domingo, 27 de setembro de 2015

Afinal o que importa é ser feliz?!


Ser feliz uma das expressões mais comuns, um dos desejos mais corriqueiros. Mas será que falamos todos a mesma coisa quando falamos de felicidade. Afinal o que significa ser feliz?!

Na contemporaneidade é comum associarmos felicidade a negação da dor e do sofrimento. Se é feliz quando não se pode verificar nenhuma dor ou sofrimento, pensamento bem diferente de muitos gregos antigos onde não podia se pensar em felicidade sem dor, pois é justamente na dor que se revela o amor e amizade.

Hoje se tem uma obrigação de ser feliz. Ser deprimido não é mais comercial como já foi em outras épocas. Todos os nossos comerciais são marcados por extrema felicidade. Nada de problemas, é um verdadeiro mundo encantado. Somos cercados de mídias que fazem recortes da realidade e só importa mostrar a imagem perfeita, a foto ideal, o momento sublime, a felicidade estampada.

Somos a geração dos remédios da alegria. Analgésico e todo tipo de drogas de alivio da dor. Precisamos consumir e ser consumidos pela felicidade. Assim que venham as festas, as academias, as praias, os encontros noturnos, entre outros. Não há espaço para solidões.

Bom, se os gregos estiverem certos sobre o amor e amizade, na geração dos super-felizes não há espaço para eles, apenas para coleguismos, companheiros de noitadas.

E é interessante notar como esse conceito de felicidade está associada ao fim das esperanças eternas. Não havendo mais eternidade, resta-nos apenas ser feliz aqui e agora e então passamos a buscar desenfreadamente sermos felizes.

Ora, e o que é felicidade do ponto de vista do Evangelho? Bom! O Evangelho nunca negou a dor do mundo, ao contrário a afirma como própria da existência, e também não se preocupa em construir uma explicação formidável sobre o problema da dor. Ela simplesmente existe, faz parte da nossa natureza existencial. Portanto não há nenhum convite de evasão da realidade, pois, é a Verdade no Caminho da Vida o poder que liberta.
Logo no Evangelho não há felicidade quando se nega a realidade da dor. Felicidade não é fantasia. Nenhum milagre de Jesus fez a existência mudar, os que foram curados podiam voltar a adoecer e que foram ressurretos morreriam novamente.

Felizes então serão aqueles que choram pois se livram de tornarem-se indiferentes, prepotentes e cínicos. Só os que choram podem amparar outros que choram. Chorar é próprio dos humildes, dos que precisam, dos que tem fome e sede de justiça. A misericórdia acompanha os que choram, pois ao chorar vencemos a inflexibilidade, e temos a chance de tratar do nosso coração. O fruto das lágrimas é paz. Preferimos o choro à guerra; o choro à agressão, ao revide; o choro à perseguição e a vingança.

Porém os que choram também devem e podem rir, pois a vida é cercada de beleza. Somos convidados aos casamentos da existência. Então no ensinos de Jesus a realidade é assumida, com suas lágrimas e seus sorrisos. Chora-se na hora da dor, rir-se na hora da alegria.

Em Jesus nada é objeto de fuga, mas de toque transformador. Ele não busca o confronto, mas nunca foge dele. Ele abomina o narcisismo e o engano da luxuria embriagante, embora isso, para Ele, nada tivesse a ver com fato de rir, dançar, gargalhar, e ser bem-humorado, como bem humoradas são muitas de Suas falas e imagens, por vezes irônicas e até sarcásticas.
Jesus é a pedra de tropeço para todos e é um golpe mortal no narcisismo de todos os humanos; pois, não se priva de nada e nem de ninguém; não foge da dor, antes vive para curá-la; celebra tanto a festa quanto a morte de um amigo com intensidades próprias; enquanto mandava tomar a cruz e segui-Lo, embora, no caminho com Ele, até a hora da cruz, todo andar foi na direção do que era vivo e humano; e feliz por apenas ser.

Logo ser feliz não é meta, pois seria como negar a existência. O que importa é viver, tudo que se há pra viver. O que importa é ser inteiro, ser quem se é. E nada de paranoia atrás de explicações sobre a obviedade da existência. Não busque culpados para sua dor nem fontes para sua alegria, tudo é da vida e tudo está você.

Assim eu desejo deixar de usar essa expressão “o que importa é ser feliz” para usar “o que importa é ser contente com a vida”. Sim! Contentamento que não depende da busca desenfreada para se obter alguma coisa, que não inveja o que outros possuem. A capacidade de alegrar-se com vida do jeito que ela é. Só os contentes são cheios de paz pois não vive de lembranças nem de expectativas.

O contente sabe que não precisa do melhor carro do ano, do melhor celular, de 230 canais, de milhares de seguidores, do melhor corpo, da melhor companhia, da melhor bebida, da melhor festa. O contente não é atormentado pelo que não tem.

Assim, espero que alguns de nós possamos aprender o caminho!

Ivo Fernandes
24 de setembro de 2015


(O texto em itálico é de autoria de Caio Fábio)

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