segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O Retorno ao Essencial


No Caminho temos sido desfiados a voltar ao essencial, a ler novamente os evangelhos e a principalmente termos Jesus como a chave hermenêutica para a interpretação de tudo, inclusive das escrituras।


Esse retorno tem sérias implicações, até porque para a grande maioria dos cristãos não é um retorno, mas uma primeira e emocionante viagem. Eu fiz e estou fazendo meu caminho no Caminho e sinto a radicalidade do chamado de Jesus.

Acontece que tal chamado implica no abandono das redes da nossa vida-cultura। No nosso caso cristão-ocidental significa o abandono ou no mínimo a releitura da nossa cultura cristã, do nosso cristianismo।


Todos sabemos que nossa cultura e doutrinas cristãs são frutos dos encontros entre a fé judaica, a cultura grega e o império romano. O retorno ao essencial requer a difícil tarefa do abandono das redes cristãs.

Uma das primeiras coisas que precisamos abandonar é nosso conceito de revelação, que vê Deus limitado a um acontecimento, a um povo, a uma religião, a um livro, e que tal livro é, portanto inerrante e infalível। Temos que abandonar todo verbalismo, todo biblicismo literal, toda ingenuidade pré-crítica।


A revelação se dá no processo humano, dentro da história, não sendo formada de certas palavras ou textos, mas sendo o próprio processo vital existencial e universal da experiência com o Divino। O que se produz a partir do encontro é resultado e não a revelação em si mesmo.


Não podemos pensar que o Deus de todos os homens revele-se apenas para determinados grupos। Na verdade toda a criação já está debaixo da redenção, pois o Cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo, logo toda a criação manifesta Deus, e toda realidade se converte em revelação. A revelação de Deus no Filho não cancela a presença universal do Espírito em toda a criação.


O conceito limitado da revelação está associado à visão de que Deus só tem um povo amado e eleito, mas com o fim desse conceito limitado também se finda as “eleições”। O povo de Deus transcende as fronteiras das raças e das religiões.


Sei que nisto muitos discordarão, pois as doutrinas das eleições são à base de todo comportamento cristão। Despejarão textos bíblicos para mostrar que as doutrinas das eleições são a verdade. Sem dúvida a bíblia fala de eleição, mas somente uma leitura ingênua pré-crítica é que pensará que tal expressão é revelatória, esquecendo do contexto histórico e dos condicionantes humanos que formularam tal doutrina ou idéia.


Se tivermos que ainda utilizar uma linguagem onde o termo eleição aparece, devemos então seguir a Cristo, para quem os pobres, os pacificadores, os mansos, os injustiçados, os oprimidos eram os filhos de Deus।


Para Jesus o Reino de Deus estava disponível a todos os homens bastando para isso viverem a prática do amor e da justiça। Paulo, bem entendo isso, disse que em Jesus Cristo o que conta não é a circuncisão ou a incircuncisão, mas a fé que age por meio do amor (Gl 5.6).


Então não há uma única religião verdadeira, todas elas são resultados da busca do homem, inclusive o cristianismo, a única religião universal é a do amor, conforme toda a epístola de João e o livro de Tiago।


Jesus nunca fundou uma religião ou mesmo a igreja cristã। Toda a missão de Jesus girava em torno do Reino. Das 122 vezes que Reino aparece nos evangelhos 90 delas estão nos lábios de Jesus. E o que é o Reino de Deus? É a transformação radical da realidade histórica.


O que o cristianismo fez foi um híbrido, juntaram o Cristo da fé dos hebreus com o deus Júpiter dos romanos, nascendo um ser totalmente diferente do Homem de Nazaré। É a partir daí, por razões políticas que o cristianismo se solidifica e se expande com a força do braço imperial, perseguindo todo movimento, religião ou pessoa que não se rendesse as doutrinas imperiais. E afirmaram que a igreja romana era o próprio Reino de Deus. Tudo isso conduziu finalmente ao exclusivismo absoluto do cristianismo.


Essa igreja só faria bem a si mesmo e aos demais se abandonasse toda presunção de ser o Reino e se colocar a serviço do Reino। O cristianismo só seria de Jesus se abandonasse seu eclesiocentrismo pelo reinocentrismo.


Enquanto formos eclesiocêntricos continuaremos colocando a teoria adiante da prática, o dogma acima da ética, a doutrina acima da vida, a ortodoxia no lugar da ortopraxia। Chegou a hora do retorno ao essencial. Conhecer a Deus significa praticar a justiça conforme a carta de João, e essa não é uma verdade nova.


Temos que abandonar esse conceito de verdade grega, esse aristotelismo presente em nossas teologias। Hoje sabemos que tudo é histórico, evolutivo, dinâmico. Tudo está relacionado como afirmam as ciências modernas, a nova física, e a nova pesquisa histórica. Já não podemos mais a partir disso confundir Deus com as representações que fazemos Dele. Deus está acima do nosso conceito a respeito Dele, e todo conceito a respeito Dele é cultural. Sendo assim, Deus é absoluto, mas todo pensamento sobre Ele é relativo.


Não podemos mais pretender que o cristianismo seja a única religião que tem a verdade। Deus não está preso a nenhuma religião, e não cabe nas nossas medidas. O Evangelho de Jesus é supra cultural, por isso mesmo pode ser acolhido no coração de qualquer homem em qualquer religião, povo ou cultura. Assim uma pessoa realmente de Deus está além da religião, isso porque Deus não está ligado a nenhuma. Deus não tem dono, nem substituto. Ele está acima de tudo que dizemos, confessamos ou ensinamos. Em si é um mistério inabarcável, inapreensível e inexpressável. Não há dogma ou credo que possa defini-lo. O melhor que podemos fazer é não fechar conceitos, é fazer teologia no caminho, ou seja, sempre pronta para rever seus conceitos, abandonar suas velhas idéias e continuar buscando ao Deus que é maior do que todo o processo.


Urge termos um otimismo soteriológico para de fato lutarmos pela causa de Jesus। Urge abandonarmos toda espécie de exclusivismo. A única conversão que devemos desejar para que todos os povos experimentem é a conversão a Deus e ao seu Reino, independente da cultura ou religião que tenham. Urge fazermos missão com base na libertação integral que é a proposta do Reino e não na idéia de que somos essenciais para a salvação do outro, salvação essa que é só metafísica e não de fato e de verdade. Uma missão que sirva ao Reino e não a uma religião, igreja ou denominação.


E o que aqui escrevo não tem a pretensão de ser uma nova especulação para o entretenimento ou satisfação da minha própria vaidade. É pelo desejo de ver a mensagem de Jesus sendo pregada e vivida. Pelo desejo que o Reino seja uma realidade para todos e em todos. Quero sim a superação da religiosidade, em favor da espiritualidade. Quero o fim de todo dogmatismo. Quero o Evangelho para todos, que tem como única regra e dogma o Amor. Que nossa missão consista em revelar isso, pois tudo que não provém do Amor é nocivo

Ivo Fernandes
21 de dezembro de 09

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