segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Além da religião


Já escrevi muito sobre religião, já falei muito sobre o tema. Acho que de tanto falar, numa das minhas últimas exposições, uma pessoa me questionou sobre a frase “eu sou um religioso” dizendo que em outros momentos, segundo ela eu disse não ser. Confesso que não lembro do momento onde afirmei não ser religioso, mas supondo que isso tenha sido verdade, creio que não se trata de uma contradição, mas do contexto onde cada frase foi dita.

Se procurarem nos meus blogs o tema apareceram cerca de 60 textos, que abordaram o conceito de religião, a diferença entre religião e Evangelho, a relação entre transtornos mentais e religião, entre outros.

Assim, podemos voltar uma questão: a religião é algo perigoso para alma? É preciso superar a religião? Evidente que para respondermos essa questão temos que voltar ao conceito de religião. Como já tratamos disso em outros textos, ressalto aqui apenas que não se pode confundir religião com o caminho da fé. Quando isso acontece é uma tragédia para a alma. A religião é a crença, portanto um fenômeno social, jamais pode ser confundido com a fé que é uma experiência existencial singular.

Então é preciso sempre entender que a fé está além da religião, e impedir que essa se torne um impedimento daquela. E quando a religião se torna um perigo?

Primeiro quando a o discurso religioso não corresponde a experiência, a vida. A maioria dos religiosos por muito falarem e amontoarem para si tantas regras e doutrinas, tornam a sua experiência religiosa uma mentira prática, pois não vivem de acordo com o que dizem, isso é péssimo para a alma, pois os conduzirá a viverem uma farsa, uma espécie de vida dupla. É exatamente isso que Jesus critica nos religiosos de seu tempo (Mt. 23.28).

Esses discursos descolados da vida vão se tornando em verdadeiros processos de loucuras. A realidade começa a ser negada, e os absurdos vão surgindo. A religião torna-se um peso mas tem que ser confessada como alívio; torna-se uma desgraça mas tem que ser confessada como graça; torna-se um mal mas tem que ser confessada como um bem. O que você acha que isso faz com a alma?

A relação do religioso, nesses termos, passa a ser uma relação esquizofrênica. Precisa confessar que ama um Deus que não prática não passa de um grande fiscal estraga-prazeres da vida. Tendo que viver atrás de um ideal impossível, enquanto vai negando a própria vida.

Uma das maiores lições de Eclesiastes é nos mostrar que o mundo é um só e o mesmo para todos, justos e injustos, bons e maus, crentes e ateus, religiosos e não religiosos. Não há benefícios para um ou para o outro. O sol nasce para todos, só não sabe quem não quer, já anunciou Renato Russo.

A diferença que Deus faz na vida do crente não é nas circunstancias externas que todos os homens estão sujeitos, mas no interior, na consciência, na alma. E mesmo essa diferença não faz do crente um ser especial, superior ou melhor como numa escala de valores. Essa ideia de ser melhor ela não é da fé, ela é da religião, sob os termos que estou me referindo. Nesse sentindo a religião provoca arrogância, e isso é péssimo para a alma.

O resultado desse mal, é culpa exagerada e fora do campo das responsabilidades. Ou seja, não se trata de culpas reais, produzidas por erros simples e humanos, trata-se de culpa imaginária produzida por um ideal impossível. Resultado dessa culpa, mais culpa, num ciclo interminável que posso batizar de inferno. Sim! Essa religião promete o céu, mas lhe dá o inferno.

É preciso superar a religião, ou pelo menos deixar ela no seu lugar, no lugar de manifestação pública de crença. E jamais confundi-la com o caminho da fé.

Um dos melhores caminhos para isso é abandonar toda e qualquer barganha com Deus. Com Deus não se negocia. Pare de achar que pode fazer o que não pode. Pare de prometer. Para de buscar ideais descolados da vida.

Ir além da religião é entender que temor do Senhor, não é o medo de Deus, antes a reverência por sua grandiosidade. E que caminhar no caminho da Graça é saber que não são os ritos, os dogmas, ou os valores morais que determinam nossa fé, aliás, é possível ter todas essas coisas e não ter fé alguma. Ir além da religião é se desvencilhar de tudo que é peso a fim de tornar a caminhada mais leve, inclusive sua caminhada na comunidade cristã.

Ivo Fernandes
18 de fevereiro de 2017




domingo, 12 de fevereiro de 2017

O tédio nosso de cada dia


Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
Eclesiastes 1:4-7

O livro de Eclesiastes nos mostra a repetição constante de tudo, afinal não há nada de novo debaixo do sol. Diante de um quadro desses como tornar a vida mais interessante? Para vencer a monotonia e fugir da rotina muitos lotam suas agendas de atividades, e outros ainda mergulham numa busca desenfreada por prazeres, mas não poucos desistem de tudo e deixam a mesmice produzir um cenário de isolamento e tédio.

Os que mergulham na última opção, não veem mais sentido nas ações diárias. Afinal para que trabalhar? Para que encontros de fim de semana? Para que reuniões religiosas? Para que? Se tudo é inútil, fadiga e cansaço.

Porém existe uma coisa comum a quem se entregou ao tédio e a quem foge dele desesperadamente. Ambos não pensam. Não usam a mente a fim de compreender a vida como ela é e assim retirar dela o melhor possível. O famoso sentido da vida, precisa ser atualizado na existência por cada indivíduo.

Sim! Cada indivíduo reinicia a história do zero, por mais que ela seja a mesma. Já percebeu como os exemplos anteriores pouco servem para nos impedir de fazer alguma coisa? E por que isso acontece? Por que não vivemos a vida a partir de ninguém. Repetiremos tudo mais uma vez. Mas observe a grandeza disso, tudo é o mesmo, mas individualmente é sempre novo. Minhas filhas não repetiram a minha vida, mesmo que não façam muita coisa diferente, elas estarão vivendo a vida delas e não a minha. É repetição, mas é novidade. A vida é sempre a mesma, mas para cada um de nós pode ser completamente diferente.

Assim, o primeiro conselho para se enfrentar o tédio de cada dia e tornar a vida mais interessante é: Observar a singularidade, inventar a vida a partir de si mesmo. Não se deixe levar pelas generalizações, nada mais tediante que isso. Lide com singularidades e não com universais. Abandone frases, como “todo homem/mulher é igual” e aventure-se a conhecer alguém; “é sempre a mesma coisa” e aventure-se em fazer coisas que não fez.

Tenho aprendido a sentir a vida. Gosto de ver o mar, molhar meus pés em suas ondas. Gosto do vento no rosto quando ando de bicicleta. Gosto da chuva. E de tantas coisas. Qual a novidade delas? Aquela que dei.

Eu hoje, estou vivendo uma outra fase da minha vida, aprendendo a ser velho. Talvez você diga, que isso e um exagero da minha parte. Mas o fato, é que passei muito tempo da minha vida atrás de uma tal juventude perdida, mas agora tem descoberto as alegrias das responsabilidades, das escolhas racionais e maduras. Tenho me inventado enquanto homem, enquanto velho, e tem sido uma experiência muito boa.

Um dos maiores problemas das pessoas é que elas desejam fixar tempos e experiências, em vez de aproveitar cada estação. Pensem nas pessoas que vivem casamentos infelizes simplesmente porque ainda queriam o mesmo jovem que conheceram no início da história. A questão é que tudo mudou. Não somente o parceiro, todos mudamos. E isso é bom, eis aí uma novidade, ter que lhe dar com a mesma pessoa que agora é outra. A ideia não é buscar novidades, novos amores, novos parceiros, é aproveitar o novo do mesmo, que está a nossa frente. É como uma alimentação, todos os dias tomamos café, almoçamos, jantamos, porém a cada refeição é sempre um sentir, e não precisamos querer saciar toda a nossa fome numa só refeição, o mesmo voltará, porém, é sempre novo.

Assim, concluo fazendo uma paráfrase do próprio Eclesiastes:


Aplique-se a esquadrinhar o próprio coração. Busque a sabedoria, apesar de doer é o único caminho possível para não ser vencido pelo tédio. Depois detenha-se a gozar a vida, sabendo respeitar o tempo de cada coisa, e valorizado as companhias desse processo, pois é sempre melhor serem dois do que um, porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará? E, se alguém prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; e o cordão de três dobras não se quebra tão depressa.

Cuida da tua própria vida e não te precipites em julgar ou falar da vida alheia. Lembre-se que você não é tão bom, pois não na verdade, não há homem justo sobre a terra, que só faça o bem, e nunca peque. Prefere a partilha do que o acúmulo, e partilha junto com os que ama, afastando a ira do teu coração, e removendo da tua carne o mal.

Lembra-te também do teu Criador em todos os dias da tua vida. De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem.

Ivo Fernandes

12 de fevereiro de 17

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Qual o sentido da vida? Do mito de Sísifo ao Eclesiastes


Leitura: Livro de Eclesiastes

Tudo é vaidade – diz o pregador. Vaidade, expressão que pode significar inútil, vazio, sem sentido. Não há propósito para o trabalho do homem. Não há nada de novo debaixo do sol

Inegavelmente o livro de Eclesiastes trata do sentido da vida. O que vale a pena, nos poucos dias do homem, debaixo do sol? É a pergunta que ele nos faz.

A busca pelo sentido da vida nos conduz a vários tipos de caminho. Uns tomam o caminho do cinismo e se entregam a um hedonismo, transformando a vida num eterno gozar de prazeres; outros tomam o caminho da religião e se afastam de tais prazeres vivendo a vida a partir da privação e do não; e a grande maioria se contenta com os clichês que darão conta de pôr algum sentido na vida, do tipo, “Deus sabe o que faz” “Deus escreve certo por linhas tortas”. Deus, nos dois últimos casos, é o que usamos para nos esquivar da vaidade da vida.

Porém o livro de Eclesiastes não quer maquiar a vida, quer tratar a realidade de maneira nua e crua. Busca o sentido da vida e descobre que ela é mais complexa do que nossos sistemas de codificação podem definir. O filósofo Albert Camus escreveu “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. ” (O mito de Sísifo)

Partindo dessa reflexão, o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso? Como dar conta do sentimento que nos toma ao perceber o divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário?

Ocorre que é justamente quando o sem sentido da vida nos chega que é possível começar a viver. Tudo começa com um "porque", quando o cansaço chega. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. A simples "preocupação" está na origem de tudo.

Voltando ao livro de Eclesiastes, a primeira coisa que ele nos convida é a pensar. E pensar doí. Ele nos chama a abandonar os atalhos que nos aliviam a caminhada. Se a vida é uma eterna repetição, o que esperar dela? Ou melhor, o que fazer dela?

Creio que uma das primeiras lições é aceitar a própria finitude e ignorância. Simplesmente não vamos conseguir explicar tudo. Segundo, o Deus apresentado no Eclesiastes não é um Deus de universais, logo não podemos tratar as coisas dessa forma. Não existem doutrinas, apesar de toda repetição da história, o livro trata de singularidades. É apenas lidando com as singularidades que podemos encontrar potência, e por fim é preciso substituir as questões metafísicas pelas questões imanentes.

E o que significa isso? Viver a existência sem negá-la em razão da eternidade. Aceitar a vida e dela retirar suas forças, não buscar consolo fora da própria existência. Viver, não para a eternidade mas para a própria existência, eis o conselho de Eclesiastes.

E o mito de Sísifo? Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo
Incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.

Existem algumas versões do mito de Sísifo. Segundo Higino, ele odiava seu irmão Salmoneu; perguntando a Apolo como ele poderia matar seu inimigo, o deus respondeu que ele deveria ter filhos com Tiro, filha de Salmoneu, que o vingariam. Dois filhos nasceram, mas Tiro, descobrindo a profecia, os matou. Sísifo se vingou, por causa disso, ele recebeu como castigo na terra dos mortos empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rola de volta.
Segundo Pausânias, certa vez, uma grande águia sobrevoou sua cidade, levando nas garras uma bela jovem. Sísifo reconheceu a jovem Égina, filha de Asopo, um deus-rio. Mais tarde, o velho Asopo veio perguntar-lhe se sabia do rapto de sua filha e qual seria seu destino. Sísifo logo fez um acordo: em troca de uma fonte de água para sua cidade, ele contaria o paradeiro da filha. O acordo foi feito e a fonte presenteada recebeu o nome de Pirene. Assim, ele despertou a raiva do grande Zeus, que enviou o deus da Morte, Tânato, para levá-lo ao mundo subterrâneo. Porém o esperto Sísifo conseguiu enganar o enviado de Zeus. Elogiou sua beleza e pediu-lhe para deixá-lo enfeitar seu pescoço com um colar. O colar, na verdade, não passava de uma coleira, com a qual Sísifo manteve a Morte aprisionada e conseguiu driblar seu destino.
Durante um tempo não morreu mais ninguém. Sísifo soube enganar a Morte, mas arrumou novas encrencas. Desta vez com Hades, o deus dos mortos, e com Ares, o deus da guerra, que precisava dos préstimos da Morte para consumar as batalhas.
Tão logo teve conhecimento, Hades libertou Tânato e ordenou-lhe que trouxesse Sísifo imediatamente para as mansões da morte. Quando Sísifo se despediu de sua mulher, teve o cuidado de pedir secretamente que ela não enterrasse seu corpo.
Já no inferno, Sísifo reclamou com Hades da falta de respeito de sua esposa em não o enterrar. Então suplicou por mais um dia de prazo, para se vingar da mulher ingrata e cumprir os rituais fúnebres. Hades lhe concedeu o pedido. Sísifo então retomou seu corpo e fugiu com a esposa. Havia enganado a Morte pela segunda vez.
Sísifo recebeu esta punição: foi condenado a, por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.

O desprezo pelos deuses, o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. Porém podemos ver essa tragédia de várias formas. Considero, no entanto, que o mito revela toda a alegria silenciosa de Sísifo em não se deixar dominar por algo que não fosse a própria vida. Até mesmo seu castigo lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Ele não fica no sopé da montanha! Sempre reencontra seu fardo. Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos.

É ver a vida como dádiva, independente de tudo, até mesmo de sua repetição entediante. Voltando para o Eclesiastes, o sentido da vida não está no depois, está no enquanto. Trata-se do pão de cada dia. Quem valoriza a vida, sabe que a morte não nos cai bem, e isso não é negar sua inevitabilidade.

Viver a vida com base nessa paixão imanente, é abandonar as competições que pretendem conquistar o eterno. É abandonar a filosofia do acúmulo, e cultivar a alegria, sabendo que para isso é bom companhias. E por fim cultivar a realização mais do que a reputação.

Viver a vida, é vencer a religião que oferece consolos metafísicos em detrimento da vida. É vencer o dinheiro com seus enganos de permanência. É preciso aprender a caminhar com as incertezas, com a imprecisão. É preciso aprender a desfrutar o efêmero. É preciso amar.
Sem amor não há vida. O amor é o sentido da vida. Quem ama diz mais sim do que não. Está mais aberto do que fechado, celebra mais do que sofre, e não por alienação, mas por decisão.

E por fim Tema a Deus, é conselho final de Eclesiastes. Louve a Deus mesmo que Ele não caiba na nossa busca de sentido e lógicas. Deus é grande justamente porque não cabe em nossos discursos.

Aproveita a vida! Faça o rochedo trágico do destino, a sua escolha e invente o processo! Eis os conselhos de Eclesiastes e do Mito de Sísifo.

Ivo Fernandes

5 de fevereiro de 17

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...