quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O lugar da contemplação na vida cristã



Salmo 46

DEUS é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Portanto não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza. Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. Deus está no meio dela; não se abalará. Deus a ajudará, já ao romper da manhã. Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a terra se derreteu. O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. Vinde, contemplai as obras do SENHOR; que desolações tem feito na terra! Ele faz cessar as guerras até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo. Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre os gentios; serei exaltado sobre a terra. O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.

Como cristão que viveu sua infância e adolescência no meio pentecostal nunca imaginei que um dia iria escrever um texto com este título, ou pregar sobre o assunto. A primeira vez que ouvi falar de contemplação foi quando estudava história da igreja e mais especificamente o período monástico.

Confesso que na época me parecia algo estranho sem nenhuma conexão com o Evangelho. Foi somente há um pouco mais de quatro anos, depois de deixar a infância da fé para trás e mergulhar nas escrituras em busca da Palavra e não de um texto, que contemplar passou a ser uma realidade em minha vida. Junto a isso tive a bênção de morar em frente a um parque ecológico. Todos os dias contemplo o céu azul, o verde da mata, o brilho das águas e o branco das gaivotas.

Hoje gostaria de compartilhar com vocês a importância da contemplação na vida cristã, e como ela pode beneficiar sua vida como um todo.


Segundo o dicionário Aurélio contemplação pode significar:
1. Aplicação demorada e absorta da vista e do espírito.
2. Meditação profunda.
3. Consideração, deferência:
4. Rel. Conhecimento de Deus e das realidades divinas não por vias e métodos discursivos e, sim, pela vivência.

Eu poderia a partir destas definições dizer que contemplação é o uso integrando da mente e do espírito focando-se em algo. Assim não há vida plena sem contemplação, não há verdadeiro conhecimento sem ela, não há amor.

Vivemos numa época agitada onde, mas do nunca precisamos optar pelo que Maria optou como nos sugere a passagem de Lc 10,38-42. No texto a contemplação é chamada de “a melhor parte”. Maria não estava agitada, nem mesmo queria mostrar nada ao Mestre, ela queria apenas contemplar, absorver tudo daquele momento. Maria vivia naquele momento uma real união com Deus. Com isso não estou querendo dizer que ações não têm lugar na vida cristã, estou querendo apenas resgatar o hábito de estar diante do Mistério em silêncio, reverência e absorto. Creio até que os que contemplam são os que devem agir com mais sabedoria e serem agentes de transformação do mundo, pois saímos da contemplação com mais vontade de servir ao próximo e a toda a criação.

Maria estava diante de Deus e como ela aqueles que contemplam buscam penetrar em Sua essência. Estes não procuram sair de Sua presença, eles repousam diante do objeto amado. Estar diante de Deus em contemplação é estar aberto a Ele, atento e nesse sentido contemplação é um estado de atividade no mais elevado sentido da palavra, que traz consigo a autêntica atualização da pessoa, a verdadeira vida espiritual na sua forma mais intensa.

A contemplação das obras criadas também deve nos conduzir ao Criador. Não é disso que falam os diversos salmos? E o que dizer da oração? Pode ser ela contemplativa? Claro que sim. A oração deve envolver nossa mente e nosso espírito, portanto deve ser contemplativa. As orações agitadas, nervosas que aprendi na minha infância eram meras palavras muitas vezes decoradas. Foi somente quando me dediquei a orar como o Senhor nos ensinou (Mt 6.5,6) que comecei a sentir Deus presente em minhas orações.

E não é somente a oração que pode ser contemplativa a leitura bíblica também pode, e foi somente quando passei a ler assim as escrituras que a Palavra a mim foi revelada, antes tinha texto, hoje tenho Palavra, antes produzia sermão, hoje escuto a Voz de Deus.

Sei que se os discípulos de Cristo atentarem para o valor da contemplação toda a Comunidade ganha com isso, pois contemplando o Senhor também o contemplaremos no outro, no próximo, naqueles de quem Ele disse “ quando servistes a um destes pequeninos a mim me serviste” (Mt 25,35-36). Se escolhermos a melhor parte sairemos deste encontro convertidos, conscientes da Graça que nos cerca que é a fonte de todo bem.

Meu conselho é que paremos um pouco, dediquemos nossa mente e espírito a Ele, e em tudo que fizermos tenhamos um espírito contemplativo que descansa Nele e na certeza do “está consumado”. Oremos com este espírito, cantemos com este espírito, sirvamos com este espírito.

Lembrem-se o amor nasce da contemplação.

Ivo Fernandes

sábado, 12 de janeiro de 2008

Comunidade de Cristo




Hoje gostaria de falar sobre a Igreja. No entanto por saber que esse termo já não carrega o mesmo significado no NT, chamarei quando me referir a Igreja de Jesus de Comunidade, visto que Ecclesia do ponto de vista do NT é uma comunhão de pessoas que possuem em comum a unidade espiritual com Cristo manifestado na relação com o outro. E quando usar o termo “igreja” neste texto estarei falando do movimento humano que deu origem ao que chamamos de religião cristã ou igreja cristã com suas diversas divisões.
Como alguém de origem protestante concordo com a definição de igreja de Lutero que percebeu a diferença entre Ecclesia do NT e a igreja institucional. Lutero via a Ecclesia como uma comunidade, uma congregação, uma unidade de pessoas, um povo, uma comunhão.

Já quando falamos de “igreja” nos referimos a uma instituição administrativo-religiosa. Já a Comunidade do NT é uma comunhão pura de pessoas, inteiramente sem caráter institucional. E nisso até os reformadores protestantes falharam, pois se reformou o que já não carregava a essência da Comunidade, assim o caráter institucional permaneceu nas igrejas reformadas. Por isso nenhuma “igreja” cristã pode-se dizer a verdadeira Comunidade de Cristo nem mesmo a única, mesmo que nelas haja muito ou não desta Comunidade.

A Comunidade Cristã Primitiva começou sendo vista como uma seita judaica. Seus membros ainda eram freqüentadores do templo, até que por meio de muitas perseguições e percepções se viu que a Comunidade não era compatível com a religião dos judeus, mesmo sendo sempre a mesma Comunidade dos Hebreus.

A Comunidade Primitiva agora separada da religião judaica entende que as leis judaicas não são mais válidas. Estar sob a lei era o mesmo que repudiar Cristo. O templo perdeu seu significado e o sacerdotalismo também. Agora não haveria distinção entre os membros do Corpo de Cristo.

Quando se olha para a “igreja” sabe-se que Jesus não a fundou, pois inquestionavelmente o que Jesus criou foi uma comunhão em volta de Si de discípulos e não uma instituição religiosa. Também não foi Paulo ou um dos apóstolos que a fundaram, eles na verdade pertenciam a Comunidade e o testemunho deles era um fundamento para ela. O que eles receberam deve ser crido sempre. E o testemunho deles é que deve ser preservado, não a autoridade apostólica, pois essa não é transferível como pensa a “igreja”. Não vemos nenhum dos apóstolos chamando para si uma autoridade que vemos nas autoridades religiosas da “igreja”.

Sei que já no final do primeiro século a Comunidade já via em seu arraial a forte presença de um espírito institucional. No entanto até aquela altura o que prevalecia ainda era a Verdade da Mensagem Cristã e não o poder de um apóstolo ou líder cristão. E com isso não estou dizendo que a Comunidade Primitiva não tinha governo, o que falo é que nela esse dom era mais um entre outros sem o menor grau de preferência. O dom não autoriza nenhum tipo de estrutura hierárquica.

O argumento que a ‘igreja’ usa para sua existência como estrutura institucional-hierárquica é a defesa da fé e a guarda da tradição e sei que esses foram em parte os motivos iniciais da mesma, e que em parte era legítima essa preocupação. Sei que o ofício do bispo em parte foi criado para garantir a defesa da fé. Mas há uma grande ‘ingenuidade’ em achar que todos os bispos ordenados em continuidade seriam reais portadores da doutrina apostólica original. O lamentável nessa história não foi a criação do ofício do bispo, mas da mudança em que ele foi tornado no principal se não único guardião da verdade. Basta olhar a história e perceber que a mensagem apostólica não é a mesma pregada pela “igreja” em sua essência, pois agora não era com manutenção da verdade que a “igreja” estava preocupada, mas com sua própria continuidade como “guardiã da verdade”.

De corporação (igreja governada pelos bispos) a “igreja” passa a ser governada pelo Papa. Agora é ele que é a autoridade final em matéria de dogma e de moral. Assim ele passa a ser o único expositor autoritativo da Escritura e a única fonte e intérprete autoritativo da tradição.

Alguns dirão que fora deste modelo o que sobraria era uma comunidade anárquica. Ora a NT mostra que não, pois a Comunidade tinha o governo do Espírito. Isso nos faz pensar que quando a igreja deixou de estar sob o governo do Espírito precisou se institucionalizar ocupando assim o lugar que pertencia a Ele.

Outros dirão que a institucionalização é fruto do crescimento e é inevitável. Quanto a isso o NT mostra também ser inverdade. A Comunidade Primitiva não tinha teologia e nem dogma, mas tinha a Palavra Viva; não tinha credo e nem um código moral, mas tinha fé que se provava no amor; não tinham leis ou organizações, mas tinham o poder do Espírito. Foi o declínio da fé, mais que as necessidades, que deu origem a “igreja”.

Até aqui pode ser que muitos estejam discordando de tudo e outros felizes por encontrar nesse texto uma justificativa para seu ato de não mais congregar-se, no entanto não existe Comunidade sem congregação, pois é no encontro que ficamos cada vez mais cônscios de nós mesmos como Comunidade, como povo de Deus feito um com Cristo e unidos uns aos outros através Dele. Apenas na Comunidade não há sacerdotes e leigos, mas todos são irmãos que formam um único sacerdócio e que ministram um ao outro o batismo e a ceia que em si trazem a denúncia contra todo individualismo e nos leva a viver em Comunidade.

Na “igreja” esses dois ritos tornaram-se sacramentais e passaram a ser o centro da vida da “igreja” que só podia ser ministrado pelo clero autorizado. Desta forma não há lugar para as reuniões nas casas ou em qualquer lugar visto ser só no templo onde esses sacramentos serão oficialmente e legalmente ministrados por pessoas competentes.
As igrejas reformadas tentaram mudar isso, mas não conseguiram plenamente. O mérito dos reformadores foi ter reconhecido a grande importância da Palavra de Jesus como fonte da vida da Comunidade Cristã.

Assim o que temos muito hoje são “igrejas” e pouca Comunidade. Agora penso ser possível a “igreja” servir a Comunidade se tentar não impedi-la de continuar seu curso pela história.

E onde está a Comunidade? Onde houver dois ou três reunidos no Nome (no espírito de Cristo) ali está a Comunidade. Onde houver o Amor ali Deus está.

Minha oração é que a cada dia a “igreja” possa se converter em Comunidade onde a verdadeira fé é aquela que prova-se pelo amor. Oro para que os cristãos sejam cada dia mais livre para serem cada vez mais responsáveis; que andem reconciliados com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

Esse texto não tem a pretensão de ignorar a importância histórica da ‘igreja’ mas essa importância histórica não pode fechar os nossos olhos para a realidade de que por vezes a “igreja” tem sido um dos principais obstáculos para a Comunidade. A ‘igreja’ é vaso a Comunidade é conteúdo. A ‘igreja’ é templo a Comunidade é sua Mensagem.

Que o Espírito do nosso Deus sopre sobre a “igreja” e continue reinado na Sua Comunidade.

Ivo Fernandes

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

ENTREVISTA QUE CONCEDI AOS ALUNOS DE HOMILÉTICA DO CURSO DE TEOLOGIA DO STC EM 2006

Perguntas
(1) Para você, qual é o maior objetivo da pregação no púlpito? Por quê?


Visto que o maior público que está diante de um púlpito é um público de confissão religiosa, a pregação no púlpito tem dois objetivos básicos: primeiro, levar o povo a uma consciência da mensagem do Evangelho destacando os abusos e perversões da mensagem nos dias de hoje; e segundo, conduzir este povo que adquiriu consciência a serem povo de Deus na terra, sal e luz, a fim de que o mundo glorifique ao Pai que está no céu.

(2) Qual o requisito que você considera indispensável para o pregador, para que este seja eficaz?

Convicção do que está pregando. Relação visceral com a mensagem pregada.

(3) Numa pregação, o que você acha que é mais importante? Quanto tempo mínimo ou máximo ela deve ter? Qual (is) requisito(s) necessário(s) para que esta se torne chamativa para você?

A clareza no que está sendo exposto.
O tempo para mim vai de 30min às 1h e 30min.
Os requisitos são: Domínio do assunto; clareza na exposição; objetividade e profundidade do tema.

(4) Qual forma ou tipo de mensagem que você iniciou suas pregações? Que objetivo e estilo elas tinham?

Quando iniciei minhas pregações não seguia nenhum padrão. Quase sempre era um comentário de um texto lido. O objetivo era sempre de explicar o texto apresentado.

(5) Qual então, o tipo ou estilo de “sermão” que você atualmente gosta de pregar? Por quê?

Durante um bom tempo preguei no método expositivo e considero um excelente método devido a clareza e condução do objetivo que este método dá. Hoje, sem perder a linha mestre que nos faz manter-se no tema tenho também usado muito um método discursivo.


(6) Como você se sentiu na sua primeira pregação? E como você se sente hoje quando vai pregar?

Minha primeira experiência foi carregada de muita emoção. Senti medo e incapacidade de alcançar o objetivo, mas o Senhor foi bom. Hoje, sinto o peso da responsabilidade de anunciar, mas estou mais confiante visto que prego aquilo que está meu coração.

(7) Entre as suas primeiras e atuais pregações, qual a maior diferença que você vê?

A relação com a minha própria vida. A mensagem hoje não é só um corpo textual que servia para a apresentação. Prego aquilo que está em mim. Convivo com a mensagem.

(8) Você sente que, tanto no início como no decorrer do seu ministério de pregação, utilizou alguma das várias “técnicas e regras” de homilética? E Atualmente? Quais e como?

No começo utilizei alguns métodos, sendo o expositivo o mais comum. Hoje, sou mais livre dos métodos, mas procuro sempre manter clareza e não fugir de temas.

(9) No decorrer de sua “história de pregação”, qual foi a mensagem, sermão ou pregação que você mais gostou ou considera a melhor? Por quê?

É difícil responder esta questão, já são 12 anos pregando.
Mas uma das últimas eu gostei muito. Falei sobre a mensagem da Graça baseada em Romanos 5. O título era a “o escândalo da Graça” e considerei muito boa, devido a clareza com que o assunto foi exposto e ao processo sistemático que conduziu os ouvintes a uma conclusão comum.

(10) Qual o melhor público que você considera para suas pregações: o vibrante e participante? Ou o silencioso e atencioso? Ou mesmo, o de não crentes, que em maioria segue a mensagem de forma “pasma” e “constrangida”? Por quê?

Atualmente tenho preferido o público silencioso e atento. Passei muitos anos pregando para públicos eufóricos e não acredito que o resultado foi tão proveitoso. Muitas vezes a emoção descontrolada atrapalha o entendimento da mensagem.

(11) Qual a maior diferença que você encontra nos auditórios, congregações e públicos do início das suas pregações para as de hoje? E qual a diferença da receptividade e absorção desses para as mensagens?

Na maioria dos lugares o público já está viciado em uma mensagem, estilo, ou idéia o que às vezes impossibilita que eles ouçam uma mensagem que traz algo diferente. Mas sempre haverá pessoas em cada grupo interessadas e com certeza para esses a mensagem dará o seu resultado.


(12) Com seu tempo de pregação, qual utilidade você vê no esboço? Sente-se preso a ele? Por quê?

Creio que o esboço é essencial principalmente quando a mensagem carrega diversas informações. Ele ajuda a nos manter num rumo específico. Mas creio não ser saudável o pregador que não consegue falar sem o uso dele.

(13) Seja sincero: Você sofreu influência de algum (ns) pregador (es), ensino ou movimento para a formação do seu “estilo de pregação”? Quais e por quê? E sente-se ainda influenciado?

Com toda certeza, ninguém neste mundo não sofre influência. No começo da minha carreira, fui muito influenciado pelo pastor Ricardo Gondim que para mim até hoje é um excelente pregador. Seu método expositivo sempre me atraiu muito, devido a clareza da exposição. Hoje, sou influenciado pelo pastor Caio Fábio devido a visceralidade que encontro nele quando fala de Evangelho, é como vivo e quero viver.


(14) Qual foi ou é melhor pregador, em sua opinião, na sua história de fé ou opinião que você ouviu? Por que você assim o considera? Qual é o melhor Sermão que você ouviu desse que lhe marcou?

Caio Fábio.
Para mim ele é uma das vozes mais influenciadoras de nossa geração. Sua mensagem sempre tem um estilo desafiador, sempre nos conduz a reflexão e ação, fora que é extremamente profunda.
É muito difícil falar de um sermão, então direi que o último que ouvi é maravilhoso – “Peco por sou pecador”

(15) Em sua opinião: Como está o nível de pregação atualmente? Quais são os fatores positivos e negativos que você reconhece?

Para mim há dois grupos distintos no Brasil. O primeiro segue a linha do sensacionalismo e é muito apelativo. A mensagem é vazia, mas atrai as multidões por trazerem receitas rápidas de sucesso.
O segundo é de homens compromissados com a genuína mensagem Evangélica, essa por sua vez atrai menos numa sociedade viciada em “bênçãos”, mas, no entanto é que edifica a alma.

O papel das emoções no desenvolvimento do câncer

O tema proposto ainda é motivo de discussões entre especialistas, apesar da crescente admissão da relação entre as emoções e as doença...