domingo, 25 de setembro de 2016

Religião, espiritualidade e transtornos



São muitos anos de escuta clínica-pastoral e um dado arrasador é que na maioria das pessoas os diversos distúrbios emocionais e mentais têm relação direto com a religião. Sigmund Freud acreditava que a religião causava sintomas neuróticos e, possivelmente, até mesmo sintomas psicóticos. Em Futuro de uma Ilusão, Freud (1962) escreveu: “Religião seria assim a neurose obsessiva universal da humanidade...”, e baseado em minha experiência posso afirmar que em muitos casos é exatamente assim que ocorre.

Freud pensava que as crenças religiosas tinham suas raízes em fantasia e ilusão e poderiam ser responsáveis pelo desenvolvimento de psicoses (embora nunca tenha atribuído diretamente a causa da psicose à religião, apenas à neurose). Esta visão negativa de religião no campo da saúde mental permaneceu até os tempos modernos. Porém, esta perspectiva negativa relativa à religião não se baseava em pesquisas sistemáticas nem em cuidadosas observações objetivas. Hoje fica claro que a religião também tem outro lado, e inversamente também gera benefícios sociais e psicológicos. Com isso podemos dizer que existe uma religião maléfica – produtora de distúrbios e uma saudável, que chamarei aqui de espiritualidade.

Há evidências mostrando que as pessoas se tornam mais religiosas quando estão doentes, tanto física como mentalmente. Em situações de alto estresse psicológico, a religião é frequentemente buscada para auxiliar a lidar com as situações de sofrimento. O problema aqui é que no meio desse processo revela-se a manifestação dos delírios religiosos. Mas como separar o que é um delírio religioso e uma experiência legítima de espiritualidade? Em pacientes psicóticos, delírios religiosos são habitualmente acompanhados por outros sintomas e/ou comportamentos de doença mental, e não parecem ter nenhuma função positiva, enquanto as experiências legítimas de espiritualidade são extremamente benéficas no melhoramento do homem.

A prática religiosa adoecida é marcada por uma repetição constante e obsessiva, atrelada a crenças nitidamente danosas ao ser e envolvidas em religião de controle, e não importa o quão óbvio é a falsidade do processo, esse tipo de religião é marcada por um dogmatismo completamente desprovido de espírito crítico.

Uma das formas que tenho usado para avaliar e distinguir experiências psicóticas de experiência religiosa normal é o nível de prejuízo da capacidade de a pessoa desempenhar suas atividades diárias. Se o desempenho social ou ocupacional for prejudicado, então a chance da crença ou experiência religiosa ser patológica é imensa. Pessoas com espiritualidade sadia ao contrário apresenta frequentemente com o passar do tempo um resultado positivo, como maior maturidade e crescimento psicológico ou espiritual.

O fato mais claro é que a religião em geral faz mal aos doentes emocionais e mentais, porém a espiritualidade é um mecanismo terapêutico poderoso no processo de cura. A religião tanto gera, como mascara, e intensifica doenças, já a espiritualidade as revela e as ajuda no processo de cura.

Religião (aqui do modo exposto) é um conjunto de crenças e práticas firmadas em dogmas que não admitem contraditórios, e que se fundamentam na autoridade da instituição e de seus representantes, enquanto Espiritualidade é um modo de vida de fé que qualifica todas as percepções, interpretações, atitudes, e decisões de uma pessoa.

Jesus possuía uma religião exclusivamente do ponto de vista sociológico, e não no sentido aqui exposto, pois seguindo o raciocínio desse texto o que ele possuía era uma espiritualidade. (Mais informações sobre a religião do ponto de vista sociológico ver: O que é religião? )

E a espiritualidade de Jesus não era desprovidas de disciplinas espirituais como alguns hoje parecem querer viverem as suas. Jesus orava, jejuava, cantava louvores, fazia reuniões de oração e pregava, intercedia por doentes e oprimidos além de acolher pessoas, andar com elas.

Dessa forma afirmo a importância da espiritualidade nos processos de cura e apoio todo afastamento da má religião. Eu mesmo sou discípulo da espiritualidade de Jesus e enquanto mentor de um grupo que se reúne em torno da fé continuo promovendo cultos, reuniões, ceia, batismos, sustento de pessoas, e anuncio a Palavra; e faço tudo isso sem ser um movimento da religião conforme aqui descrito, mas sim da espiritualidade e essa segundo Jesus.

Ivo Fernandes

18 de setembro de 16

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