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Praia do Futuro

Eu tinha 11 dias de vida quando fui dedicado ao Mar e seus mistérios, suas lendas e seres. E aqui nessa praia chamada de Futuro vivi todo meu passado. Cresci deixando meus rastros na areia que logo eram apagados pelas ondas. Foi aqui que aprendi a orar, e nunca tive outra Voz divina senão o som de muitas águas. Orações longas para as longas caminhadas, ao alvorecer do dia, ou ao entardecer, no silêncio, na canção, mas sempre aqui. Trouxe a este mar, todos os meus sonhos infantis, todos os meus amores adolescentes, todas as minhas dores juvenis, todas as minhas paixões adultas, e toda a minha vida. Não há nada que não tenha apresentado ao Mar. Minhas poesias são cheias deste lugar e minha alma da maresia desta praia. Minhas melhores histórias de amor tiveram seus nomes escritos nessas areias, e todas as minhas filhas tiveram seus nomes revelados aqui. Não sei as tramas do destino, mas a única coisa do meu pai que ficou em mim, já que ele nunca teve um dia sequer comigo p...

Meu cajueiro

Durante um ano eu que vivi num bairro situado perto de uma reserva ecológica foi um cajueiro que serviu como local de adoração e reflexão em vez do meu velho templo – o mar. Foi um ano diferente, o ano depois da morte, e junto com o cajueiro foi retomando o sabor da existência. Tudo nele e ao seu redor me foi sagrado, de sua imensa copa verde, do vento que ao mexer suas folhas produzia o som dos céus, que me trouxe uma nova linguagem do divino, no lugar do som das muitas águas que me sempre me foi a Voz sagrada. Renasci com um cajueiro, mas sou feito de maresia, e o tempo do cajueiro não poderia se eternizar, precisava voltar para as praias iniciais da minha vida. O tempo de retorno chegou. Assim o tempo do cajueiro que trouxe para minha vida novamente o verde e vento chegou ao fim. A casa que estava em frente ao cajueiro era grande, como sempre gostei, me permitiu muitas coisas, como receber amigos e realizar festas e trabalhar, tudo era feito nela, a ponto de não haver ...

Jesus a chave hermenêutica para a interpretação das escrituras

No decorrer desses anos, anteriormente como professor de teologia e agora de filosofia, e sempre como pregador e líder religioso percebi que o nó que impede a maioria dos cristãos encarnarem o espírito do Evangelho é a doutrina da inspiração verbal e plenária das escrituras e sua interpretação dogmática-sistemática. Em outras palavras parece que o grande problema dos cristãos é a bíblia. Porém quando surge na história do cristianismo, e nós não somos os primeiros, nem seremos os últimos, que falam das escrituras fora desse enquadramento teológico, somos vistos como heréticos, que não possuem apreço pelas sagradas letras. Nada mais mentiroso. Apenas entendemos que a bíblia não é o próprio Deus, a ponto de a vermos como inerrante e infalível. E também que não se trata de um livro ditado por Deus, mas escrito por homens situados no tempo e no espaço e cheio de condicionamentos histórico-social-psicológico-ideológico.  Assim qualquer um que quiser tomar a bíblia “ao pé d...

9 de abril 2014

Há 14 anos eu pegava no colo pela primeira vez aquela que só traria alegria a minha vida nos 14 anos seguintes. Minha primeira razão. Ela foi a força da minha vida nos anos que se seguiram, por ela resisti e batalhei, sempre tentando oferecer a ela o mínimo de bem, frente a grandiosidade de graça que me alcançou com a sua vinda para minha vida. Hoje ela já não é uma menininha, já não pego no colo, apesar da vontade que às vezes dá. Seu corpo não é mais frágil, mas ainda desejo cuidar dele como joia rara. Na infância chorei com ela, quando ela não sabia explicar os porquês, hoje já a vi chorando por amores que ainda nem conhece bem. Sim seu coração, começa a se abrir para outros mundos. Está se libertando aos poucos do casulo do pai. Antes temia por esses dias. Na mínima possibilidade de ela se afastar fisicamente de mim, sofria, mas hoje meu amor ganhou a certeza de um caminho percorrido, de trabalho realizado. Aquela menina tornou-se uma adolescente forte, honrada, verda...

Adoração

Não desejo conceituar adoração. Não desejo criar modelos. Adoração como ato da alma a Deus não pode caber em modelos particulares ou definições quaisquer. A alma é livre para adorar. O fato é que as Escrituras bíblicas nos chamam para adorar: “Dai ao Senhor a glória devida ao seu nome, adorai o Senhor na beleza da santidade.”   Salmos 29:2 É sabido que podemos adorar com conhecimento ou não, ou seja, pode-se adorar com a consciência ou na ignorância, movido apenas pela fé que nada sabe, mas que direciona. (Jo 4.22; 9:38; Rm 12.1). Não é exatamente o conhecimento que determina a verdade da adoração, mas o estado do espírito frente ao sagrado (Jo 4.24), e frequentemente é esse estado do espírito em adoração que diferencia um adorador de um mero religioso que observa ritos e obedece a liturgias. Abraão adorou o Senhor na perplexidade e diante do absurdo, quando foi lhe pedido que sacrificasse seu filho (Gn 22.5). Porque ele adorou? A adoração não era garantia, troca,...

O amor de Deus

Já sabemos como é difícil conceituar o amor. Sabemos como é difícil falarmos do amor entre nós, humanos. Então, imagine-se quão complicado em falar do amor de Deus. Pois se temos dificuldade de falarmos do nosso amor, ou do amor daqueles que conhecemos, imagine falar do amor do Deus Invisível. Porém a fé cristã insiste nessa mensagem: Deus nos ama! Durante a minha infância, eu que cresci sem pai, sempre pensei que Deus me amava como um pai amava um filho, e essa ideia era alimentada por diversos textos bíblicos que me apontava Deus como pai. Isso me salvou tantas vezes, que não ousaria numerar. Na adolescência precisava mais do que uma presença misteriosa, precisava realmente conversar, ouvir a voz de alguém, contar meus dilemas e ouvir conselhos, mas o Deus Invisível era também Silencioso. Não o odiei por isso, mas à medida que minha mente se ‘sofisticava’ fui procurando explicações para essa ausência de um Deus que ama. Nasceu a teologia para mim. Agora pensava no a...

Lázaro, Marta, Maria e Eu.

Minha memória me informa que a primeira coisa que quis ser quando crescesse era ator, ou quem sabe dramaturgo, produtor de novela, ou algo do gênero, não é toa que todas as brincadeiras da minha infância eram fazer da minha vida uma novela, até meus 15 anos foi assim, e até hoje ainda me pego brincando um pouco. Mas não me tornei nenhuma destas coisas, o máximo que cheguei a fazer foi uma apresentação de uma peça no teatro da escola por volta dos meus 12 anos. Quando comecei a pregar aos 15 anos, meus desejos foram em outra direção. Desejei servir aquele Deus que amava, do jeito que achava que podia, com minha voz, meu pastoreio, minha liderança. Associaram-se a isso muitas falas ditas proféticas que me falavam de como seria minha missão. Vida agitada, mas cheia frutos. Em razão disso me dediquei ao máximo a este sonho-vocação. Lembro-me que em razão disso minha única oração era que tivesse uma vida que o agradasse e que servisse a Ele. Não que não tivesse outras necessid...