quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Jesus, o príncipe que decidiu ser amado em vez de temido



Todas as vezes que estou dando aula sobre Maquiavel não tem como não me inclinar a concordar com sua reflexão política sobre a ética do príncipe diante da sua visão do homem. E quando comento com os meus alunos, a concordância é geral. Vejamos, Maquiavel, autor de “o príncipe” disse:

“Vale mais ser amado ou temido (na chefia)? O ideal é ser as duas coisas, mas como é difícil reunir as duas coisas, é muito mais seguro - quando uma delas tiver que faltar - ser temido do que amado. Porque, dos homens em geral, se pode dizer o seguinte: que são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, fugidios ao perigo, ávidos do ganho. E enquanto lhes fazeis bem, são todos vossos e oferecem-vos a família, os bens pessoais, a vida, os descendentes, desde que a necessidade esteja bem longe. Mas quando ela se avizinha, contra vós se revoltam. E aquele príncipe que tiver confiado naquelas promessas, como fundamento do seu poder, encontrando-se desprovido de outras precauções, está perdido. É que as amizades que se adquirem através das riquezas, e não com grandeza e nobreza de carácter, compram-se, mas não se pode contar com elas nos momentos de adversidade. Os homens sentem menos inibição em ofender alguém que se faça amar do que outro que se faça temer, porque a amizade implica um vínculo de obrigações, o qual, devido à maldade dos homens, em qualquer altura se rompe, conforme as conveniências. O temor, por seu turno, implica o medo de uma punição, que nunca mais se extingue. No entanto, o príncipe deve fazer-se temer, de modo que, senão conseguir obter a estima, também não concite o ódio.” (Nicolo Maquiavel, in 'O Príncipe')

Percebemos que a lógica da preferência por ser temido está na condição do homem. Não se pode amar quem é dado a dissimulação. Numa linguagem bíblica, não se pode amar o pecador.

E aqui está a grandeza da Graça, pois as escrituras, não aliviam a condição do homem. Vejamos o que diz em Romanos 3

10Como está escrito: “Não há nenhum justo, nem ao menos um; 11não há uma só pessoa que entenda, ninguém que de fato busque a Deus. 12Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que pratique o bem, não existe uma só pessoa. …”

Sim, o homem não é digno de confiança, não é digno do amor. Mas diferentes das recompensas da lei, o amor não é uma recompensa.
E como pode então, Cristo ter-nos amado? Penso que a melhor a resposta foi dada por Lutero “O amor de Deus não se destina ao que vale a pena ser amado, mas cria o que vale a pena ser amado”.  Há uma expressão em Apocalipse 21, que traduz bem isso:

“…4Ele lhes enxugará dos olhos toda a lágrima; não haverá mais morte, nem pranto, nem lamento, nem dor, porquanto a antiga ordem está encerrada!” 5E Aquele que está assentado no trono afirmou: “Eis que faço novas todas as coisas!” E acrescentou: “Escreve isto, pois estas palavras são verdadeiras e absolutamente dignas de confiança”. 6E declarou-me ainda: “Tudo está realizado! Eu Sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A todos quantos tiverem sede lhes darei de beber graciosamente da fonte da Água da Vida.”

O amor de Cristo está fundamentado no poder de fazer nova todas as coisas. E por isso Nele o pecador se reveste de outra identidade.

17Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas já passaram, eis que tudo se fez novo!” (2Co 5)

Jesus, o príncipe de Deus inverteu a lógica do mundo, deixou toda possibilidade de ser temido, preferiu ser amado.

“…6o qual, tendo plenamente a natureza de Deus, não reivindicou o ser igual a Deus, 7mas, pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo plenamente a forma de servo e tornando-se semelhante aos seres humanos.8Assim, na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, entregando-se à obediência até a morte, e morte de cruz. …” (Fp 2)

Na relação com seus discípulos, ele claramente modificou a relação padrão.

15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor; mas Eu vos tenho chamado amigos, pois tudo o que ouvi de meu Pai Eu compartilhei convosco. ” (Jo 15)

E os ensinou:

1Assim, pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo de Deus, em que partiria deste mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. 2Durante o final da ceia, quando já o Diabo incutira no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que deveria trair a Jesus, 3e, sabendo Jesus que o Pai lhe outorgara poder sobre tudo o que existe, e que viera de Deus e estava retornando a Deus, 4levantou-se da mesa, tirou a capa e colocou uma toalha em volta da cintura.
5Em seguida, derramou água em uma bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha que estava em sua cintura. 6Aproximou-se de Simão Pedro, que lhe disse: “Senhor, vais me lavar os pés?” 7Respondeu-lhe Jesus: “O que faço agora, não podes compreender, todavia o compreenderás mais tarde.” 8Disse-lhe Pedro: “Senhor, jamais me lavarás os pés!” Ao que Jesus lhe advertiu: “Se Eu não lavar os teus pés, tu não terás parte comigo. ” 9Rogou-lhe Simão Pedro: “Senhor, lava não somente meus pés, mas também, as minhas mãos e a minha cabeça!” 10Explicou-lhe Jesus: “Quem já se banhou precisa apenas lavar os pés; o seu corpo já está completamente limpo. Vós também estais limpos, mas nem todos.” 11Pois Jesus sabia quem iria traí-lo, e por isso disse: “Nem todos vós estais limpos.”
12Após haver lavado os pés dos seus discípulos, tornou a vestir sua capa, voltou a sentar-se à mesa e lhes indagou: “Compreendeis o que vos fiz? 13Vós me chamais ‘Mestre’ e ‘Senhor’, e estais certos, pois Eu, de fato, o sou. 14Dessa maneira, se de vós Eu Sou Senhor e Mestre e ainda assim vos lavei os pés, igualmente vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15Dei-vos um exemplo para que, como Eu vos fiz, também vós o façais. 16Em verdade, em verdade vos afirmo que nenhum escravo é maior do que seu senhor, como também nenhum enviado é maior do que aquele que o enviou. 17Portanto, se vós compreenderdes esse ensinamento e o praticardes, abençoados sereis. “ (Jo 13)

O que fez ele tomar essa decisão, preferir o amor ao temor? Será que tinha outra visão do homem? Não. Ele sabia dos limites de nosso ser. A diferença entre ele e o príncipe de Maquiavel é que este não sabia ser o amor um poder na fraqueza. O temor pode gerar obediência, mas só o amor pode gerar consciência.

Apesar de todo o pecado da humanidade, o príncipe da paz viu em nós um potencial diferente do destrutivo tão perceptível por todos, viu nossa capacidade de amar e nisso ele investiu toda a sua vida.

E você o que prefere?

Ivo Fernandes
4 de fevereiro de 18


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