sábado, 11 de julho de 2015

Entre a cruz e o arco-íris – uma reflexão sobre Evangelho e Diversidade


Antes de desenvolver uma reflexão sobre o assunto é importante alinharmos alguns conceitos. Entre eles o de gênero, sexo, sexualidade e religião.

Gênero é o conjunto de características sociais, culturais, políticas, psicológicas, jurídicas e econômicas atribuídas às pessoas de forma diferenciada de acordo com o sexo. Ou de outra forma as características de gênero são construções socioculturais que variam através da história e se referem aos papéis psicológicos e culturais que a sociedade atribui a cada um do que considera “masculino” ou “feminino”.

Sexo são características físicas, biológicas, anatômicas e fisiológicas dos seres humanos que os definem como macho ou fêmea. Reconhece-se a partir de dados corporais, genitais, sendo o sexo uma construção natural, com a qual se nasce.

Assim percebemos que a diferença sexual não é determinante nas diferenças sociais e sim as diferenças de gênero.

Sexualidade é o termo abstrato utilizado para se referir às capacidades associadas ao sexo, enquanto sexo tem vários significados.

Analisado a partir do gênero sabemos que o sexo não é uma variável demográfica, biológica ou natural, mas traz toda uma carga cultural e ideológica. Como declara Beauvoir, ‘ninguém nasce mulher, torna-se mulher’.

Gênero se realiza culturalmente, por ideologias que tomam formas específicas em cada momento histórico e tais formas estão associadas a apropriações político-econômicas do cultural, que se dão como totalidades em lugares e períodos determinados.

Neste sentido, considero que o conceito de gênero é significativo para refletir a questão das (homo)sexualidades no campo religioso e deve ser pensado numa perspectiva relacional e não essencialista. É necessário refletir sobre o que significa o “feminino” e o “masculino”, já que é através do gênero que se configuram o que atribuímos ao humano.

A sexualidade é produto da atividade humana e por isso, é sempre uma questão política e de poder. Esse caráter político aponta para a necessidade de problematizar as normas que regulam e hierarquizam as práticas e os desejos sexuais.
Ainda em nosso século reina no ocidente, e aqui no Brasil, uma certa corrente que cresce rapidamente e que estabelece a seguinte hierarquia sexual: o “bom sexo” é aquele realizado entre heterossexuais, no casamento monogâmico, com fins reprodutivos e não comerciais, entre pessoas da mesma geração. O “mau sexo”, anormal e condenável, consiste, segundo esse modelo da moral social, em práticas de sujeitos homossexuais, sozinhos ou em grupos, promiscuidade, com fins comerciais, material pornográfico ou sadomasoquismo. Travestis e transexuais são as categorias mais abjetas.

Assim, reitero, que entendo gênero e sexualidade como construções sociais de relações de poder e considero que a religião, como produto e produtora de representações e dispositivos reguladores das sexualidades (FOUCAULT,1998) também legitima (ou constrói) determinadas concepções de “masculinos” e “femininos”.

Entendido isso podemos afirmar que Deus não nos criou homem e mulher no sentido do gênero uma vez que se trata de uma construção, mas nos fez macho e fêmea no âmbito do sexo biológico. Ora, portanto é conforme a natureza a reprodução entre sexos opostos, isso é o máximo de ideal, palavra que prefiro não a utilizar, preferindo real, que podemos chegar. Daí concluir um modelo familiar que envolve o conceito de gênero a partir disso é outro passo, não necessariamente lógico.

E por falar em modelo familiar não existe na Bíblia um modelo familiar, mas uma “diversidade de formações familiares”, e se colocarmos na balança oi diversos modelos o que hoje se tenta definir como modelo é que menos encontramos nas escrituras. A própria família de Jesus foge completamente aos modelos que desejam vender como correto e ideal. Na relação com o sagrado a questão familiar ou de gênero nunca foi uma exigência ou um impedimento.

As escrituras judaicas-cristãs não são manuais de modelo algum. E o Evangelho não é um modelo ou ideal, mas um chamado a única realidade possível da vida – o amor!

Da conclusão necessária do exposto temos o que já dissemos em outros momentos, o conceito de bem e mal, nesse caso, de casamento, promiscuidade e coisa semelhante dependerá sempre da ideologia. As religiões como produtoras de conceitos estarão sempre em disputa a respeito desses temas, o Evangelho como produtor de Vida, está mais interessado no caminhar dos seres humanos, atentando para origem e consequências de um determinado conceito, valorizando apenas aquilo que vem e promove o Amor.

Não esperem então, como pregador do Evangelho que vos anuncie um modelo ideal de gênero, ou de família, ou de casamento ou algo do tipo. Essas produções serão analisadas dentro dos contextos próprios. Nem esperem que apoie qualquer movimento de defesa de bandeiras, sejam cristãs ou gay, no máximo analisarei a coerência social das mesmas, mas meu interesse é na vida dos seres que antes de serem determinados pelo gênero são determinados a existir. Sim nossa sentença não é ser homem ou mulher, mas ser. Por isso que no Evangelho essas diferenciações desaparecem, pois nele só há a unidade da diversidade no Amor!

“...é evidente que pelo gênero ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, o gênero não é da fé, mas das construções humanas; e o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá. Cristo nos resgatou da limitação do gênero...sabemos que todos estamos debaixo de questões de ordem de gênero por sermos seres sociais, mas os que vivem pela fé sabem que não estão debaixo desse tipo de autoridade. Sabemos que todos são filhos de Deus e que nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher; nem hetero nem homo porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois herdeiros da promessa. ” Paráfrase Gálatas 3:11-29

Ivo Fernandes

14 de junho de 2015

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