aprender com nossos erros, uma vez que toda a responsabilidade será nossa.

Para seguir o caminho deste autoconhecimento é preciso coragem para questionar as estradas fixas nos impostas. O conhecimento é como água para matar a sede, não adianta saber do outro que bebeu da água, minha sede não será saciada com essa informação recebida, é preciso saber por si mesmo, é preciso beber a água.

O seu caminho só pode ser percorrido por você mesmo. Cada indivíduo tem de estar consciente, alerta, atento, experimentar com a vida. E descobrir o que é bom para ele. O que lhe dá paz, serenidade e harmonia. Ninguém mais pode decidir isso por você - pois cada indivíduo tem seu próprio mundo, sua própria sensibilidade. Ele é único.

Sem esse conhecimento não há como desenvolver aquilo que chamamos de maturidade, pois a mesma só advém das experiências pensadas. Penso que essa é grande meta da existência que cada um conheça e siga o seu próprio caminho. E no fim descobriremos que o Caminho era a própria meta.

Existem muitos caminhos nos dados, seja pela sociedade, pela religião, pelas ideologias, mas tais caminhos são apenas estradas fixas pois o verdadeiro caminho está ligado aos seus pés, portanto é totalmente novo, ligado apenas a sua própria caminhada.

O que lhe impede de seguir essa jornada? O medo de errar. Os erros são certos e importantes na caminhada, pois se os erros são seus eles mesmos lhe indicarão o outro caminho. Portanto, não tenha medo de errar, de percorrer caminhos errados. Aqueles que têm muito medo de cometer erros e de percorrer caminhos errados ficam paralisados. Permanecem onde estão; jamais se movem.

Com isso não estou estimulando o desprezar daqueles que fizeram seus caminhos e nos servem de inspiração. No entanto, esses mestres que fizeram cada um deles seu próprio caminho não devem ser imitados quanto aos seus passos, mas quanto aos seus espíritos

E muito cuidado na caminhada não se deparar com alguma coisa que o atrai racionalmente. Lembre-se pode parecer verdadeiro à sua razão, mas isso não significa que seja verdadeiro. A não ser que você o experimente, que você experimente algo através dele, nada foi descoberto. O critério supremo encontra-se sempre em seu íntimo. Experimente e sinta. E, a menos que você experimente alguma coisa, não acredita que a encontrou, que o caminho lhe foi revelado. Somente através da experiência é que as teorias se transformam em verdade. E não estou falando dos sentidos, pois sei que esses também enganam, estou falando do espírito.

O caminho do espírito é feito no silêncio e na oração. E porque isso é preciso? Para não se confundir o espírito com projeção da mente, sonho ou desejo. O fruto do espírito é paz. Se não tens esse fruto ainda não está no caminho. O caminho verdadeiro nunca ficará só no discurso, ele é revelado na vida.

Se os teus olhos são luz todo teu corpo é, nos ensinou o Nazareno. Se o interior muda, o exterior também muda, mas o contrário não é verdadeiro. Você pode mudar o exterior e não há necessidade de que o interior mude. Esse é o significado da hipocrisia nos seus ensinos.

O mesmo Nazareno disse: Eu sou o Caminho! O que isso quer dizer? Que só há um jeito de experimentar a Verdade e a Vida, seguindo o Caminho, o seu próprio caminho do qual Ele é o grande arquétipo

Ivo Fernandes

28 de agosto de 2014

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A igreja de Jesus


Leitura: Mt 18

Uma das questões que já está muito clara para qualquer mente sensata é que Jesus de Nazaré não fundou nenhuma religião. O cristianismo é produto posterior que guardou muita coisa de sua mensagem, bem como a perverteu bastante. Porém seria ingenuidade dizer que Jesus não deu inicio a nenhum movimento. Seus passos inauguraram um caminho, até hoje seguido por milhares.

Entre a religião cristã e o movimento cristão está o conceito de igreja. Ambos, a religião e o movimento, utilizam esse termo. Assim, a pergunta é: Jesus fundou uma igreja? Se sim! O que era ou como era a igreja de Jesus?

A palavra igreja é a tradução para o termo grego ‘ekklesia’ e significa assembléia. Também pode-se pensar num significado de chamados, convocados e separados. Assim podemos dizer que há dois modelos básicos de igreja. Há os chamados para fora de um sistema e os chamados para dentro.

Analisando o termo conforme aparece nos registros dos Evangelhos e conectando com o todo da mensagem de Jesus, podemos afirmar que Igreja, de acordo com Jesus, é comunhão de dois ou três em Seu Nome e em qualquer lugar, e podem ser quaisquer dois ou três e não apenas um certo tipo de dois ou três.

E quando ele diz “no meu nome” refere-se “conforme seu espírito”. Não se trata de uma comunidade fixa e fechada, como também não há nesse ajuntamento proposto qualquer ideia de reclusão comunitária. Igrejas-denominacionais presas em códigos teológicos, morais e litúrgicos nunca foi uma proposta de Jesus.

O ajuntamento proposto por Jesus tinha um objetivo fundamental: ensinar, e como exemplo para o modelo, ele falou de espalhar sementes, salgar, levar amor, caminhar em bondade, e a sobreviver com dignidade no caminho, com todos os seus perigos e possibilidade (Lc 10).

Nesse ajuntamento não há espaço para qualquer hierarquia entre os envolvidos. E fica claro que somente esses envolvidos foram chamados a responsabilidade do ensino à medida que disseram sim a proposta, pois aos que apenas ouviam sempre foi lhes dado a liberdade de ir e vir à vontade. Não era da vontade de Jesus aglomeração de grandes massas, pois seu objetivo não era tirar ninguém do mundo, da vida, da sociedade, da terra, mas a transformação por meio da fé no Evangelho.

A igreja de Jesus não é um clube, uma agremiação doutrinária, mas um movimento caminhante em que os discípulos são apenas homens que ganharam o entendimento do Reino e vivem como seus cidadãos, não numa ‘comunidade paralela’, mas no mundo real.

“O ajuntamento dos discípulos é apenas uma estação do caminho, não o seu projeto; é um oásis, não o objetivo da jornada; é um tempo, não é o tempo todo; é uma ajuda, não é a vida.”

“A verdadeira igreja não tem sócios, tem apenas gente boa de Deus e que se reúne e ajuda a manter a tudo aquilo que promove a Palavra na Terra.”

O contrário da igreja de Jesus são as igrejas que usam o nome de Jesus mas promovem toda espécie de doença pra alma em razão de seus confinamentos morais e ideológicos

O que quero sendo mentor de uma estação do Caminho da Graça é levar as pessoas a esse entendimento e a essa maturidade, e não tenho intenção em produzir um ambiente fechado de ‘verdades’ indiscutíveis e de falsos moralismos. Dando liberdade a todos de irem e virem quando quiserem, respeitando sempre a vontade de cada um.

Sabendo disso todos podemos fazer uma escolha entre uma ‘comunidade’ que existe em função de si mesma, e para dentro; ou entre um ‘caminho de discípulos’, e que se encontram, mas que não fazem do encontro a razão de ser da vida.

Desejo que nossos encontros nos ajude a sermos pessoas mais humanas, descomplicadas e sadias.

E se há ainda alguma dúvida de como é a igreja de Jesus é simples, seu principal sinal é a manifestação da multiforme Graça de Deus — na forma de amor, perdão, reconciliação, justiça e bondade procedentes da verdade que atua em amor. Pois na igreja de Jesus não há auditores, há amigos. Nela toda angustia humana é tratada em sigilo e paz. O que passar disso não é uma assembleia de Cristo, mesmo que use o seu nome em suas placas!

Ivo Fernandes
22 de agosto de 2014


(As citações em itálico são de Caio Fábio)

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...