domingo, 26 de janeiro de 2014

Liberdade e Libertinagem – Do uso ao conceito


Pensar o tema liberdade e libertinagem não é tarefa fácil frente aos diversos conceitos que cercam tais palavras. Além do conceito, vários usos das mesmas dificultam uma direção em que possamos desenvolver melhor o tema.

Popularmente se tem na frase “liberdade não é libertinagem” um claro antagonismo onde liberdade é pensada associada com condições morais, geralmente presentes no termo “responsabilidade” e libertinagem com ações contra moral, vistas como imorais. O que nos faz perceber que por trás do tema – liberdade e libertinagem – está presente o tema – moral. E aqui temos um problema, pois se é a moral que fundamenta nossas reflexões sobre liberdade e libertinagem, logo trataremos não livremente, mas permeados por códigos, regras e preceitos religiosos que são em geral os guardiões de nossa moral ocidental.
A moral tem como efeito o juízo contra o próximo e o acolhimento da hipocrisia. Se ela for a regente da nossa reflexão sobre liberdade e libertinagem, tal reflexão nos conduzirá para os mesmos efeitos. Onde será livre aquilo que for de acordo com ordens, práticas e modelos instituídos, e libertino tudo que for contrário a isso. Logo o discurso da liberdade nada mais é do que um discurso moral na boca dos cristãos.
A moral destrói a possibilidade de pensarmos produtivamente o tema da liberdade, pois ela trabalha contra a própria liberdade. É a moral que nos coloca na dialética liberdade e libertinagem. Onde libertinagem é algo contrário aos seus ditames, ou seja, nada tem haver mesmo com a liberdade, porque essa nem sequer existe de fato no reino da Moral.
Bom, então como pensar a liberdade? No decorrer dos séculos muitas foram às produções do pensamento em torno disso, desde o conceito de esclarecimento em Descartes, até a identificação com a natureza de Spinoza, passando pelos princípios de causalidade discutidos por Leibniz, até a negação dela em Schopenhauer.
Porém ouso afirmar junto com Leibniz que “a liberdade é espontânea porque sempre parte do sujeito agente que, mesmo determinado, é responsável por causar ou não uma nova série de eventos dentro da teia causal. E é refletida porque o homem pode conhecer os motivos pelos quais age no mundo e, uma vez conhecendo-os, lidar com eles de maneira livre."
Nesse sentido seguindo outro pensador, Sartre, digo que a liberdade humana revela-se na angústia. O homem angustia-se diante de sua condenação à liberdade. O homem só não é livre para não ser livre, está condenado a fazer escolhas e a responsabilidade de suas escolhas é tão opressiva, que surgem escapatórias através das atitudes e paradigmas de má-fé, onde o homem aliena-se de sua própria liberdade, mentindo para si mesmo através de condutas e ideologias que o isentem da responsabilidade sobre as próprias decisões.
A pergunta que se segue a estas afirmações é se o homem livre sabe sempre o que quer? Mas isso não nos conduziria de novo ao reino da moral? Logo esse é um jogo arriscado, pois se liberdade pressupõe responsabilidade, não parte daqui a construção de modelos que serão à base de qualquer moral? Talvez esse dilema nos leve a percepção de que a liberdade não pode ser pensada de maneira absoluta, longe das tramas sociais.
Toda tentativa de pensar a liberdade metafisicamente nos conduziu até agora há modelos que serviram de regras produzindo a moral que por sua vez matou a liberdade. Logo, penso que devemos pensar a liberdade e a libertinagem como criações. Não há liberdade fora do mundo concreto. O que nos fará abandonar um discurso único em torno do tema e perceber que existem liberdades e libertinagens. Assim o reino do juízo acaba, pois não poderemos usar da nossa liberdade para definir a dos outros, e muito menos para classificar como libertinagens práticas que o serão assim definidas apenas por se diferenciarem das nossas.
Nessa altura, lembro que uma pessoa me falou que todo discurso meu é uma tentativa de atacar e suspender o juízo contra o próximo. De fato, pois entendo que onde houver juízo não há Graça, pois ela é o fim de todo juízo. Então em vez de pensar o tema da liberdade sob o foco da moral, quero pensá-la sob o enfoque da Graça. E sob este enfoque fica claro para mim, que “ninguém pode determinar o que é bom ou mal para um homem. Isto cada um terá que aprender com Deus e com a vida”(Caio Fábio) assim como ninguém pode determinar os limites da minha liberdade, definindo como libertinagem o que não enquadra em seus conceitos. Se libertinagem é o mau uso da minha liberdade, a suspensão da responsabilidade, só eu posso pensar e definir tal limite e sofrer tais consequências.
Acredito que seja por essa razão que o NT em vez de nos definir padrões metafísicos de liberdade nos chama a servir uns aos outros, pautados no amor (Gl 5,13).
“Se há moral, não há liberdade! Todavia, se há liberdade em Cristo não há prática cínica da iniquidade. A moral mata a liberdade que temos em Cristo – a única que deve ser reconhecida como tal! A liberdade em Cristo – que é fruto de nos conformamos com Ele na sua morte e sermos achados Nele – não é compatível com nenhuma forma de Moral, pois seu fruto – do da liberdade – não é outro que não seja justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Sem barganhas com Deus, pg .86)
Libertino não é o que bebe vinho, mas o presunçoso e arrogante que por não beber, apesar da vontade de, julga o que bebe, julgando-se superior. Lembremo-nos que comer e beber com libertinos era o que Jesus fazia e para este não existe ato mais “libertino” que não se enxergar e ainda assim ser capaz de julgar os outros. Sim! Para Jesus o supostamente livre que usava de sua possível liberdade para cercear a liberdade dos outros, esse era o libertino.
Libertinagem nesse sentido é toda produção da arrogância humana, especialmente a presunção do juízo sobre o próximo (paráfrase pg 136). O fim disso é liberdade como fruto da Graça de Deus em nós. Onde houver liberdade não haverá moral e seu conceito de libertinagem. Onde houver moral, haverá ações libertinas por total ausência da liberdade.
Ivo Fernandes
26 de janeiro de 2014                                                            

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