terça-feira, 31 de agosto de 2010

Admiradores e amigos



Ontem li um texto do Caio e lembrei-me dos amigos que outrora pensei que fossem. Lembrei do dia que diante de um deles disse que havia muitos que me admiravam, mas pouquíssimos que me amavam, pois quem admira foge, abandona quando frustramos suas expectativas, quem ama não tem expectativa nenhuma em relação ao outro, apenas ama, e por isso na hora da calamidade está junto.

Lembro-me que ele me disse que fazia parte dos que me amavam, e lembrei-me de Pedro quando disse que jamais negaria. E assim foi. Este amigo deixou de ser, e não quis sofrer afrontas perto daquele que para ele agora não era nada.

Aprendi muitas coisas nesta pequena caminhada e uma delas foi não deixar-me levar pelos aplausos, elogios e louvores que nos fazem quando oferecemos algo bom, quando estamos dentro dos interesses projetados em nós. Já não acredito nos lábios que com facilidade declaram seu amor e com a mesma facilidade lhe abandona deixando-o para carregar a cruz sozinho. Aprendi a ser feliz com os poucos que do meu lado estão sem esperar de mim nada.

Entendi que a traição costuma vir de quem um dia muito nos admirou, mas jamais nos amou. Estes são aqueles que só estão do nosso lado enquanto é bom e agradável, mas na hora da aflição dizem que não nos conhecem. Hoje procuro andar de uma maneira que não gere admiradores de minha caminhada, só quero do meu lado quem de mim não se envergonhar, pois de todos os que amo não tenho vergonha alguma. Não quero mais os amigos que só querem me ouvir se for de forma discreta para que ninguém saiba que é de mim que se alimentam.

Quero do meu lado os amigos que não se importem de passar vexame comigo. Quero aqueles que podem chorar comigo. Quero os que enfrentam as consequências de se associar a minha pessoa. Quero os que não se envergonham da minha história e nem dos meus fracassos. Quero amigos que não se escandalizem com a minha humanidade.

Ivo Fernandes (20 de junho de 2007)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A viagem da Consciência


Qual seria o Projeto senão a Consciência? A história faz parte do processo da formação da Consciência. Na linguagem bíblica esse processo começa desde a Criação, passando pela Queda e ainda está em formação.

Das muitas razões que podemos relatar da encarnação, uma delas é apresentar na história o Homem Pleno, o Humano com Consciência Plena. A partir daí todos podemos seguir o processo com consciência dele.

E como entender o que significa essa Consciência? Estamos seguindo o curso que o próprio Deus iniciou para levar os homens a seres transformados no entendimento a fim de tornarem-se a imagem do Filho de Deus que é o Homem Pleno.

A Queda está no processo, e só avançamos quando entendemos a dimensão da Queda. Esse processo é marcado pela sede infinita que determina o ser humano direcionando-o ao Propósito. O ser-antes-do-processo era o Inconsciente. Foi a Queda quem deu início a viagem da Consciência.

A salvação só pode ser experimentada se a Queda também o for. Sem Queda não há conhecimento de Graça. Uma vez que entendo a Queda como marca fundamental que não consigo arrancá-la é que posso descansar naquilo que foi feito por mim. É nesse ponto que a Consciência vira Fé e Fé vira Consciência.

Uma vez estabelecida a Consciência como Fé a Fé como Consciência é que começamos a vencer o paradoxo e complexidade que em nós gera tantos distúrbios de desejos e comportamentos. Ou seja, é só descansado nessa Consciência de Fé, que o que foi feito por mim É, é que eu posso vencer o pecado em mim, que nada mais é do que o resultado decorrente da perda da Unidade para que eu me enxergasse de fato Unido.

A viagem da Consciência é eterna. Não acaba ou se completa com a conversão religiosa ou com a morte. O que há é um eterno conhecimento de Deus e de nós mesmos Nele.

Quem pensa assim descansa na certeza de que todas as coisas contribuem para o bem. E agradece pelo que já É, e não muda. E prossegue em ir sendo aquilo que Nele já se é.

Ivo Fernandes

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A QUESTÃO DO PECADO


A leitura dos capítulos iniciais de Gênesis é muito rica. Guarda segredos de nossa história, do nosso entendimento, do mundo que nos cerca e de nós mesmos. A Queda é um dos assuntos tratados e os textos nos permitem perceber algumas coisas, entre elas é que depois da transgressão de Adão nasce a consciência de si e essa consciência é de um ser separado de Deus.

Como era a consciência de Adão antes da Queda? Não sabemos. Tudo que vemos e sabemos já vemos e sabemos do lugar da queda. Mas suponho que era uma consciência que chamarei de consciência fetal. Adão sabia de si num nível semelhante ao ser ainda dependente da existência da mãe, onde tal dependência é fato, porém não é informação. É um saber sem saber.

O fato é que a raça humana deixou esse estado edênico e não dá mais para voltar para ele. O acesso a este lugar foi encerrado. Agora o éden só existe em nós, como uma nostalgia e um vazio de não o sei o quê. Esse sentir nos mostra que houve algo, mesmo que não nos diga o quê. Está em nós o fruto desta queda, a culpa, o medo, o paradoxo, a necessidade de nos cobrir e um sentimento de dependência. É desta forma que todos experimentamos o pecado e a morte, fruto de nossa finitude. Assim independente da doutrina, dos termos, o pecado é experimentado por todos.

O Evangelho crido nos faz nos identificar como nova criatura, mas esse ser novo não é um retorno, um reencontro, é algo totalmente novo. E por não ser um retorno, mesmo sendo agora pela fé nova criatura, ainda permanece em mim o vazio do Éden. Nasce aí a luta entre a carne e o espírito. O que sou pela fé, com o que sou ainda, enquanto fruto da queda. Desta forma é que sei que fora da Graça, que me revela quem sou pela fé, sou apenas esse ser abismado na ambiguidade, esse ser em constante conflito, esse ser em pecado. Assim a Graça me revela quem sou nela e fora dela.

Salvação é, portanto descanso, visto que vou precisar me aquietar naquilo que sou pela fé independente do que lateja em mim por causa da queda. A salvação também é esperança, em que um Dia só sejamos o que já somos pela fé. Isso é o que significa o céu. E a permanência em nós mesmos é o inferno. Sem esse descanso vivemos conduzidos por nossa natureza caída fazendo-nos mal mutuamente.

O reino só é vivido entre nós se buscarmos continuamente nos conformamos ao que somos pela fé, para isso precisaremos abandonar o passado, o passado edênico, o passado imediatamente vivido. É no passado que habita o velho homem, no futuro está o que seremos e pela fé construímos o presente nesta esperança.

E alguém pode perguntar os porquês de tudo isso. Penso que sem a auto-percepção que a Queda nos gerou jamais teríamos consciência da Graça! Primeiro teve que vir o Éden para vir a Nova Jerusalém. E tudo é garantido pelo Cordeiro imolado desde a fundação do mundo. É no ambiente da Graça onde tudo ocorre, até a Queda. Por isso se pode dizer onde abundou o pecado superabundou a Graça.

Ivo Fernandes
26 de outubro de 2008

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A questão da obediência


É sabido de muitos o valor da autoridade na educação dos filhos e até mesmo na constituição da sociedade. Toda autoridade exige implicitamente obediência, porém essa obediência sem a capacidade de avaliar a autoridade é bem pior do que a desobediência.

Quando se é criança obedecer se configura numa situação de vida e morte, e está relacionado ao caráter mágico dos sentimentos infantis, pois se acredita que a obediência gera segurança. Além disso, nossa imagem estará sendo construída a partir dessa relação, que em sua base é uma relação de recompensa.

Esse sentimento de segurança e recompensa por meio da obediência nos acompanhará por toda a vida, sendo deslocado para outros objetos depois dos pais. É esse sentimento se deslocando que faz a massa humana necessitar tanto de uma autoridade que possa ser admirada, perante a qual nos curvemos, por quem sejamos dirigidos, e talvez, até maltratados, como já apontava Freud em seu escrito “Moisés e o monoteísmo”. Quanto mais fraca for o eu mas necessidade dessa autoridade o ser será.

A religião e a política parecem saber bem usar essa fragilidade do eu. No entanto, Jesus estimulou os discípulos a viverem como uma sociedade de irmãos, onde o culto da personalidade não tenha vez, onde liderança seja serviço e não poder. O próprio termo obediência será restrito a relação do homem com Deus, sendo, inclusive a razão para a desobediência por vezes das normas políticas e, ou religiosas. (Mc 1,27; 2.18-28; 3,2-6; 4,41; 7,2-3; At 4,20).

Na comunidade cristã ninguém deve ocupar o lugar do Pai. Uma comunidade onde haja alguém que se configura como o pai e mestre para o crente implica numa comunidade que atenta contra a igualdade radical a que somos todos chamados.

A obediência, então, aos que presidem uma comunidade deve-se em razão do serviço prestado em favor dos homens, se não for assim, tal obediência se converte numa importante fonte de alienação humana, de infantilismo psíquico e, num atentado ao Evangelho.

Ivo Fernandes
7 de maio de 2009

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...