sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A justificação pela fé – uma exposição no Caminho


Leitura:  Romanos capítulos 1 a 3

A doutrina da justificação pela fé é um dos principais pilares da fé cristã, em especial a protestante. O cristianismo ocidental enfatizou desde o início a morte de Cristo como parte fundamental da fé, acima da própria ressurreição, ênfase dada mais pelos cristãos orientais.

Tal ênfase ocidental, acabou transformando o caminho da confissão da fé no sacrifício de Cristo, no único caminho para a salvação. Isso permitiu a igreja entrar como elemento fundamental nesse jogo, como aquela que atesta a fé como legítima.

Em outras palavras, a doutrina da justificação pela fé como a conhecemos, é geralmente o seguinte, desde que você creia (aceite a doutrina) que Deus matou Jesus para nos garantir a possibilidade de salvação, só assim teremos o beneplácito de Deus.

Ainda podemos dizer que os cristãos abandonaram as obras da lei como mecanismos de salvação e substituíram pela “obra” da fé. Sem esta fé é impossível ser salvo.

Ora, mais aqui mora o grande equívoco da doutrina como nós a conhecemos, pois na prática a Graça é uma farsa, pois a nossa salvação está garantida por uma obra nossa, porém menos nobre do que os esforços para alcançar a salvação.

Romanos 3.9-20 garante que “nenhum caminho conduz o homem a Deus: nem o caminho da experiência religiosa (Schleiermacher), nem o caminho da história (Troeltsch), e nem mesmo o caminho da metafísica: o único caminho praticável vem de Deus ao homem e chama-se Jesus Cristo.

A salvação não é mérito das atividades humanas, mas graça de Deus diante da situação de pecado e atitude de conversão. A salvação é atitude, primeiramente, de Deus, pois a “unidade [do homem] com Deus foi tão profundamente destruída, dilacerada, que o reatamento dessa união é absolutamente inimaginável para o homem”

Aqui nasce um conceito a priori da justificação pela fé, o conceito de pecado, e este está atrelado ao conceito de Deus como Justo e Bom. Sobre Deus, podemos dizer com Romanos capitulo 1 e 2 que Deus é Bom e não pode compartilhar com nenhuma espécie de mal. Porém a única possibilidade do mal nunca vir-a-ser era se não houvesse criação, pois só haveria Deus e Deus é Bom e nele não habita mal algum. Mas a criação foi decisão de Deus, e tal criação para não ser mero jogo de aparências, foi criada e assentada sobre a liberdade. E liberdade pressupõe que posso me afastar ou me aproximar do que quer que seja.

O mito edênico nos fala do homem que em sua liberdade decide se afastar de Deus. E o afastamento de Deus é por natureza conceitual o mal. E como Deus não pode conviver com o mal, dá-se necessariamente a impossibilidade desse ser continuar a existir. Aqui, está a condenação do mal.

E por isso, afim de não destruir a possibilidade da criação e da liberdade, e consequentemente da salvação, Deus providenciou o meio para garantir tal existência sem anular sua Bondade e sua completa aversão ao mal, o meio é a Cruz Eterna, pois antes de haver mundo, o Cordeiro foi imolado para garantir a vida. A Cruz é o início da vida.

A Cruz da História é somente a da Crucificação. A Cruz é o que vem antes de tudo, inclusive da Crucificação. O Cordeiro de Deus foi imolado antes da criação de qualquer criação.

Não foi o sofrimento histórico de Jesus que nos salvou.

Sofrimento não salva. Nossa salvação não vem da Crucificação, mas da Cruz! A Crucificação é um cenário! A Cruz é o sacrifício eterno que teve na Crucificação apenas o seu cenário histórico! A Cruz, todavia, é infinitamente maior que a Crucificação. O Sangue que purifica de todo pecado não um líquido; é uma oferta de amor perdoador que existiu como tal ainda antes que qualquer forma de sangue tivesse sido criada. A Cruz é uma eterna decisão de Deus com Deus. O Sangue Eterno é a Decisão da Graça! Na história, o sangue foi derramado para manifestar aquilo que em Deus já estava feito! Jesus Consumou o que nEle já estava Consumado desde a eternidade!

Na Ceia nós celebramos o cordeiro simbólico, que aparece em várias religiões e culturas do mundo.

A Crucificação é o Cenário exterior! A Cruz tem que ser a Realidade interior! A Crucificação revela a maldade humana! A Cruz revela a salvação de Deus! Quem crê é Justificado e tem paz com Deus. Além disso, já passou da morte para a vida!

A mensagem da Cruz é mensagem da Graça. “Graça é fato real, embora incompreensível, […] [pois] graça somente é graça quando ela for reconhecida como inexplicável [sem razão de ser]. É nisto que cremos, porém, crer para nós significa “‘experimentar’ não significa ‘tomar conhecimento’, mas ‘confrontar-se com’ o que é experimentado”. Anunciar a salvação não é simplesmente afirmar que Deus é bom, misericordioso e compassivo; anunciar a salvação é viver de maneira autêntica o evangelho e ter certeza da ação da graça de Deus.

Paulo afirma: “o justo viverá da fé” (Rm 1,17). Fé também é graça de Deus e, logo, vivenciar a fé é vivenciar a graça divina. Com isso afirmamos que está tudo feito e acabado.

A fé não é redutível a uma aceitação racional ou intelectual de uma verdade do tipo "Jesus Cristo é Deus" ou mesmo "Jesus é meu Senhoril. Fé significa confiança na incomensurável bondade divina, confiança de que Deus superou o abismo entre o divino e o humano. Isso implica que a ação humana, sempre incerta de agradar a Deus, é justificada, isto é, é declarada justa pela misericórdia divina. A partir desta fé no Deus revelado e escondido em Cristo, o ser humano poderia agir com liberdade, sem o propósito de conseguir algo de Deus. A grande obra já teria sido realizada por Ele. Deus não poderia ser entendido como um mercador de salvação. A ação humana realizada na confiança da misericórdia divina deveria visar o bem do próximo na terra, não qualquer recompensa celeste para quem age.
Mas, e como fica? Os pecados que ainda cometemos não devem ser encarados com seriedade, pois tudo já foi resolvido na cruz?

Ora, o pecado que eu peco é fruto de minha queda, mas já não carrega em si mesmo o poder de me matar, tanto quanto já não carrega mais o poder de me fazer “compulsivo”, pelo simples fato de que em minha consciência ele já não se faz acompanhar da condenação da morte, pois esta já foi satisfeita na cruz.

O pecado faz mal ao meu ser, mas já não tem o poder de daná-lo, se se está confiante no poder e na consumação do que Jesus já fez por nós. Afinal, o pecado só existe em mim, mas já não existe como algo que pende como espada da morte sobre minha cabeça. Eu estou em Cristo!

 Já não há mais nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus!

 Diz as Escrituras: Filhinhos meus, não pequeis; se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai; Jesus Cristo, o Justo; Ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos próprios, mas inda pelos do mundo inteiro! O Deus que se fez carne também se fez pecado por nós!

Resumindo: O fato real é um só: o pecado existe na vida de cada um de nós, mas já não existe como condenação. O fato do pecado em mim é inegável. Todavia, é também inegável que ele já não tem poder sobre mim.

Quem eu sou no meu estado de pecado já não me mata! Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo! Com efeito Deus condenou na carne o pecado! Com efeito a condenação do pecado aconteceu na Cruz! Com efeito, quem crê já está liberto; ainda que pratique a sua própria liberdade tomando consciência de que quem ele é, o é em Cristo; não em si-mesmo. Com o pecado morto, e com a Lei sepultada, o que sai da morte e da sepultura não é mais o que me mata, mas o que me salva. Cristo morreu pelas nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação!

 A pergunta que fica então, é: Quem creu em nossa pregação? Quem pode descansar na certeza de que o justo viverá pela fé!

Ivo Fernandes
6 de agosto de 2017

(Os textos em itálico é de autoria de Caio Fábio)

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