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Mostrando postagens com o rótulo História

Natal das famílias

Qualquer um que me conheça ou que leia os meus textos sabe que gosto do Natal, bem como de toda celebração em que podemos pensar e repensar significados. Nesse natal meu coração queima com sentimentos que não sei bem como descrever, mas sei que tem haver com família. Sou um ser carente de família, mas talvez não saiba lidar com uma. Sou um homem que está na maioria das vezes só, mesmo que acompanhado de alguém, mas queima em mim uma vontade de não ser só. O Natal, se é a celebração do nascimento de Jesus, é consequentemente a história de uma família, ou melhor, de várias. O livro de Mateus começa com uma genealogia, porque a história de um homem na verdade é feita de milhares de outras histórias. Ninguém é sozinho por mais que se sinta sozinho. Só somos por causa de outros. Família, portanto, não é apenas o modelo, ocidental, burguês, capitalista, cristão. Não gira somente em torno de presentes ou jantares. Família tem haver com encontros e despedidas, com nascimento...

Dias de um futuro próximo

Sábado, 25 de julho de 2015, 6h00min da manhã, o sol tem uma luminosidade agradável, tornando a cor do mar que vai do azul ao verde. Estou a 10 passos de onde as ondas arrebentam, na casa do mestre Antônio, na praia de Morro Branco, no município de Beberibe – Ce. Esse é o quarto dia de uma estadia maravilhosa junto as minhas razões, e é a terceira vez que fico nesse mesmo lugar. A casa é simples, mas como disse ontem milha filha Cecília, 7 anos, ela é ótima. Uma casa de pescador, pé na areia, do lado das embarcações que saem todos os dias daqui para pescar, ao pé das falésias de areias coloridas e vizinho ao já meu amigo pescador, que sempre prepara uns peixes fritos do jeito que gosto. Durante esses dias orei e entre minhas orações ao Mar, me invadiu um propósito. Não sou um homem de muitas metas, na verdade, comparando com a forma de viver da maioria dos homens do meu tempo, sou um ponto fora da curva. Nunca quis muita coisa. Meus desejos são poucos. Minhas orações de p...

Velho-novo Natal

Hoje ao chegar na obra (construção da minha casa – nos fundos da casa da minha mãe no Serviluz - Cais do Porto – Praia do Futuro) vi um colega da infância e imediatamente me lembrei de tantos, e saí conversando com minha irmã sobre eles, afinal sai do bairro aos 18 anos e agora quase 15 anos depois é que retorno. Por onde anda a bela moça da casa a frente? Lembrei que das muitas brincadeiras nas casas da marinha em frente à minha. Meus primeiros beijos e primeiras paqueras e primeiras experiências eróticas. Não tenho contato com nenhum dos que moraram nessas casas, sei que dois deles foram assassinados por causa de envolvimentos no mundo das drogas. Olhei a pracinha, hoje tão diferente do que já foi e lembrei do tempo que ainda era apenas um terreno onde cortei meu pé profundamente, e onde tempos depois joguei vôlei, e tive algumas brigas. Na sua frente morou o meu segundo grande amor. Lembrei dela e de um reencontro que tive com ela onde ela não me reconheceu. Falei ...

Praia do Futuro

Eu tinha 11 dias de vida quando fui dedicado ao Mar e seus mistérios, suas lendas e seres. E aqui nessa praia chamada de Futuro vivi todo meu passado. Cresci deixando meus rastros na areia que logo eram apagados pelas ondas. Foi aqui que aprendi a orar, e nunca tive outra Voz divina senão o som de muitas águas. Orações longas para as longas caminhadas, ao alvorecer do dia, ou ao entardecer, no silêncio, na canção, mas sempre aqui. Trouxe a este mar, todos os meus sonhos infantis, todos os meus amores adolescentes, todas as minhas dores juvenis, todas as minhas paixões adultas, e toda a minha vida. Não há nada que não tenha apresentado ao Mar. Minhas poesias são cheias deste lugar e minha alma da maresia desta praia. Minhas melhores histórias de amor tiveram seus nomes escritos nessas areias, e todas as minhas filhas tiveram seus nomes revelados aqui. Não sei as tramas do destino, mas a única coisa do meu pai que ficou em mim, já que ele nunca teve um dia sequer comigo p...

Meu cajueiro

Durante um ano eu que vivi num bairro situado perto de uma reserva ecológica foi um cajueiro que serviu como local de adoração e reflexão em vez do meu velho templo – o mar. Foi um ano diferente, o ano depois da morte, e junto com o cajueiro foi retomando o sabor da existência. Tudo nele e ao seu redor me foi sagrado, de sua imensa copa verde, do vento que ao mexer suas folhas produzia o som dos céus, que me trouxe uma nova linguagem do divino, no lugar do som das muitas águas que me sempre me foi a Voz sagrada. Renasci com um cajueiro, mas sou feito de maresia, e o tempo do cajueiro não poderia se eternizar, precisava voltar para as praias iniciais da minha vida. O tempo de retorno chegou. Assim o tempo do cajueiro que trouxe para minha vida novamente o verde e vento chegou ao fim. A casa que estava em frente ao cajueiro era grande, como sempre gostei, me permitiu muitas coisas, como receber amigos e realizar festas e trabalhar, tudo era feito nela, a ponto de não haver ...

9 de abril 2014

Há 14 anos eu pegava no colo pela primeira vez aquela que só traria alegria a minha vida nos 14 anos seguintes. Minha primeira razão. Ela foi a força da minha vida nos anos que se seguiram, por ela resisti e batalhei, sempre tentando oferecer a ela o mínimo de bem, frente a grandiosidade de graça que me alcançou com a sua vinda para minha vida. Hoje ela já não é uma menininha, já não pego no colo, apesar da vontade que às vezes dá. Seu corpo não é mais frágil, mas ainda desejo cuidar dele como joia rara. Na infância chorei com ela, quando ela não sabia explicar os porquês, hoje já a vi chorando por amores que ainda nem conhece bem. Sim seu coração, começa a se abrir para outros mundos. Está se libertando aos poucos do casulo do pai. Antes temia por esses dias. Na mínima possibilidade de ela se afastar fisicamente de mim, sofria, mas hoje meu amor ganhou a certeza de um caminho percorrido, de trabalho realizado. Aquela menina tornou-se uma adolescente forte, honrada, verda...

O amor de Deus

Já sabemos como é difícil conceituar o amor. Sabemos como é difícil falarmos do amor entre nós, humanos. Então, imagine-se quão complicado em falar do amor de Deus. Pois se temos dificuldade de falarmos do nosso amor, ou do amor daqueles que conhecemos, imagine falar do amor do Deus Invisível. Porém a fé cristã insiste nessa mensagem: Deus nos ama! Durante a minha infância, eu que cresci sem pai, sempre pensei que Deus me amava como um pai amava um filho, e essa ideia era alimentada por diversos textos bíblicos que me apontava Deus como pai. Isso me salvou tantas vezes, que não ousaria numerar. Na adolescência precisava mais do que uma presença misteriosa, precisava realmente conversar, ouvir a voz de alguém, contar meus dilemas e ouvir conselhos, mas o Deus Invisível era também Silencioso. Não o odiei por isso, mas à medida que minha mente se ‘sofisticava’ fui procurando explicações para essa ausência de um Deus que ama. Nasceu a teologia para mim. Agora pensava no a...

Lázaro, Marta, Maria e Eu.

Minha memória me informa que a primeira coisa que quis ser quando crescesse era ator, ou quem sabe dramaturgo, produtor de novela, ou algo do gênero, não é toa que todas as brincadeiras da minha infância eram fazer da minha vida uma novela, até meus 15 anos foi assim, e até hoje ainda me pego brincando um pouco. Mas não me tornei nenhuma destas coisas, o máximo que cheguei a fazer foi uma apresentação de uma peça no teatro da escola por volta dos meus 12 anos. Quando comecei a pregar aos 15 anos, meus desejos foram em outra direção. Desejei servir aquele Deus que amava, do jeito que achava que podia, com minha voz, meu pastoreio, minha liderança. Associaram-se a isso muitas falas ditas proféticas que me falavam de como seria minha missão. Vida agitada, mas cheia frutos. Em razão disso me dediquei ao máximo a este sonho-vocação. Lembro-me que em razão disso minha única oração era que tivesse uma vida que o agradasse e que servisse a Ele. Não que não tivesse outras necessid...

Vendedor de tapiocas

Quando eu era criança imaginava-me atuando. Sempre fiz da minha vida uma novela, era sempre, lógico, ator principal. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, dizia um ator. Depois veio aquela fase que você muda todo o dia o que deseja ser. Mas logo aos 8 anos fui envolvido por uma rede de ‘profecias’ que afirmavam que seria um pastor-pregador. Bom, isso determinou todo o resto da minha vida até aqui. Aos 15 anos era um pregador, gastando todo meu final de semana em reuniões religiosas. Aos 18 já era pastor. Em vez de uma faculdade aos 17 anos estava no seminário teológico. Bom, depois disso não tinha mais tempo para nada, dediquei-me ao serviço ao próximo e a pregação do Evangelho, porém sustentar-me ficou difícil sendo pastor de uma igreja bem pobre num dos bairros mais miseráveis de Fortaleza, decidi então ter um emprego formal. Comecei então trabalhar com educação física por causa de um membro da igreja que trabalhava na área e me chamou para trabalhar ...

Eu e o Lego

Quando era eu era menino brincava como menino, mas quando cheguei a ser homem senti saudade das brincadeiras de menino, e assim, menino decidi continuar sendo. E em que consisti minha meninice? Na insistência para estar acordado, no sorriso largo, na vontade de experimentar o novo, na dança, na capacidade de perdoar amigos e de estar bem com todos. Ontem, tive uma bela surpresa ganhei um presente especial, um playmobil. E o que há de especial num presente desses? Ele me trouxe boas lembranças. Fui criado num lar sem crianças. Meus primos apesar de próximos fisicamente, não eram tão próximos de fato, assim na maior parte do tempo brinquei sozinho. Acompanhava minha velha mãe, minha maior companheira da infância, nas novelas e na cozinha, e lia os livros que minha irmã me estimulava, aos 10 já tinha lido tudo de Vinícius. Minhas brincadeiras consistiam em criar realidades diversas, como se a cada espaço de tempo fosse eu um diretor de uma novela em que também era o ato...

Esse que sou eu

É engraçado como muitos me enxergam, mas nem sempre achei graça das muitas interpretações a meu respeito. Quando estava no ventre, meu pai considerou que por não ser filho legítimo (ou seja, de sua esposa) não era filho dele. Muitos acharam que nem iria “vingar” de tão doente que era quando recém-nascido. A mulher que me levou para criar, foi impedida pelo marido de fazê-lo, assim acabei sendo criado pela mãe dela. Na infância ouvi várias vezes que não era filho da casa, era apenas alguém que foi criado por eles. Assim não era visto de maneira semelhante. Lembro que não podia ter um brinquedo senão as outras crianças da família não gostariam, assim só podia ter o que pudesse ser dados a todos. Não podia ter amigos na rua porque me diziam que eu não era igual a eles. Assim fui criado num universo feminino, já que nenhuma figura masculina havia. Isso me fez ser alvo de novas interpretações. O que diriam de um menino, que conhecia Vinicius de Moraes, escrevia poesia, tinha a letra r...

Considerações sobre Jó e eu

Dizer que Deus está por trás da salvação, livramento, transformação, ou qualquer espécie de bem que alcance o indivíduo é fácil. Difícil é crer-saber que Ele também pode estar por trás das tragédias que assaltam nossas vidas. Todos nós com facilidade louvamos a Deus pelas bênçãos que alcançam um indivíduo, mas nos calamos diante da tragédia, e quando abrimos a boca, quase sempre é para atacarmos o indivíduo em calamidade. Vivemos em dias em que a mensagem do Evangelho foi esquecida na maioria dos púlpitos e em seu lugar está a mensagem da barganha, da recompensa, do lucro, das teologias morais de causa e efeito. Conteúdos que a fé em Jesus não suporta. O cristianismo em sua forma atual é mais pagão do que algumas religiões de mistérios, pois leva o indivíduo a viver num purgatório existencial, onde tudo é resolvido pelas leis secas da causa e efeito. Para os que não andam pela fé tudo se explica, para todo efeito há uma causa conhecida. Assim, se criam as maldições hereditárias, par...

Admiradores e amigos

Ontem li um texto do Caio e lembrei-me dos amigos que outrora pensei que fossem. Lembrei do dia que diante de um deles disse que havia muitos que me admiravam, mas pouquíssimos que me amavam, pois quem admira foge, abandona quando frustramos suas expectativas, quem ama não tem expectativa nenhuma em relação ao outro, apenas ama, e por isso na hora da calamidade está junto. Lembro-me que ele me disse que fazia parte dos que me amavam, e lembrei-me de Pedro quando disse que jamais negaria. E assim foi. Este amigo deixou de ser, e não quis sofrer afrontas perto daquele que para ele agora não era nada. Aprendi muitas coisas nesta pequena caminhada e uma delas foi não deixar-me levar pelos aplausos, elogios e louvores que nos fazem quando oferecemos algo bom, quando estamos dentro dos interesses projetados em nós. Já não acredito nos lábios que com facilidade declaram seu amor e com a mesma facilidade lhe abandona deixando-o para carregar a cruz sozinho. Aprendi a ser feliz com os poucos q...

Do nascimento ao Silêncio

“Existe em mim um hiato, uma pergunta que não sei, um desejo de não sei o quê” Tento encontrar na minha história uma explicação, aí lembro que não existe resgate do passado, tudo que é está aqui, no momento chamado Agora. É de onde estou que significo e ressignifico o que chamo de passado. Minha história eu inventei. Nessa tela todas as cores fui eu que escolhi, mesmo não crendo em escolhas livres, não posso transferir para outros uma decisão que só eu tomei. Não chamo de infelicidade esse sentimento que me toma, talvez tristeza, companheira dos poetas, apesar de eu preferir silêncio. Sim! O que há em mim é um grande silêncio, que por vezes tentei negá-lo com o barulho que fiz. E como eu fiz barulho! Entrei no ciclo da angústia na busca de saber o que ou quem sou. De quem era filho? Quem era minha família? Por que fiz da história uma piada e da tragédia humor? Quem era meu pai? Quem era minha mãe? Quem eram os meus irmãos e irmãs? Lembro de lágrimas, de quartos fechados, e ainda aqui ...