sexta-feira, 20 de junho de 2014

Praia do Futuro


Eu tinha 11 dias de vida quando fui dedicado ao Mar e seus mistérios, suas lendas e seres. E aqui nessa praia chamada de Futuro vivi todo meu passado. Cresci deixando meus rastros na areia que logo eram apagados pelas ondas. Foi aqui que aprendi a orar, e nunca tive outra Voz divina senão o som de muitas águas. Orações longas para as longas caminhadas, ao alvorecer do dia, ou ao entardecer, no silêncio, na canção, mas sempre aqui.

Trouxe a este mar, todos os meus sonhos infantis, todos os meus amores adolescentes, todas as minhas dores juvenis, todas as minhas paixões adultas, e toda a minha vida. Não há nada que não tenha apresentado ao Mar. Minhas poesias são cheias deste lugar e minha alma da maresia desta praia. Minhas melhores histórias de amor tiveram seus nomes escritos nessas areias, e todas as minhas filhas tiveram seus nomes revelados aqui.

Não sei as tramas do destino, mas a única coisa do meu pai que ficou em mim, já que ele nunca teve um dia sequer comigo por não ter me desejado, foi o fato dele ser um pescador. Ele me deu o mar de Antônio. E o passado de minha mãe com este pescador foi marcado por um porto.

A família que me criou tem uma casa até hoje aqui, na minha infância não tinhas muros, o mar era meu quintal. E quantas vezes as águas bateram na porta. Um dia em uma das minhas orações chamei este lugar de praia inicial da minha vida, e que um dia ela seria a praia final da minha existência.

Ah o mar! Eu não tenho outro lugar sagrado. Não tenho outro som divino. Não tenho outro mistério. Tudo meu está aqui, tudo que sou está aqui. Já disse, mar, metade da minha alma é feita de maresia, e a outra que antes dizia que não sabia, carrega elementos do profundo oceano.

Por força da vida adulta e de tantos encontros da existência, fui levado para muitos lugares, e por muito pouco o fim da minha vida não se deu entre muros, asfaltos e edifícios. Mas, não seria justo. E sem eu perceber as teias do destino se construíam. Meus castelos se desfizeram, minhas velhas bases foram desfeitas, e tudo que havia construído longe daqui acabou. E quando percebi que não havia mais nada, o destino me forçou a procurar um lugar para estar, confesso que minha mente pensou em milhares de locais e os procurei, menos aqui. Nada encontrei, e aí justamente em frente onde tudo começou estou agora.

Um quarto branco com janela de frente para o mar e o vento tomando conta de todo ambiente, o som das águas como música aos meus ouvidos. Ao acordar o sol me despertou, o mar me chamou e lá estava eu, caminhando horas sem perceber o tempo. Minhas velhas e longas orações. Pra onde irei depois daqui, talvez fique um pouco mais de tempo nesse quarto ou vou para casa vizinha, ou ainda pra qualquer outro espaço em frente a esse mar, mas sinto que não sairei mais daqui, pois voltei a praia inicial no tempo final.

Espero concluir aqui minha meta de me tornar quem sou, no único lugar da face da terra que me ajudou nisso!

A praia do meu passado, é minha praia de agora e ela se chama praia do futuro!

Ivo Fernandes

13 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Meu cajueiro


Durante um ano eu que vivi num bairro situado perto de uma reserva ecológica foi um cajueiro que serviu como local de adoração e reflexão em vez do meu velho templo – o mar. Foi um ano diferente, o ano depois da morte, e junto com o cajueiro foi retomando o sabor da existência. Tudo nele e ao seu redor me foi sagrado, de sua imensa copa verde, do vento que ao mexer suas folhas produzia o som dos céus, que me trouxe uma nova linguagem do divino, no lugar do som das muitas águas que me sempre me foi a Voz sagrada.

Renasci com um cajueiro, mas sou feito de maresia, e o tempo do cajueiro não poderia se eternizar, precisava voltar para as praias iniciais da minha vida. O tempo de retorno chegou. Assim o tempo do cajueiro que trouxe para minha vida novamente o verde e vento chegou ao fim.

A casa que estava em frente ao cajueiro era grande, como sempre gostei, me permitiu muitas coisas, como receber amigos e realizar festas e trabalhar, tudo era feito nela, a ponto de não haver diferenças entre os muitos de mim, o que me foi prejudicial, pois Ivo, Antônio, Álvaro, Bernardo e tantos outros não podem serem vistos como os mesmos pois os mataria essencialmente. Desta forma na salvação de todos a casa perdeu sua vida.

Antes de se determinar o fim oficial, ela foi invadida, saqueada, e aquilo que já era claro reforçou-se. E aí tomei a decisão de ir para o futuro sem tantas bagagens do passado, e a casa com tudo dentro foi deixada pra trás. Até hoje, estive num limbo, meu carro, estava sendo minha casa. Não houve nenhum arrependimento, nenhum sentimento negativo a respeito de nada. O que foi, foi, e teve seu papel formador. E meu principal presente sem dúvida o meu cajueiro.

Pois bem, fui me despedir e outros que não tiveram a mesma relação sagrada que eu com o cajueiro, o cortaram  para possuírem mais luminosidade pública, visão da rua e segurança. O cajueiro foi embora junto comigo com sua grandiosidade e beleza para dar lugar ao moderno sem natureza e mistério.

Aí tudo se completou, jamais poderia viver onde o mistério é retirado, onde a natureza é substituída por tecnologia, a poesia por concreto.

Adeus meu cajueiro, estou voltando para o futuro!

Ivo Fernandes

11 de junho de 2014

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Jesus a chave hermenêutica para a interpretação das escrituras



No decorrer desses anos, anteriormente como professor de teologia e agora de filosofia, e sempre como pregador e líder religioso percebi que o nó que impede a maioria dos cristãos encarnarem o espírito do Evangelho é a doutrina da inspiração verbal e plenária das escrituras e sua interpretação dogmática-sistemática. Em outras palavras parece que o grande problema dos cristãos é a bíblia.

Porém quando surge na história do cristianismo, e nós não somos os primeiros, nem seremos os últimos, que falam das escrituras fora desse enquadramento teológico, somos vistos como heréticos, que não possuem apreço pelas sagradas letras. Nada mais mentiroso.

Apenas entendemos que a bíblia não é o próprio Deus, a ponto de a vermos como inerrante e infalível. E também que não se trata de um livro ditado por Deus, mas escrito por homens situados no tempo e no espaço e cheio de condicionamentos histórico-social-psicológico-ideológico.  Assim qualquer um que quiser tomar a bíblia “ao pé da letra” ou se tornará cínico ou adoecido pela sua total incapacidade de lidar com a totalidade dela vista como mandamento de Deus.

Não é a bíblia que é o fundamento da fé, milhares de cristãos conhecem muito pouco dela e nem por isso se pode dizer de sua fé como algo inferior a fé dos teólogos. A fé não precisa de base bíblica. Portanto as escrituras são para nós um testemunho entre tantos do Evangelho crido por muitos com e sem escritura.

Assim chegamos na afirmação de Jesus como chave-hermenêutica. E o que isso significa? Significa que só deve ser aceito como mandamento aquilo que for conforme o Espirito de Cristo que é Amor. E aqui não se trata de jogar fora, como sem nenhum valor os textos bíblicos mas entender que somente é possível saúde espiritual se o único dogma for o Amor e este ser o juiz de cada texto e contexto.

Muitos afirmam que com isso apenas estamos selecionando textos a nosso favor. Que idiotice! Primeiro porque não conheço nenhuma teologia da bíblia toda, todos esquemas teológicos fazem escolhas de textos, determinam importâncias e selecionam o que desejam. A diferença está na autoridade. Uns tem na tradição agostiniana a chave, outros nos concílios patrísticos, outros nas confissões reformadas, outros na autoridade de algum teólogo ou sistema teológico, nós temos no Amor a autoridade final para a interpretação das escrituras.

Quem leu os evangelhos e percebeu o espírito de Cristo e tiver o mínimo de bom senso perceberá que esse espírito não está na totalidade dos textos sagrados, por uma simples razão, nenhum autor foi privado de seu próprio espírito na redação dos textos.

Outros perguntarão: - e a doutrina dos apóstolos? A igreja não está fundamentada sobre ela? Bom, quanto a isso fica difícil saber exatamente qual era a doutrina dos apóstolos, será a que o catolicismo interpretou ou uma das diversas confissões protestantes? Eu particularmente sou de uma igreja que está sob a pedra que é Cristo, que muitos apóstolos Nele creram e dele deram testemunho, mas o mesmo Espírito que iluminou os apóstolos, ilumina todos os homens.

Mas e o que sabemos de Cristo não veio das Escrituras? Sim! Por isso mesmo ela é chamada de sagrada, mas o fato dela dar testemunho de Cristo não a faz um livro que deve ser lido cegamente, como se não houvesses elementos históricos que precisassem ser explicados para não se tornar mandamento de morte entre nós. Ele dá testemunho, mas é o Espírito que nos confirma no coração o que é lhe é próprio. Logo o que não carrega o testemunho do Espírito que é Amor, pode ser bíblico mas não deve ser mandamento entre nós.

Quem diz que para crer em Jesus é preciso crer sem críticas nos textos bíblicos não crer no poder do Espirito e ainda é um ingênuo literário. Só um tolo acredita que se não tivemos a totalidade das escrituras como inerrante não poderemos saber de nada sobre o Verbo Encarnado. Não só tolo, mas também incrédulo, visto que não possui fé mas lógicas sistemáticas.

"O convite é olharmos para Jesus, sim o do texto bíblico e lá perceber como Ele tratou a vida, as pessoas, a religião, os políticos, os pobres, os ricos, os doentes, os parias, os segregados, os esquecidos, os seres proibidos, os publicanos, as meretrizes, os santarrões, e o que mais você quiser, pois se cremos que Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e Nele estão TODOS os tesouros da sabedoria e do conhecimento, então de seu modo de ser teremos a chave para a interpretação de todo e qualquer texto ou espírito."

Para nós o que passar disso pode até servir para um bate-papo mas não se traduz como Evangelho!

Ivo Fernandes

4 de junho de 2014

O papel das emoções no desenvolvimento do câncer

O tema proposto ainda é motivo de discussões entre especialistas, apesar da crescente admissão da relação entre as emoções e as doença...