sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Religião



“Se alguém entre vós cuida ser religioso, e não refreia a sua língua, antes engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.”
Tiago 1.26,27


Penso que a discussão em torno da religião não se torna mais rica porque a maioria de nós fechou o conceito na esfera do que entendemos serem as práticas ritualísticas dos povos, o que em geral se tornam práticas que se vinculam a moral de alguns e a atitudes "fundamentalistas".

Muitos de nós ao eleger a "não-religião" como nosso caminho apenas fazemos dessa "não-religião" a nossa nova religião, o que em geral é fazer de determinado aspecto ideológico o maior, ou melhor. O que na história aconteceu com o cristianismo foi exatamente isso. Na tentativa de não ser comparada com as demais religiões da terra, acabou se colocando como a melhor das religiões, ou aquela que estava acima das outras. Essa é uma atitude do tempo da patrística para frente, visto que não encontro isso nos escritos dos apóstolos. Não vejo uma religião sendo exaltada acima das outras, mas vejo o Reino sendo colocado acima de todas as religiões, inclusive aquela a que os autores do NT pertenciam, e assim podemos dizer que também acima do próprio cristianismo.

O apóstolo Paulo em suas cartas deixa muito claro a superioridade não da religião cristã que já existia na sua época, mas do Reino de Deus, e por meio disso tornou-se um dos primeiros a golpear os fundamentos religiosos dessa religião

O cristianismo faria bem a si, se contra si mesmo testemunhasse do Reino. Isso porque não podemos de fato nos livrar plenamente da religião, mesmo que usemos outras palavras para designar nosso caminho, ainda é religião. O nosso caminho sempre será um caminho religioso. O contrário desse caminho chamamos de Revelação, que é o próprio caminho de Deus. A Revelação nos fará superar e ir superando a religião, mas enquanto estivermos no caminho da existência, ela sempre nos acompanhará. Talvez aqui possamos usar o termo fraqueza da qual não podemos nos livrar, mas a Graça se aperfeiçoa na fraqueza porque ela nos basta.

Desta forma o termo religião em Tiago, mesmo sendo um termo também usado para atividades e cerimônias religiosas, refere-se à aplicação da Revelação na existência, visto que a Revelação é Amor, a aplicação é serviço que não se traduz em mero rito, obrigação, ou dever moral, mas em ação voluntária de quem está inundado pela Revelação.

Ivo Fernandes
21 de novembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Minha heterodoxia

Não posso negar minha inclinação para a heterodoxia, como chamam aquilo que não é a doutrina oficial da igreja, a qual chamam de ortodoxia. Sempre que leio os heterodoxos me encanto com seus escritos. Eles sempre mexem comigo, me desafiam, me desnudam. Encontro-me neles a ponto de achar que era daquela forma que já pensava. É por causa deles que ainda amo o estudo teológico, pois me fizeram ver que a teologia não precisa ser tão pretensiosa como fazem parecer os teólogos ortodoxos.

Tornei-me um ser humano melhor depois que li os heterodoxos. Hoje até me sinto honrado quando me chamam de herege por causa dessa minha inclinação. Ser associado a essas pessoas é hoje orgulho.

Descobri que a maioria das pessoas que amaldiçoam os heterodoxos assim fazem porque não conseguem resistir aos argumentos deles. Sufocar a voz dos heterodoxos é sempre a ação de quem não quer perder o poder. Não tem nada haver com a verdade, tem haver com a manutenção da glória pessoal.

Hoje quando estudo a história vejo que Jesus pareceu muito mais com hereges perseguidos do que com os ortodoxos perseguidores. E toda perseguição é a forte declaração do desespero de quem precisa manter as pessoas sob o domínio do medo.

Pena que a maioria dos cristãos teme ouvir os hereges, pois se ouvissem, penso eu que um batismo de fé seria visto em nossos dias. Pena que ao ouvi-los já não fazem síntese do que é dito, pois não ouvem, apenas esperam o encerrar das palavras para lhes apedrejarem.

Foi com os hereges que aprendi a não me acomodar; a buscar sempre mais; a ter mais sede. Foi com eles que descobri o quanto ainda preciso caminhar. Mas não pensem que tenho alguma coisa contra a ortodoxia, não! Tenho contra alguns ortodoxos, que melhor seriam chamados de fundamentalistas e que seria melhor se fossem chamados de os que não vêem além. São estes que confundem fé com conjunto de doutrinas, que fazem associações de verdades existênciais com questões moralistas. São os que jamais se abrem para o novo, pois o novo sempre traz em seu bojo que precisamos nos esvaziar para receber. São os que dão respostas a perguntas que não se fazem mais e insistem em fingir que não possuem as respostas para as reais perguntas.

Foi com os heterodoxos que aprendi que a mensagem continua viva e importante e necessária para os dias de hoje. Foi com eles que passei a valorizar a pergunta para poder buscar a resposta. E com o maior dos heterodoxos tenho caminhado – Jesus.

Jesus andou na contramão de seu tempo. Não elegeu nem a própria religião do seu povo como a ortodoxia. Ao contrário se mostra sempre contra todo tipo de dominação que impede o livre caminhar dos homens. Sua mensagem foi radicalmente diferente das do seu tempo. Fraqueza em vem de força, amor em vez de poder, humilhação em vez de coerção, inclusão em vez de exclusão. Escondia-se quando queriam fazer dele Rei. Revelava-se quando não havia riscos de fazer dele outra coisa que não fosse o que Ele era. Não respondia a perguntas que não buscavam respostas. Sua cruz é escândalo e sua ressurreição é a heresia que anula a ortodoxia da morte.

Minha heterodoxia é saber-se em constante reforma!

Ivo Fernandes
12 de novembro de 2008

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...