domingo, 25 de outubro de 2015

Gênesis, a história do pecado e da justiça própria



Leituras sugeridas: Gênesis 2 – 3 - 4;1-17; Hebreus 11;4

Sempre gostei do livro do Gênesis, em especial seus primeiros capítulos. E essa admiração só aumentou quando tomei consciência do estilo literário e aprendi a ler corretamente esses textos, pois deixei de me preocupar com as questões históricas do texto e me dedicar ao seu ensino ético.
Das leituras que possuo nenhum texto me é tão explicativo do ponto de vista simbólico do que os capítulos iniciais desse livro. É nele que encontro os aspectos psicológicos, morais, arquétipos mais adequados para compreender a história dos homens e a minha própria história.

Gênesis é o livro dos inícios. O livro da história do homem. O livro da história do pecado e da justiça própria. É claro que o termo história não deve ser visto de maneira contemporânea, visto o texto possuir uma linguagem mítica.
Destaco aqui duas histórias, mas me dedicarei nesse texto em especial a história de Caim e Abel. A primeira história é a história dos pais de Caim e Abel, trata-se de Adão e Eva.
Quem era Adão e Eva? Arquétipos do homem antes do pecado! O Éden é o arquétipo do espaço-tempo-local do não-pecado, da harmonia universal. Fora isso nada podemos dizer dos tempos anteriores ao pecado, pois a história nasce no solo do pecado. O que vêm antes disso só pode ser falado em linguagem mítica.

O fato é que na história dos homens fora do Éden, está presente a desarmonia, a culpa, a nostalgia, o cansaço, o crime e a morte. Coisas que poderíamos resumir na palavra pecado.

Adão enquanto ser-antes-da-queda era algo não classificável. Sua ‘consciência’ não era uma com-ciência. Seu saber estava limitado pela não-experiência. E tudo que podemos dizer a respeito dele é que a história humana é pós-Queda.

Da história de Adão e Eva podemos concluir que pecado é condição do homem na história com a consciência separada, fragmentada. Como era a consciência de Adão antes da Queda? Não sabemos. Tudo que vemos e sabemos já vemos e sabemos do lugar da queda. Mas suponho que era uma consciência que chamarei de consciência fetal. Adão sabia de si num nível semelhante ao ser ainda dependente da existência da mãe, onde tal dependência é fato, porém não é informação. É um saber sem saber.

O fato é que a raça humana deixou esse estado edênico e não dá mais para voltar para ele. O acesso a este lugar foi encerrado. Agora o éden só existe em nós, como uma nostalgia e um vazio de não o sei o quê. Esse sentir nos mostra que houve algo, mesmo que não nos diga o quê. Está em nós o fruto desta queda, a culpa, o medo, o paradoxo, a necessidade de nos cobrir e um sentimento de dependência. É desta forma que todos experimentamos o pecado e a morte, fruto de nossa finitude. Assim independente da doutrina, dos termos, o pecado é experimentado por todos.

O homem pecado é o mesmo desintegrado da essência, é o homem em desarmonia, senhor de si - mesmo, é o homem que vive à margem do Real e por isso é filho da morte, escravo do pecado, filho do diabo.

Pecado tratado apenas como ato é diminuição de fato do pecado. O pecado é o que sou, sendo o que faço apenas consequência natural do que sou.

Do pecado surge a justiça própria melhor revelada na história de Caim e Abel. Do pecado, surge a necessidade de resgatar o que foi rompido, nasce a religião, nasce a busca para religar, restabelecer a harmonia.

Caim e Abel são modelos dessa busca. Caim representa a tentativa humana de cultuar a Deus pelo mérito do trabalho e da estética; a justiça própria. Assim, ele trouxe da terra os frutos mais belos. Abel, por outro lado representa a dependência. É claro que isso não está tão explicito no próprio texto, tal análise é fruto de um conjunto de investigações teológicas.
Mas voltando, Caim é o homem que oferece o seu melhor! Abel é homem que oferece a representação do sacrifício do outro, ou seja, a afirmação que ele não pode oferecer por si mesmo nada a Deus.

O resultado da rejeição da oferta de Caim, revela bem o seu espirito. Só um homem cheio de justiça própria não aceita ser rebaixado, comparado, só um espírito orgulhoso acolhe a inveja o ciúme e torna-se um homicida. Pois só a justiça própria é capaz de matar o semelhante.

Aqui também se distingue a religião que tem por base a justiça própria tendo como Caim seu arquétipo, e a religião da Graça tendo por modelo Abel. Toda religião que mata o outro é uma religião da justiça própria. Porém a religião que opera na fé na misericórdia e no amor, essa é a religião de Abel, a religião do Cordeiro morto.
Deus rejeita toda oferta de justiça própria, mas se agrada dos humildes. Cabe a nós perguntar de que religião somos e que tipo de oferta estamos apresentando a Deus.

Ivo Fernandes
22 de outubro de 2015

(As partes em itálico são de outros textos meus escritos anteriormente) 

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