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Sobre a fé

Fé não se refere a algo que se sabe. Não é a aceitação de um conjunto de doutrinas. Fé é a certeza da misericórdia e do amor de Deus. E isso é o maior bem que um homem pode ter. E sendo assim também é o maior desafio dos homens. A fé já é um milagre, posto que a Queda instalou em nós a dúvida e vivemos na corda bamba do Mal e do Bem. Daí fé já ser obra da Graça. Fé não é a saída quando não conseguimos algo, sendo mais que isso, é um estado da alma, onde toda ação é uma ação de fé. É a confiança no Invisível. E essa fé, segundo as Escrituras, é a força que vence o mundo. Sem fé não há nenhuma esperança para a humanidade, pois todo ato para ser essencialmente humano precisa ser um ato de fé, realizado por um ser de fé, pois um ser de fé primeiro é mudado interiormente e depois muda as coisas ao seu redor. Sem fé toda inclinação do homem será má, e onde não opera a fé opera a violência entre irmãos desconfiados. Assim é desde Caim e Abel, onde a não-fé produz a morte. Sem fé não há aman...

Fé neurótica e Fé do Evangelho

Qualquer pessoa que conheça um pouco de história sabe que o depois do século XVIII o mundo nunca mais foi o mesmo. Qualquer um que conhece a história do pensamento, também sabe que depois de Freud, não se pode mais pensar o homem da mesma maneira que antes. A psicanálise como bem disse o próprio Freud, acarretou a terceira e talvez mais grave ferida ao narcisismo humano. As outras duas são as descobertas de Copérnico e de Darwin. No coração do homem, em seu desejo – a psicanálise o revelou – existe uma carência, um vazio, que nada nem ninguém podem preencher; carência que se constitui no motor de nossos afazeres, buscas e inquietações, constitui também a origem de uma inevitável alienação, que, em meio a uma multidão de fantasias, encontra-se sempre disposto a renascer. Mesmo que se possa falar que Freud já passou, a verdade é que suas falas a respeito do inconsciente e da vida humana determinada por ele continuam atuantes. Entre todas as esferas a religião foi uma...

Entrevista concedida ao aluno Clauber Nascimento do STBC

1. Para você o que é ministério pastoral? Até que ponto é um chamado e até que ponto é uma profissão? O ministério pastoral é um exercício de cuidar e orientar pessoas a partir do ensino do Evangelho, que deve ser exercido por aqueles que de Deus receberam um dom para tal. Por se tratar de um dom só pode ser exercido no caráter de chamado, jamais de profissão. 2. Porque você decidiu ser pastor? Na verdade não decidi. Na medida em que o dom em mim ia sendo reconhecido pela comunidade fui orientado a me dedicar ao ministério. Sempre relutei muito, porém hoje reconheço o dom que Deus me deu e procuro com cuidado exercer o ministério para o qual fui chamado. 3. Qual sua visão sobre as pessoas que se autodenominam pastores, bispos, apóstolos, etc.? A história tem mostrado que a maioria dos líderes auto-intitulados não foram e não são indivíduos chamados por Deus. Seus objetivos são escusos, envoltos sempre na divulgação dos seus próprios nomes, buscando sempre a glória própria. 4. O q...

Deus Uno - Trino

Deus não pode ser explicado. O deus-explicado é ídolo, produção humana. Penso em Deus como trino e uno, uno e trino, porém a explicação que se faz dogma trinitariano diminui Deus, sendo apenas deus-explicado. Deus se Revela, não se explica. E penso Nele se revelando no Filho, revelados no Espírito. Sim! Pai, Filho e Espírito. O Deus da criação não é um ser em busca desesperada por companhia. O Deus Pai Filho e Espírito Santo é o Senhor das comunidades. Deus é Pai, mas não por ser macho, pois seu colo é maternal. É Filho não por ser menor, mas por ser fraterno. É Espírito não por ser invisível, mas por ser Livre. O Deus Pai Filho e Espírito Santo nos convida a sermos conforme Ele mesmo, preferindo ao próximo em honra. Podemos celebrar a companhia uns dos outros, porque Deus Pai Filho e Espírito Santo está onde dois ou três se reúnem em unidade. Deus está próximo, pois que há de mais próximo do que Pai e Filho, e que há de mais íntimo do que o Espírito? Deus Pai Filho e Espírito Sant...

A questão da sexualidade no Evangelho

A sexualidade diz respeito a todo um conjunto de fantasias e atividades existentes desde a infância, que produzem prazer e não podem ser reduzidas à satisfação de necessidades fisiológicas. Não se limita a questões genitais ou de procriação, mas designa uma função vital orientada para a busca de um encontro funcional, totalizador e prazeroso. Além disso, podemos falar de um caráter transcendente da sexualidade, pois ela está presente em cada um de nós e ao mesmo tempo nos escapa. Ela nos ameaça com suas demandas ao mesmo tempo em que nos promete gratificações supremas. Fascínio e terror a cercam. Felicidade e culpa a rodeiam. E essa característica da sexualidade que nos faz dela se defender. Mesmo numa sociedade dita livre a sexualidade é revestida de tabus, se chocando sempre com leis e proibições. E por estas razões a sexualidade apresenta profundas analogias com a experiência religiosa. O deus-imaginário tem suas origens na dinâmica da sexualidade infantil. A relação da religião c...

A questão da obediência II

Não conseguimos escapar das relações de obediência. Elas nos definem enquanto sujeito e sociedade. Submetidos a figuras de autoridades associada ao deus-imaginário ou negando toda autoridade estaremos colhendo sempre frutos de nossa relação com a questão. Se por um lado a submissão as autoridades associadas ao deus-imaginário infantiliza o ser, a falta da relação de obediência debilita o eu, gerando angústias, neuroses e até psicoses. A obediência relacionada ao deus-imaginário é fruto dos sentimentos infantis de onipotência e adquire um comportamento mágico diante da vida. Os sentimentos envolvidos são medo e amor, gerando dependência ou rebeldia. Jesus ensina uma forma completamente diferente dessa relação de obediência. Não nega a relação necessária da obediência, mas cancela toda hierarquia, esvazia todo espaço de autoridade. Anuncia uma sociedade igualitária de irmãos, onde o culto a personalidade não existe, e em vez de autoridades, existem funções, onde a obediência é disposiç...

A culpa e a salvação

A relação com o deus-imaginário se fundamenta na culpa, já a relação com o Deus de Jesus se fundamenta no encontro solidário, que não solicita perdão e que justamente por isso faz surgir uma sadia consciência do próprio pecado. A dinâmica da relação com o deus-imaginário é da culpa para o perdão. A relação com o Deus de Jesus é da convicção do perdão para a transformação da vida e da sociedade em que vivemos. A culpa constitui uma das experiências humanas mais antigas. Surgiu em nós como produto da nossa ambivalência, da incapacidade de compreender o paradoxo e a ausência daquela condição de harmonia e totalidade. Na busca da harmonia criamos um ciclo de culpa-reparação que é à base de todas as demais experiências imaginárias, das relações edipianas até as religiosas. Porém com isso dito, não podemos pensar a culpa apenas como algo patológico, pois ela dá conta de uma estrutura social que nos marca e nos define. A culpa relacionada ao deus-imaginário é sempre uma culpa persecutória,...