segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A questão da obediência II

Não conseguimos escapar das relações de obediência. Elas nos definem enquanto sujeito e sociedade. Submetidos a figuras de autoridades associada ao deus-imaginário ou negando toda autoridade estaremos colhendo sempre frutos de nossa relação com a questão. Se por um lado a submissão as autoridades associadas ao deus-imaginário infantiliza o ser, a falta da relação de obediência debilita o eu, gerando angústias, neuroses e até psicoses.

A obediência relacionada ao deus-imaginário é fruto dos sentimentos infantis de onipotência e adquire um comportamento mágico diante da vida. Os sentimentos envolvidos são medo e amor, gerando dependência ou rebeldia.

Jesus ensina uma forma completamente diferente dessa relação de obediência. Não nega a relação necessária da obediência, mas cancela toda hierarquia, esvazia todo espaço de autoridade. Anuncia uma sociedade igualitária de irmãos, onde o culto a personalidade não existe, e em vez de autoridades, existem funções, onde a obediência é disposição para servir de maneira livre e voluntária. A submissão enfim é substituída por uma decisão livre e voluntária para o serviço, sempre analisando as fontes de onde procedem as orientações e pedidos. Só assim as relações de obediência geram saúde para a alma.

Ivo Fernandes
29 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A culpa e a salvação

A relação com o deus-imaginário se fundamenta na culpa, já a relação com o Deus de Jesus se fundamenta no encontro solidário, que não solicita perdão e que justamente por isso faz surgir uma sadia consciência do próprio pecado.

A dinâmica da relação com o deus-imaginário é da culpa para o perdão. A relação com o Deus de Jesus é da convicção do perdão para a transformação da vida e da sociedade em que vivemos.

A culpa constitui uma das experiências humanas mais antigas. Surgiu em nós como produto da nossa ambivalência, da incapacidade de compreender o paradoxo e a ausência daquela condição de harmonia e totalidade. Na busca da harmonia criamos um ciclo de culpa-reparação que é à base de todas as demais experiências imaginárias, das relações edipianas até as religiosas. Porém com isso dito, não podemos pensar a culpa apenas como algo patológico, pois ela dá conta de uma estrutura social que nos marca e nos define.

A culpa relacionada ao deus-imaginário é sempre uma culpa persecutória, egocêntrica que leva o indivíduo a viver para si mesmo ou para dar conta da sua culpa que jamais é terminada.

A doutrina da expiação da morte de Jesus acaba se apresentado como solução para esse esquema, solução que não dá conta da culpa, mas a afirma como necessidade para Jesus fazer sentido. A morte de Jesus é vista como uma reparação da culpa. Um sacrifício a um deus que precisa de sangue para perdoar, e todas as razões históricas da morte são completamente ignoradas. O deus-imaginário agora confundido com termos bíblicos é um deus impotente para exercer misericórdia a menos que seja satisfeito em seu desejo por sacrifícios.

O Deus de Jesus não precisa de sacrifícios dos filhos, e nem exige preços a pagar dos amados. Não há nada nas parábolas de Jesus que nos aponte para um deus que necessita de sacrifícios ou consciências culposas para amar.

A salvação do deus-imaginário, então, é sempre a salvação da culpa e de tudo que daí deriva, enquanto a salvação do Deus de Jesus não é uma salvação “da”, mas “para” o bem, a vida o Reino. A salvação do deus-imaginário põe seus filhos numa marcha em direção ao asceticismo já a salvação do Deus de Jesus põe os seus num projeto de transformação da realidade no Reino de Deus, assumindo seu próprio destino e com a disposição de carregar a cruz.

O deus-imaginário é fruto de nossos temores e angústias, tornado o autor de proibições do nosso inconsciente diante das temidas pulsões. Nosso medo vira lei de um deus que jamais se satisfaz. Já o Deus de Jesus é um Deus de vida, maior que nossa consciência, livre e libertador.

Ivo Fernandes
29 de outubro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Criação e Salvação

Não se pode falar de soteriologia, sem conceber o propósito da criação. Quando não se têm em foco a criação cria-se teologias soteriológicas que descaracterizam o Deus revelado em Cristo.

Como se pode falar de salvação dissociada da criação? O evangelicalismo com sua ênfase no individualismo muito contribuiu para o conceito de salvação apenas em nível pessoal. E o destino da história, do cosmo, da humanidade? Qual a relação entre salvação e sociedade? Faz-se necessário resgatar hoje a noção e a prática da redenção da humanidade e do cosmo.

A Protologia está relacionada com a Soteriologia, e isso é visto na Cristologia que nos mostra a reconciliação da humanidade por meio de Jesus Cristo com Deus, e tal realidade pela ação do Espírito Santo nos impulsiona a vivermos uma nova experiência antropológica e sociológica. Uma teologia não integrada gera uma comunidade de gente alienada da realidade esperando apenas a salvação da alma no porvir.

A redenção do homem e do cosmo tem sua base na ação de um Deus que se fez humano, e através desta mediação sob o poder do Espírito, conduz a criação ao seu destino legítimo. Na encarnação Deus entrou na história fazendo dela sua própria história, compartilhando do destino dela, afim de que ela compartilhasse de seu destino.

A relação entre criação e salvação nos é revelada na encarnação. O dualismo presente nas teologias com fundamento grego precisa ser superado. A teologia precisa exaltar o Novo Adão, a ressurreição, e a convergência de todas as coisas Nele. Na cruz a realidade foi manifesta, na ressurreição o destino revelado. Essa é vida do Espírito de Deus, o verdadeiro significado da vida cristã.

Ivo Fernandes
14 de maio de 2009

Ídolos – da construção à necessidade de destruí-los

O termo ídolo não é um termo usado em nossa nação comumente. Aparece mais nos discursos evangélicos numa referência a qualquer entidad...