segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Decepcionados com Deus


São 15 anos de escuta clinica pastoral, e percebi que das dores mais difíceis de sarar a maior é a proporcionada com a decepção com Deus. Sim! Pode-se decepcionar com Deus, e isso ocorre com mais frequência do que se pode imaginar. Tal decepção desencadeia uma série de doenças na alma, e estados aflitivos e angustiosos do ser.

O que de fato está por trás dessas decepções? Não é uma crise de fé, mas antes um desencontro entre a expectativa e a realidade. A religiosidade cristã contemporânea é marcada pela ideia de sucesso, e esperam de Deus a garantia, os meios e a execução de seus projetos. Desenvolvemos uma ideia tão equivocada de Deus que esperamos que ele resolva todos os nossos problemas até os mais corriqueiros – como se questionar o porquê ele deixou seu pneu furar no caminho para o trabalho. Mas afinal não nos haviam ensinado que Deus se importa com todos os detalhes da minha vida?!

Que mal fez a alma ocidental-cristã-evangélica esse tipo de doutrina! Elas produzem essa sensação de abandono, injustiça, traição. Porém será errado esperar algo de Deus?! Claro que não! A questão é que antes de esperarmos algo de Deus precisamos entender como se dá essa relação da criatura com o Criador.

Na maioria das vezes os decepcionados com Deus não se questionam, não se avaliam, não percebem suas motivações e sentimentos. São tão egoístas nas suas expectativas que não percebem que fazem de Deus apenas um instrumento para suas próprias vaidades. Desejam estabelecer uma relação de troca com Deus, como se tivessem condição de garantir para Deus sua própria parte no acordo. A história bíblica de Israel é um ótimo exemplo disso. Por exemplo, quando falamos que algo é injusto da parte de Deus, jamais nos julgamos a nós mesmos, pois se nos julgássemos saberíamos que somos alvos da graça e não da justiça.

O fato é que nunca desejamos a Deus, e sim que ele realize nossos sonhos. Deus é apenas um detalhe nesse processo. O que me leva a concluir é que não existe real decepção com Deus uma vez que tais decepções são frutos de ideias e desejos equivocados nossos. Se Deus fosse como esperávamos que ele fosse nós é que não seríamos.

O fato mais assombroso da fé cristã é que Deus nos fez livres para assumir a própria existência. E não haveria verdadeira liberdade se Deus cedesse aos nossos caprichos, e muito menos haveria qualquer relação madura de amor, numa espécie de toma-la-dá-cá celestial.

Independente das questões teológicas que muitos podem levantar, o fato é que a existência nos foi dada. E isso implica no silêncio de Deus, mas não no seu abandono. Implica que estamos sujeitos às contingências, mas não ao desamparo. Implica possibilidades mas não sentenças.

Oscar Wilde, uma vez disse: "Neste mundo só existem duas tragédias. Uma é não conseguir o que se deseja, e a outra é conseguir”. Ora essa seria a tragédia se Deus fosse como desejamos.

Se então a decepção é fruto de minha própria vaidade, o que esperar de Deus?! A resposta está na história de Jesus de Nazaré. Ele como homem foi tentando em suas vaidades, em suas necessidades, em seus projetos e sonhos, mas diferente de nós, não fez de Deus seu aliado, pois era Satanás quem o incitava a fazer de Deus apenas um instrumento para seus desejos, assim o Cristo abriu mão do caminho da realização pessoal que o conduziria para longe de Deus e se rendeu a misteriosa vontade do Pai. Com esse mesmo espírito ensinou aos seus discípulos sobre os cuidados de Deus, informando que na existência estaríamos abertos a várias possibilidades, mas que não se desanimassem mas amassem a eternidade, onde tudo encontra sua razão de ser. E com isso não estava estimulando uma negação da vida, pelo contrário, estava chamado seus discípulos a atuarem no mundo, com todas as suas forças, e não ficassem esperando algo do céu, mesmo crendo plenamente nele.

“Parece que ele mesmo não faz coisa alguma que possa delegar a suas criaturas. Ordena-nos a fazer lenta e desajeitadamente o que poderia fazer com perfeição e num piscar de olhos. Parece que toda a criação é um ato de delegação. Suponho que isso ocorre porque ele, por natureza, doa.”
— C. S.Lewis

Dar a existência em nossas mãos é um ato de amor, de doação, de graça! Só quem não entende nada de liberdade é que não percebe isso. E só por meio da liberdade é possível surgir o amor – o grande projeto divino! Jamais amaríamos a Deus se ele não fosse exatamente o que é! Jamais conheceríamos o amor se não fôssemos exatamente o que somos.

O Livro de Jó nos revela que Deus decidiu apostar em nós! Poderíamos amar a Deus afetado pelas tragédias da existência? Poderíamos amar se não pudéssemos perder? Satanás, apostou que os homens não amam a Deus, mas somente os seus próprios interesses. Deus apostou na nossa capacidade de amar.

Assim não se trata em porque sofremos, mas para quê. E sofremos para ser felizes de verdade, para conhecermos o que é a liberdade e para experimentarmos o amor.

Não conheço ninguém que creia no Deus de Jesus e com ele tenha se decepcionado!

Ivo Fernandes
17 de setembro de 2015



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