terça-feira, 2 de maio de 2017

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los


O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidade ou indivíduo reverenciado em outras religiões. E também no meio artístico quando para se referir a um personagem de preferência.

O termo ídolo (do grego antigo εδωλον) significa “simulacro", “figura. Passou a designar no tempo entidade espiritual ou divina, e frequentemente é associado a ele poderes sobrenaturais, ou a propriedade de permitir uma comunicação entre os mortais e o outro mundo. A idolatria é, portanto, a prática de adoração de ídolos.

Porém para as pessoas cultas os tipos mais primitivos de idolatria deixaram de ser atraentes. Apesar da presença da superstição fetichista presente em algumas religiões, já não exercem fascínio sobre uma boa parte da população.

Mas isso não significa que a idolatria tem diminuído. Francis Bacon, filósofo moderno, afirmou que o pensamento humano precisa estar sempre consciente de sua possível tendência a idolatrar algo ou alguém. Em outras palavras, podemos até nos livrar dos modos primitivos de idolatria, mas não das formas desenvolvidas e mais modernas de idolatria!

Essas formas mais sofisticadas lograram não apenas a sobrevivência, mas o mais alto grau de respeitabilidade em certos círculos cristãos. A tradição protestante identificou e atacou a idolatria católica mas desenvolveu uma espécie de fanatismo idólatra que conhecemos por fundamentalismo.

Para facilitar nossa identificação da idolatria me utilizarei das designações do filósofo Francis Bacon, que classificou 4 tipos de ídolos.

a) os ídolos da tribo: Tribo é equivalente à espécie humana, ou seja, os ídolos da tribo são aqueles que criamos por pensar que somos seres especiais, privilegiados e que tal privilégio garante a possibilidade de conhecermos tudo que quisermos. São os ídolos produzidos por nossa limitação e arrogância de não a reconhecermos. Ocorre quando o intelecto sofre influência da nossa vontade e dos afetos, de forma a confundir a natureza das coisas com aquilo que projetamos delas. 

b) os ídolos da caverna: Se a natureza humana não é garantia de que a partir dela o intelecto humano possa conhecer as coisas tal como são, então a experiência individual pode ser essa garantia. Tal compreensão produz os ídolos da caverna que são advindos de cada indivíduo quando preso a uma espécie de caverna pessoal. Isso se deve, pois, os homens procuram a verdade em seus pequenos mundos, não no mundo maior, que é idêntico para todos os homens. Portanto, os ídolos da caverna perturbam o conhecimento, uma vez que mantém o homem preso em preconceitos e singularidades.

c) os ídolos do foro: São aqueles que decorrem da linguagem que os humanos estabelecem com os outros, atribuindo nomes a coisas inexistentes ou nomes confusos a coisas que existem. As palavras, desse modo, exercem grande impacto sobre a razão. São ídolos, que através das palavras, penetram no intelecto.

d) os ídolos do teatro: São aqueles derivados de teorias ou reflexões filosóficas, científicas, teológicas, etc. que apresentam ideias que não podem ser validadas.

Os ídolos segundo Francis Bacon são noções falsas que invadem o intelecto e dificultam o acesso à verdade. Por isso, qualquer um que ame a verdade e a busque precisa destruir os ídolos que a impedem.

No meio cristão há muitos ídolos. Várias correntes teológicas que tornam a bíblia um livro mágico, impossível de análise crítica são espécies de ídolos do teatro. A bíblia é um deus de papel para muitos e as tradições teológicas sobre ela ídolos sofisticados. Há também os ídolos humanos, encarnados nas personalidades carismáticas. Além da própria igreja, como instituição, tornada divina em nossas produções idolátricas. 

Mas não é só no cristianismo ou religiões que podemos identificar ídolos. Há ídolos na ciência, na política, na moral. Alguns apostam na redenção humana como resultado de programas políticos ou de determinado modelo moral, ou mesmo com o avanço da educação ou coisa semelhante. Qualquer um desses ídolos insistem em esquecer nossa condição, são todos ídolos da tribo.

A idolatria moral, por outro lado, assume a condição do homem, quase que num ataque aos ídolos da tribo. Porém produzem outro tipo de ídolo, o ideal ético, exaltando o modelo acima do conhecimento da verdade. E aqui nascem os fanatismos. Ou seja, o fanático adora a si próprio projetado nos ídolos criados.

O moralismo fanático é idolatria na medida em que o que se busca é um aperfeiçoamento não como produto do caminho da verdade, mas como tão-somente uma projeção ampliada de nossas próprias ideias. É a vitória do meu modelo, do meu arcabouço teológico, do meu modelo moral, do meu projeto político, da minha visão de mundo.

Onde há idolatria não há verdadeiro culto a Deus. E destruir ídolos não é uma tarefa fácil. Todos temo
ídolos, ainda que não admitamos isso. Lutar contra essa realidade é lutar contra nós mesmos, por isso o evangelho é a negação do eu, é o negar-se a si mesmo, não só nas vontades, mas também, e principalmente, contra os deuses que nos habitam a alma.

Porém existe um caminho sobremodo excelente contra a idolatria, o caminho da Graça pois neste caminho somos estimulados a assumir nossa completa dependência de Deus, cientes de que não somos senhores de nenhum saber, de nenhuma especialidade singular em detrimentos de outros. É um caminho onde o saber começa com reconhecimento de finitude e, portanto, de ignorância.

O caminho da Graça é o caminho do Amor. Sim! Pois só no amor há verdadeiro conhecimento. Quem ama conhece! Fora do amor todo conhecimento produz ídolos. E ídolos nada são, porém, cheios de significados de não-amor provocam diversos males a alma.

Por isso quando Paulo nos recomenda agir em relação aos irmãos frágeis na fé, não faz isso em relação aos ídolos, mas em relação ao amor.

E quando o assunto é amor não há melhor exemplo do que Jesus, por isso mesmo podemos dizer que que vê ele vê a Deus, não em razão de qualquer explicação teológica, mas porque Deus é amor e Jesus é aquele que encarnou na vida o amor.

Olhando Jesus, vemos Deus se relacionando com os seres humanos num mundo não-ideal. E ele propõe a relação do homem com Deus como amor a Deus que se manifesta de modo humano; amando a Deus no próximo. Desse modo, podemos substituir toda doutrina ou sistema teológico pelo simples faça como Ele.

E aqui está o problema da igreja, ela não quer ser simplesmente como Jesus, pois isso significa destruir seus ídolos, e mais destruir a si mesma enquanto ídolo. Preferimos os nossos santos, nossos ritos, nossas doutrinas, nossas campanhas, nossa glória — do que simplesmente andar como Jesus andou.

Concluo dizendo, ídolos todos nós criamos no decorrer da existência, mas precisamos destruí-los afim de conhecermos a verdade no caminho da vida, do contrário jamais veremos a Deus, e Deus só pode ser visto e conhecido no Amor.
Ivo Fernandes

30 de abril de 2017

Nenhum comentário:

O papel das emoções no desenvolvimento do câncer

O tema proposto ainda é motivo de discussões entre especialistas, apesar da crescente admissão da relação entre as emoções e as doença...