sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Velho-novo Natal


Hoje ao chegar na obra (construção da minha casa – nos fundos da casa da minha mãe no Serviluz - Cais do Porto – Praia do Futuro) vi um colega da infância e imediatamente me lembrei de tantos, e saí conversando com minha irmã sobre eles, afinal sai do bairro aos 18 anos e agora quase 15 anos depois é que retorno.

Por onde anda a bela moça da casa a frente? Lembrei que das muitas brincadeiras nas casas da marinha em frente à minha. Meus primeiros beijos e primeiras paqueras e primeiras experiências eróticas. Não tenho contato com nenhum dos que moraram nessas casas, sei que dois deles foram assassinados por causa de envolvimentos no mundo das drogas.

Olhei a pracinha, hoje tão diferente do que já foi e lembrei do tempo que ainda era apenas um terreno onde cortei meu pé profundamente, e onde tempos depois joguei vôlei, e tive algumas brigas. Na sua frente morou o meu segundo grande amor. Lembrei dela e de um reencontro que tive com ela onde ela não me reconheceu.

Falei com minha irmã sobre o destino de muitos. Homossexuais casados, outras vítimas da aids, outros ainda por lá, como se a vida permanecesse a mesma. Alguns casados e com filhos, outros viciados em álcool e drogas e outros mortos pelas mesmas.

Envelhecemos! Eu mesmo mudei o corpo, o rosto, a vida, mas que engraçado, estou de volta. Voltar não significa ir para o passado, pois o passado não existe, até minhas lembranças não são apenas memórias, são atualizações. Volto para o passado-presente, retorno para o mesmo-outro lugar. Sou outro e tudo é outra coisa. A vida como rio passou-está passando- e passará.

Como serão meus dias neste velho-novo lugar? Verei velhos conhecidos? Será um encontro formal? Teremos algo para dizer uns aos outros? Retornos são cheios de silêncio.

Minha volta está se dando no natal de 2014, provavelmente não terei nenhuma casa para visitar, as portas estão fechadas, os moradores são outros. E a minha casa? Como será? Abrirei para o antigo? Para o novo?

O fato é que ela não estará pronta a tempo, não terei uma casa no natal, nem para mim nem para receber. Ora que enigmático! Aquele que celebramos no natal não teve um lugar para nascer. Assim estarei onde me receberem, talvez na companhia de pastores e bichos. Mas aquele que não teve onde nascer tornou-se casa para muitos viajantes. Assim desejo que minha casa não seja apenas um espaço para meu egoísmo mas uma possibilidade de estar dos viajantes, que assim como eu estão apenas de passagem como o rio que passa.

Ivo Fernandes

19 de dezembro de 2014

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Creio e penso - Deus


Em 2009 escrevi um texto com o título “Creio – Deus” onde enfatizava a questão da fé como necessária para saber de Deus, pois fora da fé não havia conhecimento de Deus.
Pois bem, a velha questão fé e razão voltou a ocupar minha vida novamente, pois tem sido objeto de meus estudos atuais. E relendo o texto, vi que mudaria alguma coisa no que havia escrito, dando lugar legítimo a razão também.
Segue agora uma síntese daquele texto com os pensamentos de agora:

Deus. Quem é Deus? O que é Deus? Quem já o viu? Onde ele está? O que está fazendo?

Eu creio em Deus. Mas o que isso significa? Significa que minha relação com Ele vai além do que minha reflexão racional conclui sobre ele. Significa dizer que minha crença mescla elementos da minha imaginação, racionalidade e fé, e é esta última que dá condições de estar em paz com Deus.

Pela fé sei que Deus é mais do que qualquer especulação, doutrina ou conceito sobre Ele mesmo. Deus é o que É. E por ser o único que de fato É, só o Espírito conhece as profundezas de Deus, visto que tudo mais só o é em razão Daquele que É.

Pesquiso a única coisa que de fato é possível pesquisar e ainda com temor e tremor – o pensamento humano a respeito de Deus, o sentimento do homem em relação ao que lhe transcende, as experiências históricas da fé. Sei que Deus não pode ser mapeado, não pode ser perscrutado, Ele habita em luz inacessível, só Ele tem a imortalidade, e nenhum homem nunca o viu e nem pode ver. Porém também sei que uma vez a criação é dele e vem dele e fora dele nada é, nossa limitada compreensão das coisas apontam para Ele, e podemos andar com segurança dentro desses limites.

Sei que quando imaginamos deus, tal imaginação revela muito mais de nós do que de Deus. Quando buscamos a Deus pela razão podemos concluir sobre sua glória, mas sua graça e seu amor são discerníveis pela fé.

Faz parte da imaginação a concepção que deus que criou todas as coisas por uma espécie de necessidade de companhia; que deus não conseguindo a plena simpatia de suas criaturas as castiga com tormentos infinitos; que deus trava uma batalha de amor e ódio com suas próprias criaturas; que deus no critério de sua escolha é caprichoso; que depende de uma confissão religiosa; ou que tenha estrema dificuldade em lidar com as pulsões sexuais humanas que ele mesmo criou;

Faz parte da vaidade da razão tentar encaixar Deus apenas dentro de certas reflexões. A razão nos leva a percepção da glória, ou seja, a saber que Deus É. E isso é a coisa mais certa que a razão pode concluir.

Porém a Fé usa da poesia para referir ao que sabe que escapa a toda linguagem. Logo só a fé gera conhecimento pacificado de Deus.

Podemos negar o deus da imaginação alheia, podemos questionar as conclusões racionais, mas sob o mesmo solo da fé não temos outro caminho senão a confissão. Pois o Deus que É não precisa de defensores, de advogados e nem de representantes.

O que então posso saber de Deus? Aquilo que Ele de Si revelou na História, na Humanidade, na Criação e de maneira singular na Palavra Encarnada. Sim! Em Jesus, que condensa a Criação, a Humanidade e a Palavra, porque Nele está a Reconciliação Universal, vemos o que Deus decidiu manifestar. E Nele vejo um Deus que pode ser referido por meio de uma só palavra – Amor.

Eu creio que Deus é Amor e Nele não há treva alguma. É por causa do Amor que creio que o Deus que É se “fez” para o homem e o homem para Si, e conduzirá todas as coisas para Si mesmo, quando Ele será tudo em todos de maneira manifesta.

“Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” 1 Jo 4.16

Ivo Fernandes
7 de dezembro de 2014


1 Coríntios – Uma síntese

A Certeza Deus é fiel (1.9) A Promessa Ele os conservará firmes até o fim, de modo que sereis irrepreensíveis no Dia de no...