terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Como ser de Cristo sem ser do cristianismo?


Sempre foi para mim uma dificuldade em me associar ao cristianismo, em especial a vertente evangélica. Primeiro por causa da má fama que possuíam e não queria me associar com essa fama, como hipócritas, que só pensam em dinheiro, que são arrogantes por acharem que só eles são filhos de Deus e vão ser salvos, entre outras, e em segundo por causa das minhas características pessoais, minha liberdade, espontaneidade, que sempre foram um problema por onde andei. No entanto nunca tive vergonha do Evangelho ou do Cristo, porém levou um tempo até eu conseguir separar Cristo de cristianismo e assim me livrar desse problema.

Sim! Cristianismo e Evangelho não são necessariamente a mesma coisa e muito menos dependente. É possível se converter a um sem ser converter ao outro, aliás isso é muito comum.

O Cristianismo é uma religião como qualquer outra, e, do ponto de vista do resultado histórico e existencial, o Cristianismo é tudo, menos a melhor religião.

Inegavelmente está à frente de religiões antigas que apregoam práticas violentas. É uma religião mais sofisticada filosoficamente. Tem um apelo racional maior do que muitas, e um valor moral inegável. Porém é inferior a certas religiões orientais que são mais profundas do ponto de vista da compreensão do mundo e do ser, e a outras que são mais fraternas e menos judiciosas.

E me dirão?  - Mais o cristianismo é uma religião que prega o amor de Deus. E eu direi: - sem dúvida, porém o moralismo cristão na maioria das vezes sufoca esse amor, fazendo desaparecer na prática.

Em resumo, quando falamos de cristianismo estamos falando de um fenômeno social humano, como qualquer outra religião da face da terra. E o discurso que diz que o cristianismo não é uma religião, porque não se trata da busca do homem, mas da de Deus, é uma falácia.

O Evangelho ao contrário da religião não se fundamenta em moralismo ou doutrinas teológicas-filosóficas. Não se trata da produção humana seja ela moral, estética, ética, ou qualquer outra que sirva para barganhar com Deus.

O Evangelho é uma Verdade anunciada ao coração e testificada pelo Espírito que provoca fé, sem moral salvadora, sem estética que encante a Deus, sem ética que dê superioridade ao cultuador e sem formalidade que supostamente agrade a Deus.

O Evangelho não é religião. Mas o Cristianismo é religião. Nele temos todas as formalidades das religiões, temos uma teologia moral, temos um corpo de doutrinas de forte influência grega, e um sistema de governo inspirado pelos romanos, sem falar que a missa cristã é a repetição do sacrifício de Cristo, o qual é assim praticado para que a população pobre e simples fique sempre em permanente dependência do Cristianismo.

No Cristianismo Protestante e Evangélico, no início, se tentou resgatar a fé simples e original. No entanto, menos de 60 anos depois, tudo já era como dantes do Quartel de Abrantes. Assim, os ritos, as formas, as imagens de santos, as heresias gritantes, e a convergência do poder de Deus e da representação de Deus antes feita pelo Papa, foram substituídos por outras coisas. 

Na religião cristã Cristo é secundário, em algumas vertentes os líderes são mais importantes, em outras os ritos são mais e em outras a interpretação das escrituras são mais importantes. O Espírito é apenas um nome, não é ele que atua no coração das pessoas, exceto, por conveniência quando tais pessoas se submetem as doutrinas da religião.

Na religião cristã a salvação depende de sua relação com a instituição, no Evangelho depende da sua intima e intransferível relação com Deus. Na religião cristã a fé é um corpo de doutrinas, no Evangelho é uma potência que nos move. E a Graça na religião cristã é apenas uma doutrina a mais, no Evangelho é o fundamento de tudo.

Assim, é possível ser cristão sem ser de Cristo, como também é possível ser de Cristo sem ser do cristianismo.

Jesus não fundou o Cristianismo. Essa religião é um desdobramento histórico de interesses políticos de certos grupos em Roma. Tudo que se desenvolveu no interior dessa religião tem a ver com esses interesses do que com o Evangelho de Jesus.

Para os religiosos de seu tempo Jesus apenas disse que muitos publicanos, pecadores e meretrizes precederiam os mais rigorosos filhos da religião e garantiu que muitos haveriam de vir dos quatro quantos da terra a fim de assentarem-se com Abraão, Isaque e Jacó na mesa da Festa do Reino, enquanto muita gente da religião tida como oficial ficaria de fora.

Talvez alguns ainda insistam: mas como saberão sobre o Evangelho se não fosse-for o cristianismo? Ah! Mentes incrédulas, o nosso Deus é Senhor e ele fala a quem quiser de Si mesmo.

O cristianismo não é o porta-voz de Deus e nenhuma religião é, mesmo que Ele possa falar com qualquer por qualquer meio inclusive pela religião.

Eu sou um que historicamente estou ligado a religião cristã, mas que existencialmente e espiritualmente em nada dependo dela. Abracei o Evangelho e descansei na Graça e caminho por fé, irmanando-me com todos os homens, filhos do mesmo Deus.

Eu, prego o Evangelho e não o cristianismo. Anuncio a Boa Nova de uma existência reconciliada com Deus, sem medos ou pânicos, e sem a angustia diabólica do juízo.

Ser discípulo de Jesus é ser do Caminho, da Verdade e da Vida. Não é um caminho religioso; é apenas um caminho de reconciliado com Deus, conosco mesmos, com o próximo e com a criação!

Ivo Fernandes
29 de janeiro de 2017

(Os textos em itálico são de autoria de Caio Fábio)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Gratidão


Ingratidão é uma característica humana infelizmente muito comum. Paulo em seus escritos confirmou isso como características dos homens maus nos últimos tempos. Eu, como quase todos já fui ingrato, e de vez em quando ainda me pego sendo, quando em minhas palavras e ações reclamo da existência como se não tivesse amigos ou quem se importasse comigo. Mas nada é mais mentiroso que isso.

Minha vida é cercada de graça, e nos últimos anos da minha vida tenho aprendido a ser grato e manifestar isso o tempo todo, e o resultado disso é cura para a alma. Os ingratos adoecem mais, ou voltam ao mal do qual foram livres, já os gratos se enchem cada vez de poder na medida que em que reconhecem os benefícios recebidos.

Agora mesmo, estou escrevendo esse texto de um lugar maravilhoso, em uma serra belíssima, e isso me foi proporcionado por amigos, gente que me ama, me respeita e me reverencia. Tratado aqui como se fosse um anjo, quando anjos são todos eles. E quando olho para trás percebo a multidão de graça recebida, desde o meu nascimento.

E mais, gratidão é uma questão do olhar, pois a mesma coisa pode ser vista de muitas maneiras, logo não se trata primeiramente do que fizeram conosco, mas como lemos o que fizeram. Por exemplo, sou grato a minha mãe que me gerou, mesmo que na época não pudesse me criar, decidiu me trazer a existência, tendo outras escolhas. Minha vida é fruto da decisão dela em manter a minha. Poderia ver isso de outra forma, mas não, reconheço a graça dessa dádiva.

Sou grato a família que me recebeu, e me criou, dando-me lar e oportunidades de desenvolvimento. Grato aos colegas de bairro com quem aprendi muita coisa. Grato as escolas e aos seus funcionários e professores por onde passei. Grato aos empregadores que me deram oportunidades, e todos que compraram meus lanches quando esses eu vendia. Grato aos amores, grato aos amigos.

Sou grato a multidão dos que já me ouviram, e vem no decorrer dos anos me honrando e respeitando em tudo, até quando discordam totalmente do que eu digo. Grato aos mestres e aos alunos. Grato aos me mantém o meu ministério por meio de doações voluntárias. Gratos aos que me acompanharam mais de perto nos momentos mais difíceis dessa carreia e não me deixaram desistir e ainda não deixam.

Grato a que mantém meu plano de saúde. Grato aos que me ajudam pagar minhas contas. Grato aos que me presenteiam. Grato aos que me recebem. Grato aos que se repartem comigo. Grato pelas horas de conversa. Grato pela alegria me dada. Grato pelos sítios, pelas praias, pelos almoços e jantares. Grato pelos que lembram.

Nos últimos anos, uma coisa me vem sempre a mente aumentando a minha gratidão, o tempo em que a morte bateu em minha porta e a presença constante de alguns me revelaram verdades até então desconhecidas. Pessoas que considerava distantes, ficaram ali, e como sou grato a quem me acompanhou e ainda acompanha. Aos que pagaram remédios, aos que fizeram minha comida, aos que me limparam, aos que choraram comigo, aos que me fizeram sorrir mesmo chorando, aos que me visitaram, aos que oraram por mim, aos que lutaram comigo. Grato pela graça dos milagres daqueles dias desde então.

De lá para cá minha vida mudou totalmente, e isso por causa de tanta gente boa na existência. E a todos sou grato. Grato aos que me acompanham em redes sociais, aos que respondem meu chamado, aos que se importam como estou, aos que torcem por mim.

Enquanto escrevia pensei em fazer uma lista de nomes, mas isso me seria impossível por aqui. Na medida que puder agradecerei pessoalmente a tantos. E aos que não conseguir espero que esse texto chegue a eles e assim saibam que jamais os esquecerei e que estarão sempre em minhas orações, pois toda a minha vida dependeu e depende de atos realizados por eles.

Grato, principalmente, Aquele que me deu homens e anjos a quem ser grato.

Ivo Fernandes

22 de janeiro de 17

domingo, 15 de janeiro de 2017

A história de Ananias e Safira – o que aprendemos com ela?


Leitura: Atos 5

Faz muito tempo que não ouço falar dessa história. Eu mesmo pouco a explorei em minha carreira. Porém, essa semana nas minhas leituras devocionais ela me ressurge. Então, procurei saber a interpretação de alguns queridos sobre o texto, e esta mensagem é fruto do encontro dessas interpretações com a minha.

A história é trágica, semelhante as muitas que encontramos no AT, porém muito diferente das que encontramos no NT. Numa primeira leitura, ela rapidamente nos aponta para um juízo fulminante da parte de Deus, surgindo no leitor aquele temor diante desse Ser poderoso.

Se fuçarmos a internet veremos esse texto sendo usado pelos mercadores da fé como arma para fazer seus cientes por medo os obedecerem e comprarem seus pacotes religiosos. É o típico texto que serve para impor a doutrina da obediência ao dízimo. Porém tal interpretação fere todo o espírito do NT. E essa é a questão a se resolver: Como interpretar esse texto a luz da Graça e do Amor?

Ora, vamos por parte. O que encontramos no texto?

1.   A morte de Ananias e Safira não tem haver com o dízimo e as ofertas. O dinheiro os pertencia e ele poderiam reter se quisessem. Morreram porque pensaram que podiam se passar por aquilo que não eram.
2.   A mentira conduz a morte
a.   Tentar fingir ser quem não se é, mata

Vejamos uma história parecida em onde a figueira amaldiçoada morreu pelo mesmo motivo (Mateus 21.18-22; Marcos 11.20-25). Suas exuberantes folhagens indicavam a presença de fruto, mas quando Jesus se aproximou dela, viu que a árvore demonstrava possuir aquilo que, de fato, não tinha em si, numa estação da vida que todas as demais figueiras estavam nuas porque era outono.
b.   Essa mentira tem maior peso pois envolve o sagrado. Se finge para os homens sobre o agir de Deus. É a MENTIRA DE SER.
3.   Agora nos avaliemos. Avaliemos nossos cultos, nossa teatralidade na adoração, nossas encenações de piedade. Avaliemos nossa conversão, nossa espiritualidade. O que realmente mudou em nós com o Evangelho?
4.   Assim como Pedro nós do Caminho da Graça temos lhes ensinado que o caminho é o da verdade. Você não é obrigado a nada. O chamado é para ser e não para fingir ser. Entre nós “do Caminho”, não se está pedindo para ninguém fazer o que não quer fazer, ou dar o que não quer dar. Se forem fazer que o façam de verdade e em verdade!
5.   A verdade, seja ela qual for na vida, é a única coisa que interessa no Caminho. O que passar disso provém do maligno.

Eu, sou alguém que luta para a vida e as obras andarem em conformidade. Sempre foi contra a mentira que mais lutei. Posso dar título a minha história, “Pelo direito de ser quem sou”. Nessa minha busca às vezes, ou na maioria das vezes sou mal interpretado, pois as pessoas estão acostumadas com teatros, performances, mas não com a verdade do ser. Porém não desejo que ninguém pense de mim mas do que eu mesmo digo que sou. O que conquistei à duras custas não abro mão – a liberdade de ser. E afirmo não há nada melhor que conhecer a própria verdade no solo da Graça, pois fora dela toda verdade é terrível, mas nela toda verdade é libertadora.

E por falar em Graça – a questão volta? E a graça na história de Ananias e Safira? Está no ato de morrerem ali diante da verdade ainda na existência. A morte de ambos é fruto do amor do Pai que não permitiu que a mentira se instalasse de vez no ser os conduzindo a morte eterna.

Sim, a morte na existência é uma graça quando ela evita a morte eterna. E a morte eterna nada mais é do que a o não-ser destruir o ser. E isso só ocorre se a mentira de ser não for interrompida, nos fazendo perder a alma de vez.

Agora pensemos mais um pouco na tragédia de nosso tempo, onde os mentirosos do templo ainda estão vivos mentindo a si mesmos e a todos a sua volta. A misericórdia de Deus para os que ainda guardarem alguma verdade na alma é impedir que a mentira tome conta, se não for assim é porque nunca houve verdade no interior, fazendo assim o tal ser apenas se eternizar no estado de perdição.

Dessa forma, bendito o Senhor que nos pune para nos livrar da mentira de ser por meio de sua Graça e Amor.

Ivo Fernandes
15 de janeiro de 2017

(Inspirado nas interpretações de Marcelo Quintela e Caio Fábio) 

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...