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A Falta Primordial e as Tramas do Ressentimento: Carência, Ingratidão e a Ética do Reconhecimento

Rembrandt van Rijn, "O Retorno do Filho Pródigo" (detalhe, 1669). Domínio Público. A reflexão sobre os vínculos humanos e suas fraturas é indispensável para compreendermos nossa condição existencial. A injustiça com que frequentemente tratamos os outros nasce, não raras vezes, de uma sensação de carência afetiva primordial: a fantasia inconsciente de não termos sido suficientemente amados, cuidados ou validados. Essa percepção de falta converte-se, por vias tortuosas, na raiz de comportamentos marcados por amargura, cobrança e ingratidão em relação àqueles que sustentaram nossa existência. A cegueira diante da realidade é um mecanismo de defesa comum. Quando somos capturados por nossas próprias feridas narcísicas, tornamo-nos incapazes de enxergar o outro como um sujeito limitado e real. Deixamos de reconhecer que a nossa sobrevivência psíquica e material quase sempre dependeu de renúncias, cuidados silenciosos e sacrifícios alheios. Projetamos sobre os que nos acolhem a cont...