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Tempos meus

Na tarde do dia 25 de maio caminhava na mesma praia que caminho por todos esses anos. O vento, meus pés banhados pelas águas, o som do oceano. Foi caminhando por estas terras sagradas que abri meu coração ao Eterno e no passar dos tempos minha oração foi saindo da simplicidade para a complexidade, e enfim chegou ao silêncio. Ali diante do Ser que É, não tinha nada a dizer, um silêncio constrangedor e revelador me tomava. Eu havia mudado, pela primeira vez me percebi outro, diferente de tudo que durante muitos anos insisti pensar sobre mim. Já não era mais um menino, e como homem não podia negar o que me alcançava como compreensão. E ali diante do Infinito confessei minha frágil descoberta pessoal, que me fazia drasticamente diferente de tudo que antes fui e pensei. Por essa razão, aos amigos que tiveram seus pedidos negados para que eu participasse de encontros de líderes religiosos peço perdão, mas não posso mais trair minha alma. Os temas que vocês abordam não mais me interessam. Can...

Uma conversa entre amigos sobre ideias e a cruz

Caro Ivo... Sei bem que minhas impressões nada valem, mas, talvez só para ser sincero ou me comunicar um pouco gostaria de falar sobre elas... Sinceramente, muita coisa que ouvi de você me tocou bastante, e continuam me "chateando" por dentro... e por tanto, me edificando. Acho que as coisas que você fala soa como a ironia de Kierkegaard. "Digo e tenho que dizer que não sou um cristão"... pois, de fato, ser cristão é alto, mais alto que nossas especulações aquietadoras. Isso nos deixa humilde... ao menos a mim deixa. Bem, assim como você me disse que Freud "torna a fé adulta", acho que posso falar, ainda que em termos diferentes, que Nietzsche nos amadurece bastante. O combate dele contra o platonismo, seu dito de que a filosofia do futuro deveria reverter o platonismo, eu o tomo para mim também. Nem sei se isso é uma questão acadêmica mesmo, suponho que seja uma exigência da existência mesmo... deixar de ser platônico para entender melhor a vida...

O lugar da autoridade

Mt 23.8-11. “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo. O maior dentre vós será vosso servo.” As massas possuem uma poderosa necessidade de uma autoridade que possam admirar, prestar culto, obedecer, seguir. E quanto mais for empobrecida a individualidade de cada pessoa, mas buscarão o apoio nestas autoridades. Tais autoridades aproveitam-se e realizam a tentação da nossa natureza humana – ser como Deus, estar no seu lugar. No entanto, a própria idéia que esta autoridade tem de Deus é equivocada, pois Deus é poderoso justamente porque não tem necessidade alguma de exercer seu “controle” sobre os outros. Autoritarismo é na verdade fraqueza. Nos Evangelhos a figura de uma autoridade que governe sobre os outros é completamente anulada. Neles se anuncia um...

O custo do discipulado e minha hipocrisia

Quanto mais me debruço sobre o significado do Reino mais ganho consciência de minha hipocrisia. A proposta de Jesus é radical, o abandono de todo esquema individual pela completa compreensão do coletivo. Porém sou mais um na multidão dos ouvintes que ignoram sua mensagem e aguardam qualquer milagre que seja. Não faço parte do minoritário grupo de discípulos que deixaram tudo e O seguiram. Meu arrependimento tornou-se algo moral e ignorei o fato que se tratava de uma mudança radical de valores. Sou ouvinte, mas não praticante dos mandamentos de Jesus. Faço parte da religião cristã, mas não dos que carregam no corpo as marcas de Cristo. Talvez alguns leitores pensarão que estou exagerando, e que Jesus não fez uma proposta tão radical assim. Querem fazer do ‘tudo’ de Jesus algo que signifique menos, e como sempre tentamos encaixotar Deus em nossos conceitos e desejos. Fiz a conta do discipulado e percebi que não estou disposto a tanto. Isso me põe num dilema, pois não consigo seguir os pa...

A cruz

Em várias partes do mundo a cruz é um símbolo que representa a união dos opostos, sendo um dos símbolos humanos mais antigos e é usado por diversas religiões. No cristianismo a cruz se tornou seu principal símbolo. Muitos cristãos primitivos mandavam gravar em seu corpo uma tatuagem da cruz, e em diversos ritos o símbolo da cruz é ministrado. Teologicamente a cruz é interpretada de diversas formas, porém acredito que nenhuma delas é mais plena de significados universais que sendo vista como símbolo da unidade revelada em Cristo, onde todas as contradições e opostos de nossa existência são unificadas. Na cruz a Vida encontrou a morte, o céu encontrou a terra, Deus encontrou o homem. Na união desses opostos está revelado a unificação dos opostos que encontramos dentro de nós. É o fim do si-mesmo e o nascimento do Eu-Tu-Nele. Carregar a cruz é primeiro aceitar nossas contradições. Toda negação de nossa natureza corresponde a negação da cruz e vice-versa. Depois de aceito nos entregamos ao...

O fim do mundo

A partir da leitura do livro de Isaias podemos concluir que o fim do mundo significa: 1. O fim de toda corrupção e injustiça e impiedade (1.25-28; 32.1-5; 51.4-8) 2. O fim de toda ignorância a respeito de Deus, ou seja, da Verdade. (2. 3; 29.18,24) 3. O fim de toda guerra entre os povos. (2.4; 32.15-20) 4. O fim de todo orgulho e altivez humana (2.17) 5. O fim de toda idolatria (2.18-20) 6. O fim de toda desigualdade (11.6-9) 7. O fim da carência dos pobres e de seus sofrimentos (25.6,8; 29.19,20) 8. O fim de toda tragédia humana (35.5-10;54.1-10;55.12,13 9. O fim da presente ordem (66.22) 10. O fim da religião (Apc 21.22) Quem tem essa Utopia? Feliz aquele que nisto crer, pois consegue ver o que a maioria nem suspeita. Utopia não é mero desejo, nem mero sonho, nem mera visão profética, mas um fator de transformação. A grande missão da utopia é abrir lugar para o possível, em contraposição à aquisciência passiva ao estado atual da vida humana. Alguns alardeiam o fim do mundo, mas na ve...

Um momento de confissão

Hoje abri meus emails depois de dias em que evitei isso. Nos últimos dias evitei quase tudo, busquei o silêncio, o mar, a mim mesmo. Hoje pensei em escrever alguma coisa, mas não consegui. Só há espaço para confissão. Confesso que minha alma está cansada. Mesmo tendo reinventado minha história e a recontado tantas vezes, existe uma falta, uma ausência presente de algo que não se nomeia, mas que se revela na ausência do pai, dos amigos, da parceria, da aceitação, do amor. Envelheci anos em semanas quando fui ferido repetidamente por aqueles a quem dei a minha vida. Quantas lágrimas derramadas, em quartos secretos, em banheiros fechados, nas madrugadas da minha história. Aos poucos fui perdendo tudo que configurava minha velha vida, mas confesso que ainda não tenho uma nova, não dentro de mim. Estou profundamente cansado por ter tentando sustentar a muitos respirando enquanto estava submerso em águas frias. A solidão que antes considerava amiga tornou-se inimiga, e de repente o fogo apag...