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Não mexe comigo – entre a vingança e a justiça

Ler: Carta de Amor de Maria Bethânia Salmos: 58, 59, 69, 109 Toda pessoa que me conhece sabe de minha paixão pela cantora Maria Bethânia e por suas interpretações. Uma de suas composições traz um tema interessante – a imprecação. “Não mexe comigo, que eu não ando só, Eu não ando só, que eu não ando só. Não mexe não!” “Onde vai valente? Você secou, seus olhos insones secaram, não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira. Seus ouvidos se fecharam à qualquer música, qualquer som, nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe. Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa. Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano. Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma. Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo. O que é teu já tá guardado. Não sou eu quem vou lhe dar, Não sou eu quem vou lhe dar, Não sou eu quem vou lhe dar. Eu posso engolir você, só pra cuspir depois. Minha fo...

A presença da Ausência

Leituras: Salmo 42; 1 Jo 4 “Deus só pode estar presente na criação sob a forma de ausência. ” Simone Weil O que é mais assombroso na fé cristã é que seu Deus é abscôndito. Apesar de nossa poesia trazê-lo para tão perto, onde realmente ele está? Talvez essa seja a pergunta mais doída, honesta e angustiante que fazem os homens de fé. Talvez por isso o Homem por excelência não ficou isento de fazê-la. Aprendemos a responder a essa pergunta desde crianças em canções como “Deus está no céu”, no nosso modelo de oração “...estás nos céus”. Nesse lugar distante aprendemos a esperar Ele e Dele alguma coisa como um servo espera do seu Senhor. Depois aprendemos a responder que ele está aqui, tornou-se o Deus presente por meio da encarnação. O que estava em cima agora está em baixo. O que estava no céu agora está na terra. Com a sofisticação de nossa teologia dissemos que Ele não está aqui nem ali, e explicamos isso por meio de uma delicada relação entre os conceitos de t...

O narcisismo das pequenas diferenças

Sinceramente não sei se estou vivendo um tempo onde a intolerância ganhou espaço e poder como nunca antes, ou simplesmente agora que estou percebendo mais de perto os efeitos trágicos dela. O fato é que por toda parte vejo o que não vi nos meus primeiros 30 anos de vida. As redes sociais se mostraram verdadeiros campos de ódio, batalhas ideológicas, preconceitos e discriminações diversas. Mas, infelizmente esses crimes não ficaram só nas redes virtuais, ganharam vida e corpo, e alcançam muitos com violência e morte. É como escreveu Cristovam Buarque em sua rede social: “ Primeiro, a gente substitui argumentos por xingamentos; depois xingamentos por agressão verbal; depois agressão verbal por um tapas e murros; logo estes são substituídos por chutes e pancadas com paus; aí alguém puxa um revólver e sem propósito mata um adversário; e em breve o país se joga em guerra civil política, como aconteceu em tantas outras partes, apesar dos alertas rejeitados processem considerados ge...

Fabíola, a mulher adúltera

Somente dois dias depois do vídeo do “caso Fabíola” viralizar na internet é que soube do que se tratava. Isso se deve a minha postura de não abrir quase nenhum vídeo que me mandam por redes sociais. Tinha visto muita piada, mas não sabia exatamente do que se tratava. Porém imaginei que se fosse verdade que houve uma traição conjugal eu não deveria republicar nada a respeito, pois se eu estivesse no lugar de um dos envolvidos eu não gostaria de ter minha vida exposta dessa maneira. Hoje, no entanto, vi numa reportagem o “caso” e fiquei feliz pela postura que assumi e triste pelo cenário construído em torno do assunto. Do que trata? De uma traição conjugal. Meu Deus! Quantos que fizeram piada, ridicularizam, apoiaram a violência, riram da desgraça, não fazem a mesma coisa, e só não tiveram o azar de serem descobertos. Tudo ridículo, da postura dos envolvidos até a de milhares de outros que por meio das redes sociais jogaram suas pedras na adúltera que estava ali exposta em pr...

Orgulho e Arrependimento – Um caminho entre o céu e o inferno

Não sabes que é a bondade de Deus que leva o homem ao arrependimento”? (Romanos 2.4). Eu sou um homem contrito. Todo o meu culto tem um momento necessário de contrição. Nisto sou bem católico que na missa na hora da contrição, os fiéis repetem: “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”. Lembro com clareza que toda ceia na igreja da minha infância, adolescência e início de vida adulta a Ceia era sempre acompanhada de momentos de contrição e arrependimento. Porém, percebo que esse é um tema que não se fala mais nos dias atuais. Não existe mais pecado. Não há mais do que se arrepender. Atendo todos os dias pessoas que desconhecem o que seja arrependimento, são pessoas cheias de certezas, cheias de razões, cheias de verdades. Não há mais espaço nas igrejas contemporâneas para o sermão do arrependimento. Desapareceram os publicanos e se instalou a geração dos que se orgulham do que são, do que tem, do que fazem somente. Errado sempre são os outros. Mais afinal...

Gênesis, a história do pecado e da justiça própria

Leituras sugeridas: Gênesis 2 – 3 - 4;1-17; Hebreus 11;4 Sempre gostei do livro do Gênesis, em especial seus primeiros capítulos. E essa admiração só aumentou quando tomei consciência do estilo literário e aprendi a ler corretamente esses textos, pois deixei de me preocupar com as questões históricas do texto e me dedicar ao seu ensino ético. Das leituras que possuo nenhum texto me é tão explicativo do ponto de vista simbólico do que os capítulos iniciais desse livro. É nele que encontro os aspectos psicológicos, morais, arquétipos mais adequados para compreender a história dos homens e a minha própria história. Gênesis é o livro dos inícios. O livro da história do homem. O livro da história do pecado e da justiça própria. É claro que o termo história não deve ser visto de maneira contemporânea, visto o texto possuir uma linguagem mítica. Destaco aqui duas histórias, mas me dedicarei nesse texto em especial a história de Caim e Abel. A primeira história é a história ...

Família, um só amor, muitas formas de amar

Leitura sugerida: Mateus 12.46-50 Nas últimas semanas as redes sociais se encheram de debates com a discussão sobre o conceito de família, isso em razão do PROJETO DE LEI que Dispõe sobre o Estatuto da Família e dá outras providências. Nesse projeto está dito: O Congresso Nacional decreta: Art. 1º Esta Lei institui o Estatuto da Família e dispõe sobre os direitos da família, e as diretrizes das políticas públicas voltadas para valorização e apoiamento à entidade familiar. Art. 2º Para os fins desta Lei, define-se entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. No mesmo site do congresso onde verifiquei o projeto seguia uma enquete sobre a opinião do brasileiro sobre a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher. O resultado da pesquisa dava 51,62% votos contrários a esse conceit...