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Poor Things: A Intersecção da Perversão, Identidade e Sociedade

Pôster oficial de "Poor Things" (Yorgos Lanthimos, 2023). Divulgação / Searchlight Pictures.


Poor Things (Pobres Criaturas) é uma obra cinematográfica que articula uma crítica contundente à modernidade e às suas contradições através da história de Bella Baxter, que renasce com uma mente infantil em um corpo adulto após um suicídio. O filme explora profundamente temas como identidade, desejo, poder, moralidade e, particularmente, a perversão, enquadrados dentro de uma complexa estrutura psicanalítica.

1. Identidade e Transformação: Neurose, Perversão e a Morte de uma Cultura de Proibição

A cena inicial do suicídio de Victoria em Poor Things é crucial para a compreensão do desenvolvimento temático e psicológico da obra. Este ato dramático não apenas marca a transição física de Victoria para Bella, mas também simboliza uma transformação profunda na identidade psíquica da personagem.

No contexto psicanalítico, a neurose e a perversão são duas estruturas de funcionamento psíquico que diferem fundamentalmente na maneira como lidam com a proibição e o desejo. A neurose é frequentemente caracterizada por um conflito interno significativo, culpa e um forte investimento no complexo de Édipo, que estabelece a lei paterna como um limite para o desejo. Neste cenário, a morte de Victoria pode ser interpretada como o colapso de uma identidade neurótica que é consumida pela culpa e pela repressão.

A transformação de Victoria em Bella ilustra a morte de uma cultura dominada pela proibição e pelo peso da lei, aspectos típicos da estrutura neurótica. A "morte" de Victoria e o nascimento de Bella, com suas características perversas, refletem uma ruptura com essa ordem repressiva. Em Bella, vemos a emergência de uma nova ordem que desafia as normas tradicionais, não sendo regida pela culpa, mas pela busca de prazer sem as barreiras impostas pelo superego neurótico.

Lacan argumenta que o desejo é estruturado em torno do que é proibido, o que é fundamentalmente perdido, e como tal, nunca pode ser totalmente satisfeito. A transição de Victoria para Bella pode ser vista como uma manifestação deste princípio: ao morrer, Victoria "perde" a estrutura neurótica de desejo baseada na proibição e no conflito, dando lugar a Bella, cujo desejo não está limitado pela lei tradicional. Esta nova identidade reflete uma perversão no sentido lacaniano, onde a lei não é mais o ponto central que estrutura o desejo, mas algo que pode ser abertamente desafiado e negociado.

Portanto, o suicídio de Victoria não é apenas um fim, mas um renascimento que desafia compreensões convencionais de moralidade e identidade. Através de Bella, Poor Things explora uma fronteira psicológica onde os limites entre neurose e perversão são não apenas cruzados, mas redefinidos, refletindo uma profunda crítica cultural e filosófica às normas que governam o desejo e a identidade.

2. Perversão e Sexualidade

A análise da perversão e da sexualidade no filme proporciona uma leitura complexa das interações entre desejo, lei e identidade, utilizando o percurso de Bella para explorar a natureza multifacetada da perversão conforme entendida pela psicanálise.

Bella Baxter personifica a perversão psicanalítica, caracterizada por um desejo que transgride tabus e ignora limites morais tradicionais. A cena em Lisboa, particularmente, destaca essa exploração sexual desinibida, onde Bella não só busca prazer sem restrições, mas também desafia a distinção entre o que é considerado propriamente humano e o que é relegado ao animalístico. Esta questão de "bestialidade" toca em debates profundos sobre a natureza do desejo humano e suas raízes pulsionais, questionando se existe realmente uma barreira clara entre os impulsos humanos e animais.

A condição de Bella, com sua mente de criança em desenvolvimento, evoca a noção freudiana de onipotência infantil, onde a criança se percebe como central, poderosa e não submetida às restrições impostas pelos adultos. Esta onipotência é também uma dimensão da perversão, no sentido de que desafia diretamente a lei paterna — a Lei simbólica que regula o desejo e a interdição. Bella, em sua rejeição ao "não" paterno e na sua busca incessante por satisfazer suas próprias vontades, ilustra essa dinâmica de maneira simultaneamente literal e simbólica.

O relacionamento de Bella com o médico e criador, "God" (Godwin Baxter), que oscila entre o cuidado paternal e a permissividade, exemplifica a dinâmica na qual o "não" paterno é constantemente testado e frequentemente ignorado. Este vínculo não apenas questiona o papel tradicional de autoridade parental, mas também explora como a autoridade pode ser compreendida e internalizada em um contexto onde normas e limites são fluidos. O médico, por um lado, tenta estabelecer algum tipo de ordem, mas por outro, cede aos caprichos de Bella, refletindo a tensão entre controle e liberação no contexto da perversão.

Bella, como uma figura que encarna papéis de mãe e filha para si mesma, manifesta uma autonomia radical em termos de identidade e pulsão. Ela olha o mundo não apenas através de uma lente de curiosidade e desejo, mas com a intenção de moldá-lo aos seus próprios termos. Ao rejeitar o pai, o corte da castração, a lei e a negativa do limite, Bella personifica a recusa das restrições externas impostas à sua vontade. A perversão emerge não apenas como categoria clínica, mas como uma condição existencial que interroga as bases sobre as quais construímos nossas identidades, regulamos nossos desejos e sustentamos o laço com o Outro.

3. Moralidade, Crítica Social e a Falência da Lei Simbólica

A dimensão moral e a crítica social em Poor Things exploram a complexidade ética das figuras de autoridade encarnadas pelo médico e pelo advogado. Ambos desempenham papéis cruciais que refletem a falência da lei simbólica e a crise das instituições tradicionais na regulação dos comportamentos, desdobrando-se em uma rica análise sociopsíquica.

O médico, referido como "God", ilustra uma figura paternal ambígua. Ele é o criador e o guardião, assumindo uma posição de autoridade e controle; no entanto, sua própria condição e inclinações impõem limites a esse papel. A máxima de que "toda sexualidade é imoral" reflete um conflito interno profundo entre deveres profissionais, científicos e pulsões reprimidas. Esse paradoxo é tensionado pelo estudante de medicina romântico, que representa uma visão idealista e suave da moralidade, contrapondo o cinismo de Godwin. Esse conflito ilustra uma falha na transmissão da lei simbólica: onde o Nome-do-Pai deveria estruturar e limitar o gozo, ele vacila, abrindo passagem para impulsos desregulados.

O advogado Duncan Wedderburn, descrito como um libertino sem escrúpulos e pseudo-amante da liberdade, representa outra fratura na estrutura moral da sociedade. Sua postura de hedonismo irrestrito entra em colapso imediato diante da radicalidade do gozo de Bella, que encarna a busca pelo "mais de gozar" lacaniano. O confronto entre ambos evidencia a incapacidade das convenções sociais em lidar com um desejo que transcende as barreiras morais estabelecidas, apontando para a insuficiência das figuras masculinas em regular comportamentos que desafiam a ordem simbólica.

A interação entre essas duas figuras e Bella serve como uma crítica penetrante das instituições modernas. Ambos falham em guiar ou conter a protagonista, refletindo uma crise mais ampla na eficácia da lei simbólica que Freud e Lacan identificam como central na organização da civilização e do psiquismo. A falência desta lei não apenas permite, mas potencializa uma estrutura em que o gozo é buscado de forma desenfreada.

4. Dinâmicas de Poder e Liberdade

As dinâmicas de poder e liberdade em Poor Things revelam uma luta intensa entre convenções sociais e liberdade individual. Bella personifica a transgressão ao recusar as expectativas culturais sobre como o corpo feminino deve comportar-se e expressar seus afetos.

A exploração desmedida do prazer por parte de Bella ressalta a natureza dual da liberdade perversa: ela é tanto emancipação quanto vetor de autodestruição. O filme ilumina a divisão profunda entre estruturas perversas e neuróticas. O sujeito de estrutura perversa não reconhece as travas impostas por uma cultura neurótica baseada em controle, culpa e contenção. Por outro lado, a neurose luta para tolerar ou compreender a ausência de culpa e a busca direta de satisfação.

Esse contraste se reflete na vivência do amor. O neurótico, operando sob a lógica da culpa, do sacrifício e da dívida, contrasta frontalmente com a postura perversa, pragmática e autorreferenciada. A interação de Bella com o médico estudante ilustra essa fratura: o neurótico se vê colocado na posição de ter de perdoar e negociar constantemente para tentar sustentar um laço minimamente estável com alguém que recusa a castração.

Um dos aspectos mais perturbadores dessa dinâmica é a transformação potencial do prazer em crueldade. Quando a busca pelo gozo não encontra limites simbólicos e ultrapassa o campo do aceitável, ela arrisca destruir não apenas as convenções exteriores, mas a integridade dos próprios sujeitos envolvidos.

5. A Complexidade dos Relacionamentos Humanos

As interações de Bella tecem uma rica tapeçaria de desejos, restrições e confrontos intersubjetivos. A busca incessante por novidade e excitação — traço estruturante da perversão — serve como teste de estresse para os relacionamentos e para as instituições sociais.

A fala do estudante de medicina, "pessoas educadas não fazem isso", sintetiza o choque entre a educação e a repressão pulsional. A educação opera aqui como a força ordenadora que Freud identificou como parte essencial do processo civilizatório em Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna: o processo pelo qual o prazer direto é sacrificado e recalcado em nome da sociabilidade, gerando como subproduto o mal-estar e a culpa neurótica.

Ao rejeitar a moral repressiva, Bella catalisa o debate sobre a validade das normas que categorizam os vínculos entre "normais" e "patológicos". O filme não oferece uma resposta simplista, mas expõe as fissuras das estruturas que tentam enquadrar a conduta humana, convidando a uma reflexão sobre os custos psíquicos de uma sexualidade rigidamente regulada em contraposição aos riscos de um gozo desprovido de alteridade.

6. A Perversão como Metáfora Social

A conclusão de Poor Things ergue-se como um comentário abrangente sobre a contemporaneidade. Cada personagem ao redor de Bella simboliza diferentes desvios éticos, morais e existenciais, sugerindo que a perversão deixou de ser um fenômeno marginal para se tornar um traço difuso das estruturas sociais modernas.

A tese central da narrativa aponta que a cultura contemporânea, ao promover o desrecalque sistemático e o imperativo do consumo e da satisfação imediata, fomenta uma economia subjetiva crescentemente perversa. O enfraquecimento das referências simbólicas e dos laços comunitários tradicionais gera relações mais fluidas, porém profundamente fragmentadas e marcadas pelo individualismo radical.

Até mesmo discursos emancipatórios contemporâneos correm o risco de serem capturados por essa lógica, reproduzindo assimetrias de poder sob a roupagem da liberação. A perversão, portanto, ultrapassa o campo sexual e se consolida como metáfora da dificuldade das sociedades contemporâneas em estabelecer fronteiras éticas claras entre a emancipação autêntica, a anomia moral e a barbárie.

Conclusão

Poor Things vai além de ser uma crônica de transformação pessoal de sua protagonista. A obra estabelece-se como uma ferramenta crítica potente para investigar o mal-estar contemporâneo a partir da lente psicanalítica da perversão. A habilidade de entrelaçar a trajetória de Bella Baxter com debates sobre desejo, poder e identidade revela como a subjetividade é moldada em um tempo que progressivamente desmonta os limites tradicionais.

Longe de reduzir o comportamento a categorias maniqueístas, a leitura psicanalítica demonstra como a perversão é uma manifestação viva da condição humana sob as pressões da modernidade. Ao contrastar a culpa neurótica com a transgressão desrecalcada, o filme convoca o público a repensar não apenas as normas que governam os corpos e as relações, mas a própria direção ética e os destinos do desejo na civilização.


Fontes Bibliográficas

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