segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A mensagem política de Jesus?!


Mateus 20.1-28

Sabemos que a figura de Jesus é usada para todos os gostos, mas temos tentando resgatar por meio de análises sérias qual teria sido a mensagem de Jesus de Nazaré. Assim muitas questões surgem para saber se ele abordou diversos temas. Num período como o nosso onde os políticos se aproveitam da religiosidade das pessoas para angariar votos faz-se importante saber qual era a mensagem política de Jesus. Havia uma?!

Quando vamos analisar como Jesus se comportou na sociedade de seu tempo, vemos que nem todas as coisas são claras. E mais a gente aborda a questão da atitude política de Jesus interrogando os Evangelhos a partir de nossas preocupações, o que em si não é um problema desde que possamos deixar também que o Evangelho nos interrogue e nos interpele.

Para pensarmos a mensagem política de Jesus temos que tentar enxerga-lo em seu próprio tempo. É preciso levar em conta o mundo dele; o contexto sócio-político, as estruturas vividas por ele.

A sociedade em que Jesus viveu era uma sociedade pré-capitalista, transacional, substancialmente agrícola. Não era urna sociedade industrial como a nossa. Lá predominava a agricultura. E como eram as relações na agricultura? A propriedade da terra na palestina, Judéia, Samaria, Galiléia, estava concentrada nas mãos de pouca gente. Aliás, dá para perceber que no fundo de muitas parábolas, temos a situação do latifúndio, da concentração da propriedade da terra. E inegavelmente nestas parábolas encontramos uma atitude crítica sobre a riqueza. Em várias passagens Jesus antagonizou Deus e as riquezas (Mt 6.24; 19.22-24; Mc 4.19; Lc 6.25;12.15,21). Para ele o caminho da vida passa pela partilha, sem essa consciência era impossível seguir Jesus. Portanto como economia e política andam juntas, já podemos desvelar uma postura de Jesus frente a esse assunto.
No tempo de Jesus, o Estado é o que chamamos hoje de teocrático. Ou seja, um Estado re­ligioso. O sumo sacerdote é o dirigente político da nação. Existe ainda o Sinédrio, que é uma espécie de tribunal, de conselho, formado por 80 homens que dirigem a nação, tendo à frente o sumo sacerdote. Qualquer comportamento religioso, nesta situação, é um comportamento político. Não havia divisão, política de um lado, religião de outro. Logo quando Cristo, por exemplo, cura em dia de sá­bado e não observa as tradições, ele está ten­do um comportamento subversivo, antipolítico. Com posturas semelhantes a essa ele dessacraliza o poder político, não pensa em poder religioso, teocrático.

Cristo tem uma atitude critica   frente aos poderosos. O conflito entre Jesus e os di­rigentes do povo atravessa os Evangelhos de ponta a ponta. No Evangelho de São Marcos, o mais antigo dos Evangelhos (embora apareça em segunda posição no livro do Novo Testamento), a gente percebe um progresso na oposição entre Cristo e os dirigentes. No capítulo 2, quando cura um paralítico, os Fariseus cochicham entre si e dizem. “Esse homem blasfema, porque ele perdoa pecados”. No capítulo 2, Jesus esta jantando com os publicanos. Os Fariseus conversam com os discípulos e dizem:” Como é que o mestre de vocês almoça com os publicanos”. Logo em seguida, quando os discípulos infringem o sábado, esmagando, descascando as espigas de trigo e comendo, então ai aparece o ataque direto a Cristo: “Como é que seus discípulos infringem o dia de sábado?” Mais adiante, atacam-no porque ele não lava as mãos antes de comer, desrespeitando a tradição.

Em Jerusalém, o conflito é aberto. Jesus ataca diretamente os Escribas, Fariseus, os Sumo Sacerdotes e os Saduceus, Expulsa os vendilhões do Templo, e declara que o Templo vai acabar. O Templo significa o sistema da época. Amaldiçoa também a figueira, símbolo do sistema Judaico. A maldição da figueira significa maldição daquela sociedade. Foi logo entendido esse gesto profético de Jesus. É claro, uma semana após ela é levado ao tribunal, e condenado a morte na cruz.

Penso que com tudo isso Jesus não foi um político de oposição, mas um profeta. Não havia programa político na mensagem de Jesus. Ao contrário falou do fim da mesma, quando fala do fim dos poderes. Mesmo que algumas posturas pudessem fazer dele um tipo de Zelote, na totalidade da mensagem vemos que inclusive esse grupo é alvo das críticas de Jesus. Jesus não tinha partidos. Jesus anda em companhia dos fiscais, se relaciona com os romanos e resiste à tentação do poder.

E essa resistência é fundamental para entendermos a mensagem. Jesus considera que os sistemas de poder dividem os homens. Não podemos afirmar que Jesus estimulou revoltas, mas também não podemos dizer que afirmou o sistema. Por exemplo, no caso da moeda com a figura de César, ele claramente afirma para se dar a César o que lhe é próprio, mas com isso ele apenas afirma o limite do poder do sistema, afinal onde não houver a marca de César, há liberdade e ali há o Reino de Deus. Jesus está dizendo que o sistema não tem direito algum sobre a vida e a consciência dos homens.

Entre os discípulos de Jesus não há governo! Onde há governos não há o Reino de Deus, mas o caminho não é a revolta contra os governos para se instaurar novos sistemas que na prática viram outros governos, mas a criação de uma comunidade subversiva, o fermento em meio a massa. Sejam uma sociedade sem poder, sem autoridade, sem hierarquia. “Não seja assim entre vocês” ele disse. Não adianta tentar modificar a sociedade de poder, é preciso criar outra sobre novos fundamentos. E isso não se trata de uma dessocialização, como entenderam as comunidades do deserto.

Ora o próprio Deus de Jesus não nos é apresentado como um Poder. Entre o Pai e o Filho não há hierarquia. Eis o mistério da fé, Deus conhecido como Todo Poderoso abriu mão de seu poder e tornou-se servo de todos! E o que nos leva a afirmar a divindade de Jesus não é seu suposto poder, mas seu amor para com todos os homens.

A mensagem de Jesus não é convite político mas profético – abandonar o poder. (Mt 5). Ouse viver sem senhores! Um cristão não é de direita ou de esquerda e nem de centro, ele não é desse mundo – ou seja desse sistema de poder.

Ivo Fernandes
24 de setembro de 14


(As passagens em itálico são de Clodovis Boff)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A mensagem de Jesus sobre o juízo contra o próximo – sobre acusados e acusadores


Leitura: João 8:2-12
Dias anteriores vimos pelas diversas mídias o drama que envolveu o goleiro Aranha do Santos, tentando denunciar, no meio de uma partida de futebol em andamento, os insultos racistas gritados logo atrás de si, e depois o de uma das ofensoras, torcedora do grêmio, que foi flagrada pelas câmeras chamado o goleiro de macaco. Daí seguiu-se diversas manifestações contra o racismo. Grupos saíram no ataque da torcedora muito mais que na defesa do goleiro. Estariam eles compreendendo que se tratava da mesma coisa?
Todos sabem da minha luta contra o juízo contra o próximo, o quanto esse tema é central em minhas mensagens e como vivo a tentativa constante do amor ao diferente. Sabem da minha defesa em favor de grupos minoritários como os gays por exemplo. E não só de grupos minoritários mas daqueles que estão sendo ofendidos em sua condição, como os pobres por exemplo.
A pergunta que poderia fazer é de onde nasce esse racismo, e esse juízo contra o próximo, mãe de toda forma de preconceito? E o que é preciso para que esse mal acabe em nós?
Na história acima quem são os acusados e os acusadores? Onde há verdadeira justiça? Nos berros da moça ao jovem negro, ou dos grupos berrando palavras de ordem na delegacia para a moça? E os expectadores que veem em suas casas e publicam frases em redes sociais, quem eles são? Quem representam? Sob questionamentos todos tem uma justificativa.
Essa história me lembrou de outra, a da mulher adúltera levada a presença de Jesus para ser por ele julgada. De maneira semelhante a história acima, temos os elementos do flagrante, do levar a juízo, da acusação e da presença popular. E qual é a postura de Jesus frente a esse caso? Ele trata da questão que falei acima – fala sobre acusados e acusadores. E quem são? Fica claro no trato de Jesus que esses dois papeis estão sendo interpretado simultaneamente por todos. E é essa consciência que ele deseja despertar nos envolvidos. Naquela história não haviam inocentes, pois todos estavam implicados no pecado.
Aqui está a mensagem – todas as vezes que nosso olhar é particularizado, o resultado é juízo contra o próximo, ódio, vingança e coisas semelhantes a essas. O chamado é para que o olhar se amplie, saia do ambiente particular para contemplar a totalidade. Isso é ser filho de Deus, ou seja possuir sua natureza, e o que é Deus senão a Totalidade? Quanto mais particularizado mais diabólico sou. Lembre-se, estou falando particularizado, pois o particular é aquele que negando a própria singularidade e a dos demais tenta sufocar a diferença a partir de seu mundo. O singular que vê a totalidade, esse ama o diferente, pois na diferença aprende-se e evolui.
O perdão, a misericórdia e o amor são frutos desse espírito. Em outras palavras a presença de acusados e acusadores só se dão na ausência do divino, quando todos vivem no reino do particular. Porém quando acusados e acusadores são trazidos a presença do divino, aqui visto na pessoa de Jesus, não há como identificar os mesmos, pois no reino de Deus os particulares desaparecem e surgem os singulares que são partes da totalidade, e na totalidade todos são divinos. Não há na presença de Deus acusados e acusadores.
Nas duas histórias todos os envolvidos só enxergam as coisas pelo seu mundo particular, pouco importava a vida do outro, as razões do outro, a história e os condicionamentos anteriores que promoveram aquele momento. E mais, nessa particularidade conseguiram se esquivar dos acontecimentos como se não fossem coparticipantes de tudo que ocorria. Aqui está a raiz de todos os males. Esse é o mundo sem Deus.
Porém Jesus nos desafia a largar as pedras que temos nas mãos, que não se traduzem em justiça e sim em mentira, engano e confusão do reino dos particulares, e abraçar o caminho do perdão, próprio do reino de Deus.
E você o que tens nas mãos?
Ivo Fernandes

10 de setembro de 14

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A mensagem de salvação de Jesus


Texto: Lc. 18-19.10

Inegavelmente a mensagem de salvação é um dos pilares teológicos da tradição cristã, porém não é uma criação própria, ela está presente na maioria das religiões e até fora delas também. No NT a salvação está intimamente ligada a vida, morte e ressurreição de Jesus, sendo a cruz seu grande símbolo. Porém não é sobre o que produzimos enquanto igreja sobre a salvação que desejo abordar agora, mas sobre o que Jesus de Nazaré falou sobre esse assunto.
A palavra grega presente no NT para salvação “soteria” transmite a ideia de cura, redenção, remédio e resgate. Na maior parte dos textos onde esse termo aparece no discurso de Jesus salvar é sinônimo de cura e ou libertação (Lc. 18:42; 17:19; 7:50; 8:4; Mc. 5:34; 10:52; Mt 9:22)
Inegavelmente, Jesus em diversas passagens é visto como um homem que promove cura. (Mt 8:16-17; 9:12; Mc 2:17; Lc 4:18-23)
Na história de Zaqueu, um significado de salvação mais profundo surge na mensagem de Jesus.  O desejo de conversão de um homem para mudar seus atos de injustiça em atos de justiça e bondade. O fim do egoísmo era o sinal que a salvação entrara naquela casa e naquele homem.
Portanto o significado de salvação na mensagem de Jesus é referente a existência e não uma fuga da mesma, trata-se da caminhada, não apenas uma morada no céu. Trata-se de vida e vida em abundância. O grande objetivo de Jesus é gerar consciência de filhos de Deus.
Salvar a alma é torna-la espiritual, revesti-la de humildade e serviço ao próximo movido por amor incondicional. Isso é ser salvo, filho do Reino, filho de Deus. E Jesus entendia ser essa sua missão (Lc 9:51-56).
Para isso metaforicamente a comunidade cristã foi interpretando a salvação em termos metafísicos. E isso não é um problema se conseguíssemos retirar do símbolo potência para ser aquilo que pelo Mestre foi ensinado. O Problema é que tornamos nossos símbolos em dogmas. Retiramos deles o poder e não produzimos com ele verdadeira conversão, pois não nos implicamos na mensagem.
Salvação na mensagem de Jesus é fruto de uma relação, onde Deus, a mensagem e o homem participam ativamente.
Imaginemos um doente, onde o médico depois de examiná-lo diagnostica seu problema e receita a medicação e até mesmo dá ao paciente a mesma. Tudo foi dado mas a saúde só virá com a participação do doente seguindo as orientações do médico. Nessa história podemos perguntar quem salvou o doente? O remédio, o médico ou a decisão de tomar o remédio? Ou ainda as três ao mesmo tempo?
Jesus, como médico de nossas almas, não nos violenta. Nos oferece o remédio que nos cura de todas as nossas doenças: o Evangelho.  Mas a decisão de seguir o evangelho é nossa.
Não é à toa que Jesus sempre exclamou “Tua fé te salvou”. O Evangelho não é uma informação recebida mas um caminho a ser seguido. A fé não é uma mera confissão mas uma profissão.
O que devo fazer para ser salvo? Jesus responde – Ame! E nisto está toda lei e os profetas. Ame ao próximo e amarás a Deus. Não é salvo aquele que ainda não aprendeu a amar.

Ivo Fernandes

7 de setembro de 2014

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Conhece teu próprio caminho?


A sabedoria do prudente é entender o seu caminho

Você conhece o próprio caminho? Sabe de onde veio e para onde vai? E não estou me referindo a questões metafísicas, falo mesmo do próximo passo.
Conhecer a si mesmo e seu próprio caminho é a chave para conhecer todo o restante, como já anunciava a inscrição no templo de Apolo: ” Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo.” — Inscrição no oráculo de Delfos, atribuída aos Sete Sábios (c. 650a.C.-550 a.C.)
O provérbio pode ter muitas interpretações, entre elas a de focar o conhecimento naquilo que procede do próprio indivíduo e não da multidão de opiniões. É claro que confiar em nosso conhecimento interior não nos livrará de cometer enganos. Mas certamente vai nos permitir aprender com nossos erros, uma vez que toda a responsabilidade será nossa.

Para seguir o caminho deste autoconhecimento é preciso coragem para questionar as estradas fixas nos impostas. O conhecimento é como água para matar a sede, não adianta saber do outro que bebeu da água, minha sede não será saciada com essa informação recebida, é preciso saber por si mesmo, é preciso beber a água.

O seu caminho só pode ser percorrido por você mesmo. Cada indivíduo tem de estar consciente, alerta, atento, experimentar com a vida. E descobrir o que é bom para ele. O que lhe dá paz, serenidade e harmonia. Ninguém mais pode decidir isso por você - pois cada indivíduo tem seu próprio mundo, sua própria sensibilidade. Ele é único.

Sem esse conhecimento não há como desenvolver aquilo que chamamos de maturidade, pois a mesma só advém das experiências pensadas. Penso que essa é grande meta da existência que cada um conheça e siga o seu próprio caminho. E no fim descobriremos que o Caminho era a própria meta.

Existem muitos caminhos nos dados, seja pela sociedade, pela religião, pelas ideologias, mas tais caminhos são apenas estradas fixas pois o verdadeiro caminho está ligado aos seus pés, portanto é totalmente novo, ligado apenas a sua própria caminhada.

O que lhe impede de seguir essa jornada? O medo de errar. Os erros são certos e importantes na caminhada, pois se os erros são seus eles mesmos lhe indicarão o outro caminho. Portanto, não tenha medo de errar, de percorrer caminhos errados. Aqueles que têm muito medo de cometer erros e de percorrer caminhos errados ficam paralisados. Permanecem onde estão; jamais se movem.

Com isso não estou estimulando o desprezar daqueles que fizeram seus caminhos e nos servem de inspiração. No entanto, esses mestres que fizeram cada um deles seu próprio caminho não devem ser imitados quanto aos seus passos, mas quanto aos seus espíritos

E muito cuidado na caminhada não se deparar com alguma coisa que o atrai racionalmente. Lembre-se pode parecer verdadeiro à sua razão, mas isso não significa que seja verdadeiro. A não ser que você o experimente, que você experimente algo através dele, nada foi descoberto. O critério supremo encontra-se sempre em seu íntimo. Experimente e sinta. E, a menos que você experimente alguma coisa, não acredita que a encontrou, que o caminho lhe foi revelado. Somente através da experiência é que as teorias se transformam em verdade. E não estou falando dos sentidos, pois sei que esses também enganam, estou falando do espírito.

O caminho do espírito é feito no silêncio e na oração. E porque isso é preciso? Para não se confundir o espírito com projeção da mente, sonho ou desejo. O fruto do espírito é paz. Se não tens esse fruto ainda não está no caminho. O caminho verdadeiro nunca ficará só no discurso, ele é revelado na vida.

Se os teus olhos são luz todo teu corpo é, nos ensinou o Nazareno. Se o interior muda, o exterior também muda, mas o contrário não é verdadeiro. Você pode mudar o exterior e não há necessidade de que o interior mude. Esse é o significado da hipocrisia nos seus ensinos.

O mesmo Nazareno disse: Eu sou o Caminho! O que isso quer dizer? Que só há um jeito de experimentar a Verdade e a Vida, seguindo o Caminho, o seu próprio caminho do qual Ele é o grande arquétipo

Ivo Fernandes

28 de agosto de 2014

A justificação pela fé – uma exposição no Caminho

Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3 A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a prote...