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Mostrando postagens de agosto, 2026

Psicanálise das Relações: A Complexidade da Mentira e o Peso da Verdade em "Pedaço de Mim"

Divulgação oficial da série "Pedaço de Mim" (Netflix / A Fábrica, 2024). Em uma conversa de trabalho, minha amiga psicóloga Socorro apresentou-me a série Pedaço de Mim (criada e escrita por Ângela Chaves e lançada pela Netflix em parceria com A Fábrica em julho de 2024), sugerindo que a narrativa merecia um olhar analítico cuidadoso. A obra mergulha nas fraturas dos vínculos humanos, expondo os efeitos devastadores da mentira, da omissão e da verdade crua nos dramas familiares e no adoecimento psíquico. A partir desse encontro, proponho uma leitura psicanalítica sobre como o encobrimento e a revelação — quando desprovidos de mediação ética e temporalidade adequada — estruturam o sofrimento subjetivo e desorganizam o laço social. 1. A Mentira como Defesa Psíquica e o Trauma Não Simbolizado Na trama, a protagonista Liana (Juliana Paes) recorre ao segredo e à mentira como mecanismos defensivos para suportar uma sequência avassaladora de violências e fraturas narcísicas: o abuso ...

Ilha das Flores: Uma Leitura Filosófica, Teológica, Sociológica e Psicanalítica sobre a Coisificação do Humano

Cena do documentário "Ilha das Flores" (Jorge Furtado, 1989). Produção: Casa de Cinema de Porto Alegre. Este texto nasceu de um momento de inspiração compartilhado com minha parceira de vida. Após ela me apresentar o documentário Ilha das Flores e ouvir a abordagem crítica que desenvolvi em sala de aula, ficou impressionada com a profundidade e a originalidade dos temas suscitados. Sua reação me motivou a registrar essas reflexões de maneira estruturada e abrangente: reconhecendo o valor do debate pedagógico e ético, ela pesquisou sobre a obra e incentivou a escrita deste artigo. Deste encontro fecundo nasce a análise que agora apresento. Ilha das Flores, dirigido por Jorge Furtado em 1989, transcende a mera narrativa visual ao adotar uma linguagem pseudocientífica e enciclopédica para desvelar a crueldade implacável das relações econômicas capitalistas. Ao acompanhar a trajetória linear de um tomate — desde o cultivo até o descarte —, o curta-metragem ilumina as engrenagens ...

A Complexidade do Aborto e o PL 1904/2024: Punitivismo, Saúde Pública e a Escuta do Feminino

Francisco de Goya, "Vuelo de Brujas" (1798). Óleo sobre tela. Museu do Prado, Madri (Domínio Público).  Ao debruçar-me sobre a íntegra do Projeto de Lei nº 1904/2024 — que propõe equiparar a interrupção da gravidez após 22 semanas de gestação ao crime de homicídio simples —, torna-se evidente a urgência de uma análise que ultrapasse o espetáculo político e alcance as raízes éticas, institucionais e psíquicas dessa proposição. Trata-se de um tema que mobiliza paixões e divide a sociedade civil e que, por essa mesma complexidade, exigiria maturidade democrática, rigor científico e ampla deliberação pública. Infelizmente, o que frequentemente testemunhamos no parlamento brasileiro é o sequestro de pautas sensíveis pela engrenagem eleitoreira e pela disputa rasteira de narrativas de poder. Como filósofo, educador, psicanalista e pesquisador dedicado à análise das políticas públicas e ao cuidado humano, é dever ético intervir diante desse cenário. Minha primeira crítica dirige-se ...

Poor Things: A Intersecção da Perversão, Identidade e Sociedade

Pôster oficial de "Poor Things" (Yorgos Lanthimos, 2023). Divulgação / Searchlight Pictures. Poor Things (Pobres Criaturas) é uma obra cinematográfica que articula uma crítica contundente à modernidade e às suas contradições através da história de Bella Baxter, que renasce com uma mente infantil em um corpo adulto após um suicídio. O filme explora profundamente temas como identidade, desejo, poder, moralidade e, particularmente, a perversão, enquadrados dentro de uma complexa estrutura psicanalítica. 1. Identidade e Transformação: Neurose, Perversão e a Morte de uma Cultura de Proibição A cena inicial do suicídio de Victoria em Poor Things é crucial para a compreensão do desenvolvimento temático e psicológico da obra. Este ato dramático não apenas marca a transição física de Victoria para Bella, mas também simboliza uma transformação profunda na identidade psíquica da personagem. No contexto psicanalítico, a neurose e a perversão são duas estruturas de funcionamento psíquico ...

A Falta Primordial e as Tramas do Ressentimento: Carência, Ingratidão e a Ética do Reconhecimento

Rembrandt van Rijn, "O Retorno do Filho Pródigo" (detalhe, 1669). Domínio Público. A reflexão sobre os vínculos humanos e suas fraturas é indispensável para compreendermos nossa condição existencial. A injustiça com que frequentemente tratamos os outros nasce, não raras vezes, de uma sensação de carência afetiva primordial: a fantasia inconsciente de não termos sido suficientemente amados, cuidados ou validados. Essa percepção de falta converte-se, por vias tortuosas, na raiz de comportamentos marcados por amargura, cobrança e ingratidão em relação àqueles que sustentaram nossa existência. A cegueira diante da realidade é um mecanismo de defesa comum. Quando somos capturados por nossas próprias feridas narcísicas, tornamo-nos incapazes de enxergar o outro como um sujeito limitado e real. Deixamos de reconhecer que a nossa sobrevivência psíquica e material quase sempre dependeu de renúncias, cuidados silenciosos e sacrifícios alheios. Projetamos sobre os que nos acolhem a cont...

A Religião dos Patifes e dos Estúpidos: Mercadores da Fé, Obscurantismo e a Defesa da Universidade

Rembrandt van Rijn, "Cristo Expulsando os Vendilhões do Templo" (1626). Domínio Público. O título deste artigo pode soar grosseiro à primeira vista, mas considerando a crítica real que ele propõe, não o é. No calor de uma indignação justa, tendemos a generalizações; aqui, contudo, trata-se de uma demarcação retórica e ética, não de um julgamento absoluto sobre toda experiência de fé. Sei que a religião não é composta apenas de patifes e estúpidos, caso contrário, eu mesmo precisaria me incluir nessa categoria, assim como tantas outras pessoas sérias que, nesse campo, prezam pela verdade, pelo bom senso, pelo rigor intelectual e pelo acolhimento humano. Aqueles que acompanham minha escrita sabem que tenho direcionado minha energia a outras áreas: à filosofia, à clínica psicanalítica, à gestão educacional e ao desenvolvimento de uma espiritualidade livre e conectada a diferentes formas de saber, contudo, como ser social e pensador público, não posso me calar diante de certos ab...

Half Man: A Tragédia da Incompletude entre a Má-Fé e a Pulsão de Morte

A série Half Man não é apenas uma narrativa sobre masculinidade, mas também é uma tragédia sobre sujeitos que jamais conseguiram habitar a própria existência. Richard Gadd constrói Ruben e Niall não como opostos, mas como duas respostas diferentes ao mesmo vazio: o de acreditar que há algo de essencialmente defeituoso em si. Ao longo de quase quarenta anos de história, a série acompanha como trauma, vergonha, desejo e silêncio se entrelaçam até tornar impossível distinguir onde termina o amor e começa a destruição. Do ponto de vista psicanalítico, a obra é uma grande reflexão sobre o retorno do recalcado. Freud afirmava que aquilo que não encontra representação simbólica retorna sob outras formas: sintoma, compulsão, violência ou repetição. É exatamente isso que vemos acontecer. Nem Ruben nem Niall conseguem sustentar um encontro verdadeiro com seus próprios desejos. Ambos constroem uma identidade em torno de um ideal impossível de masculinidade. Um transforma sua dor em agressividade,...