sábado, 25 de julho de 2015

Dias de um futuro próximo


Sábado, 25 de julho de 2015, 6h00min da manhã, o sol tem uma luminosidade agradável, tornando a cor do mar que vai do azul ao verde. Estou a 10 passos de onde as ondas arrebentam, na casa do mestre Antônio, na praia de Morro Branco, no município de Beberibe – Ce.

Esse é o quarto dia de uma estadia maravilhosa junto as minhas razões, e é a terceira vez que fico nesse mesmo lugar. A casa é simples, mas como disse ontem milha filha Cecília, 7 anos, ela é ótima. Uma casa de pescador, pé na areia, do lado das embarcações que saem todos os dias daqui para pescar, ao pé das falésias de areias coloridas e vizinho ao já meu amigo pescador, que sempre prepara uns peixes fritos do jeito que gosto.

Durante esses dias orei e entre minhas orações ao Mar, me invadiu um propósito. Não sou um homem de muitas metas, na verdade, comparando com a forma de viver da maioria dos homens do meu tempo, sou um ponto fora da curva. Nunca quis muita coisa. Meus desejos são poucos. Minhas orações de petição sempre foram as mesmas, antes das meninas nascerem pedia apenas para servir ao Grande Senhor das Águas, depois que elas nasceram acrescentou-se a esse pedido, a proteção delas para que elas experimentassem a existência. Além dessas pedi uma vez um coração sem expectativas, e depois da doença, alguns anos a mais para ver minhas filhas crescerem um pouco mais. Até aqui o Senhor me respondeu em tudo.

Mas aqui diante do Mar e ao som das ondas e do vento nasceu um desejo que pretendo realizá-lo. Sei que muitas pessoas tiveram desejos para mim, alguns deles até hoje tento realiza-los, mas esse é meu, nascido em mim, talvez o único.

Ano passado escrevi o texto Praia do Futuro, onde expliquei minha relação com o Mar e já revelava meu desejo, e durante aquele ano, consegui o que disse, fiz uma casinha naquele lugar. Uma casa aconchegante que tem agradado a todos os que passam. Tudo foi simbólico, uma mistura de tempos, uma casa tipo loft, construída no quintal da minha mãe, na Praia inicial da minha vida. Foi a melhor coisa dos últimos anos. Tenho enfim um lugar para chamar de meu.

Mas aqui nasceu um outro desejo, ou quem sabe apenas uma expansão daquele. Quero mais do Mar, das Pedras, dos Ventos, das Areias, das Águas. Quero as ilhas de Antônio, quero ir para dentro dos meus contos. E viver a vida simples dos pescadores. Se fui chamado para ser pescador de homens, quero viver como pescador de peixes.

Como conseguirei isso? Não sei exatamente, mas já rabisquei possibilidades. Não farei nada de maneira irresponsável, mas farei de maneira objetiva. Tenho um tempo, tenho uma meta. Já até falei com todas minhas filhas e mostrei como será, e sei que será bom para todos. Existem outras coisas que todos saberão no seu devido tempo, mas por ora basta que saibam que assim é porque no fundo assim sempre foi, desde o meu nascimento até esse momento.
Sou filho do Mar, fruto da relação de um pescador, nascido num porto, criado na Praia do Futuro, dedicado ás aguas. Toda minha espiritualidade se desenvolveu diante das ondas, e o som de Deus é a Voz das muitas Águas. Os seres que me habitam são todos do oceano. Metade da minha alma é feita de Maresia.

Assim começou há quatro dias os dias de um futuro próximo!

Ivo Fernandes
25 de julho de 2015

(Escrito de uma rede na varanda diante das ondas do mar, e durante a assinatura, minha filha mais nova, Clarice, 4 anos me pede para deitar na rede)


quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Palavra de Deus e as palavras dos homens


Uma das questões que sempre voltam a respeito de meus pensamentos ou do pensamento da Estação Fortaleza, é o que penso da bíblia. Porém a maioria das pessoas que questionam não sabem exatamente o que estão querendo saber por possuírem uma visão confusa e dogmática das escrituras.
Por exemplo, antes de responder sobre a bíblia era necessário responder sobre revelação, (a respeito deste assunto já tenho outro texto publicado em meu blog, Revelação). Fato é que a crença reformada está alicerçada no entendimento de que a bíblia é a revelação especial de Deus, inspirada e norma suprema de fé e prática.

No entanto desde o movimento do humanismo renascentista, a escritura deixou de ser a única fonte de autoridade para a teologia e outras fontes passaram a ser abraçadas pelos teólogos. No século 20, liberais, neo-ortodoxos e pentecostais passaram a utilizar outros critérios, como a razão, a experiência e a filosofia existencialista.

O conceito reformado de revelação mostra a bíblia como expressão exata da Palavra de Deus, que é sua própria revelação. É o que podemos chamar de pensamento ortodoxo a respeito das escrituras. Trata-se de uma forma objetiva, afinal a questão está posta no texto. Com isso o poder sobre a palavra está nos cânones, concílios, etc. pois em sendo objetivo é preciso delimitar o que chamarão de correta interpretação das escrituras, fazendo em última instância a revelação não está somente atrelada ao texto, mas a igreja, como instituição competente para interpretar corretamente as escrituras.

Aqui mora o grande esquema e problema por trás dessa visão. Não se trata mais de um caminho espiritual, mas institucional, a menos que garanta que a própria instituição é sagrada como pensa o catolicismo. Do contrário é necessário libertar o texto da força da instituição e do controle da mesma, como quis Lutero, mas que só veio a ser possível pós-liberalismo teológico.

Está aqui o nosso entendimento - a Bíblia torna-se a Palavra de Deus, quando esta comunica ao homem o Evangelho, e por este homem é recebida interiormente e existencialmente. Logo é impróprio confundir o texto bíblico com a Palavra de Deus, sendo composição de palavras dos homens, e enquanto palavras dos homens tem falhas e erros.

Porém assumir que a bíblia contém erros não diminui seu caráter comunicador da Palavra. Cabe a cada geração redescobrir a mensagem eterna dentro da bíblia e da tradição e da história, visto que a revelação não está limitada.

E como fica a historicidade dos fatos bíblicos? Não é ela que importa, mas o que ela comunica. Mas dizer não importa, não se trata de retirar a pesquisa séria sobre a mesma, mas entender que não é a informação exata de um fenômeno histórico que valida o texto como Palavra de Deus, mas o efeito da mesmo na vida do indivíduo. A bíblia é apenas texto se não for feita Palavra pelo Espírito no interior do indivíduo.

É o Espírito que é a autoridade na vida da comunidade e não a Bíblia. (E sobre como podemos entender esse tema ler Jesus a Chave Hermenêutica).

Os que buscam a verdade do texto, parecem ignorar todos os desafios por trás de uma análise textual de um documento de mais de dois mil anos. O maior valor histórico da bíblia reside no fato de que ela contém o testemunho daqueles que participaram dos eventos reveladores. É o registro histórico de pessoas que tiveram contato com revelações e de suas respostas a ela. A inspiração dos escritores bíblicos é a sua resposta receptiva e criativa a fatos potencialmente revelatórios. Assim nada contribuiu mais para a interpretação errônea da doutrina bíblica da Palavra do que a identificação da Palavra com a Bíblia.

A bíblia participa da revelação na condição de documento que registra o acontecimento da revelação de Jesus, o Cristo. Ela é uma antologia de literatura religiosa, escrita, compilada e editada através dos séculos e é o testemunho de como os primeiros cristãos entenderam a mensagem do evangelho.

Além dos textos citados acima ver também:


Ivo Fernandes

8 de julho de 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

Eu acredito no Amor


Falo de amor, sexo e relações há muito tempo. O que falo é fruto de minha própria experiência somado com a escuta clinica-pastoral de muitas pessoas e do conhecimento adquirido dos estudos, sendo que nada faz em mim separação, ou seja falo do que acredito, sabendo que amanhã posso mudar de opinião, afinal meu compromisso é com a verdade para a minha alma e não com coerências com os tempos passados.

Entendo que a natureza humana é dotada de potência criativa e que o corpo humano é um corpo de desejo, e que os objetos desses desejos são frutos de formação, que é preciso levar em consideração a genética, cultura, história e ideologias. Pois sem isso o que teríamos era um corpo desejante sem objeto. Logo, não existem modelo corretos ou adequados do desejo, mas uma diversidade imensa fruto dessas características da natureza humana.

Logo quanto mais eu conheço o homem, e me conheço mas respeito as diferenças e posso eu mesmo perceber em mim coisas que não percebia antes, ou experimentar o que jamais havia pensando.
Porém nós humanos somos seres sensíveis e nossa sensibilidade, junto com nossa racionalidade, imaginação e intuição nos fizeram seres que amam, que sentem, conceituam e imaginam o amor.

A forma de amar estará ligada a nosso mundo conceitual e imaginativo, logo quanto mais limitado nosso mundo mais limitado a expressão do amor e meu campo de aceitação das diferenças. Quanto mais amplo mais resolvido somos.

Bom, sem falsidade alguma, me considero alguém que alargou seus limites conceituais, imaginativos e sensitivos, por isso não penso mais o amor nas categorias tradicionais de nossa cultura. Por exemplo não penso que amor e sexo tem uma relação imprescindível, penso que a traição de confiança resultante da tentativa de reprimir nosso ser natural em um sistema social rígido e antinatural é um maior inimigo do amor do que o sexo. Amor e sexo não são as mesmas coisas e não preenchem as mesmas necessidades.

A honestidade e a verdade me são mais caras do que a exclusividade sexual. Isso porque sendo bem honesto a maioria de nós sabe que nossos desejos não se encerram numa relação e de lá não escapam. Penso que o próprio amor pode escapar e amarmos mais de uma pessoa ao mesmo tempo, é claro que em razão das diferenças entre as pessoas, cada amor terá uma característica particular, nunca se tornando a mesma coisa.

Penso que uma mente que nisso acredita livra-se de sentimentos tão danosos para as relações como o ciúme por exemplo. Em vez de ciúmes, podemos investir nos relacionamentos, com amizade, tesão e respeito.

Eu sei que algo assim, uma consciência dessas não se tem da noite para o dia, isso é resultado de um longo processo de desenvolvimento pessoal, do qual, por enquanto, poucos são capazes. É necessário fazer toda uma revisão de conceitos, de condicionamentos culturais e emocionais, para ver as coisas a partir de um outro paradigma. E nem mesmo penso que essa forma de ver o mundo e as relações precisam ser universais, também sustento o direito de qualquer um optar pela monogamia, fidelidade sexual, ou qualquer outro modelo relacional, como escolha de vida, e sei por experiência clínica-pastoral que essa é a escolha certa para muitas pessoas.

Muitos consideram que é essa minha forma de pensar é promiscuidade, mas sinceramente a maioria das pessoas que me procuram sendo infiéis aos seus parceiros não pensam como eu, mas justamente o contrário. Assim prossigo em paz, sabendo que o que penso não tem trazido mal nem a mim nem as parceiras de vida que já tive o prazer de conviver, e com a qual convivo.

Ivo Fernandes

14 de julho de 2015

sábado, 11 de julho de 2015

Entre a cruz e o arco-íris – uma reflexão sobre Evangelho e Diversidade


Antes de desenvolver uma reflexão sobre o assunto é importante alinharmos alguns conceitos. Entre eles o de gênero, sexo, sexualidade e religião.

Gênero é o conjunto de características sociais, culturais, políticas, psicológicas, jurídicas e econômicas atribuídas às pessoas de forma diferenciada de acordo com o sexo. Ou de outra forma as características de gênero são construções socioculturais que variam através da história e se referem aos papéis psicológicos e culturais que a sociedade atribui a cada um do que considera “masculino” ou “feminino”.

Sexo são características físicas, biológicas, anatômicas e fisiológicas dos seres humanos que os definem como macho ou fêmea. Reconhece-se a partir de dados corporais, genitais, sendo o sexo uma construção natural, com a qual se nasce.

Assim percebemos que a diferença sexual não é determinante nas diferenças sociais e sim as diferenças de gênero.

Sexualidade é o termo abstrato utilizado para se referir às capacidades associadas ao sexo, enquanto sexo tem vários significados.

Analisado a partir do gênero sabemos que o sexo não é uma variável demográfica, biológica ou natural, mas traz toda uma carga cultural e ideológica. Como declara Beauvoir, ‘ninguém nasce mulher, torna-se mulher’.

Gênero se realiza culturalmente, por ideologias que tomam formas específicas em cada momento histórico e tais formas estão associadas a apropriações político-econômicas do cultural, que se dão como totalidades em lugares e períodos determinados.

Neste sentido, considero que o conceito de gênero é significativo para refletir a questão das (homo)sexualidades no campo religioso e deve ser pensado numa perspectiva relacional e não essencialista. É necessário refletir sobre o que significa o “feminino” e o “masculino”, já que é através do gênero que se configuram o que atribuímos ao humano.

A sexualidade é produto da atividade humana e por isso, é sempre uma questão política e de poder. Esse caráter político aponta para a necessidade de problematizar as normas que regulam e hierarquizam as práticas e os desejos sexuais.
Ainda em nosso século reina no ocidente, e aqui no Brasil, uma certa corrente que cresce rapidamente e que estabelece a seguinte hierarquia sexual: o “bom sexo” é aquele realizado entre heterossexuais, no casamento monogâmico, com fins reprodutivos e não comerciais, entre pessoas da mesma geração. O “mau sexo”, anormal e condenável, consiste, segundo esse modelo da moral social, em práticas de sujeitos homossexuais, sozinhos ou em grupos, promiscuidade, com fins comerciais, material pornográfico ou sadomasoquismo. Travestis e transexuais são as categorias mais abjetas.

Assim, reitero, que entendo gênero e sexualidade como construções sociais de relações de poder e considero que a religião, como produto e produtora de representações e dispositivos reguladores das sexualidades (FOUCAULT,1998) também legitima (ou constrói) determinadas concepções de “masculinos” e “femininos”.

Entendido isso podemos afirmar que Deus não nos criou homem e mulher no sentido do gênero uma vez que se trata de uma construção, mas nos fez macho e fêmea no âmbito do sexo biológico. Ora, portanto é conforme a natureza a reprodução entre sexos opostos, isso é o máximo de ideal, palavra que prefiro não a utilizar, preferindo real, que podemos chegar. Daí concluir um modelo familiar que envolve o conceito de gênero a partir disso é outro passo, não necessariamente lógico.

E por falar em modelo familiar não existe na Bíblia um modelo familiar, mas uma “diversidade de formações familiares”, e se colocarmos na balança oi diversos modelos o que hoje se tenta definir como modelo é que menos encontramos nas escrituras. A própria família de Jesus foge completamente aos modelos que desejam vender como correto e ideal. Na relação com o sagrado a questão familiar ou de gênero nunca foi uma exigência ou um impedimento.

As escrituras judaicas-cristãs não são manuais de modelo algum. E o Evangelho não é um modelo ou ideal, mas um chamado a única realidade possível da vida – o amor!

Da conclusão necessária do exposto temos o que já dissemos em outros momentos, o conceito de bem e mal, nesse caso, de casamento, promiscuidade e coisa semelhante dependerá sempre da ideologia. As religiões como produtoras de conceitos estarão sempre em disputa a respeito desses temas, o Evangelho como produtor de Vida, está mais interessado no caminhar dos seres humanos, atentando para origem e consequências de um determinado conceito, valorizando apenas aquilo que vem e promove o Amor.

Não esperem então, como pregador do Evangelho que vos anuncie um modelo ideal de gênero, ou de família, ou de casamento ou algo do tipo. Essas produções serão analisadas dentro dos contextos próprios. Nem esperem que apoie qualquer movimento de defesa de bandeiras, sejam cristãs ou gay, no máximo analisarei a coerência social das mesmas, mas meu interesse é na vida dos seres que antes de serem determinados pelo gênero são determinados a existir. Sim nossa sentença não é ser homem ou mulher, mas ser. Por isso que no Evangelho essas diferenciações desaparecem, pois nele só há a unidade da diversidade no Amor!

“...é evidente que pelo gênero ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, o gênero não é da fé, mas das construções humanas; e o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá. Cristo nos resgatou da limitação do gênero...sabemos que todos estamos debaixo de questões de ordem de gênero por sermos seres sociais, mas os que vivem pela fé sabem que não estão debaixo desse tipo de autoridade. Sabemos que todos são filhos de Deus e que nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher; nem hetero nem homo porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois herdeiros da promessa. ” Paráfrase Gálatas 3:11-29

Ivo Fernandes

14 de junho de 2015

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Crônicas da Última Semana


Era um dia de domingo Jesus viaja de Betânia a Jerusalém, uma viagem de 3 km e ao final da tarde, volta para Betânia. Sim! Por toda essa semana ele retornará a Betânia. Em Jerusalém aquela que deveria ser a cidade do Rei ele encontra a religião e a corrupção dos homens, em Betânia, pequena cidade da Judéia, sem expressão política, econômica ou cultural, ele encontra paz de espírito entre os amigos.

Em Jerusalém entra como um morador de Betânia, sentando em seu jumento. E aqueles que o saúdam como rei não sabem o que desejam.

Na segunda-feira, de Betânia Jesus volta a Jerusalém. No caminho, amaldiçoa uma figueira, bela representação daquela cidade que não produzia mais frutos e nem matava a fome dos homens. Jerusalém - figueira, teus comércios religiosos negam o amor de Deus. Não és mais uma casa de oração, e sim um covil de ladrões. Ainda há alguém para ouvir a voz de Deus nesse lugar?

Na terça-feira prediz sua execução e no monte das oliveiras fala do tempo do fim. Na quarta-feira um de seus amigos, Judas é contratado para traí-lo, mas enquanto uns traem, outros amigos o ungem em Betânia. E diante de um mundo confuso e perdido o Mestre chora e lamenta pelos homens.

Na quinta-feira ele faz mais uma vez o que foi sua rotina nesta semana, reúne os amigos em torno de uma Ceia em Betânia, seria sua última páscoa e a primeira das ceias dos que professam seu nome. E nesta ceia Ele lava os pés de seus discípulos. Sim, o Senhor faz o convite, e mesmo Senhor recebe os convidados na posição de servo deles. Sua mensagem se concretiza naquele ato – se sou mestre e lavo os vossos pés, que não deveis fazer uns pelos outros? E da força da amizade segue para seus piores momentos de dor. Dirige-se ao jardim do Getsêmani.

Seu sofrimento era imenso, seu suor virado sangue, o mesmo que serviria como símbolo eterno da redenção dos homens. O médico ferido e sua vigília de dor. Quem pode acompanha-lo? Quem pode vigiar com ele? É sozinho que enfrentará a morte, e sozinho tornar-se-á o salvador de todos os homens.

Já é sexta-feira e o Mestre espera por sua prisão. E com um beijo traído, com outro beijo abençoa. Afinal não foi Ele quem ensinou a dar a outra face, a orar pelos que perseguem e amar os inimigos?

Assim é julgado, amarrado pelas costas, passa por um julgamento preliminar diante de Anás (ex-sumo-sacerdote e sogro do então sumo-sacerdote José Caifás), levado por um grupo de funcionários do templo e de soldados romanos. Lá é torturado fisicamente. Depois passa pelo segundo julgamento diante de Caifás (genro de Anás) e da Corte do Sinédrio, a mais alta dos judeus, formada por sacerdotes, líderes, fariseus e escribas. O Mestre ensanguentado, flagelado diante do tribunal corrupto dos homens que dizem representar Deus.

Um interrogatório que não busca a Verdade. Aliás quem deseja a Verdade? Prenderam a verdade no palácio do representante de Deus. E longe da verdade reinava a injustiça e o ódio. E no terceiro julgamento sai a decisão para matar a verdade.

Diante de Pilatos a verdade está. Será ele que dará ouvidos a ela? Não! Prefere lavar as mãos nas aguas sujas dos interesses. Assim Jesus é conduzido para o quinto julgamento. Este julgamento se dá por Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande, que tinha jurisdição sobre a Galiléia. Jesus se recusa a responder a qualquer questão e é devolvido rapidamente a Pilatos. 

A verdade se cala onde ninguém a deseja.

Jesus passa pelo sexto julgamento. Pilatos, não vendo crime digno de morte, tenta repetidamente libertar o acusado, mas os líderes judeus não aceitam. Pilatos, então, manda que Jesus seja açoitado, talvez para aplacar a fúria dos que pediam pela crucificação. 
(O açoitamento era executado com um chicote chamado flagelo, feito de couro de várias dobras, nas pontas das quais eram afixados bolinhas de metal, ossos de carneiro e outros objetos pendurados nas pontas. Os soldados, que se revezavam, ficavam em pé. O prisioneiro era curvado e preso a um objeto fixo, com as costas nuas voltadas para os soldados com o açoite na mão. Cada golpe atingia as costas, os braços, os ombros, as pernas e as panturrilhas. "Os pedaços de metal penetravam na carne, rasgando vasos sanguíneos, nervos, músculos e a pele". É possível que flagelação causara em Jesus sérios danos.
Jesus comparece ao Pretório. Soldados de Pilatos pegam Jesus no tribunal e se divertem com Ele, torturando-o e colocando uma coroa de espinhos na Sua cabeça. Os soldados, como uma forma de diversão, puseram nas mãos de Jesus um falso cetro de graveto, passaram por Ele, ajoelhando-se debochadamente, cuspiram nele, tiraram o cetro de Suas mãos e bateram com Ele em Sua coroa de espinhos e em Seu rosto, que ficou machucado.


Jesus é forçado a carregar Sua própria cruz para a crucificação no Calvário. O centurião e os soldados colocam a cruz sobre os ombros do condenado. Ele a carrega sozinho ladeira acima, e depois com a ajuda de um transeunte Simão de Cirene. O que pensavam esses dois homens naquele instante?

Jesus chega ao lugar de Sua execução: o Calvário e ao meio dia é pregado na cruz. É possível medir sua dor? E em meio a tudo lá estava a verdade calada, até ouvir-se o som "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? ”. E do grito de abandono segue-se a consumação de tudo. E às quinze horas daquele dia Jesus morre.

Acontece um terremoto. Soldados quebram as pernas dos outros crucificados, mas não as de Jesus, em vez disso furam seu corpo que é levado para ser enterrado no túmulo de José de Arimatéia. O que se fez pobre foi enterrado no túmulo do rico, e assim a porta estava aberta a todos os homens, ricos e pobres, homens e mulheres, aliás são elas que vão ao sepulcro na madrugada, sem medo, foram cuidar do corpo dAquele que lhes ensinara viver.

Sábado, o mestre está morto. E no dia do silêncio, fora da história, o mundo estava reconciliado com Deus. E isso seria revelado na manhã daquele domingo onde Jesus aparece a Maria Madalena. E assim como escolheu Betânia para ser seu lugar, escolhe a mais improvável das testemunhas. Depois aparece a dois seguidores no caminho para Emaús. Depois aparece a dez discípulos. E até aquele que não creu pode tocar nele.

Dias depois em Betânia se despede nos deixando a certeza de que tudo está consumado, que a Graça de Deus está sobre todo o universo, todo o mundo e todos os homens. E quem sabe um dia esse lugar dos amigos não vá se tornar a Terra do Rei!

Ivo Fernandes
1 de julho de 2015


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Assertividade


“Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.” Mateus 5:37

Um dos meios mais seguros de se evitar transtornos emocionais e relacionais diversos é a assertividade, ou seja, a capacidade de fazer afirmações com segurança. Não se trata de estar certo ou errado, mas de se estar seguro do que está desejando para realizar aquilo que diz.

Quando não se é assertivo, somos passivos ou agressivos ou ainda passivo-agressivo. Passivo é aquele que engole desaforo. Ele não quer desagradar o outro então foge de conflitos. E em geral para justificar-se atribui seu comportamento a educação.

O segundo tipo de comportamento é o agressivo. Esse tem necessidade de dominar. Ele menospreza e deprecia o outro. É autoritário, intolerante, dono da verdade. Geralmente para justificar-se atribui seu comportamento a sinceridade.

Já o passivo-agressivo é aquele que consegue ser agressivo sem clareza. Trata-se do irônico. Ele te agride contado uma piadinha. Ele te irrita, mas diz “só estou brincando”. Em geral é o maior chantagista emocional. Para justificar-se atribui seu comportamento ao bom humor.

Por fim, o comportamento mais adequado é o assertivo. A assertividade é ação com tranquilidade e elegância. É transparente pra falar e sabe ouvir. Sabe ouvir críticas sem partir para o ataque pessoal. Tem a postura segura e comedida. Trata as pessoas com respeito. Aceita acordos. Vai direto ao ponto sem ser áspero.

Comportamentos assertivos precisa ser desenvolvido e quanto mais assertivo você for, melhor vai lidar com os confrontos, terá menos estresse, mais confiança em você mesmo, saberá agir com mais tato, melhorará sua credibilidade, saberá lidar com as tentativas de manipulação, chantagem emocional, bajulação etc. Enfim, vai se sentir melhor e contribuir para que os outros também se sintam melhor.

Uma pessoa assertiva sabe o que quer, acredita na sua capacidade e age proativamente, assume a responsabilidade por sua própria vida.

Ivo Fernandes

7 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Radicalidade do Novo Nascimento


Leituras sugeridas: João 3 e Mateus 9

Nos últimos dias algo que não é incomum ocorreu bastante na minha vida – reação as minhas reflexões que iam de descontentamento a ódio. E é sempre interessante perceber o quanto aborrece algumas pessoas o que eu digo, principalmente por que não sou nenhum indivíduo que chama atenção para nada, muito menos para mim. Porém a questão não é o que eu digo, mas a possibilidade de alguém pensar que o seu conjunto de crenças, que ela confunde com fé, estar errado, aí na tentativa desesperada de manter o castelo ideológico, tudo será possível.

Postura como essa está em todo lugar, mas em especial na religião, desde a frase antiga que ouvia quando criança “nasci católico e vou morrer católico” até as ameaças que certos ‘evangélicos’ fazem a quem contraria suas lógicas.

No entanto analisando a reação de alguns que frequentam a estação do Caminho, percebo o quanto é difícil se libertarem dos velhos esquemas. Sim! Porque se vem até a estação é porque buscam algo, mas quando descobrem que não se pode colocar pano novo em veste velha, nem vinho novo em odre velho, então todo seu ser reage, porque não desejam abrir mão do que já se cristalizou dentro dele como verdade.

Ou seja, não é fácil fazer morrer o velho homem, não é fácil a conversão, não é fácil o largar tudo, não é fácil o negar a si mesmo, não é fácil nascer de novo. O Evangelho nos convida para algo radical.

Por isso no lugar da proposta do Evangelho inventamos um conceito religioso, um jeito de não mergulharmos, fizemos o que Jesus disse que não seria bom – apenas reformamos o velho.

Não abrimos mãos de nossos esquemas, eles permanecem a base do que pensamos e fazemos, então como farsa do novo nascimento, associamos conversão, com mudança de religião, mesmo que a forma seja a mesma, daí, na história cristã ser bem colocado o termo – reforma, pois de fato é uma re-forma; ou seja: um re-fazer da forma.

E quais os resultados de uma reforma, mudanças de linguagem, aparência, representações, discursos. Apenas o exterior é limpo, ou renovado, tudo aquilo que podemos classificar como essencial permanece igual.

Assim qualquer um que caminhe entre nós e venha com o mesmo espirito de reforma, se frustrará ao perceber que não somos costureiros de remendos, somos bebedores de vinho novo que não se esquivam de arrebentar com odres velhos e de estimação. Não estamos brincando de massinha, mudando formas. Afinal nosso problema não é com forma, podemos inclusive ter as mesmas que qualquer outro grupo religioso. Não é pelo fato de termos orações coletivas, músicas com temas religiosos, cruz, espaço para reunião, organização, bíblia e contribuição financeira (tudo isso é forma) que somos iguais a qualquer ‘igreja’ que tenham essas coisas, pois nossa radicalidade é não fazer da forma coisa alguma, senão apenas forma. Nossa questão é o que está dentro do odre, nossa questão é o novo, é o vinho novo.

Por isso não somos da reforma protestante, nem temos pretensão alguma disso, somos um movimento de liberdade e de livre exame. Assim não nos encaixamos na crítica que nos pensa como uma igreja evangélica light.

Não cremos que reformas promovam o novo, pois é contra a sua natureza. A reforma seja de que tipo for mantém velhos esquemas morais e só serve para alternância de poder.

Basta olharmos nosso país e essa onda de evangélicos fundamentalistas na política e nas mídias sócias, o que há de novo no que fazem? Nada!

Jesus nunca quis fazer Reforma. A radicalidade do chamado de Jesus é o novo nascimento, não o nascimento espirita kardecista ou seus semelhantes, onde se nasce marcado por carmas, ou por realidades passadas, de novo isso seria o pano novo no remendo velho. Mas de fato um novo nascimento.

Jesus diz aos Nicodemos: Importa-vos nascer de novo! Mas eles não entendem. São presos a esquemas, não conseguem aceitar a liberdade do Espírito, por isso sempre julgam tudo e a todos de acordo com suas lógicas moralistas, tão cegos que nem percebem que se condenam naquilo que aprovam. São mestres das escrituras, mas só conhecem o texto morto, controlados por hermenêuticas e exegeses específicas, logo não aceitam nada. Em seus estados negam a própria vida. Sim eles não conseguem compreender mais nada, nem mesmo o óbvio – como compreenderão as coisas celestiais?

Nascer de novo – único caminho possível para que homem viva a realidade do Reino de Deus. E afinal o que significa nascer de novo? Primeiro é preciso dizer que responder essa pergunta é extremamente perigosa, pelo fato da captação do discurso e a transformação dele num método, que manterá os velhos esquemas, por isso que Jesus raramente responde uma pergunta nos critérios que se espera, para que jamais usem a novidade do Evangelho como remendo.

Assim o que posso dizer de nascer de novo? Posso dizer que nascer de novo implica em um ‘de’ e em um ‘para’. Quando se nasce, nasce-se de alguém e a este está atrelado, dependente, seremos fruto deste que nos origina, assim nascer de novo significa romper com as autoridades antigas que nos regiam. Daí o chamado do Evangelho para deixar, pai, mãe, família. Só se nasce de novo cortando esses laços. Nasce-se agora da água e do espirito! Que maravilha, água e espírito é a negação da forma. Nasce-se de novo quando rompe com a lógica das formas. Não se trata mais de ser católico, evangélico, espírita, religioso ou não, trata-se de ser outro. Deixa-se a carne (forma) e nasce do espirito (novidade essencial). E como se faz isso? Pela fé e não pelas crenças que são formas. Mas também se nasce de novo ‘para’ algo. Nasce-se de novo para revelar o novo, para manifestar a verdade, para a luz. Assim todo mecanismo que repita os mesmos esquemas, e que só tenha mudado a superfície é engano, mentira, trevas.

Desta forma importa-vos nascer de novo. Esse é o caminho dos caminhantes, essa é sua meta, missão, propósito dar nascimento a si próprio, ou seja, ser de Deus por ser nascido Dele.

Mas se ainda perguntam, mas como? E a bíblia? E isso? E aquilo? O que lhes dizer: Ah! Nicodemos vocês não compreendem nem as obviedades da existência como compreenderão coisas eternas?

Ivo Fernandes

21 de junho de 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Jesus Cristo, Deus imanente


“...ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo” 2 Coríntios 5:16

Quem é Jesus, dentro da reflexão sobre a imanência de Deus? Ora, como bem sabemos a pergunta aqui não é pelo Jesus histórico, mas pelo Cristo da fé, pois não é o Jesus histórico que opera em nós a salvação, mesmo que ele seja o mesmo Cristo da fé, mas a Palavra encarnada e crida, ou o Evangelho, é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crer.

E quem é o Cristo senão o humano imanente no divino e o divino imanente no humano?! Se Deus é imanente a natureza, e alma humana, no Cristo tal imanência está revelada absolutamente.

Ora se afirmamos que Deus é amor, esse amor revela-se e no Cristo e temos tal revelação. O Deus eterno pode ser conhecido por meio da fé, mas é por meio de Cristo que ele é experimentado, pois no Cristo, temos o semelhante que despertará todos os nossos afetos, e assim Deus será amado Nele.

No Cristo o homem encontra o caminho para Deus, assim como Deus entrou por ele no caminho dos homens. No Cristo Deus deixou de ser apenas pensado, para ser amado, deixou de ser ideia para ser natureza, deixou de ser transcendência para ser imanência. Em Cristo Deus ganha pessoalidade, nele, Deus tem um rosto.

Ivo Fernandes
14 de maio de 2015



A justificação pela fé – uma exposição no Caminho

Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3 A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a prote...