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Mostrando postagens com o rótulo Fé sem Mitos

Como ser de Cristo sem ser do cristianismo?

Sempre foi para mim uma dificuldade em me associar ao cristianismo, em especial a vertente evangélica. Primeiro por causa da má fama que possuíam e não queria me associar com essa fama, como hipócritas, que só pensam em dinheiro, que são arrogantes por acharem que só eles são filhos de Deus e vão ser salvos, entre outras, e em segundo por causa das minhas características pessoais, minha liberdade, espontaneidade, que sempre foram um problema por onde andei. No entanto nunca tive vergonha do Evangelho ou do Cristo, porém levou um tempo até eu conseguir separar Cristo de cristianismo e assim me livrar desse problema. Sim! Cristianismo e Evangelho não são necessariamente a mesma coisa e muito menos dependente. É possível se converter a um sem ser converter ao outro, aliás isso é muito comum. O Cristianismo é uma religião como qualquer outra, e, do ponto de vista do resultado histórico e existencial, o Cristianismo é tudo, menos a melhor religião. Inegavelmente está à fre...

Creio e penso - Deus

Em 2009 escrevi um texto com o título “Creio – Deus” onde enfatizava a questão da fé como necessária para saber de Deus, pois fora da fé não havia conhecimento de Deus. Pois bem, a velha questão fé e razão voltou a ocupar minha vida novamente, pois tem sido objeto de meus estudos atuais. E relendo o texto, vi que mudaria alguma coisa no que havia escrito, dando lugar legítimo a razão também. Segue agora uma síntese daquele texto com os pensamentos de agora: Deus. Quem é Deus? O que é Deus? Quem já o viu? Onde ele está? O que está fazendo? Eu creio em Deus. Mas o que isso significa? Significa que minha relação com Ele vai além do que minha reflexão racional conclui sobre ele. Significa dizer que minha crença mescla elementos da minha imaginação, racionalidade e fé, e é esta última que dá condições de estar em paz com Deus. Pela fé sei que Deus é mais do que qualquer especulação, doutrina ou conceito sobre Ele mesmo. Deus é o que É. E por ser o único que de fato É, ...

O deus imaginário e o Deus de Jesus

Uma coisa deve ser dita: Fica proibido confundir Deus com sua representação. Dito isto podemos analisar as fontes do deus-imaginário. Chamo de deus-imaginário o produto subseqüente da consciência infantil que pensa de certo modo que tudo é ela e ela é tudo. E essa aspiração à totalidade permanece como uma estrutura básica do ser humano, e o desejo religioso de um Todo Transcendente não escapa a esse movimento. Os primeiros símbolos para a criança desse desejo são os pais, e o deus-imaginário adquire forma e configuração a partir deles. É no pai, segundo as análises freudianas que a criança projeta a onipotência, aquela que no princípio estava atribuída a ela mesma. O pai aparece, então, como a própria realização da onisciência, da onipotência e da onibenevolência. Porém com essa imagem perdida, o deus-imaginário, por meio da figura perdida do pai, toma nome, forma e figura. O Deus de Jesus ao contrário do deus-imaginário nos convida para o enfrentamento da realidade. Ele não é u...

Fé neurótica e Fé do Evangelho

Qualquer pessoa que conheça um pouco de história sabe que o depois do século XVIII o mundo nunca mais foi o mesmo. Qualquer um que conhece a história do pensamento, também sabe que depois de Freud, não se pode mais pensar o homem da mesma maneira que antes. A psicanálise como bem disse o próprio Freud, acarretou a terceira e talvez mais grave ferida ao narcisismo humano. As outras duas são as descobertas de Copérnico e de Darwin. No coração do homem, em seu desejo – a psicanálise o revelou – existe uma carência, um vazio, que nada nem ninguém podem preencher; carência que se constitui no motor de nossos afazeres, buscas e inquietações, constitui também a origem de uma inevitável alienação, que, em meio a uma multidão de fantasias, encontra-se sempre disposto a renascer. Mesmo que se possa falar que Freud já passou, a verdade é que suas falas a respeito do inconsciente e da vida humana determinada por ele continuam atuantes. Entre todas as esferas a religião foi uma...

A questão da sexualidade no Evangelho

A sexualidade diz respeito a todo um conjunto de fantasias e atividades existentes desde a infância, que produzem prazer e não podem ser reduzidas à satisfação de necessidades fisiológicas. Não se limita a questões genitais ou de procriação, mas designa uma função vital orientada para a busca de um encontro funcional, totalizador e prazeroso. Além disso, podemos falar de um caráter transcendente da sexualidade, pois ela está presente em cada um de nós e ao mesmo tempo nos escapa. Ela nos ameaça com suas demandas ao mesmo tempo em que nos promete gratificações supremas. Fascínio e terror a cercam. Felicidade e culpa a rodeiam. E essa característica da sexualidade que nos faz dela se defender. Mesmo numa sociedade dita livre a sexualidade é revestida de tabus, se chocando sempre com leis e proibições. E por estas razões a sexualidade apresenta profundas analogias com a experiência religiosa. O deus-imaginário tem suas origens na dinâmica da sexualidade infantil. A relação da religião c...

A questão da obediência II

Não conseguimos escapar das relações de obediência. Elas nos definem enquanto sujeito e sociedade. Submetidos a figuras de autoridades associada ao deus-imaginário ou negando toda autoridade estaremos colhendo sempre frutos de nossa relação com a questão. Se por um lado a submissão as autoridades associadas ao deus-imaginário infantiliza o ser, a falta da relação de obediência debilita o eu, gerando angústias, neuroses e até psicoses. A obediência relacionada ao deus-imaginário é fruto dos sentimentos infantis de onipotência e adquire um comportamento mágico diante da vida. Os sentimentos envolvidos são medo e amor, gerando dependência ou rebeldia. Jesus ensina uma forma completamente diferente dessa relação de obediência. Não nega a relação necessária da obediência, mas cancela toda hierarquia, esvazia todo espaço de autoridade. Anuncia uma sociedade igualitária de irmãos, onde o culto a personalidade não existe, e em vez de autoridades, existem funções, onde a obediência é disposiç...

A culpa e a salvação

A relação com o deus-imaginário se fundamenta na culpa, já a relação com o Deus de Jesus se fundamenta no encontro solidário, que não solicita perdão e que justamente por isso faz surgir uma sadia consciência do próprio pecado. A dinâmica da relação com o deus-imaginário é da culpa para o perdão. A relação com o Deus de Jesus é da convicção do perdão para a transformação da vida e da sociedade em que vivemos. A culpa constitui uma das experiências humanas mais antigas. Surgiu em nós como produto da nossa ambivalência, da incapacidade de compreender o paradoxo e a ausência daquela condição de harmonia e totalidade. Na busca da harmonia criamos um ciclo de culpa-reparação que é à base de todas as demais experiências imaginárias, das relações edipianas até as religiosas. Porém com isso dito, não podemos pensar a culpa apenas como algo patológico, pois ela dá conta de uma estrutura social que nos marca e nos define. A culpa relacionada ao deus-imaginário é sempre uma culpa persecutória,...

A oração sob análise

O que estamos realmente fazendo quando oramos? Com quem realmente estamos falando? Essas perguntas dificilmente fazemos quando pensamos a oração e acabamos ignorando que todo tipo de fantasia é possível para quem ora. Depois de um tempo ouvindo várias histórias contadas por indivíduos religiosos e de muita auto-avaliação, descobri que muitas orações não são dirigidas de fato ao Deus de Jesus, mas ao deus-eu-mesmo, uma espécie de prolongamento narcísico do próprio eu, ou um deus-criado para substituir as figuras de autoridade e poder da nossa mentalidade infantil. O problema é que quando descobrimos isso quase que imediatamente vamos para o extremo oposto do ato de orar, ou seja, não oramos mais, no entanto, não conseguimos ignorar a consciência que nos aponta para o que nos transcende. Assim se estabelece uma crise. Mas afinal o que separa a oração ao Deus de Jesus da oração ao deus-si-mesmo? É preciso resgatar a consciência do Pai que está nos céus, ou seja, entender q...

O lugar da autoridade

Mt 23.8-11. “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo. O maior dentre vós será vosso servo.” As massas possuem uma poderosa necessidade de uma autoridade que possam admirar, prestar culto, obedecer, seguir. E quanto mais for empobrecida a individualidade de cada pessoa, mas buscarão o apoio nestas autoridades. Tais autoridades aproveitam-se e realizam a tentação da nossa natureza humana – ser como Deus, estar no seu lugar. No entanto, a própria idéia que esta autoridade tem de Deus é equivocada, pois Deus é poderoso justamente porque não tem necessidade alguma de exercer seu “controle” sobre os outros. Autoritarismo é na verdade fraqueza. Nos Evangelhos a figura de uma autoridade que governe sobre os outros é completamente anulada. Neles se anuncia um...